Arquivo da Categoria: Valupi
Uma lição sobre a importância da ciência – e da política
Estado da Nação
Exactissimamente
O presidente cabrão
«A fase crítica por que passámos deixou marcas e sequelas profundas. Devemos, pois, permanecer atentos e vigilantes, designadamente em matéria de disciplina das contas públicas e de controlo do endividamento externo, para não cairmos de novo numa 'situação explosiva', risco para o qual alguns alertaram os Portugueses em devido tempo.»
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O termo “cabrão”, de acordo com o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, pode servir para identificar uma “pessoa de má índole, mal formada, que age de forma reprovável ou considerada como tal“. Também se aplica a uma “criança que berra muito“.
O actual Presidente da República não se cansa de repetir que as causas para a crise portuguesa estão na “indisciplina” e no “descontrolo” das contas públicas. Mais repete ter sido ele quem alertou para o problema assim que o mesmo passou a existir.
Ora, quando é que começaram os avisos a serem lançados aos 4 ventos? Tomando como referência a expressão-fetiche “situação explosiva“, temos que foi a partir do discurso de Ano Novo de 2010, ano eleitoral para as presidenciais e inerente plano para derrubar o Governo logo a seguir à reeleição. Antes, não havia risco de explosão. No discurso de Ano Novo de 2009, em cima da crise internacional que rebentara no final de 2008 e ano eleitoral para as legislativas, Cavaco mostrava-se preocupado com a “verdade” e com os filhos e os netos, fazendo perfeita sintonia com o discurso de Ferreira Leite. E no discurso de Ano Novo de 2008 a situação do País estava tão boa, tão espectacular, que ele até teve tempo para destacar o problema dos acidentes rodoviários como questão da maior importância nacional.
Quer isto dizer que foi o Governo minoritário de Sócrates, o qual tomou posse no final de Outubro de 2009, o responsável pela “situação explosiva”. Governo esse que terá escolhido ser “indisciplinado” e “descontrolado” na gestão das contas públicas quando teria sido tão fácil ser “disciplinado” e “controlado”. Bastava ter dado ouvidos àqueles que alertaram os portugueses, entre os quais se encontram Cavaco, António Borges, Medina Carreira e Miguel Relvas, entre muitos outros que, felizmente, estão agora ao lado de Passos e Portas a corrigir todos os erros dos malvados dos socialistas (de raça socrática, não confundir com os verdadeiros socialistas que não querem nada com essa gente).
Moral da história: um Presidente da República que não passa de um chefe de facção, e que nesse papel se presta a qualquer vilania para favorecer os seus, ficará para a memória colectiva como o presidente cabrão.
Para eventuais dúvidas semânticas, consultar um bom dicionário.
Passamento do falecido
Melhor do que falecer nasceu morto e não ressuscitou. Convidado a desabafar, Miguel Guilherme sugere que o humor feito pela dupla é demasiado sofisticado para as classes etárias abaixo da B. Dá vontade de rir, concordo, e aqui vai a citação tal como aparece na imprensa:
“Não sei se o programa será para todos os públicos, mas acho que veio trazer um novo público à TVI e isso é bom. Além disso é um formato de cinco minutos, não se pode esperar que seja top de audiências. Quem vê o programa são pessoas da classe A e B, e de outra faixa etária.“
Tudo bem, o Miguel saberá que a divisão por classes A, B, C e quejandos é uma fórmula que diz apenas respeito à capacidade financeira dos consumidores, não se confundindo com diferenças etárias. Mas, então, que se lembrasse disso antes de falar caso esteja a faltar algo no raciocínio. Já o que não oferece dúvidas é a pujança da sua criatividade, pois estávamos todos muito longe de supor que o esquerdista puro e verdadeiro que assina a autoria do programa andasse preocupado com a falta de riso nas classes A e B. Malhas que o império tece, ou talvez uma deformação por tão prolongado e íntimo convívio com o mundo dos reclames.
