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Putin não lê Tucídides

A Rússia invadiu um país cujo exército é cem vezes inferior ao seu, alegando precisar de o fazer para garantir a sua segurança. Correspondeu essa invasão a uma invasão prévia na Rússia, ou a qualquer forma de agressão militar, do país invadido? Não, ao contrário. Anos antes, a Rússia já o tinha invadido e ficado a controlar partes desse país. Pois agora, ao terceiro dia da nova invasão, a Rússia ameaçou disparar armas nucleares contra países indeterminados. Correspondeu essa ameaça a alguma correspondente, sequer convencional, ameaça militar prévia ao seu território ou exército por parte de países da NATO? Não, zero. A Rússia colocou as forças nucleares em alerta máximo como resposta a “declarações” feitas por governantes de países variados. Mísseis atómicos contra palavras, é o único nexo a dar sentido à situação.

Às 72 horas do começo da destruição da Ucrânia, porque não gostou do que ouviu, Putin lembrou-se que dá para resolver os seus problemas com a liberdade de expressão através do holocausto nuclear. Poder extinguir a humanidade inteira como potencial consequência dessa decisão parece ser um dano colateral que ele admite sofrer em ordem a provar que não tolera certas afirmações. Este tão-baladão que já não dá para voltar a meter no sino foi de tal forma inusitado e absurdo que de imediato colocou a questão da saúde mental de Putin na berlinda. A chantagem nuclear parecia ser um exclusivo da Coreia do Norte mas, pelos vistos, a grande Rússia também lhe pretende dar gasto. Lá vai para o galheiro a imagem de Putin em tronco nu a cavalo e a socar ursos. O que ele fez e vai continuar a fazer revela um líder frágil, confuso e cheio de medo. Daí ter gasto o derradeiro trunfo logo no início da guerra contra a Ucrânia. E daí esse conflito poder já ser visto como o palco de uma Terceira Guerra Mundial. No caso, uma guerra onde existe um fulano com a manifesta disponibilidade de não só acabar com o Ocidente imperialista como também com a própria Rússia, a China, Índia, África, Oceania e o mais que der para apanhar no Inverno Nuclear.

Portanto, dada a absoluta aberração em causa, ninguém acredita que ele chegasse a tal num contexto onde não tem as fronteiras ameaçadas, está é além-fronteiras a bombardear e matar civis, certo? Errado. A cartada nuclear, seja parte de uma estratégia negocial ou o resultado de um desvario raivoso, dramatiza um problema cósmico que fascina filósofos e cientistas: o Paradoxo de Fermi. Para um cálculo de 2 biliões (cada bilião é um milhão de milhões) de galáxias no Universo observável, a que corresponderá um número jeitoso de planetas (10 elevado a 25, é fazer as contas), esperava-se que a vida fosse abundante o suficiente noutras paragens para gerar imitações do que fez na Terra: dar à luz civilizações extraterrestres. Eis o berbicacho, não se encontrou até agora o sinal de nenhuma. Este deserto na observação cósmica choca de frente com o optimismo estatístico que não aceita sermos a primeira e única espécie de animais capazes de telefonar uns para os outros, ouvir relatos de futebol via rádio e não perder aos domingos os sermões televisionados de alta política oferecidos ao povo por um brilhante ex-presidente do PSD. Onde está o resto do pessoal, onde estão os marcianos? Dentre as muitas explicações que tal fenómeno convoca, uma delas é esta: talvez todas as civilizações no Universo, ao atingirem um certo desenvolvimento tecnológico, acabem por se autodestruir, em guerra ou por colapso ecológico. O que nos traz de volta a Putin.

Abstractamente, o cenário do conflito nuclear entre Rússia e NATO é uma velha e reconfortante conversa. Durante décadas de Guerra Fria, com tecnologias de controlo nuclear e de comunicações rudimentares quando comparadas com as actuais, nunca se chegou a tal. Há um consenso de que a doutrina da “mutual assured destruction” (MAD) garantiu a paz pois tornou irracional a opção de ser o primeiro a disparar o míssil. Todavia, é também consensual que haverá algures no futuro um maluco que irá usar armamento nuclear só por ser maluco. Se tal ficar limitado a um pequeno arsenal, será possível evitar uma catástrofe planetária. Se acontecer na Rússia, EUA ou China, o pior cenário inevitavelmente acontecerá e os que sobreviverem contarão a história pois não é possível antecipar todas as consequências. Assim, no abstracto, esta problemática é sempre actual e justifica que se tente limitar ao mínimo dos mínimos o número de países com acesso a armas nucleares.

