Há ocasiões em que a gente lê e não acredita. Volta a ler, e volta a não acreditar. E depois pasma.
Aconteceu-me há dias, quando levei para casa o Couves e Alforrecas, de João Pedro George. Decidido a tirar a limpo umas dúvidas íntimas. Tenho na literatura um prado de estimação, onde rumino, às vezes, conhecimento e prazeres. Insubstituíveis, que o verão já passou por mim. Adiante.
Havia uma senhora que vende muitos livros, havia um crítico a explicar porquê, e daí nascera uma providência cautelar, de efeitos, finalmente, conhecidos. Nenhuns. Assim à vista desarmada. Para aumentar esta perplexidade de leitor, aparecera depois, no fio do horizonte, uma outra voz de crítico, a voz entre as mais vozes, por uma vez directa e terminante. O crítico inicial era um débil mental.
Só havia que levar para casa o livrinho (50 páginas) com o seu lastro de acções feias. Uma delas era querer fazer dinheiro à custa da propriedade industrial alheia. Nem mais.
Ora o que nele se lê é um exercício de legítima crítica, feito por autor com obra no meio. E que já apelidaram de bulldozer, mas se comporta aqui do modo mais urbano e civil. O seu encontrão às normas será a trabalheira que tudo aquilo deu. É aquela minúcia de formiga, a que nem todos estão para se entregar. Claro que não deixa pedra sobre pedra, do “edifício literário” da senhora. Que eu não cito em voz alta, para não fazer dinheiro.
O assunto ficou-me, em parte, resolvido. Autora e editor saberão que é livre o negócio do gato, se tão esforçadamente o vão mercadejando. Mas não gostam de ver alguém a sublinhar-nos, a nós que pagamos o produto, que uma boa lebre é coisa distinta. E avançou a providência cautelar.
Em que país vivemos?
Então é com faenas tais que se atulha um tribunal e se ocupa o tempo dum juiz?
Então entretém-se o apertado universo das nossas cabeças pensantes, durante semanas, com jogos de sombras?
Quem é que estes senhores tomam por parvos?
Ou quererão amedrontar alguém?
Jorge Carvalheira