Seja como for, uma justiça impõe-se ser feita neste funeral. Graças à existência do programa, e ao talento do Ricardo Araújo Pereira, um dos melhores momentos de televisão em Portugal, desde sempre, é este: Episódio 10
Não por acaso, o Ricardo não aparece em cena. Não por acaso, já não estamos no território infantilóide dos Gato Fedorento. Não por acaso, o resultado nada tem de cómico.
É de uma tristeza pungente. Belíssimo soco no estômago.
Primário
Leio, indignado, as sondagens do Expresso e do jornal i que dão uma queda brutal ao PS.
Este é o resultado da irresponsabilidade do António Costa.
Os danos provocados ao PS devido à sua ambição pessoal!
Um PS em queda, depois de termos ganho as eleições europeias e do Governo ter chumbado pela terceira vez no Tribunal Constitucional.
Lamentável.
O PS não merece isto!
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Sinceramente, não sei como é que alguém se arrisca a ficar ao lado de Seguro depois desta exibição de demência. O homem – seguindo os subidos exemplos de Passos e Cavaco, esses dois enormes estadistas – foi para o Facebook chamar a atenção para umas sondagens onde aparece destroçado por António Costa, acabando por validar esses resultados. O homem imagina que os militantes socialistas têm a idade mental de 4 anos, pelo que bastaria fazer uma birra e chamar nomes ao outro. O homem quer que acreditemos que não tem ambição, ou que a tê-la não é pessoal; terá, portanto, uma ambição impessoal ou uma não-ambição não-pessoal. O homem, mesmo que viva mil anos, nunca irá entender que o PS tinha mesmo de descer nas sondagens quando fica provado aos olhos de toda a sociedade que o partido está nas mãos de uns desvairados que imitam a direita na promoção do ódio e que estão dispostos a destruir o PS.
Mas o homem consegue acertar na última frase, e até podia ter acrescentado uma dúzia de pontos de exclamação à sua e nossa indignação.
REVOLUTION THROUGH EVOLUTION
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Aspirina marada
Costinha
Costa surpreendeu ao não ter surpreendido. O seu discurso de candidatura é fraco por ser vago e superficial. Um conjunto de banalidades donde não salta qualquer ideia que suscite debate, sequer polémica.
Em vez de termos um Costa capaz de chamar os bois pelos nomes, saiu-nos um Costinha politicamente correcto que está a confundir o centro com a mediocridade. Esta, nivela por baixo. Aquele, dá força ao meio.
Sim, Costa é mil e uma vezes preferível a Seguro. Essa parte está mais do que resolvida, até por ser evidente. Mas a liderança continua a ser a expressão da coragem. E para sempre o será. Em 2014, em Portugal, a coragem é um bem mais raro do que a esperança.
Vamos lá a saber
Baseado em factos verídicos
A violência como estratégia
Luís Montenegro, nesta quarta-feira, carimbou os juízes do Tribunal Constitucional como irresponsáveis e desertores. A novidade desta violência verbal pode surpreender pela dessacralização da relação entre os pilares legislativo e judicial do regime, algo nunca antes visto. Ainda mais surpreendente é tal degradação vir da direita, tradicionalmente orgulhosa na pretensão de ser a protectora das instituições judiciais.
Só que estamos a lidar com uma outra direita. É uma direita nascida da antiga, sim, mas que apenas assimilou a dimensão cínica, oportunista, hipócrita e rapace da praxis da geração anterior. De fora deixou a experiência da conquista da liberdade, algo que não se limita ao 25 de Abril, e do compromisso ao centro para o desenvolvimento social. Depurada dessa memória, a direita actual não tem outra agenda para além das ambições individuais. É uma direita que não tem medo de nada nem de ninguém, por isso cultiva a violência enquanto técnica e exibição de superioridade. Como provou em 2009, pode montar golpadas que envolvem escutas a conversas privadas de primeiros-ministros, campanhas de ódio sistemáticas, inventonas jornalísticas para perverter actos eleitorais a mando da Presidência, tentativas de derrube do Governo recorrendo à perseguição judicial. Como provou em 2011, pode afundar o País inteiro num resgate que iria inevitavelmente causar uma incalculável devastação económica só para conseguirem chegar ao poder. Como prova todos os dias, a sua dedicação não está na defesa da comunidade, está na obediência aos senhores que montaram a presente reengenharia social.