Concretamente, Putin lidera uma ditadura plutocrática cujos mandantes prolongam a ideologia imperialista da União Soviética e czares. Uma parte essencial desta cultura é o hedonismo, a fruição que os oligarcas russos fazem da sua riqueza quando a vão ostentar para os palcos ocidentais onde a opulência se consagra. Outra parte é a timocracia, as liturgias do poder e a impunidade para usar a violência contra adversários, o que pode ser até mais decisivo na mente de Putin do que a riqueza material. Esta conjugação de factores contribui para a improbabilidade de alguma vez Putin poder iniciar um conflito nuclear posto que estaria em modo suicida e na prática iria também matar aqueles que o suportam no poder. Seria preso, ou assassinado, se o tentasse. Mas não sabemos, ao limite – o pior da natureza humana causa as mais impensáveis tragédias, ensina a História.

O que sabemos é que Putin não é leitor de Tucídides. Se o fosse, teria colhido a lição de que certas vitórias conduzem a inevitáveis derrotas. Putin não passa neste momento de um vulgar facínora montado em cima da ameaça de acabar com a vida de milhares de milhões. Deixou a caixa de Pandora escancarada. A Rússia terá de escolher entre ele e a paz.

Mors certa

«Rocha Andrade recorda ao DN o "tipo muito surpreendente" que era o seu antigo colega de governo. O agora deputado do PS sublinha o que outros disseram dele nas horas que se seguiram à notícia da morte. Era um homem com capacidade "de descomplicar, de motivar e de fazer". E com uma "boa disposição, mesmo em situações muito chatas".»

Fonte

*_*

Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos, ligados pelos traços de personalidade, talento político e experiência governativa. Unidos pelo sentido da vida e também pela tragédia da sua morte tão prematura.

António Costa, o PS e Portugal, em três anos, sofrem o implacável absurdo de perder dois dos seus melhores recursos humanos ainda com décadas de potencial mérito cívico pela frente.

Revolution through evolution

Do pets have a positive effect on your brain health?
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Women’s experiences of sexual assault and harassment linked with high blood pressure
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Daily activities like washing dishes reduced heart disease risk in senior women
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One in three young people say they felt happier during lockdown
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A Minecraft build can be used to teach almost any subject
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WashU Expert: Putin is using ‘victim’ narrative to justify Ukraine attack
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Dominguice

Pessoas que são capazes de errar em tudo o que de essencial diga respeito a quem vive com elas debaixo do mesmo tecto, pessoas que não conseguiriam verbalizar o que as levou a ser como são e não como gostariam de ter sido, pessoas que não fazem sequer ideia do que se passa com a vizinha do 4º andar, esta multidão considera-se habilitada para explicar, com detalhe e prognose, o que querem e não querem Putin, Biden e Xi Jinping.

O espectáculo da estupidez consegue ser mais desesperante do que o da guerra.

Outrora agora

«O leitor deve estar certo de que, por aquele tempo, monopolizavam a curiosidade pública as variadas peripécias da Guerra da Crimeia.

Cecília era obrigada a ler aquelas descrições de carnificina que todos os dias enchiam as colunas dos periódicos; isto o fazia ela sempre com a cara contraída de desgosto.

Manuel Quintino era pelos aliados, José Fortunato esposava a causa dos russos — um e outro sem saberem bem porquê. Cecília era só pelos mortos e feridos.

Um dia, parou no meio da descrição de um dos mais sanguinolentos encontros dos dois exércitos, para interpelar o pai sobre a causa desta guerra implacável.

A pergunta embaraçou consideravelmente Manuel Quintino, que olhou para o Sr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxílio dali; o Sr. Fortunato o mais que pôde dizer foi: — «Que a guerra era lá por causa de umas coisas.»

Cecília também não exigiu saber mais.

