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Sociedade lusa dos negócios

O depoimento de Oliveira Costa transcende em importância tanto a situação de Dias Loureiro como a responsabilidade moral de Cavaco Silva sobre ambos. Não terei sido o único a ficar surpreendido, aposto, com o registo de completa descontracção do preso à solta. Parecia que tinha nascido para aquele papel de arrebimbomalho e estar na cerimónia da sua consagração como rockstar da banca. À saída, depois de 8 horas a reduzir Loureiro, Coimbra e Cadilhe a farrapos e dos relatos a operações à próstata com pós-operatórios heróicos e outras maleitas do camandro, não resistiu a mandar bocas encharcadas de lubricidade às jornalistas que o cercavam. Era como se tivesse 20 fogosos anos e um descapotável estacionado em frente à escadaria de S. Bento para levar alguma a dar uma voltita pela Marginal. Quer-se dizer, temos homem.

Todos os que trabalharam no BPN e SLN, ou foram accionistas, têm uma responsabilidade que está em relação directa com a sua posição na hierarquia e o seu poder accionista. Assim, basta olhar para a listagem desse grupo de pessoas e identificar a tipologia do envolvimento ético daqueles que aceitaram ter um líder como Oliveira Costa. Ficámos ontem a saber algo mais sobre eles, através do muito que se tornou transparente nas opacas declarações à comissão de inquérito. O que fica é um retrato debochado, imagem de gente que provavelmente terá ficado tão intoxicada com a facilidade com que todos enriqueciam que perderam o contacto com a realidade. A promiscuidade com os poderosos, as engenharias dos financiamentos partidários, as protecções e cumplicidades das direcções políticas, os cruzamentos amiguistas, os nós de interesses financeiros e as filiações pessoais, mais do que chegavam para um sentimento de impunidade blindado. Por isso se dizia, quando o caso começou, que seria impossível Dias Loureiro deixar-se apanhar — tão fundo, e tão alto, chegava o seu poder.

Outro elemento de interesse antropológico está na reacção dos blogues da direita ranhosa. Silêncio traumatizado e cobarde até à demissão do Loureiro, imediata reacção histérica após a notícia com imbecis ataques a Sócrates. Imbecis e reveladores daquilo que Oliveira Costa, fazendo História, desvelou na sede da democracia: há muitos que trocarão a alminha e o cuzinho por trocos só para protegerem a sociedade lusa dos negócios.

Falar verdade

Dias Loureiro foi recebido pelo Presidente da República no dia 24 de Novembro de 2008. À saída, disse que lhe comunicou toda a verdade sobre os imbróglios da SLN e BPN. Pelo seu lado, Cavaco fez do tema da verdade o centro estratégico do seu discurso para este ano triplamente eleitoral. Numa espantosa coincidência, o PSD também se lembrou do mesmo e anda a prometer a verdade aos portugueses. Oliveira e Costa gostou da ideia e resolveu partilhar umas verdades. Não? São mentiras? Ah, espera… Nesse caso, um dos dois, Cavaco ou Loureiro, que venha contar o que sabe, contar a sua verdade.

Os Presidentes da República, pelo menos esses, devem ser coerentes com a ética que recomendam a terceiros.

Olival do cavaquismo

Dentro de poucas horas teremos Oliveira e Costa no Parlamento a falar de dinheiros e outros trocos. Consta que Oliveira Caprichoso é capaz de ficar engasgado com a azeitona. Até há quem profetize que um Loureiro poderá acabar tão espremido que chegue a escorrer azeite. Mesmo que não se confirme o milagre, a pinta de azeiteiro já ninguém lha tira.

O que se passa no BPN, apesar da investigação e do inquérito ainda estarem a decorrer, permite constatar uma essencial diferença entre as culturas políticas do PSD e do PS. Repare-se como o PSD tenta aproveitar o caso Freeport em seu favor, rejubilando secretamente com cada ataque à honra de Sócrates, só não o fazendo às descaradas por ainda haver mínimos de lucidez naquela pobre gente. Porém, a génese da publicitação do caso, juntamente com o boato da homossexualidade de Sócrates, nasceram para efeitos de prejuízo eleitoral do PS no seio de pessoas ligadas à campanha de Santana em 2005.

Ora, e que temos no caso Freeport de substantivo? Nada. Nada que se conheça publicamente. Nem sequer se sabe qual a importância do vídeo de Charles Smith, tanto em Inglaterra como em Portugal, seja para o que for. A campanha negra faz-se, assim, com mentiras descaradas e deturpações de material avulso e não contextualizado pericial e policialmente. É pasto para pulhas.

