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Do raciocínio motivado à imbecilidade motivadora

A extrema polarização que a nova invasão da Ucrânia por Putin desencadeou está a ser um intragável espectáculo de raciocínio motivado. A esquerda à esquerda do PS, falando genericamente e esquecendo as excepções, viu uma oportunidade na destruição de um país soberano e no massacre dos seus soldados e civis pelo exército russo para atacar velhos e obsessivos ódios de estimação: a América, a União Europeia e o “Ocidente” (seja lá o que isso for). Naturalmente, quem apenas se concentrou em exigir que o criminoso parasse com os crimes, e em acudir à crise humanitária, viu essa estratégia de comunicação como cumplicidade hipócrita com o único responsável pela situação.

O argumentário dos que acham legítimo, ou lógico, ou inevitável, que Putin se armasse em czar em 2022 implica explicar com esfuziante animação e pacóvia soberba como a causa principal para tal opressão não se encontra em Moscovo mas em Washington. Teriam sido os cobóis capitalistas que forçaram o bombardeamento de ucranianos e o seu exílio aos milhões ao terem continuado com a “expansão da NATO” para Leste, assim ameaçando ter gringos fardados a dormir em casernas montadas junto às fronteiras russas. Isto é dito e repetido à exaustão, embrulhado num lençol de vilezas “ocidentais” que se listam desde Hiroshima (mas é provável que os viquingues ainda venham a ser acusados de alguma cena vergonhosamente “ocidental” ou “americana”). Lengalenga fetidamente cínica cuja única finalidade é sugerir que os russos têm muito crédito para gastar em matéria de barbaridades marciais.

Ora, a NATO apresenta duas características que, paradoxalmente, estão a alimentar o delírio: a primeira é nunca ter feito mal a uma mosca; a segunda é não existir. Sim, teve intervenção na Bósnia e Herzegovina mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Sim, teve intervenção no Kosovo mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Sim, teve intervenção no Afeganistão mas por ter sido invocado o artigo 5º de defesa mútua em consequência do “11 de Setembro”. Sim, teve intervenção no golfo de Aden mas para combate à pirataria somali e ajudar os países da região. Sim, teve intervenção na Líbia mas para cumprir uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. No Iraque não teve intervenção, para além de um treino. Qualquer destas intervenções pode, e deve, ser discutida e qualquer posição a seu respeito é admissível no plano político e moral. O que é impossível de apontar é um caso onde a NATO tenha agido para violar os seus princípios defensivos e/ou para contribuir na expansão territorial de qualquer um dos seus membros. Quanto a não existir, é o óbvio ululante: o que existe são os exércitos dos países membros, a NATO apenas coordena acções conjuntas em caso de ataque de um inimigo ou para a imposição da lei internacional.

Corolários: (i) com ou sem NATO, os países que a constituem continuam a dispor dos seus exércitos e arsenais nucleares; (ii) não se concebe a instrumentalização da NATO por um país ou grupo de países em ordem a violar a lei internacional ou para cometer abusos e crimes de guerra, posto que é a democracia o paradigma institucional e sociológico que define a missão da NATO e sua viabilidade organizacional; (iii) não existe qualquer ameaça ao território da Rússia pelo facto de ter fronteiras com países da NATO, posto que não se imagina qualquer conjuntura nos EUA e UE onde fosse concebível que o poder político conseguisse legitimidade para iniciar uma guerra absurda e suicida de ataque à Rússia.

Sendo assim, e assim é, a propalada “expansão da NATO” dada como “casus belli” pelos advogados de Putin fica como um monumento da sua imbecilidade motivadora.

Começa a semana com isto

Obviamente, há inúmeras abordagens terapêuticas à disposição para a depressão. A extensão e prevalência dessa patologia gera correspondente abundante investigação que tenta abarcar a desvairada complexidade observada nos casos individuais.

Com este amigo, Michael Yapko, encontramos uma proposta que abre um horizonte de optimismo ao se focar nos recursos que todos temos mesmo quando pacientes dessa doença ou estado depressivo.

Para mim, a grande ideia nesta palestra é a de a depressão poder ser vista como uma doença do narcisismo. Mais, como a estupidez inerente à subjectividade. E que uma terapia eficaz para a depressão pode, simultaneamente, ser uma terapia para a alienação e cobardia políticas.

Revolution through evolution

Affection from a dog really is medicinal, according to a new study
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Common houseplants can improve air quality indoors
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When it comes to sleep, it’s quality over quantity
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Trial testing cocoa flavanol supplement shows promise for reducing cardiovascular risk
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Close the blinds during sleep to protect your health
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Why do flocks of birds swoop and swirl together in the sky? A biologist explains the science of murmurations
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Anyone can be trained to be creative
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Dominguice

Fechados num ponto de vista único – inacessível a outrem pois mais ninguém é o que somos quando o somos, e misterioso para nós próprios que ignoramos donde viemos e quem seremos no instante seguinte – berramos enfurecidos ou carpimos silentes por causa dos pontos de vista alheios não serem iguais aos nossos.

