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Já aconteceu, mas nunca aconteceu

O nosso amigo Acácio Lima escreveu-me para informar de que o PS já apresentou um candidato a primeiro-ministro que não era secretário-geral: Almeida Santos, em 1985. Essa situação, porém, em nada se compara com a proposta de Seguro, dado que Almeida Santos foi uma escolha de Mário Soares, o secretário-geral ao tempo, e assumia por inteiro o seu legado político e governativo. Soares, por sua vez, afastava-se das eleições legislativas para se dedicar à sua candidatura presidencial em 1986.

O que Seguro acaba de propor, para além de diluir a responsabilidade do partido num plebiscito, poderia levar à coexistência de um secretário-geral opositor do candidato a primeiro-ministro do seu próprio partido. Como se actualmente houvesse carência de absurdo e caos ali para os lados do Rato.

É mesmo uma nova forma de fazer política

Alinhar com as campanhas de ódio dos adversários contra o seu próprio partido.

Partir do princípio de que todos os seus camaradas são suspeitos de falhas éticas até à assinatura de uns papeluchos em contrário.

Ficar calado perante a torrente de calúnias contra ex-governantes do seu próprio partido.

Repetir, mandando repetir ou aprovando que se repita, o argumentário do ódio criado pela direita contra os adversários internos.

Anunciar-se como um ser moralmente excepcional e superior ao partido.

Dizer que aprova uma moção de censura sem saber o que ela ataca ou defende, depois dizer que não concorda com ela, depois mandar o seu grupo parlamentar votar a favor da moção com a qual não concorda, depois abandonar o grupo parlamentar aquando da discussão da mesma.

Recusar marcar um congresso para resolver uma questão incontornável de liderança, depois defender uma ideia que tinha recusado no ano passado e nela inventar uma solução nunca antes vista, ou sequer imaginada, onde o PS poderia ter um secretário-geral que não seria candidato a primeiro-ministro.

Estar três anos a ser o líder da oposição que a direita e o Governo além-Troika adoram e não querem perder.

Tudo isto é novo, e ridículo, e cada vez mais trágico.

Já nasceram?

Marco António Costa foi ao Política Mesmo na terça-feira. Gosto muito – e desde há muito – do Marco António Costa. Neste episódio não desiludiu. Aliás, ele nunca me desiludiu. É a constância personificada. Vejamos um exemplo do supino Marco António Costa:

Marco António Costa - Que esta disputa dentro do Partido Socialista não seja um factor de instabilidade na vida política nacional e não contribua para um crescendo da radicalização que tem havido da linguagem do Partido Socialista na vida política nacional...

Jornalista - Radicalizada? Mas estávamos em campanha eleitoral...

Marco António Costa - Muito antes da campanha eleitoral houve terminologias que foram usadas em ataques pessoais ao primeiro-ministro, o uso de tempos de antena que são pouco vulgares nas sociedades europeias, mais vulgares nas sociedades americanas, com campanhas muito pouco apropriadas para uma democracia europeia. Eu julgo que valeu tudo. E aquilo que eu deixo como apelo fundamental é que o Partido Socialista evite ser um factor de instabilidade para a vida política nacional.

27 de Maio de 2014

Eis Marco António Costa, vice-presidente de um partido que desde 2008 não tem feito outra coisa que não sejam assassinatos de carácter, campanhas negras e golpadas mediático-justicialistas, um partido que afundou o País só para se poder alambazar no pote, a queixar-se do PS de um Seguro que, ainda antes de chegar a secretário-geral, já alinhava com a intenção de toda essa baixa política e decadência cívica, e o qual tem deixado o seu partido ser fustigado diariamente com essa chuva de velhacarias. Faz isto sentido? É que não pode fazer mais, como a inércia facial e o tom monocórdico do imperial Marco António Costa atestam e celebram. Ele demonstra que a política deve ser o espaço onde a palavra dos protagonistas não tem qualquer valor e onde as acções são regidas exclusivamente pela lógica da conquista do poder. Mas mais, ele igualmente exibe a impunidade de quem sabe que nunca será confrontado com a obscena e aviltante contradição entre o que diz e o que faz. Como é isto possível?

