Sena, Sophia, Pacheco e quem os vê

De um amigo meu, magnífico poeta, seguríssimo ficcionista, excelente ensaísta, recebi um e-mail. Era a propósito do meu post de há dias, «As gavetas lá fora», que comentava um post do Abrupto. Porque eu não sou digno de ser o único a ler os juízos do meu amigo, e porque eles podem não ser desastrados de todo, e porque seguramente haverá quem não condivida os seus pontos de vista e saiba dizê-lo, aqui vai o que eu li esta manhã.

«Fernando…. E então as Três Marias não publicaram o livro delas durante a ditadura? E a Natália Correia, se não erro, uma antologia de poesia erótica que também foi apreendida? E não havia putas no país, coisa indecente?

«O tipo de conversa do P Pacheco pode reduzir-se a: este ano, por causa do frio, a natureza não fabricou boa fruta… Só que a perspectiva que ele adopta é no fundo a neo-realista e perfeitamente antiga e inútil e despropositada, hoje já não tem sentido falar-se assim… O que é uma obra-prima, aliás? Para o Pacheco e para nós são as mesmas? O Pacheco simplifica tudo, pensa que é um político clássico culto, o incorrupto inteligente… Mas tudo o que ele diz é inútil… só teria interesse eventualmente há 30 anos… O P Pacheco acredita que está a fazer história e que é personagem importante dela, por isso convém-lhe acreditar que a correspondência do Sena e da Breyner, tão líricos e revolucionários que eles eram, é que conta a história secreta do fascismo e retrata o país… E se conta só a mitomania de cada um dos autores, seres de eleição e narcisos na pátria miserável e miseravelmente habitada por gente que nunca ia à Grécia nem tinha uma visão metafísica da pátria? Nisso o P Pacheco e eles coincidem: dá-lhes jeito a todos que exista um espaço geográfico e imaginário onde eles podem situar-se como pensadores e heróis subjectivos, onde eles poderiam ser admirados se o povo fosse mais fino, onde eles apesar de tudo são figuras de excepção incompreendidas e exiladas… quando tudo o resto é vil… Sabes que mais, Fernando? Puta que os pariu a todos sem excepção… :-) ».

18 thoughts on “Sena, Sophia, Pacheco e quem os vê”

  1. Venâncio:

    Veja lá, porque assim, tarda nada e está no Index, onde já se encontram os anónimos que pululam na blogosfera e que acham o dito cujo um simples diletante- tal como eles, aliás.
    A diferença reside precisamente no anonimato.
    Diletantes anónimos vs diletantes com nome a promover e que temem a concorrência, o que parece lógico.

  2. Magnífico seguríssimo e excelente Fernando Venâncio, não te queria para amigo nem por porra nenhuma. Tanta admiração até fica mal. Falas falas mas engoles as palavras dos outros para dizeres o que reprovas.

  3. Se calhar até sei quem é o seu amigo, uma intuição… mas até concordo com ele, e o PP que se cuide…já há muita gente que não suporta vê-lo pela TV. E não tomo os meus desejos pela realidade. Até já nem vejo televisão portuguesa, ou quase nada.

  4. José,

    Agradeço-lhe que receie por mim. Mas, se JPP é o homem que eu suponho seja, há-de apreciar. O pior que podem fazer-nos é rosnarem-nos pela sombra.

    v.f

    Como desta vez foste engraçado, lembro-te que não é assim que escrevo dos autores, em jornais. Não sei é se já tiveste o gozo de ler-me por aí.

    e-konoklasta,

    Era de partir o coco se você acertasse. Infelizmente, nunca você o saberia. Prometi segredo tumular.

    Já quanto à tv: vejo JPP na Quadratura, e gosto do que ouço. Sou, pois, um caso perdido. Mas isso você já sabia.

  5. “O pior que podem fazer-nos é rosnarem-nos pela sombra”…aí tem toda a razão.

    Mas há quem queira associar a sombra ao uso do pseudónimo identificável em caso de necessidade.