Ao contrário, no caso BPN há uma abundância de factos tornados públicos que são, concomitantemente, factos que darão origem a punições. Podemos não saber quais serão as punições, e quem acabará punido, mas sabemos que estamos perante crimes e criminosos ao mais alto nível executivo e administrativo. Este plural em criminosos não ignora que apenas um indivíduo é arguido no momento em que escrevo, mas nasce de não ser concebível ter sido só uma pessoa a conseguir iludir todos os administradores e demais funcionários do BPN e SLN com acesso às contas e aos procedimentos, metendo sozinho os dois mil milhões de euros no bolso. Decorre do que é conhecido que, às violações legais, se juntam as falhas morais e as responsabilidades políticas. Ter um Conselheiro de Estado a mentir publicamente, e bacocamente, por causa deste caso é grave, e mais grave fica por ter a protecção do Presidente da República e do PSD.

Que tem feito o PS, e suas gentes, em relação ao caso BPN? Esperar. Está tudo à espera, com mais ou menos impaciência, que o processo avance pelas vias próprias. Pura e simplesmente não houve aproveitamento algum das implicações à disposição. E muito bem, nem carece de explicação, pois o que está em causa no BPN é suficiente para destruir o maior partido da oposição. Que ninguém se iluda: na eventualidade de Dias Loureiro ser arguido, e depois considerado culpado, é o cavaquismo que estará a ser prensado.

Saúde no estádio

Acabou o campeonato com um vencedor mediano, Porto. Quer dizer que Sporting e Benfica foram medíocres, como de costume. No Benfica, estamos perante uma maldição que nasceu quando mandaram embora o Toni depois de ser campeão, em 94, e meteram o Artur Jorge. Foi um crime de lesa benfiquismo, é bem feita. Mas já estou farto de ver o Benfica no tapete, vamos a atinar e começar a honrar a camisola. Quanto ao Sporting, o tonto do Bento andou a época toda a errar, enfraquecendo a equipa no balneário e desperdiçando um apaixonado da bola chamado Vukcevic durante largo período. Talvez tivesse de ser assim, e ele tenha aprendido.

É frequente encontrar pessoas que desprezam o futebol, ou que não entendem o entusiasmo dos que vão ao estádio. Terão razão, pois há alienados e psicopatas que fazem do futebol o centro das suas vidas. Não têm é a razão toda, visto que alienados e psicopatas se encontram em qualquer lado. Acima de tudo, não têm aquela razão que nasce de se ter uma experiência que se sabe boa e fonte de saúde, apesar de igual situação poder ser fonte de prejuízo para outros.

Uma mulher, Erika Krull, psicóloga, fala-nos da importância do que lhe acontece no estádio ao assistir a jogos de futebol americano. Conheço portuguesas que relatariam exactamente o mesmo com o nosso futebol lusitano, indo ao estádio sempre que podem. As causas são universais, antiquíssimas: quando saltamos eufóricos, e nos abraçamos de alegria, descobrimos que viemos ao mundo para ganhar. Juntos.

Agitprof

Este texto do Barreto, Aplicadores, é de alguém que tem perfeita consciência de ser instrumental para o acirrar dos ódios contra o Governo entre dois tipos de professores cruciais para a manutenção do boicote às reformas na Educação: os corporativamente mais bélicos e os cognitivamente mais frágeis. Faz parte do aquecimento para a manifestação de 30 de Maio e pretende incendiar emocionalmente os diferentes grupos que irão comparecer: professores, sindicalistas, militantes de partidos da oposição, familiares de uns e de outros, reformados e desempregados.

O recurso ao Manual de Aplicadores, para embrulhar as ofensas que preenchem todo o texto com nexos falaciosos, mostra-nos um Barreto completamente desvairado. Trata-se de uma desonestidade intelectual grosseira, chocante e nojenta — a qual não deve ser esquecida nem perdoada sem acto de contrição. Porque esse documento, abandalhado pelo Barreto, não passa de um simples protocolo destinado a uniformizar as condições em que se prestam provas, assim garantindo maior fiabilidade e justiça nos resultados a nível nacional. O documento oferece informações suficientes para que até um professor imbecil consiga cumprir com o objectivo, para além de apelar a que as eventuais dúvidas sejam apresentadas e esclarecidas em devido tempo. E o objectivo do protocolo está ao serviço dos alunos, dos seus encarregados de educação e da comunidade, como é óbvio, evidente e inquestionável.

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A galinha e o Pinto

Manuela Moura Guedes reagiu com assinalável compostura e domínio emocional às bastonadas do Bastonário. É essa quase indiferença que assusta, mais ainda do que o travestismo daquele jornalismo.

Mas também não se devem ignorar os efeitos anestesiantes do Botox, os quais podem atingir o centro nervoso da moralidade.