Esta direita permite-se ser impunemente violenta porque se sabe num país onde a violência é igualmente um factor operativo na esquerda. Aqui, é o sectarismo fanático que estilhaça qualquer possibilidade de unidade. Pelo que esta direita e a esquerda pura e verdadeira acabam por querer exactamente o mesmo: um permanente estado de violência, a necessidade de se imaginarem rodeados de inimigos para se acharem no direito de cometer as maiores atrocidades.
Moto-contínuo
Exactissimamente
De regresso ao absolutismo
O ataque do PSD e CDS à Constituição já era uma promessa em 2010, isto para ficarmos por uma memória recente. É um ataque ideologicamente legítimo, como qualquer outro que venha de outros quadrantes e entidades políticas. Mas a estratégia não foi levada às urnas em 2011.
Também fora da decisão dos eleitores ficou a estratégia do empobrecimento, vocalizada apenas avulsamente e baixinho em 2010. PSD e CDS optaram por mentir em todas as matérias onde viam que poderiam perder votos. Ao mesmo tempo, sabiam que o Memorando era a desculpa perfeita para terem carta branca numa tentativa de revisão constitucional sem necessidade de obter dois terços de aprovação no Parlamento. Estão a cumprir zelosamente o plano, pois ainda não apresentaram um Orçamento isento de ilegalidades constitucionais. Algumas têm recebido cobertura do próprio Tribunal Constitucional.
Esta actual investida da direita contra o órgão de soberania sem o qual a Constituição será apenas letra morta tanto pode ser uma manobra retórica para embrulhar mais um aumento de impostos como até poderá ser o início da antecipação das legislativas, aproveitando a crise socialista para ir a eleições nas melhores condições possíveis: com o PS ainda nas mãos de um Seguro completamente descontrolado e sem qualquer credibilidade.
PSD e CDS cavalgaram radiantes o tigre populista quando atiçaram durante anos a Grei contra os “corruptos” socialistas que dominavam o aparelho de Estado e pervertiam a moral e os bons costumes. Era preciso acabar com as fundações, os motoristas e as viagens de avião em 1º classe. Era preciso que os socialistas, esses vírus, fossem metidos nas prisões pois os males do mundo vinham deles e só deles. Chegados ao poder, desfrutando de uma situação onde se escudam na invasão estrangeira e contam com a cumplicidade activa do Presidente da República, e em que nem sequer a oposição consegue ter uma qualquer bandeira para agitar, o inimigo passou a ser o Tribunal Constitucional e os seus procedimentos democráticos.
Passos, Portas e Cavaco podem parecer políticos medíocres, mesmo decadentes, com percursos e atitudes caricatos e/ou desprezíveis, tantas as mentiras e contradições. Mas são eles que mandam no País. E, se conseguirem vergar o Tribunal Constitucional, se conseguirem organizar manifestações ou mesmo agressões contra os juízes, o absolutismo estará factualmente de volta.
Triunfo e apoteose da cultura dos afectos
No último dia de campanha para as europeias assistimos a uma coreografia que espelha luminosamente a complexidade do PS como ecléctico e fulcral partido do regime democrático a viver uma original crise de liderança. Começou dias antes com a manifestação das tensões entre Seguro e Sócrates a propósito da sua presença no almoço da Trindade e na descida do Chiado. Assis impôs publicamente a sua participação, calando os tenentes de Seguro. Entretanto, Soares recusa o convite de última hora para também estar presente. Chegado o dia, Sócrates desiste da arruada, apenas vai ao bife. Mas de lá parte ao encontro de Soares para que se soubesse a quem dava a sua lealdade e de que lado estava a razão, enquanto Seguro calcorreava a Rua do Carmo. Nisto, aparece Maria Barroso “por acaso” no Rossio para oscular Seguro. Eis o que o chefe de família anticongressos encontrou para dizer a respeito:
Para o líder do PS, Maria de Jesus Barroso "é uma distinta socialista e além disso é uma amiga muito querida, uma amiga muito pessoal, que quis vir dar um beijinho e um abraço".