  6. caro venâncio,
    você continua sublime, co mo sempre, aliás.a critica que faz ao Pacheco Pereira é de uma finura de trato e inteligência incomparáveis. ele deve estar incomodadissímo com a sua critica.provavélmente até perdeu o sono e, quem sabe…a razão! você, venâncio, é a verdadeira proto sombrinha dos intelectuais portugueses. o Sena ( k morto jaz, e mesmo morto é incómodo ) a Sophia que teve o mau gosto de não se deixar compreender por si, e o pacheco pereira que ( para azar dele lhe é infinitamente superior ) que se cuidem! você aí está , terrivél e certeiro na voz e no verbo! um implacavél perigo, uma coragem sem limites e sem rosto…há sombras mais iluminadas… você, Deus lhe valha, é uma sombrinha de Burka. não tem culpa, cada um é como cada qual…beijinhos, meu herói! e força, força sempre! cá se aguardam as suas claras e corajosas investidas! o Pacheco Pereira deve ter-lhe cá um medinho…

  7. Aurora,

    Você está a brincar (e aí até se acharia graça), ou isso é a sério, e você nem sequer viu que o texto não é meu? Espertinha, espertinha, mas não de fiar.

    Mas o que tem MESMO graça é uns me acharem subserviente ao JPP (como se ele e eu o precisássemos), e outros – bom, você, Aurorita – a julgar-me a desafiar o senhor. Registo e gozo. Duas formas verbais, claro.

  8. Sem pretender defender o nosso polígrafo JPP, que, além de não precisar de defesas de cidadãos comuns, muitas vezes tampouco as merecerá, pelas atitudes criticáveis que assume, e pelas quais naturalmente sofre a correspondente verberação alheia, coisa que notoriamente o irrita, tão habituado está a receber elogios e reverências, na minha modesta opinião, em grande parte descabidas ou excessivas.
    Neste excerto de correspondência privada aqui transcrito, francamente, não vislumbro crítica nenhuma às personalidades referidas, mas apenas um destemperado desabafo, injustamente genérico, que acaba por atingir quem não deveria.

    De facto, não me parece que seja de pôr no mesmo saco figuras como Sena, Sophia e Pacheco : «Est modus in rebus, diria, passe a presunção do latinório.

    Na obra citada, que contém a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Melo Breyner, como acontece com a de muitos outros escritores, há elementos muito interessantes das suas vidas privadas e da vida social do tempo em que viveram. Ficamos a conhecer aspectos da sua intimidade, que ajudam a compreender melhor a sua própria criação artístico-literária.

    E, quanto ao narcisismo, há que aceitar alguma dose do dito, desde que não seja em demasia, porque há sempre um toque dele, na personalidade de qualquer artista, como foram os poetas e escritores Sena e Sophia.

    Nenhum deles, julgo, se deixou embevecer com a sua própria figura, ainda que em Sena se note uma ânsia maior de reconhecimento do seu real valor, de resto, justificado, pela atenção desproporcionada que, já nesse tempo, se concedia a muita mediocridade ou mesmo falso valor, como hoje novamente sucede, apesar da diferença de quadro político e do agora muito mais alargado leque das escolhas.

    E, no fim, sobre todas as suas verdadeiras ou imaginadas megalomanias, temos hoje felizmente, perante nós, as obras que eles nos deixaram e por elas os apreciaremos e julgaremos, muito mais do que pelas suas personalidades, que só tiveram real importância para os que com eles, ao tempo, pessoalmente conviveram.

    Eis o que se me oferece dizer, a respeito destas comparações injustificadas e, mais do que isso, injustas, a meu ver, evidentemente…

  9. O Pacheco Pereira paga um custo enorme por ter actividade política do “lado errado”, se a tivesse do lado certo seria reconhecido sem dúvida como autor de uma das obras históricas mais importantes para perceber o Portugal Contemporâneo, a biografia do Cunhal. A obra foi saudada como tal por todos os especialistas portugueses e estrangeiros, mas pelos vistos não vale nada para os comentaristas de blogs que se especializam na má língua .

