Sociedade lusa dos negócios

O depoimento de Oliveira Costa transcende em importância tanto a situação de Dias Loureiro como a responsabilidade moral de Cavaco Silva sobre ambos. Não terei sido o único a ficar surpreendido, aposto, com o registo de completa descontracção do preso à solta. Parecia que tinha nascido para aquele papel de arrebimbomalho e estar na cerimónia da sua consagração como rockstar da banca. À saída, depois de 8 horas a reduzir Loureiro, Coimbra e Cadilhe a farrapos e dos relatos a operações à próstata com pós-operatórios heróicos e outras maleitas do camandro, não resistiu a mandar bocas encharcadas de lubricidade às jornalistas que o cercavam. Era como se tivesse 20 fogosos anos e um descapotável estacionado em frente à escadaria de S. Bento para levar alguma a dar uma voltita pela Marginal. Quer-se dizer, temos homem.

Todos os que trabalharam no BPN e SLN, ou foram accionistas, têm uma responsabilidade que está em relação directa com a sua posição na hierarquia e o seu poder accionista. Assim, basta olhar para a listagem desse grupo de pessoas e identificar a tipologia do envolvimento ético daqueles que aceitaram ter um líder como Oliveira Costa. Ficámos ontem a saber algo mais sobre eles, através do muito que se tornou transparente nas opacas declarações à comissão de inquérito. O que fica é um retrato debochado, imagem de gente que provavelmente terá ficado tão intoxicada com a facilidade com que todos enriqueciam que perderam o contacto com a realidade. A promiscuidade com os poderosos, as engenharias dos financiamentos partidários, as protecções e cumplicidades das direcções políticas, os cruzamentos amiguistas, os nós de interesses financeiros e as filiações pessoais, mais do que chegavam para um sentimento de impunidade blindado. Por isso se dizia, quando o caso começou, que seria impossível Dias Loureiro deixar-se apanhar — tão fundo, e tão alto, chegava o seu poder.

Outro elemento de interesse antropológico está na reacção dos blogues da direita ranhosa. Silêncio traumatizado e cobarde até à demissão do Loureiro, imediata reacção histérica após a notícia com imbecis ataques a Sócrates. Imbecis e reveladores daquilo que Oliveira Costa, fazendo História, desvelou na sede da democracia: há muitos que trocarão a alminha e o cuzinho por trocos só para protegerem a sociedade lusa dos negócios.

18 thoughts on “Sociedade lusa dos negócios”

  1. Se Oliveira Costa tivesse 30 anos e um carro descapotável à porta, ainda aceitaria ser o bode expiatório do resto da cambada para, depois de cumprir a pena, comprar uma casita no Dobai e ir lá passar umas férias com umas flausinas. Mas não. Hoje ele não tem nada a perder se puser a boca no trombone e arrastar consigo o resto da cambada, até porque muitos graúdos, todos juntos, vão conseguir a complacência dos juízes do regime. Em conjunto safam-se melhor do que isolados.

  2. grande arenga valupi para enevoar o que se torna claro em apenas 3 ou 4 linhas:
    o BPN é um negócio do Estado neocon
    Se Loureiro traficava dinheiro, armas e influências, ao conviver com o libanês e com o rei de Espanha, Cavaco e a clique “dos mais altos magistrados na nação” (oba) também estão implicados. Basta lembrar o activismo e a cooperação militar para o genocidio da oposição angolana, a cooperação com Israel no Líbano, etc.
    Qualquer cidadão decente o mínimo que pode fazer é exigir o impeachment do Presidente, até porque todo o sistema montado pelos aliados de Bush é ilegal, foi baseado em mentiras, omissões graves e crimes.

  3. credo Valupi, eu não vi como de costume, mas não te esqueças que essa gente aprendeu a trabalhar com cenários A, B e depois até esticam os neurónios para um C. A política é sobretudo encenação e ainda há a encenação da encenação. Estou com o xatoo no sentido que o BPN é negócio (e eventualmente segredo) de Estado e creio que estás a ser inocente a pensar que tens homem de tomates pela frente. Tomara eu estar enganado. Mas amanhã leio-te melhor, prometo.

  4. O Oliveira Costa percebeu que os Loureiros querem fazer dele bode expiatório. É vingativo, o que lsó fica bem. Diz ter mais cartas na manga, e é muito capaz de ter. Apreciei o desempenho dele na comissão da AR, mas não esqueço quem ele é.

