
A Rússia invadiu um país cujo exército é cem vezes inferior ao seu, alegando precisar de o fazer para garantir a sua segurança. Correspondeu essa invasão a uma invasão prévia na Rússia, ou a qualquer forma de agressão militar, do país invadido? Não, ao contrário. Anos antes, a Rússia já o tinha invadido e ficado a controlar partes desse país. Pois agora, ao terceiro dia da nova invasão, a Rússia ameaçou disparar armas nucleares contra países indeterminados. Correspondeu essa ameaça a alguma correspondente, sequer convencional, ameaça militar prévia ao seu território ou exército por parte de países da NATO? Não, zero. A Rússia colocou as forças nucleares em alerta máximo como resposta a “declarações” feitas por governantes de países variados. Mísseis atómicos contra palavras, é o único nexo a dar sentido à situação.
Às 72 horas do começo da destruição da Ucrânia, porque não gostou do que ouviu, Putin lembrou-se que dá para resolver os seus problemas com a liberdade de expressão através do holocausto nuclear. Poder extinguir a humanidade inteira como potencial consequência dessa decisão parece ser um dano colateral que ele admite sofrer em ordem a provar que não tolera certas afirmações. Este tão-baladão que já não dá para voltar a meter no sino foi de tal forma inusitado e absurdo que de imediato colocou a questão da saúde mental de Putin na berlinda. A chantagem nuclear parecia ser um exclusivo da Coreia do Norte mas, pelos vistos, a grande Rússia também lhe pretende dar gasto. Lá vai para o galheiro a imagem de Putin em tronco nu a cavalo e a socar ursos. O que ele fez e vai continuar a fazer revela um líder frágil, confuso e cheio de medo. Daí ter gasto o derradeiro trunfo logo no início da guerra contra a Ucrânia. E daí esse conflito poder já ser visto como o palco de uma Terceira Guerra Mundial. No caso, uma guerra onde existe um fulano com a manifesta disponibilidade de não só acabar com o Ocidente imperialista como também com a própria Rússia, a China, Índia, África, Oceania e o mais que der para apanhar no Inverno Nuclear.
Portanto, dada a absoluta aberração em causa, ninguém acredita que ele chegasse a tal num contexto onde não tem as fronteiras ameaçadas, está é além-fronteiras a bombardear e matar civis, certo? Errado. A cartada nuclear, seja parte de uma estratégia negocial ou o resultado de um desvario raivoso, dramatiza um problema cósmico que fascina filósofos e cientistas: o Paradoxo de Fermi. Para um cálculo de 2 biliões (cada bilião é um milhão de milhões) de galáxias no Universo observável, a que corresponderá um número jeitoso de planetas (10 elevado a 25, é fazer as contas), esperava-se que a vida fosse abundante o suficiente noutras paragens para gerar imitações do que fez na Terra: dar à luz civilizações extraterrestres. Eis o berbicacho, não se encontrou até agora o sinal de nenhuma. Este deserto na observação cósmica choca de frente com o optimismo estatístico que não aceita sermos a primeira e única espécie de animais capazes de telefonar uns para os outros, ouvir relatos de futebol via rádio e não perder aos domingos os sermões televisionados de alta política oferecidos ao povo por um brilhante ex-presidente do PSD. Onde está o resto do pessoal, onde estão os marcianos? Dentre as muitas explicações que tal fenómeno convoca, uma delas é esta: talvez todas as civilizações no Universo, ao atingirem um certo desenvolvimento tecnológico, acabem por se autodestruir, em guerra ou por colapso ecológico. O que nos traz de volta a Putin.
Abstractamente, o cenário do conflito nuclear entre Rússia e NATO é uma velha e reconfortante conversa. Durante décadas de Guerra Fria, com tecnologias de controlo nuclear e de comunicações rudimentares quando comparadas com as actuais, nunca se chegou a tal. Há um consenso de que a doutrina da “mutual assured destruction” (MAD) garantiu a paz pois tornou irracional a opção de ser o primeiro a disparar o míssil. Todavia, é também consensual que haverá algures no futuro um maluco que irá usar armamento nuclear só por ser maluco. Se tal ficar limitado a um pequeno arsenal, será possível evitar uma catástrofe planetária. Se acontecer na Rússia, EUA ou China, o pior cenário inevitavelmente acontecerá e os que sobreviverem contarão a história pois não é possível antecipar todas as consequências. Assim, no abstracto, esta problemática é sempre actual e justifica que se tente limitar ao mínimo dos mínimos o número de países com acesso a armas nucleares.
Concretamente, Putin lidera uma ditadura plutocrática cujos mandantes prolongam a ideologia imperialista da União Soviética e czares. Uma parte essencial desta cultura é o hedonismo, a fruição que os oligarcas russos fazem da sua riqueza quando a vão ostentar para os palcos ocidentais onde a opulência se consagra. Outra parte é a timocracia, as liturgias do poder e a impunidade para usar a violência contra adversários, o que pode ser até mais decisivo na mente de Putin do que a riqueza material. Esta conjugação de factores contribui para a improbabilidade de alguma vez Putin poder iniciar um conflito nuclear posto que estaria em modo suicida e na prática iria também matar aqueles que o suportam no poder. Seria preso, ou assassinado, se o tentasse. Mas não sabemos, ao limite – o pior da natureza humana causa as mais impensáveis tragédias, ensina a História.
O que sabemos é que Putin não é leitor de Tucídides. Se o fosse, teria colhido a lição de que certas vitórias conduzem a inevitáveis derrotas. Putin não passa neste momento de um vulgar facínora montado em cima da ameaça de acabar com a vida de milhares de milhões. Deixou a caixa de Pandora escancarada. A Rússia terá de escolher entre ele e a paz.