  10. Este último comentário anónimo poderia ter sido escrito por…Carlos Magno.
    O raciocínio parece-me o mesmo que costumo ouvir ao comentador de rádio.
    Mesma luta, portanto.

    “lado errado”?!
    Lado certo. Certíssimo, sempre! Nunca se afronta qualquer poder verdadeiramente constituído. Não se pode.
    Alguma vez se leu uma crítica ao tipo de jornalismo que se faz na SIC Notícias ou até na Sábado e que Carrilho denunciou?
    É o fazes!
    Alguma vez se criticou por esses lados, o poder da corrupção concreta, pelo menos em termos éticos, do poder político que se promiscui na Assembleia, com escritórios de advogados privadíssimos e negócios públicos?
    É o criticas!
    Quando muito levanta-se a lebrezita das incompatibilidades, em termos genéricos e politicamente correctos.

    Quanto ao resto, aponta-se o dedo aos blogs boateiros e tenta-se amordaçar a liberdade de expressão, sob a capa da denúncia do abuso.
    E o resto, como todos sabem, é da culpa exclusiva do PGR Souto Moura.

    E é este o enquadramento do “lado errado”, caro anónimo?

    Give me a break!

  11. Este “josé” que é um magistrado na vida real por isso devia ter juízo e trabalhar mais, passa o dia a reagir pavlovianamente sempre que alguém fala do Pacheco Pereira. Se aparce uma coisa boa para o Pacheco vai lá contrariar, se aparece uma coisa má, desata aos berros a anuncia-la ao mundo.
    Escreve em todas as caixas de comentários como “josé” ou anónimo e está doente, só pode estar doente.

  12. Não sabia que esse josé era magistrado, o que explica muita coisa. Deixar a homens raivosos as escutas e prisões é um perigo público! O JPP que se cuide, com a obsessão que ele tem contra ele ainda o prende!

  13. O Pacheco Pereira continua a pensar segundo o modelo soviético aprendido na juventude: conservador, homem de aparelho, anti-salazarista mas a favor da guerra do Iraque. Mas há quem goste desta salada russa. Bla bla bla.

  14. Caro anónimo- ou nem tanto assim:
    O postal e comentários subsequentes não são sobre o dito cujo que se não aguenta e anda por aí a espreitar caixas de comentários para depois zurzir com insultos, os anónimos que têm a desfaçatez de lhe dizer umas tantas coisas que não suporta ouvir ou ler?

    São, claro que são.

    Então, deixe lá as palermices- anónimas ainda por cima.

  15. porque é que o pacheco pereira incomoda tanta gente? é dos poucos que tem um discurso coerente e que sabe participar num debate. ideias organizadas e coerentes, apresentadas de uma forma dedutiva e ordenada. um discurso que clarifica, em vez de confundir.pode-se concordar ou discordar, mas, concorde-se ou não o certo é que expoem os pressupostos, os argumentos ,racionais ou factuais, e visa muito mais convencer do que vencer. um mérito raro nos nosso politicos.

  16. Este josé deve ter a doença da personalidade dividida porque sendo anónimo ataca o anonimato.

    António

  17. ” Acordo. Que disseram os outros? Aurora que cada manhã, reconstróis o mundo; integral nos braços nus em que conténs o universo; juventude, aurora do Homem. Que me importa o que outros disseram, o que pensaram, o que acreditaram. Sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito. Existo como um fruto, como um copo de vinho, como uma árvore. Quando vem o Inverno, as pessoas afastam-se da árvore que não dá sombra; comido o fructo, deitam fora o caroço; vazio o copo, vão buscar outro. Eu aceito. Verão, água lustral da manhã sobre membros ágeis; ó alegria, orvalho do coração…
    Acordo.Tenho diante, atrás de mim, a noite eterna. Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir… Só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais. ”
    Marguerite Yourcenar, in O Tempo Esse Grande Escultor

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