A resposta é estupidamente simples. Só é possível ao Marco António Costa ter uma carreira política onde nos trata como alimárias por causa da atitude dos jornalistas. No caso, o Paulo Magalhães, estimável e agradável profissional, optou por aquilo que será a normalidade junto dos seus colegas de imprensa e em momento algum chamou o estupendo Marco António Costa à sua responsabilidade. Pelo que este continuou a gozar com a malta até ao fim:

O que temos visto, por parte da oposição, é prometer o céu e fazer as promessas mais inconsistentes e mais irrealistas que é possível.

Não vamos deitar tudo a perder por uma medida populista, por uma medida eleitoralista.

Julgo que os portugueses não são susceptíveis a eleitoralismo fácil. Julgo que as eleições europeias mostram isso.

Julgo que o radicalismo, o afastamento, o fechamento político a que o Partido Socialista se entregou nos últimos anos não beneficiam o interesse nacional e também não beneficiam a imagem que os cidadãos têm do sistema político-partidário português. Portanto, eu acho que existe uma obrigação patriótica de os grandes partidos terem uma atitude de responsabilidade. É isso que eu espero do Partido Socialista para o futuro.

Marco António Costa, vice-presidente do partido que montou uma campanha eleitoral em 2011 onde jurou não ir fazer despedimentos nem aumentar impostos, garantindo ter as contas todas feitas, o partido que decidiu impedir Portugal de tentar escapar ao resgate assim traindo o interesse nacional, o partido que gostaria de ver condenados em tribunal políticos socialistas, o partido que logo após ter tomado o poder fez o exacto oposto de tudo o que prometeu dias antes. Este é o mesmo Marco António Costa que consegue perverter de forma absoluta a função da política e não ser sequer beliscado pelo jornalista à sua frente.

Quer isto dizer que há espaço em Portugal para outro tipo de jornalistas. Resta só saber onde estão ou se já nasceram.

O burlesco e as burlas

Convém não deixar sem reparo dois episódios burlescos ainda da campanha para as europeias. Porque o burlesco é uma forma privilegiada de acesso ao sentido da vida, quiçá aos mecanismos que governam o universo.

O primeiro veio da Marisa Matias. Esta bravíssima lutadora contra a opressão capitalista lembrou-se de propor a inclusão do surf nos currículos escolares. Se a ideia já era maravilhosa em si mesma, só por ter sido concebida e vocalizada em público, o racional aduzido tem o poder de um furação de categoria 5:

Não é muito compreensível que, com tanta costa, com tantos quilómetros de praia, seja muito difícil que as escolas cheguem, por exemplo, à prática de surf e a outras práticas associadas.

Não é muito compreensível?!… Mas, minha rica senhora, não é nada de nadinha de nada compreensível. Será até o maior atentado contra o sistema educativo em Portugal ter esses quilómetros de costa e de praias ao abandono só porque há uns malucos que preferem ensinar os putos dentro das escolas. Quão melhor para o destino científico e profissional deste jardim justamente e não por acaso à beira-mar plantado que os professores, a começar pelos de Bragança para que fique o exemplo, peguem nas suas pranchas, ou canas de pesca, no mínimo no bronzeador e nas raquetas, e se dirijam decididos para a costa. A miudagem não teria outro remédio senão segui-los ou chumbariam por faltas caso preferissem ficar nas escolas a estudar. Só por esta proposta, deveria ser criado 1 lugar vitalício para o BE num parlamento à escolha, nacional ou internacional.

O segundo episódio foi uma oferta do Lobo Xavier. A propósito de uma oportunidade irresistível para dar largas à sua pulsão para caluniar Sócrates, despejando lúbrica e alarvemente o seu ódio, saiu-se com esta pérola:

Se realmente o PS acha que esta é altura de recuperar a figura do engenheiro Sócrates, então essa é a altura de também eu voltar à política ativa.