— «Os russos. — leu ela naquele serão — fazem fogo durante a noite sobre o campo dos aliados; estes abstêm-se de responder.»

— Têm medo — comentou logo o Sr. José Fortunato, com um sorriso.

— Isso é plano! — acudiu Manuel Quintino, com ares de quem entrava no mistério.

— «Os atiradores aliados respondem, porém, de dia com proveito» — continuava Cecília.

— Então? Era ou não era plano? Eu logo vi — exclamou Manuel Quintino, exultando.

— Balas perdidas — replicava o outro, encolhendo os ombros com desdém.

— «Os soldados — prosseguiu Cecília — pedem com entusiasmo ao general em chefe que dê a batalha» — e, acabando de ler isto, fez um gesto de aversão.

— Pois vão para lá! — respondia o Sr. José Fortunato, como homem que conhecia a preceito os recursos de defesa da praça.

— «Em Sebastopol há 2000 bocas-de-fogo» — lia ainda Cecília.

José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e triunfante; parecia que o convidara a atacar, propondo-se ele a defender com aqueles auxiliares.

Em seguida Cecília leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o comando do exército da Ásia.

Foi a vez de Manuel Quintino pagar o gesto do outro, como se depositasse grande confiança no Vassif e nas operações campais do exército da Ásia. Mas o gesto de triunfo foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de Janeiro, partira para a Crimeia Ulrich, que ele não sabia quem era, com a guarda imperial francesa; José Fortunato só teve, a compensar-lhe o receio desta acometida, a notícia de que estavam 6000 russos em Pruth.»


Uma Família Inglesa_Júlio Dinis

PCP-LSD

Dos mesmos que produziram, realizaram e trouxeram até nós o “Chumbámos o Orçamento porque Costa queria eleições e a maioria absoluta”, chega agora o “Putin invadiu a Ucrânia porque os americanos querem matar os ucranianos”. Aguarda-se em breve o lançamento do “Reduzimos para metade o grupo parlamentar porque o povo e os trabalhadores só queriam ter meia dúzia de deputados”.

Todos cobardes

Ivo Rosa, alvo de uma campanha de assassinato de carácter e de coacção em vários órgãos de comunicação social desde que foi escolhido por sorteio para dirigir a fase de instrução da Operação Marquês, surgiu referido numa escuta a suspeitos de tráfico de haxixe. Luís Agostinho, em telefonema à namorada, disse o seguinte: ““Olha, amor, aponta aí o nome do juiz Ivo Rosa e dá à minha mãe esse nome que ela precisa para mandar para o meu irmão (…). Aponta esse nome que é o nome do juiz para ele mandar lá para cima para fazer um trabalhinho. (…) É para dar 1.000 euros para ele fazer lá o que tem de fazer.” Em consequência, os procuradores desse processo de tráfico de droga enviaram a escuta que referia Ivo Rosa para o Tribunal da Relação e abriu-se um inquérito relativo à suspeita de corrupção do juiz.

Interessante, né? Mas a coisa é ainda mais interessante. Este Luís Agostinho fez o tal telefonema a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde estava à espera de ir para prisão domiciliária. A 15 de Outubro de 2021 fora interrogado por Ivo Rosa, o qual negara ao Ministério Público o pedido de prisão preventiva e decidiu pela prisão em casa com pulseira electrónica. Enquanto os equipamentos de vigilância eram instalados na sua habitação, ele aproveitou para oferecer ao Ministério Público e à Justiça portuguesa um registo de voz onde se ficava a pensar que, às tantas, o tal Ivo Rosa é um bandalho que se vende por mil euros aos pilha-galinhas que lhe aparecem no tribunal.

Mas a cena é ainda mais interessante. Isto porque a Cofina, em cima das eleições legislativas (a 27 de Janeiro), lançou esta capa. Repare-se que o canto inferior direito também fica sumamente adequado à quadra eleitoral. A matéria do juiz odiado pela pulharia é anunciada como um “exclusivo” da revista. Quer dizer que algum agente da Justiça vendeu ou ofereceu à Cofina a informação para tão edificante e relevante capa. E mais quer dizer que termos uma escuta a referir Ivo Rosa num caso sórdido, a qual cai na Cofina em cima de um acto eleitoral, e isto no auge do conflito entre esse juiz e Carlos Alexandre, é uma série de coincidências de arrebimbomalho. Faz lembrar o Valentim Loureiro e a sorte que ele teve com a lotaria, a qual ganhou umas três ou mais vezes, sortudo dum cabrão.