A mesmidade é diabólica, só a alteridade garante boa companhia.

Aquela mulher que o criminoso odeia

Para lá das manifestações de imperialismo czarista (a invasão da Ucrânia alegando não ter direito a ser um pais soberano), e das manifestações de cobardia e desvario psíquico (o massacre de civis e a ameaça de guerra nuclear contra a NATO por causa de palavras), Putin está igualmente a manifestar ser uma fraude militar e, para o ramalhete ficar completo, um palhaço diplomático. Isto porque se lembrou de incluir na lista de contra-sanções Hillary Clinton.

Trump não é sancionado pelos russos mas quem deixou de ter qualquer cargo na Administração dos EUA há mais de 9 anos é. A estupidez não chega a dar vontade de rir porque de imediato nos transportamos para o papel subversivo da Rússia no apoio à eleição de Trump. Pelos vistos, continua a odiar aquela mulher – agora, apenas por ser aquela mulher.

Revolution through evolution

Nostalgia can relieve pain
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Sharing memories sets children on path to better well-being
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Communities with higher levels of racial prejudice have worse health outcomes
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First Recording of Dying Brain Shows Memory, Meditation Patterns
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The human brain would rather look at nature than city streets
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Even just a few more steps a day benefits cognitive function
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Pig grunts reveal their emotions
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Dominguice

O poder de abstracção é uma faca, metáfora etimologicamente perfeita. Pode ser usado para salvar vidas e criar culturas. Pode ser usado para acabar com vidas e extinguir civilizações. A abstração dá-nos a palavra, o número, o conceito. E tira-nos o lugar, o tempo, o corpo.

Usa a abstração para fatiar o casqueiro, abrir melancias e desenhar corações em paredes caiadas. Não uses a abstracção para fazer mal aos outros ou a ti próprio.

Está lá? Quem fala?

«Macron e Scholz falaram por telefone com Putin horas antes de a União Europeia (UE) se reunir em cimeira no Palácio de Versalhes, em França, país que preside atualmente ao Conselho da UE.

"Macron e Scholz insistiram que qualquer solução para esta crise deve vir através de negociações entre a Ucrânia e a Rússia", disse a fonte do Governo alemão, citada pela agência francesa AFP.

Durante a reunião, a França e a Alemanha "exigiram da Rússia um cessar-fogo imediato".

Os três líderes concordaram em permanecer em estreito contacto nos próximos dias.»

Fonte

🤹

Esta conversa telefónica ocorreu há poucos dias. Uma de tantas entre os mesmos protagonistas, especialmente Macron e Putin. E de imediato a notícia transporta-nos para as semanas que antecederam a invasão, em que Macron e Scholz chegaram a ir a Moscovo para a fotografia. Porquê e para quê esses números? Que ocorre numa mesa hipertrofiada, usada para o que poderia ser uma cena de um filme cómico, que não pudesse ser tratado no secretismo das relações entre duas diplomacias? E como interpretar os rituais das mentiras repetidas à exaustão, os quais preenchem a quase totalidade da comunicação oficial a respeito do que os Governos dos diferentes países transmitem uns aos outros? Que cagada é esta de se dizer que os “três líderes concordaram em permanecer em estreito contacto nos próximos dias“, como se fossem três amigos a planearem umas férias juntos?

Vista pela incontornável encenação mediática, a qual alimenta o charivari da turbamulta a respeito, a invasão e destruição da Ucrânia é um constante espectáculo emocional onde as vítimas e o horror da guerra são usados para captar e manter audiências. É esse o único papel das imagens dos bombardeamentos, das entrevistas aos civis e dos comentários dos espertos. Mas assim como um juiz tem de resistir à química dos afectos se pretender decidir com isenção, e assim como um cirurgião tem de aumentar a sua capacidade de concentração e autodomínio ao aumentar o risco da cirurgia a fazer, assim na diplomacia está sempre em causa o triunfo da racionalidade sobre a pulsão da morte. A diplomacia é intrinsecamente optimista, trabalha com cenários de sobrevivência, continuidade, desenvolvimento.

Donde, não fazemos a menor ideia do que ocorre nas interacções entre as potências mundiais, e menor ideia fazemos em período de uma guerra com o potencial para originar um conflito mundial ou um apocalipse nuclear. Ter essa noção ajuda a concentrarmo-nos no essencial: aquilo que nos aparece como mal maior jamais deve ser relativizado, justificado e, portanto, defendido.

Made in China

É consensual que só a China pode obrigar Putin a parar a invasão da Ucrânia, tal como só a China a poderia ter evitado. Pelo contrário, o que vimos e vemos é uma aliança entre Rússia e China, sendo credíveis as notícias de que a invasão foi adiada para 24 de Fevereiro a pedido das autoridades chinesas que não queriam perturbar os seus Jogos Olímpicos de Inverno com massacres de civis na Europa.