Ou seja, nada mais na política activa levaria o Lobo Xavier a querer agir a não ser o demónio, Sócrates. Qual cidadania, qual democracia cristã, qual bem comum, qual defesa da sociedade face ao Estado, qual luta pela liberdade, qual quê e qual caralho. Só o Sócrates tem o magnetismo, a força, o encanto suficientes para levarem um passarão do calibre do Lobo Xavier, um dos mais bem sucedidos cavalheiros de indústria cá no burgo, a largar o conforto do seu remanso e os corredores alcatifados das suas actividades profissionais para se dirigir a um almoço da tal candidatura que ficou em estado comatoso no passado domingo.

Encontrar um elogio mais sincero, e mais desvairado, do que este que Lobo Xavier involuntariamente fez a Sócrates não será possível. Nunca mais.

Dúvidas metódicas

Que devemos concluir de terem sido aqueles cujo projecto de vida se resume a conseguirem viver muito acima das possibilidades dos restantes os que inventaram que os portugueses pobretanas tinham andado a viver acima das suas possibilidades?

E que devemos inferir de esta tanga, que tem tanto de imbecil como de ignóbil, ter colhido a cumplicidade calada da esquerda pura e verdadeira, a tal esquerda que verdadeira e puramente defende os interesses dos portugueses pobretanas e na miséria, ou assim o berra há décadas?

Revolution through evolution

Study: Larger Waistline, Fewer Votes
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Favoritism, not hostility, causes most discrimination
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Engineer invents a way to beam power to medical chips deep inside the body
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I like your genes: People more likely to choose a spouse with similar DNA
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Studies Show Different Types of Vinegar May Benefit Health
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Personal judgments swayed by group opinion, but only for three days
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Safety in numbers: Moderate drinking in a group reduces attraction to risk

Olhos nos olhos

Aquele político, cujo nome agora me escapa, que andou na última semana de campanha para umas eleições europeias a prometer que vai revogar a “TSU dos pensionistas” e devolver as reformas e as pensões que são devidas aos reformados e pensionistas, dando como garantia o poder hipnótico do seu olhar (fonte), por pouco não conseguia mais um feito histórico para o seu currículo.

Ficou a 4 pontos percentuais, ou menos.

De cruz

Como se sabe, o afastamento dos cidadãos em relação à política, e o rol de queixas respectivas e recorrentes, é um fenómeno com décadas e típico de todas as democracias consolidadas. A Internet veio dar amplificação, e intensidade, ao palavrório de maldizer contra os políticos – e contra a política – que sempre encheu as conversas de café e de salão.

Há muito de meramente patológico nessa torrente negativista, como seria inevitável. Pessoas verdadeiramente doentes que, ou por não estarem diagnosticadas e em tratamento, ou por serem atraídas para um modo de comunicação que permite a expressão descontrolada das suas perturbações, encontram na conflitualidade da política um espaço irresistível e de motivação inesgotável. Igualmente há muito de antropológico na forma como a democracia simula um estado de guerra entre facções, uma luta pelos recursos, pela sobrevivência. O legado ancestral em que o adversário parece esconder um inimigo favorece reacções bélicas que violam o nexo comunitário onde é suposto ocorrer o debate e a eleição. Mas também há muito de lógico e objectivo na desilusão que surge da incapacidade dos políticos para resolverem os cada vez mais complexos desafios da governação, e ainda no desânimo que se espalha letal pela pulsão dos políticos para a demagogia e o populismo.

Porém, todavia, contudo, o problema principal – porque primeiro – não está nos políticos. Como tu bem sabes. O problema está em mim. E em ti. Somos nós os responsáveis maiores pela situação. É o nosso absentismo, a nossa ausência, que deixa a cidade ao abandono. Temos medo, somos uns cobardes. Quão mais cobardes – portanto, mais impotentes – mais nos queixaremos dos políticos e da política.