Pois onde se atinge o interesse máximo neste episódio é na paisagem mediática à volta do mesmo. Silêncio absoluto nos editoriais e no comentariado. O mesmo silêncio absoluto que se decretou a respeito das razões para a constituição de Carlos Alexandre como arguido por suspeita de crime na forma como a Operação Marquês lhe foi parar às mãos.

Todos a assistir calados, todos cúmplices, todos cobardes.

Monumento semiótico

No dia 17 de Fevereiro de 2022, foi tornado público que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu aceitar o requerimento de abertura de instrução apresentado por José Sócrates no âmbito do caso da distribuição manual da Operação Marquês em 2014, distribuição essa que deu a Carlos Alexandre o processo. Em consequência, o juiz Carlos Alexandre e a escrivã Teresa Santos foram constituídos arguidos. Se mais nada soubermos do que está aqui em causa, o facto, por si só, é manchete obrigatória em qualquer meio de comunicação social que se conceba como parte da imprensa.

No dia seguinte, o jornal diário que é líder de mercado em Portugal, Correio da Manhã, omitiu da sua capa essa notícia que tinha sido destacada noutros jornais, rádios e televisões. Qual a razão, ou razões, para tal? Seja o que for, necessariamente não diz respeito ao estrito cumprimento da função jornalística. Não existem critérios profissionais, sociais, lógicos inerentes à missão de informar o público que justifiquem essa omissão. A causalidade para o que fica como um acto de autocensura é outra, portanto. Qual?

Os (raríssimos) interessados na compreensão do fenómeno dividem-se em dois grupos: aqueles para quem a agenda política da Cofina é evidente; aqueles para quem não é sequer evidente que a Cofina tenha uma agenda política. Para estes últimos, segue breviário da situação:

– A Cofina utiliza crimes cometidos por magistrados para cometer crimes nos seus órgãos de comunicação.
– A Cofina, editorialmente, trata o PS como um partido de corruptos, pondo em letra o caudal de calúnias que a direita tem despejado desde 2004 contra as principais figuras socialistas.
– A Cofina faz propaganda aos elementos do Ministério Público que tenham processos de investigação a figuras do PS ou ligadas de alguma forma ao PS.
– A Cofina faz propaganda ao juiz Carlos Alexandre, o qual aparece sistematicamente tratado como “superjuiz” e herói da caça aos “corruptos” do PS.
– A Cofina, sistemática e ostensivamente, persegue e ataca o juiz Ivo Rosa.
– Carlos Alexandre foi alvo de queixa de Ivo Rosa relativa a atrasos no processo BES e, por sua vez, fez uma gravíssima acusação a Ivo Rosa, dizendo que coloca em perigo a vida de inspectores da Judiciária.
– O Ministério Público arquivou o inquérito que Ivo Rosa tinha solicitado ao extrair uma certidão relativa a “factos com relevância criminal” relacionados com a “distribuição manual” no TCIC que deu o processo a Carlos Alexandre.
– O Conselho Superior da Magistratura admitiu que o caso foi distribuído “diversamente do legalmente estabelecido”, apresentando “irregularidades procedimentais”, pois a distribuição não foi electrónica como deveria e podia ter sido no Citius no dia 9 de setembro de 2014.