Se o Pacheco fosse um intelectual a sério

Aqui há umas semanas, ex necessitate rei, ofereci às autoridades académicas, e outras instituições de interesse público, uma análise profunda, rigorosa e definitiva sobre o Pacheco. Inspirado nesse magnífico retrato, um tipo que ninguém conhece, um tal de Pedro Magalhães, director não sei do quê num organismo muito duvidoso de sigla UCP (Unidade Colectiva de Produção, será? Pelo ódio com que o CDS se refere a esta UCP, deve ser), resolveu tentar imitar-me, mas com um texto muito fraquinho. Seja como for, esse texto fraquinho foi suficiente para deixar o Pacheco em reclusão durante vários dias. Abandonou tudo: o paranóico Índice do Situacionismo, as trombetas apocalípticas que anunciam o fim da democracia, as desasadas loas acerca da Manela, as cobardes insinuações da Zone of Danger, os xaroposos Momentos Chavez e até o novel peido chamado Se Portugal fosse um país a sério. Tudo abandonado, posto em causa, deixado ao Deus dará. E eis que, numa iluminação paulina, Pacheco cai de cima do burro, cega durante 4 dias, e renasce para o seu primeiro elogio ao Governo — é ler para crer!

Agora sim, o mundo deve estar perto de acabar.

Crespologia – III

Estou a ver que tenho de processar o Crespo. Ele anda a dar cabo das minhas embirrações de estimação dentro do PS. Primeiro foi o Pedro Silva Pereira, que agora sou obrigado a respeitar como um distinto tribuno em virtude da sua prestação na entrevista com o estouvado do Crespo. Nesta terça-feira passada, no Jornal das 9, foi Maria de Belém Roseira, uma figura com quem nunca tinha perdido uma caloria de atenção, que se transformou numa Joana d’Arc que seguirei para qualquer campo de batalha em Portugal ou fora do Reino. E agora estou em pânico, tremo. Quem se segue? Que outro cromo irei perder? Chegará a desgraça ao ponto de ainda vir a admirar Alegre, calhando apanhá-lo a dar um responso ao taralhouco do Crespo? Nesse dia, juro, meto o pilantra no tribunal.

Mas aquilo na terça foi um regabofe. Começou com José António Barreiros, chamado ao quadro para que o Crespo pudesse informar a turminha de dois factos por si já gravados em mármore:

1º Marinho Pinto tem uma agenda política e ela consiste em favorecer o PS, o Governo e Sócrates.

2º Alberto Costa repetiu em Lisboa o que tinha feito em Macau há 20 e tal anos, em ambos os locais tendo pressionado magistrados para arquivarem processos.

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Talvez o maior defeito do Bénard

Uma das melhores formas de homenagearmos o Bénard é ler (ou reler, ou lembrar) a sua última Casa Encantada. Não por ser um epitáfio, súmula ou revelação final sobre a sua existência, antes por ser um sopro de vida de quem sempre se perdeu de amores pelo mistério.

Um encantador defeito seu, ter-se distraído tanto nele, ter tantos a distraírem-se com ele.

A grande lição sobre o caso da professora de Espinho

A confirmar-se a autenticidade da gravação apresentada, temos aqui um caso onde há a realçar os seguintes pontos:

– A professora será, usando uma linguagem técnica de extremo rigor clínico, completamente chanfrada dos cornos. Coisa que pode acontecer a todos, mas que aqui releva pelo facto do seu trabalho ser público.

– Há 3 anos que a comunidade discente nesta escola denunciava nos corredores o que se passava dentro da sala de aula, e ninguém fez a ponta de um caralho. Aposto que há milhões de histórias como esta, de variada tipologia, bastando fazer de mim uma amostra estatística (tenho várias ocorridas até ao 12º ano, a que se acrescentam as da universidade e ainda as das salas de professores e reuniões de avaliação que frequentei como setôr).

– Esta professora constitui-se, segundo os parâmetros do sistema de progressão na carreira docente que os sindicatos querem a todo o custo manter, como um caso de sucesso profissional.

– O psicótico discurso apresenta os topos da superioridade profissional, social e moral que temos vistos exibidos pelos professores nas manifestações e declarações contra as reformas educativas do actual Governo. Esta mesma pessoa, se posta perante uma câmara de televisão agora a verberar o seu ódio contra a Ministra, daria origem a testemunho que a comunicação social aproveitaria para dramatizar a justeza da luta dos desgraçados professores.

A grande lição não é relativa à necessidade de avaliar os professores, apesar de estar definitivamente comprovado que a maior parte deles nem quer nem sabe avaliar um colega, quanto mais ficar exposto ao olhar de terceiros. A grande lição é outra, tão-só prática e irónica: que todos os pais distribuam gravadores e telemóveis aos seus filhos e peçam-lhes para gravar qualquer comportamento anómalo dos professores. Se essa gente não consegue tomar conta de si, que a comunidade assuma a responsabilidade de ensinar quem ensina os seus filhos.

Nota: a pessoa em causa será, provavelmente, uma vítima de distúrbios do foro psiquiátrico, merecendo todo o cuidado e respeito, mas o contexto da situação relatada tem importância política e social que transcende a sua esfera privada.