  5. E já há certezas de não haver carolas graúdas em tom rosa na penumbra deste filme?
    É que me parece que a procissão ainda agora vai no adro e na tal sociedade lusa o dinheiro não tem cor…
    Por outro lado, a descontracção dos protagonistas só pode derivar da ilusão(?) de impunidade e essa só pode acontecer se o partido do poder continuar relativamente discreto neste assunto (à pala do bom relacionamento institucional com a Presidência e assim…).
    Eu adoro teorias de conspiração. E sempre que estão em causa influências político-partidárias e muito pilim acerto quase sempre no final feliz…

  6. Manolo, pode ser. Mas ele também nada disse que o comprometesse legalmente, bem pelo contrário…
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    xatoo, essa teoria da conspiração tem elementos credíveis, pois faz sentido haver uma superestrutura acima daquelas que se conhecem – a qual seria secreta e pérfida, fazendo os tais enormes negócios que referes. Porém, onde estão as provas? Espera, onde estão os indícios? Se não os tens (e não tens, nem tu nem ninguém), ao dizeres que acreditas nela, das duas uma: ou estás a gozar com a tropa, ou estás louco.

    Repara: quando a única forma de explicar a realidade é o recurso ao maniqueísmo, podes ter a certeza de estar a delirar. A realidade não é assim tão básica e primária como as teorias da conspiração tentam vender aos assustados.
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    xadresismo, muito bem desenvolvido, sim senhor.
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    z, tomates para as miúdas (se é daí que vem a tua referência), porque quanto ao pilim ele não disse nada.
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    Luís Pereira, tenho a ajuda da realidade.
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    Nik, nem mais. É vingativo e sabe servir a vingança a frio, geladamente. Nisso, foi um espectáculo histórico.
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    shark, se as há, que rolem. Para mim, não é a cor que importa, é o cheiro.

  7. valupi
    como queres que te dê provas, se eles, os criminosos têm a máquina montada para as esconder? – o que arengas a partir dessa acusação primordial que me fazes são conclusões idiotas (sem quaisquer elogios à tua veneranda criatura guardiã do status)
    Claro que não tenho nem posso ter “provas” – “não há homem sem dificuldades, e se houvesse um, não seria homem”
    William Shakespeare

  8. Valupi: há uma coisa chamada abdução, é uma inferência inversa que tem como esteio a provável simetria do nexo causal: se o BPN foi nacionalizado é porque é assunto de Estado.

    Além disso lembrei-me esta noite numa passagem pela vigília que nem sei como é que isso ficou mas há uns anitos @ filh@ do Ferro casou, ou ia casar, com @ filh@ do Loureiro, já não me lembro dos géneros.

    Que engraçado: um enunciado do Bloco faz lei na Madeira.

  9. Aqui há uns anos o filho do Ferro casou com a filha mais nova do Dias Loureiro. Já se divorciaram!
    Sei de fonte segura que uma das prendas de casamento foi um cheque de €60’000 oferecido por um dos convidado da noiva, q o filho do Ferro desconhecia.
    A prenda foi devolvida à procedência por não conhecer qb o doador, por principio moral de não aceitar prendas desse valor de quem não se conhece! A integridade de Ferro runs in the family!

  10. Piada da semana:

    «Dias Loureiro pediu para deixar funções no Conselho de Estado» (dos jornais)

    A piada está nas «funções».

  11. ZZZZZZZZZZZ…

    Ferro Rodrigues não é, com toda a certeza “feito da mesma farinha” que os Loureiros do BPN.

    Ao referir-se ao Bloco Central, lembre-se, que à vários PS`s dentro do PS, e o PS de Ferro Rodrigues é completamente incompatival com qualquer tipo de PPD por mais ao centro que se posicione, e ainda bem…

    Pois é vital ter principios.

  12. xatoo, confirmas que não tens provas. Então, que nome vamos dar à tua denúncia? Crença. És um crente. Ou seja, apesar dos 6,7 mil milhões de seres humanos no Planeta, tu achas que “eles” conseguem esconder as maroscas a nível global, e que terão toda a gente comprada ou anestesiada menos tu.

    Mas então, se dispensas as provas para construíres teorias de conspiração, quem nos prova que não estás ao serviço “deles”, andado por aqui fingindo ser um revolucionário só para apanhares algum que vá na tua cantiga e o denunciares a “eles”?

    Espera, tenho outra questão mais plausível: quem nos prova que a Terra não está suportada por uma tartaruga gigante, e que se a maluca resolve ir embora nós caímos pelo espaço cósmico abaixo?

    Pensa nisso e diz-nos qualquer coisa.
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    z, eles casam-se uns com os outros, mas isso é bonito.
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    Anónimo, curiosa história. Obrigado.
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    Nik, realmente… Que figurinha.
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    João XXI, bem visto.

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