Só o que em poucas linhas se pode reunir chega, e escandalosamente sobra, para sabermos que as incontornáveis dúvidas a respeito da entrega da Operação Marquês a Carlos Alexandre estão umbilicalmente ligadas com as peripécias e decisões que fizeram da detenção e prisão de um ex-primeiro-ministro suspeito de corrupção, em simultâneo, o caso mais importante da Justiça portuguesa e aquilo que Francisco Proença de Carvalho carimbou como “autêntico fiasco”. É um caso onde o Ministério Público teve o tempo que quis à disposição, começou a devassar a privacidade dos alvos irregularmente antes de existir um inquérito formal, gastou não se sabe quantos recursos humanos e financeiros, alimentou o julgamento e o linchamento na praça pública, conseguiu prender Sócrates durante 10 meses, e chegou à acusação pendurado numa miserável negociata com o probo Hélder Bataglia pois todas as pistas exploradas nunca conseguiram sequer identificar os supostos actos corruptos que validassem as certezas repetidas durante anos. Quando o processo foi parar às mãos de Ivo Rosa, só aí se tornou possível contemplar a dimensão do logro que os procuradores responsáveis, mancomunados com o juiz Carlos Alexandre, andaram a esconder – e o qual jamais teria sido exposto se este juiz justiceiro especializado em socialistas tivesse continuado com ele.

No célebre acórdão de Março de 2015 onde os desembargadores Agostinho Torres e João Carrola recorreram ao anexim “Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm” para ilustrar a sua recusa em terminar a prisão preventiva de Sócrates, entre outras gozações que lá deixaram felizes e ufanos, foi ampliada pelos jornalistas e comentadores a sua intenção de mostrar que se estavam a guiar pelas “regras da experiência comum”, acessíveis à generalidade dos cidadãos na sua universalidade empírica. Assim, não lhes parecia crível que Santos Silva fosse capaz de disponibilizar tanto dinheiro do seu a um amigo, acharam que tal não podia acontecer neste mundo, teria de haver marosca. E assim pensam milhões com eles. Ora, se também aplicarmos essas famigeradas regras da experiência comum ao que vemos acontecer no Ministério Público, na Cofina e com o juiz Carlos Alexandre, a que conclusões chegaremos?

Eu chego a esta: a Justiça portuguesa está, ipso facto, dominada por criminosos. Se a suspeita de ter existido um primeiro-ministro corrupto exigia a mais rigorosa e exaustiva investigação, mas ao mesmo tempo a mais prudente e implacável práxis para impedir explorações sensacionalistas e políticas, esta realidade quotidiana de termos órgãos de comunicação social como instrumentos de caça política e punição personalizada em conluio com magistrados criminosos é infinitamente pior. Porque o ex-primeiro-ministro suspeito nada pôde fazer para impedir que se capturasse a sua privacidade, até a sua intimidade, na feérica procura das provas dos alegados crimes. Mas quem domina os instrumentos da sindicância policial, quem tem o poder de utilizá-los arbitrariamente, quem é a autoridade da interpretação dos materiais capturados e registados, quem determina as consequências penais das inferências acusatórias, esses estão num plano de inatacável impunidade – a qual ainda mais se blinda ao dominarem o espaço mediático sem vagido de indignação, sequer contraditório.

O desaparecimento de Carlos Alexandre da capa do esgoto a céu aberto, escondendo dos borregos que o seu adorado carrasco ostenta agora ao peito a estrela amarela de “arguido”, é o grande monumento semiótico ao desaparecimento da coragem na comunidade que somos.

Ou não

A democracia permite que se desenvolvam as mais complexas e dinâmicas sociedades possíveis. Só a democracia o permite, por ter na liberdade e na Lei o simbiótico fundamento da comunidade. Mas com esta abertura à inteligência e à acção vem um obstáculo para muitos, potencialmente todos caso aconteça estar-se intelectualmente fragilizado: a complexidade causa fadiga cognitiva, e esta pode gerar confusão e fuga para reducionismos e simplismos – ao limite, a complexidade assusta quando não conseguimos agir nela.

Tente-se explicar o que é o Estado de direito democrático a uma criança. A partir de que idade tal devia acontecer? Só na adolescência? Algures nas vésperas de poderem tirar a carta e ir votar? Agora tente-se explicar o mesmo conceito aos adultos. Qual será a percentagem dos que não precisam de explicações e qual será a percentagem dos que, mesmo com os melhores explicadores, jamais vão conseguir entender o que está em causa numa noção fulcral do regime onde queremos viver? Neste devaneio, imagino que a quantidade de cidadãos que estão em condições de fazer uma exposição sobre as características e benefícios do Estado de direito democrático quando comparado com uma qualquer ditadura seja 100 vezes inferior à quantidade de cidadãos que se consideram habilitados para discorrer fluentemente acerca da “corrupção em Portugal”.