Neste domingo, vale a pena ir votar só para podermos tocar na coragem dos candidatos. Aquele papelucho com palavras e quadrados vazios é um documento precioso para qualquer cobarde que esteja curioso a seu respeito, intrigado com o seu estado. É a prova de que há vários que ousam ser livres. Expondo-se ao berreiro dos cobardes, mas contando com o seu medo e fraqueza, avançam em direcção ao poder. Alguns vão conseguir entrar, outros não. Todos terão realizado uma parte do melhor de si só por terem decidido concorrer numas eleições democráticas. Sem eles, se ninguém concorresse a nenhuma eleição, a democracia desaparecia.

Grande o favor que nos fazem. A democracia depende deles. Da sua tão bela coragem. A qual, nem que seja por breves minutos ou segundos, podemos agarrar e fazer nossa. De cruz.

Isto é Seguro

"Os portugueses estão sobrecarregados de impostos. Fizemos as contas. Não aumentaremos os impostos."

"Repito: Não aumentarei a carga fiscal", declarou António José Seguro a meio do seu discurso na Convenção "Novo Rumo para Portugal" do PS na antiga Feira Industrial de Lisboa (FIL).

"Será a primeira vez que um Governo empossado neste século não aumentará a carga fiscal em Portugal", disse, numa alusão aos executivos liderados por Durão Barroso, de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho.


Maio de 2014

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"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.


Abril de 2011

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O secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, afirmou hoje que "não haverá aumento de impostos" com os sociais-democratas no Governo e o programa eleitoral "demonstra-o" de "forma clara".


Maio de 2011

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Foi Seguro quem escolheu apresentar-se ao eleitorado socialista como o regenerador moral do partido, o probo exemplar que vinha mandatado pelo destino para resgatar das trevas socráticas a dignidade perdida. Por isso, uma das suas primeiras promessas foi a de obrigar a malandragem que conhecia de ginjeira a assinar códigos de honra e compromissos de ética. Era necessário uma purga, ou então que lhe entregassem papéis assinados para ele arquivar e ir consultando. Trata-se de uma promessa a cumprir numa data a divulgar, há que ter a santa paciência.

Só que isso ainda era pouco, ou apenas o começo do seu magnífico caminho. Seguro passou a anunciar ao eleitorado nacional que com ele uma nova era na política nacional estava a nascer. Algo nunca visto, “uma nova forma de fazer política”, a qual consiste na “transparência” e em “só prometer o que pode cumprir”. Donde, para trás, e para o lado, ficam todos aqueles que, sem transparência, prometem o que não podem e/ou não querem cumprir. Vai daí, estabelecida a sua superioridade – aliás, a sua transcendência – face à cambada que o antecedeu, sentiu-se confiante para começar a fazer promessas às sacadas. Aproveitando umas eleições europeias, no meio de 80 promessas, veio dizer que pretende chefiar o primeiro Governo do século XXI que não irá subir os impostos. Portanto, mais um feito histórico no horizonte. Este homem não brinca em serviço, é sempre a aviar páginas na Wikipedia e canhenhos encadernados.

Ora, deixa cá ver. O século ainda mal começou, mas prontos. Depois, talvez não arrisque muito quem prometa não aumentar impostos se suceder no Governo a quem fez o maior aumento de impostos de que há registo em Portugal e conseguiu esmagar fiscalmente toda a sociedade. Digamos que não será a promessa mais ousada que se poderia fazer neste momento. O que supera em interesse o restante, no entanto, é esta necessidade de Seguro se conceber como um ser de excepção. Tão excepcional, mas tão excepcional, que nem precisa de dar provas de o ser, basta fazer anúncios. E ainda tem o topete, se não for a inconsciência, de reclamar ser esta “uma nova forma de fazer política”.