"Naturalmente que isso é um gesto de uma grande importância política mas para mim é também um gesto muito pessoal", acrescentou António José Seguro.
Um gesto muito pessoal, é disto que Seguro gosta e é a isso – “um imenso magma de afectividade”, para citar alguém conhecido – que ambiciona reduzir o partido. Emoções à flor da pele, afectos capitosos, sentimentos embriagantes, este é o seu terreno de eleição (pun intended). É a famigerada “cultura dos afectos” com que Seguro se apresentou aos militantes socialistas em 2011, os quais estariam, ficava em subtexto, numa grave carência de abracinhos e beijinhos depois de 6 anos de frieza socrática.
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Slater addicted
A primeira vez que vi uma prova de surf foi, e por acaso, em 2013. A Fuel TV estava a transmitir as etapas do campeonato do mundo e tinha vários comentadores nacionais que iam botando faladura. A minha ignorância era tão grande que nem sequer estava familiarizado com o sistema de pontuação. E conseguia entender muito melhor um chinês fanhoso do que os nomes das manobras que deixavam tão excitados os comentadores. Mas já era um estupendo surfista desde 2011. Nesse ano, num Outubro com temperaturas dignas de Junho, comprei 5 lições de surf numa escola da Caparica. Consegui gastar 3, correspondendo a 6 horas de iniciação e a um total de menos de 1 minuto em que me aguentei na vertical sem cair, e este feito heróico numas ondas quase rasas. Foi o que me chegou e sobrou para ter a certeza de haver em mim um surfista que ainda iria dar muito que falar – dar muito que falar na minha rua, pois o plano seguinte consistia em comprar um fato de surf e passar a exibi-lo aos fins-de-semana para os vizinhos.
A prova era a Volcom Fiji Pro. Comecei a ver decorria a 2ª eliminatória, sendo essa a primeira para Kelly Slater dado que a vedeta tinha chegado atrasada ao evento. Como as segundas eliminatórias são constituídas pelos que não passaram na 1ª, era como se tivesse participado e não tivesse ganhado a sua bateria (a parte das eliminatórias onde se compete com 1 ou 2 surfistas para decidir a passagem). Não sei desde quando este nome se atravessava na minha desatenção, mas será correcto dizer que era desde sempre considerando que se trata da maior figura da história do surf. Conquistou em 1992 o primeiro dos seus 11 títulos mundiais, pelo que também eu chegava com atraso à romaria, um atraso de 21 aninhos. Não conseguiria reproduzir mais nenhum nome de surfistas actuais ou passados, estrangeiros ou portugueses, e mesmo sobre o Kelly desconhecia tudo para além do facto de existir e continuar a competir. O que não poderia desconhecer a partir de então era o entusiasmo com que a equipa da Fuel TV falava dele, o mesmo entusiasmo com que os fiéis de todas as religiões descrevem as epifanias respectivas. O homem não era só o rei da modalidade, era igualmente um semideus da linhagem de Posídon com incontáveis e indeléveis exibições dos seus poderes sobrenaturais. Ao mesmo tempo, essa intimidade tão antiga deixava escapar notas de cansaço, quase uma impaciência. Até quando é que teriam de continuar a prestar-lhe vassalagem, a pergunta corria subterrânea. Afinal, ele estava com 41 anos, quando a média dos restantes surfistas do campeonato mundial é de 30 para baixo. E sendo este desporto tão física e mentalmente exigente, que anda ali a fazer um quarentas?