Trump, Bolsonaro, Putin e quejandos atraem aqueles para quem a democracia é fonte imparável de sofrimentos cognitivos. Os tiranos e tiranetes prometem resolver todos os problemas dessas pessoas baralhadas com o excesso de informação e com a abundância de opções recorrendo aos seus folclóricos poderes mágicos e à violência de quem lhes obedece. E espalha-se um conforto imediato nessa promessa, que é alívio da complexidade, descanso da democracia. O sonho infantil de ter quem decida por nós.

E depois, acorda-se. Ou não.

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Study shows differences between brains of girls, boys with autism
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Mental speed hardly changes over a lifespan
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Eating prunes may help protect against bone loss in older women
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Study reveals likely link between mitochondrial dysfunction and age-dependent cognitive disorders
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Impatient and risk-tolerant people more often become criminals, study finds
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The time a person spends on different smartphone apps is enough to identify them
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Can a planet have a mind of its own? Thought experiment
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Dominguice

O que há antes da identidade? O mundo. Primeiro, é o mundo; o suporte e dinâmica dos sentidos e da consciência. Só muito depois, o verbo. E o verbo se fez identidade. Esquecida do mundo, a identidade transforma-se no inferno do subjectivismo, do narcisismo, do egoísmo e seu imparável cortejo de ilusões.

Há que crucificar a identidade no X. Na interrogação. Só a curiosidade, essa mãe celeste, garante a alegria eterna.

Assuntos que não interessam a ninguém

Na constituição de Carlos Alexandre como arguido com a suspeita de crimes de abuso de poder, falsificação de funcionário e denegação de justiça, qual a razão, ou razões, para o desembargador Jorge Antunes ter recusado ouvir sete oficiais de justiça, a juíza Amélia Reis Catarino e a funcionária judicial Anabela Ferreira (afastada para dar lugar a Teresa Santos), tal como o ex-primeiro ministro pretendia, e ainda se recusando a juntar ao processo as entrevistas dadas por Carlos Alexandre?

A Justiça é volúvel

«A divulgação da detenção do jovem de 18 anos que estaria a planear um ataque na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa foi “precipitada” e “anormal”, no entender de Cândida Almeida, ex-directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que considera que a comunicação “pode levar a que outros tentem a mesma coisa por simpatia” e fomenta o “pânico e o terror nas pessoas”.

Mas nem todos pensam o mesmo. A procuradora jubilada Maria José Morgado vê vantagens na divulgação de factos que, no seu entender, mais cedo ou mais tarde viriam a ser conhecidos, uma vez que um inquérito judicial passa necessariamente por muitas mãos. “Para repor a paz social e a verdade dos factos”, explica, sublinhando que isso mesmo é permitido no Código do Processo Penal.»

Fonte

Cândida Almeida e Maria José Morgado têm em comum muita e muita coisa, da formação especializada à longa carreira, do género à celebridade. Mas aqui estão elas a discordar radicalmente a respeito do mesmo assunto. Quem tem razão? Porquê? Quantos cidadãos portugueses conseguiriam explicar o que está em causa na divergência?

Trago esta notícia para ilustrar a irredutível e indelével ambiguidade inscrita no âmago das matérias judiciais – particularmente quando se prestam a ser exploradas pela comunicação social, cujo efeito é sempre pernicioso porque reina o sensacionalismo e a indústria da calúnia em vez da deontologia. Neste caso, a diferença de opiniões não aquece nem arrefece a assistência, sendo sociologicamente irrelevante e só interessando a investigadores e maluquinhos. Mas noutros casos, aqueles onde há políticos como alvos de procuradores e jornaleiros, este tipo de diferenças pode manifestar se vigora o Estado de direito ou o Estado ao serviço da direita.