Será uma nova forma de fazer política, acabamos por conceder, se olharmos para o passado do PS. Não se encontra mais nenhum secretário-geral tão vácuo de carisma e estofo ideológico como este. Um secretário-geral que se imagina melhor do que o partido. Isto é Seguro.

No que imita o País

O cabeça de lista do PS às eleições Europeias, Francisco Assis, acusou o número um da coligação PSD/CDS de ter uma "obsessão patológica por José Sócrates".

A acusação - durante um debate emitido na Económico TV - surgiu enquanto Paulo Rangel dava como exemplo do despesismo socialista "os estádios do Euro pelos quais Sócrates foi responsável enquanto ministro do Governo de António Guterres".

Fonte

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Algo se passa no reino desta Dinamarca chamada Partido Socialista que, no mínimo, causa perplexidade. Para mim, que não sou militante nem simpatizante, o motivo de interesse é estritamente cívico. Sendo o PS um dos garantes da integridade e qualidade da nossa democracia, assistir ao modo como se boicota a si mesmo é alarmante. É que (ainda) não existe outra organização partidária para cumprir o seu papel.

Atente-se no exemplo acima. Francisco Assis, lúcida e corajosa cabeça socialista (concorde-se ou não com ele), coloca no plano psicológico a diabolização de Sócrates feita pela direita. Com isso conseguiu produzir um comentário que é quase simpático para quem está a recorrer a uma das mais poderosas armas de condicionamento popular: o medo. O medo é tão mais eficaz quanto se alimente de uma condenação injustificada, de preferência injustificável, a ser repetida acriticamente por muitos. Foi e é assim com todas as formas de ostracismo, xenofobia, racismo, segregação, discriminação e linchamentos populares. E há uma oceânica literatura antropológica, sociológica, política e histórica a explicitar as estruturas e mecanismos ancestrais, ou modernos, que lhe conferem eficácia intemporal. Há boas razões para ter medo do que se desconhece, do que se estranha. Ter medo começa por ser uma actividade da inteligência, o resultado de sermos racionalmente conscientes. No senso comum, essa é a fonte da prudência. Na ciência, esse efeito origina o aperfeiçoamento do método. Na sociedade, os canalhas aproveitam para promover o ódio. Na política, os trastes enchem a pança de riso.

Será fácil apontar nomes de figuras públicas, ligadas à política e à comunicação social, para quem Sócrates se tornou a ocasião de manifestarem exuberantemente facetas psicóticas. Moura Guedes, Zé Manel, Helena Matos, Pacheco Pereira, Cintra Torres, Alberto Gonçalves, Judite de Sousa, estou a falar de vossemeçês, entre tantos outros. Mas quando assistimos ao quotidiano parlamentar fica claro que não há patologia porra nenhuma no bombardeamento imparável contra Sócrates. Talvez até nem haja registo de um único dia nesta legislatura sem que algum deputado do PSD ou CDS tenha enchido a boca com o nome da besta negra. Aquilo a que assistimos é antes ao plano de continuar a aplicar a mesma receita. Uma receita de incrível sucesso, pois ter conseguido colocar um desqualificado como Passos Coelho a governar Portugal num dos momentos mais difíceis da sua História é um feito equiparável a conseguir ir à Lua num Fiat 600.

Logo após as eleições de Junho de 2011, era claro, era óbvio, qual devia ter sido a estratégia do PS. Fiscalizar a aplicação do Memorando, denunciar qualquer desvio ao acordo que prejudicasse os portugueses e, sem demora nem vacilações, desmontar a gigantesca campanha negra que tinha dado o poder ao PSD e CDS. Infelizmente, a realidade decidiu introduzir na situação política nacional uma personagem absurda que se prestou a validar toda e qualquer deturpação, todo e qualquer achincalho que foram despejados para cima de Sócrates e de quem exerceu responsabilidades governativas a seu lado – portanto, para cima do PS. O problema maior nesse processo não está no que venha a ser o destino político desses alvos, algo que só a eles diz respeito. O que está em causa do ponto de vista cívico é que me importa, e trata-se da qualidade da nossa democracia. Chegar ao topo do poder em Portugal através do pior da baixa política, já para não falar das golpadas mediáticas e justicialistas, não defende os meus interesses nem os interesses das pessoas a quem quero bem.

