A ministra e a comissão das bexigas

A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, pode não ter grande experiência política. Mas aprende depressa. Hoje, deu provas de já dominar duas complexas artes do ramo: dar uma no cravo e outra na ferradura e colocar-se de cócoras ante os Grandes Vultos.
José Saramago resolveu apoucar a actividade de uma comissão de honra dedicada ao estímulo à leitura, de que até faz parte. «Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo o mundo a paixão pela leitura». A ministra, confrontada com estas pícaras declarações de Saramago, “estranhou”. Mas não tratou de lhe sugerir de imediato a saída de um organismo a que ele admite só pertencer por uma «fatalidade, como as bexigas». Quando lhe perguntaram se o escritor deveria sair da tal comissão, a senhora ministra soltou um grito de alma: «Meu Deus! Nada disso!»
Deve ter imaginado, num momento de susto, a sua carreira governamental num jazigo ao lado da de Sousa Lara. Temos política.

10 thoughts on “A ministra e a comissão das bexigas”

  1. o josé saramago é assim mesmo.um elitista, pois claro! já se sabe que a cultura não é para todos, é só pra meia-dúzia de iluminados.é estranho é ser um marxista a dizê-lo, mas nos ” trabalhos e nos dias ” de hoje já nada me admira.

  2. A verdade, Luís, é que lá em cima estão os votos piedosos… e cá em baixo está a realidade, porque é aí o seu lugar.
    Ora, aí, a maltinha não lê, mesmo quanto sabe fazê-lo. O que se está tornando muito raro, porque há sempre velhos a morrer.
    O Saramago, que de ‘voluntarismos’ sabe o suficiente, pôs em causa a ‘utilidade’ dos estímulos à leitura, numa declaração que V. chama ‘pícara’, e que é apenas realista.
    Queria ele referir-se à eficácia prática da estimulação, aos resultados concretos?
    Uma tal Comissão de Honra, a produzir estímulos à leitura, é sem dúvida um objecto útil, como o são os livros de auto-ajuda, ou as fumigações de arruda. Terá alguma eficácia?
    O velho pensa que não. Eu, por acaso, penso o mesmo.
    É um foguetório dispensável, cujo preço se desconhece. Um gesto piedoso, que não justifica polémicas.
    Mas pode ser que haja, no fim, algum pecador salvo…

  3. Curioso é que ao mesmo tempo que se pretende estimular a leitura (que deve ser acompanhada da escrita) o Mistério da Educção (que também integra a comissão) pretende substituir nas aulas de Português a leitura dos clássicos por noticias de jornal (ou eventualmente pelos editoriais de José Manuel Fernandes ou António José Saraiva), assim como substituir os testes escritos por cruzinhas tipo totoloto.

    Assim se vê que isto á apenas uma encenação política para consumo mediático.

  4. José Manuel,

    António José Saraiva? Não quis dizer José António Saraiva? Respeitem-se as gerações.

  5. Jagudi,

    Terás as tuas ideias acerca do assunto. Mas farias parte de uma comissão semelhante se descresses dela?
    E olha que a comissão de honra é appenas uma parcela do processo. E olha que as campanhas de sensibilização da opinião pública, desde a dedicada à substituição da castanha pela batata até esforços mais recentes, têm sempre algum efeito.

  6. LR:
    Não, não faria parte dessa comissão, ou doutra qualquer em que não acreditasse! Porque não tenho a noblesse do prémio Nobel a impedir-me de rejeitar o convite.
    Quanto ao resto, meu caro LR, estamos de acordo no voto piedoso, oxalá que tenham algum efeito.
    Em todo o caso, convém-nos distinguir a sensibilização da opinião pública para trocar o azeite por óleos alimentares, ou as gorduras lácteas por margarinas (que são puros mecanismos de condicionamento do mercado) dos apelos, ou convites, ou estímulos a atitudes culturais. Com todo o respeito, penso que são coisas distintas.
    No primeiro caso, basta bombardear o mercado com informação (mesmo que seja falsa)sobre as vantagens da mudança. O preço, a disponibilidade, a fome, o benefício sanitário ou outros etc’s, fazem o milagre.
    A questão da leitura é uma loiça diferente. Ser cada um aquilo que quer ser. Mesmo que seja um buraco negro vazio.

  7. josé manuel,

    são os famosos testes à americana, não conhece? o que é americano é bom, não sabia? se não sabia fique a saber, e fique a saber mais: os professores têm que fazêr muitas coisas nas escolas como reuniões, actas, acções de formação, aturar pais chatos, tirar faltas de alunos e mandá-las para casa, fazer pautas de exames, substituições, ect…ect…ect…onde quer que eles arramjem tempo para corrigir testes como os de antigamente? isso era no tempo em que eles eram mesmo professores e não paus para toda a obra.

  8. “os famosos testes á americana…”

    Não estará nisso a causa do insucesso escolar. Na realidade, é nos Estados Unidos, a terra dos tais testes, que se encontra uma parte assinalável dos pensadores e inovadores nos mais variados ramos do saber (incluindo as humanidades), e não falo aqui dos que para lá emigraram. Entretanto, Portugal, com gerações inteiras obrigadas a estudar durante um ano lectivo inteiro, essa bacoca bajulação do poeta caolho, é o resultado que está aí pra mostrar ao mundo…

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