O jornalismo como interpretação de realidades a ocorrer num futuro próximo

A SIC violou o artigo 69.º da Lei da Televisão quando recusou emitir o direito de resposta suscitado por João Pedro Matos Fernandes, na qualidade de Ministro do Ambiente e da Ação Climática, e João Saldanha de Azevedo Galamba, na qualidade de Secretário de Estado Adjunto e da Energia, deliberou a ERC. Que consequências terá este episódio, além da satisfação dos queixosos e da irritação dos talibãs capitaneados pelo mano Costa? Aparentemente, nenhumas de nenhumas. É assunto que não interessa a mais ninguém para lá dos directamente envolvidos. Porém, a ocorrência fica como mais um monumento à decadência da direita portuguesa, neste caso revelando a prepotência de que os órgãos de comunicação social, e seus directores e jornalistas engajados, desfrutam no relacionamento com os políticos, em geral, e com os governantes socialistas, em especial.

A emissão em causa é de 15 de Dezembro de 2021, a seis semanas de umas eleições legislativas. Nela, José Gomes Ferreira fez o que José Gomes Ferreira faz há décadas: mentiu, deturpou, lançou difamações e suspeições gravíssimas contra personalidades ligadas ao PS. Isto, portanto, carece de novidade. O que é novo é termos acesso aos critérios deontológicos de Ricardo Costa lavrados em acta. Eis o que o estupendo, genial, Übermensch, director de informação da SIC chutou para a ERC:

6. Sustenta a Recorrida que o jornalista «fez repetidos convites públicos, em direto, no próprio programa, para que os governantes viessem à SIC Notícias explicar o porquê» das suas opções energéticas, mas «[n]unca os próprios nem os seus assessores responderam positivamente a esses convites».

7. Refere que «[n]unca o jornalista disse que os Recorrentes são suspeitos de corrupção, mas sim que grandes leilões, concursos e concessões ocorridos nas duas últimas décadas em Portugal, estão envoltos em suspeitas de corrupção [...]», sendo opinião do jornalista «[...] que nos próximos anos os alvos das novas investigações judiciais sobre negócios da energia deverão certamente incidir sobre os atuais novos concursos, leilões e concessões».

8. Sustenta, ainda que «[o] mesmo sentido e alcance [...] é também aplicável à utilização da expressão “dar negócios a amigos”, não se podendo dela extrair, por si só, que são os Recorrentes os autores desse tipo de atividade».

9. Mais referindo que «[n]unca o jornalista questionou a legitimidade do Governo para tomar as iniciativas em causa, mas sim a oportunidade política para o fazer».

10. Entende, portanto, que se trata de crítica legítima do jornalista, «que a ela tem direito [...]», em particular porque, sustenta, é «um exercício legítimo de interpretação sobre uma realidade a ocorrer num futuro próximo».

11. Conclui, reiterando o entendimento quanto à “não justificação” do exercício do direito de resposta, «muito menos como reação a uma opinião crítica de um jornalista da SIC/SIC Notícias, visando exclusivamente o escrutínio público das questões supra».

Lemos isto e é inevitável imaginarmos o mano Costa a gargalhar, a babar-se e a peidar-se alarvemente enquanto teclava, ou via teclar, o “vão-se foder” que acima está citado. Parece então que a ideia da SIC era a de conseguir ter em estúdio um ministro e um secretário de Estado para o Zé Gomes continuar a desenvolver a sua “interpretação sobre uma realidade a ocorrer num futuro próximo“. E como eles se cortaram a participar no espectáculo, assim frustrando a legítima curiosidade da audiência a respeito desses “amigos” a quem estão a ser dados “negócios”, o mano Costa cortou-lhes o direito de resposta em retaliação.

No país onde gostaria de viver não seria preciso dizer mais nada após se tomar conhecimento do nível a que chegou o “jornalismo de referência” pago pelo Balsemão. A coisa vinha a público e haveria demissões no Grupo Impresa no dia seguinte. Simples, lógico, decente. Mas não é nesse país que habito. Pelo que colhe recordar o que o mesmíssimo José Gomes Ferreira lançou no espaço público em Outubro de 2020, quando acusou António Costa e Francisca Van Dunem de prepararem o controlo da Judiciária com a finalidade de conseguirem dar “negócios aos amigos”. E lembrar que a sociedade não protestou contra esta calúnia demente. Lembrar que a sociedade, o regime, a comunidade são cúmplices de um pseudo-jornalismo que, em comparação, faz das tabernas escolas de virtudes.