O PS está num dos piores períodos da sua existência, no que imita o País. Ao mesmo tempo, está cheio de talentos com provas dadas e promessas que justificam a melhor esperança. No que imita o País.

O estilo faz o homem

Rangel promove Aliança Portugal como “vacina” contra “vírus socialista”

Rangel diz que os socialistas são uma doença. Está em campanha eleitoral. Daqui por uns tempos, após as eleições, e calhando, concederá que talvez se tenha excedido um poucochinho nas palavras. Porque estava em campanha, entendem? É normal, em campanha. Não é para levar a sério, percebem? Isto é só política… São coisas que se dizem no entusiasmo do convívio e na excitação das luzes. É na reinação, é só para os picar. Até porque ele tem muitos amigos socialistas, muitos, inclusive primos. Encontra-os em casamentos, baptizados, chegam a almoçar juntos. E, claro, são colegas. Colegas disto, o “fazer política”.

Rangel, em 2010, numa sessão plenária do Parlamento Europeu, denunciou Portugal. O seu país, garantiu aos eurodeputados e demais imprensa internacional, já não era um Estado de direito. Fundamento para tão extraordinária como gravosa acusação? Mário Crespo, um obsessivo caluniador, tinha visto uma das suas caluniosamente obsessivas crónicas ser vetada pelo director do jornal onde eram semanalmente bolçadas. Daqui Rangel concluiu que a liberdade de expressão já não existia na terra onde cresceu viçoso. Mais acrescentou que Sócrates tinha um plano para dominar jornais, estações de televisão e estações de rádio. Em particular, clamou exaltado em Estrasburgo, havia que obrigar Sócrates a justificar-se pelo que tinham feito ao coitado do Mário Crespo. Quatro anos passados, não sei se algum ilustre membro da imprensa voltou a perguntar a Rangel se continua a acreditar que Sócrates tinha esse diabólico plano, ou se continua convicto de que a liberdade de expressão ainda não recuperou do que aconteceu à crónica do Crespo. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: para Rangel é perfeitamente legítimo atacar e denegrir o seu país – e no estrangeiro – se vir nisso algum ganho partidário. Porquê? Porque isso é o “fazer política”, compreendem? Vale tudo para ocupar o poder, inclusive mentir, caluniar e trair. É tão simples.

Rangel será uma excelente pessoa. É um doutor da política, tem ideias, garante o Pedro Marques Lopes. E é um cidadão sério, incorruptível, não tenho a menor dúvida. Isto de reduzir a democracia a uma arruaça onde se atiçam as pulsões irracionais e violentas que levam a ver os adversários como inimigos a perseguir, escorrraçar e abater? Bom, não passa de uma escola, de um estilo. É o estilo de Miguel Relvas, o tal que pediu para todos os familiares de Sócrates exibirem a sua vergonha pelo funesto laço de sangue. É o estilo de Pacheco Pereira, o tal que se encafuou numa saleta da Assembleia da República para cheirar as cuecas de Sócrates. É o estilo de Ferreira Leite, a tal que se assustava ao pensar que Sócrates pudesse ficar no Parlamento como deputado. É o estilo de Cavaco Silva, o tal que só teve palavras de rancor logo após ter vencido as eleições de 2011. É o estilo da JSD, a tal que fez cartazes a chamar mentiroso a um político e governante e que o pretende pôr em tribunal. É o estilo de Passos e Portas, os tais que trataram, e tratam, os portugueses como gado para abate.

É o estilo ideal para um país de broncos, chanfrados dos cornos e pulhas. Como se vê.