A China não vai poder limpar as mãos dos crimes que estão a ser cometidos também por causa da sua cumplicidade com o criminoso.

Fósseis e renováveis

Nada como ter Putin a invadir um país europeu onde já estava como invasor, e a bombardear civis como profilaxia antiNATO, para descontrairmos um bocadinho da pandemia e nos esquecermos do apocalipse climático a caminho. Mas a inversa é igualmente actual, a invasão e destruição da Ucrânia criar uma horrenda oportunidade de acelerar ao máximo a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis. E a União Europeia, com as suas instituições democráticas, científicas e políticas de vanguarda, pode liderar esse inevitável processo de mudança de paradigma energético – o qual arrasta uma mudança profunda na economia mundial.

Mudar de fontes de energia para mudar a economia para mudar a política. Especialmente, a política a que estão sujeitos os habitantes dos países que dependem das exportações dos combustíveis fósseis, em muitos casos ditaduras. Não é com fósseis imperialistas como Putin que iremos resolver o maior desafio das próximas gerações, é com vulgares democratas, livres e renováveis.

Revolution through evolution

Physical fitness linked to lower risk of Alzheimer’s disease
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Resistance exercise may be superior to aerobic exercise for getting better ZZZs
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Meta-analysis of 15 studies reports new findings on how many daily walking steps needed for longevity benefit
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Higher education and language skills may help ward off dementia
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When money is tight, ‘purchase happiness’ is low
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Mystery solved about the origin of the 30,000-year-old Venus of Willendorf
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Agreeableness a helpful trait for general success in life, study finds

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Dominguice

Reason is, and ought only to be the slave of the passions, and can never pretend to any other office than to serve and obey them.“, escreveu David Hume no A Treatise of Human Nature (1739–40). Esta passagem viria a tornar-se uma das mais famosas com a sua assinatura. As interpretações da mesma, como é método na filosofia, remetem para o todo da obra e do opus. Só especialistas gastam o seu tempo nessas prospecções e errâncias. Mas há uma leitura de superfície que já era do domínio popular (“puxar a brasa à sua sardinha”) e que veio para a ribalta mediática na segunda metade do século XX e início do século XXI com os estudos disciplinares e interdisciplinares nas ciências psicológicas e cognitivas, a que se juntam os contributos da economia e antropologia: o domínio universal e tirânico dos vieses cognitivos.

Mais do que racional, o homem é o animal apaixonado. Quase sempre, por si próprio.

A espada e a pena

Imaginemos que a Rússia, para além dos actuais países que a constituem, tinha continuado a assistir passiva à entrada na NATO da Suécia, Finlândia, Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Azerbaijão e Cazaquistão. E que os americanos tinham colocado em cada um desses países armas nucleares. Nesse cenário, que teria a Rússia a temer?

A resposta é: exactamente o mesmo que tem agora. Não haveria qualquer diferença posto que a Rússia continuava a ser uma potência militar e nuclear com quem não faria sentido entrar em guerra para lhe conquistar território. Mas não só, igualmente nada teria a temer porque a NATO é uma organização defensiva e funda-se no poder político de democracias que jamais aceitariam políticas imperialistas, sequer a mais leve ameaça de ataque à Rússia (ou China, ou qualquer outro país) sem um “casus belli” que fosse lógico e pudesse ser apresentado como justo.

Imediatamente, vem à baila o Afeganistão mais o Iraque e a mentira das armas de destruição em massa como suposto argumento para legitimar a invasão da Ucrânia pelos russos, ditos apenas “imitadores” da práxis belicista dos “imperialistas ocidentais”. Ora, tal não passa de uma falácia adequada à dissonância cognitiva dos que a usam. No caso do Afeganistão e do Iraque, os EUA e a Europa, entre outros alvos, foram atacados no seu território e a enorme maioria das vítimas foram civis. Podemos discutir quais teriam sido as melhores respostas nesse contexto, é indiscutível que uma resposta lógica e que podia ser apresentada como justa passava por tentar vencer os inimigos onde se acreditava que estavam.

Na Ucrânia não há inimigos da Rússia. A Ucrânia não atacou a Rússia. A NATO não atacou a Rússia. A NATO não está na Ucrânia, a Ucrânia não pertence à NATO. Quando se invoca e legitima o direito da Rússia a se “defender” da NATO a propósito da invasão militar de um país que pretende ser independente e viver em paz com os seus vizinhos, tal apenas tenta esconder que o verdadeiro perigo para os ditadores russos é a proximidade geográfica da democracia e da liberdade, não a proximidade das armas e soldadesca.

É isso que se está a pretender destruir à bomba e com a carnificina de civis na Ucrânia, a democracia e a liberdade.