Sonsice 4.0

À entrada de um café, um homem de 27 anos explicava a Seguro que os dois anos de mar tinham sido antecedidos por um trabalho na CELPI, a fábrica de celulose. “Eu gostava era de trabalhar na fábrica onde estava”, reconheceu. Ao lado estava o primo, que ao acabar de estudar fôra também parar às traineiras.

“Vamos trabalhar para que as pessoas possam trabalhar onde gostarem”, garantiu Seguro ao pescador. E explicou como: "O PS tem um programa de reindustrialização do país denominado 4.0. Esse nosso programa abrange todos os sectores de atividade. Queremos criar mais oportunidades de trabalho", acrescentou o líder do PS.

Líder do PS promete “trabalhar” para que se possa trabalhar onde se gosta

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Esta pode bem ser a frase da campanha, ou de uma carreira. Seguro, o chefe de família que só promete o que jura poder cumprir, promete “trabalhar para que as pessoas possam trabalhar onde gostarem.” Minha nossa senhora… (e penso na minha vizinha do 4º andar, uma senhora séria como só ela). Depois de limpar as ruas dos vagabundos, ou em concomitância, Seguro avançará directamente para o estádio seguinte ao do pleno emprego: bulir a gosto. Tens emprego, e estás bem pago, o horário é jeitoso, e o patrão um bacano, mas ainda não é bem aquilo que gostas de fazer porque, enfim, os colegas, ou a vista, ou a distância, ou os restaurantes da zona, ou o lugar para arrumar, ou aquela certeza de que nasceste para ser artista, ou director-geral, ou moinante, estão a deixar-te inquieto e com uma sensação desconfortável? Calma, cidadão, porque Seguro vai estar a trabalhar no teu problema, a trabalhar para seres um profissional estupidamente feliz no espaço de uma legislatura.

Moralistas, demagogos, populistas e sonsos de calibre variado, aprendam com um mestre.

O salazarismo está bem e não irá desaparecer tão cedo

Ainda em 2005 aparecia aí aquele que viria a ser primeiro-ministro, em cartazes espalhados pelo país, a prometer 150 mil empregos», lembra João Ferreira.

O cabeça de lista da CDU às eleições europeias continua: «também sabemos que, quando ele deixou o Governo, havia mais 250 mil desempregados do que aqueles que ele encontrou».


Europeias: CDU lembra promessas não cumpridas de Sócrates

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Pois é, andam para aí esses mentirosos do PS a fazer promessas só para enganar os camponeses, os operários e os marinheiros. Com que então, 150 mil empregos que era canja criar em 2005 e, chega-se a 2011, népias, é ao contrário. Que filhas da puta, estes mentirosos do PS. Razão teve o PCP em votar ao lado de Passos e Portas para correr com eles. É que não se admite que não tenham criado os 150 mil empregos quando era tão fácil, caso quisessem, ter criado 1 milhão e 500 mil empregos em 6 meses ou menos.

Por exemplo, aquando do início da crise mundial em 2008, o que se deveria ter feito de imediato era uma reforma agrária à maneira. Estás desempregado? Toma lá uma sachola e volta com umas batatas ou uns repolhos. Outro, rápido. Estás desempregado? Apresenta-te na cooperativa “Unidos do Bernardino” amanhã às 9 da matina. Toma lá a senha para poderes entrar. Outro, vá. Rápido, camaradas, estamos a criar empregos!

O mesmo empreendedorismo revolucionário para a crise das dívidas soberanas em 2010. Não há dinheiro? Camaradas, ala aos bancos que eles estão cheios de carcanhol roubado aos trabalhadores. Se não chegar, começamos a imprimir Jerónimos nas rotativas do Avante. Vamos mostrar ao imperialismo que não precisamos do seu dinheiro sujo!

Um dia alguém irá gastar uma tese de doutoramento, ou apenas de mestrado, a exibir a perfeita sintonia matricial entre os comunistas e os reaccionários portugueses. Dois grupos que, juntos, vão conseguir comemorar 100 anos de um salazarismo que nunca desapareceu nem se sabe quando, ou se, irá desaparecer.