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ADN da Justiça

O tribunal que julgou o processo Face Oculta ordenou a recolha de ADN dos condenados a penas superiores a três anos. Esta decisão, que só será cumprida após trânsito em julgado do acórdão, será inédita, uma vez que para a base de dados apenas têm sido canalizados perfis de ADN de condenados em crimes sexuais, homicídios e roubos.

Juiz manda recolher ADN de Vara, Penedos e Godinho

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O inimigo público nº 1 de Portugal era um sucateiro de Ovar que oferecia robalos, canetas e garrafas de whisky, embora não necessariamente por esta ordem, só para conseguir ter dinheiro para dar ao seu amado Sporting Club de Esmoriz. E o País passou décadas sem disso ter a mínima suspeita. Mas eis que uns bravos em Aveiro resolveram acabar com o regabofe e agora não descansam enquanto não salgarem o processo para que nunca mais ninguém se esqueça destes supercriminosos. Os corruptos estão apavorados, o partido invisível dos interesses e dos negócios, esse reino da sucata, vai ser alvo de uma perseguição implacável e de castigos exemplares.

Como é óbvio, para além de ser evidente, e ainda de estar à vista de todos, este é também um processo político muito antes de ser um processo meramente judicial. Os responsáveis pela investigação, a qual começou em finais de 2008, decidiram espiar um primeiro-ministro em funções sem terem autorização para tal. O resultado dessas captações não foi mantido em segredo de justiça no âmbito original da investigação a Manuel Godinho, antes foi usado numa dupla frente: por um lado, tentou-se uma golpada onde Sócrates ficaria como arguido de um possível crime de atentado ao Estado de direito precisamente em cima das eleições legislativas de 2009; por outro lado, as escutas começaram a circular entre jornalistas e políticos do PSD. Foi assim que em 24 de Junho de 2009 se ouviu de Manuela Ferreira Leite uma convicção acerca do que Sócrates saberia pessoalmente a respeito de um eventual negócio entre a PT e a TVI. Só a leitura das escutas teria permitido tal soberba e gozo, diz a intuição. Igualmente de Cavaco vimos declarações alarmistas em Junho de 2009 a respeito do mesmo assunto, sendo altamente provável que tenha sido dos primeiros a ser informado do que se ia montando em Aveiro. A direita estava frenética e febril num ódio pesporrento, antecipando como iminente o fuzilamento do Governo por via do Ministério Público. Porém, como Pinto Monteiro não lhe fez a vontade, a 18 de Agosto a Casa Civil e o Público lançavam a “Inventona de Belém”. Havia eleições e havia que fazer uma pulhice gigante, algo nunca antes visto. Não fizeram assado, fizeram cozido.

Talvez o episódio mais pícaro, e mais simbolicamente irónico, associado ao processo Face Oculta seja aquele que envolve a Manela aquando da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu em 2009. Num 30 de Maio à tardinha, a senhora partilhou com os jornalistas o seu medo de usar o telemóvel por ter medo de estar a ser escutada a mando dos socialistas. Onde é que ela se lembrou de fazer essa revelação? Em Aveiro, ao lado dos senhores que estavam nessa mesma altura a escutar as conversas privadas de Sócrates.

Este é um processo político que inevitavelmente atinge Sócrates na sua reputação, dada a proximidade pessoal com Vara e o desgaste que o caso lhe provocou por estar nele envolvido por razões laterais. De que forma será afectado, veremos pela sua reacção e pelo desfecho do processo após os recursos estarem esgotados. Aliás, Sócrates será o factor que explica a severidade das penas e a patente intenção de humilhação absoluta que a notícia da recolha do ADN configura. De outra forma, não parece razoável que um processo com esta dimensão logística e força conflitual, o qual chegou a afrontar um Procurador-Geral da República e um Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao ponto de não se cumprirem ordens, se justifique para castigar um sucateiro que não passa de um sucateiro. Num país onde há casos abertos, e sem fugas ao segredo de justiça, que envolvem prejuízos para o erário público de centenas e milhares de milhões de euros, qual seria então a gravidade das penas dos eventuais acusados caso se seguisse o critério de proporcionalidade aplicado no Tribunal de Aveiro? O desmembramento dos culpados seguido da entrega dos restos a cães esfaimados?

A Justiça não é justa quando deixa escapar criminosos. A Justiça não é justa quando culpa inocentes. A Justiça não é justa quando é lenta. Mas a Justiça também não é justa quando quer ser algo mais do que tão-só Justiça.

A ministra e a sua vara

Ouvi durante o almoço, na mesa ao lado.

Mulher 1 (consultando o tele-esperto) – Olha, o Vara apanhou 5 anos!

Mulher 2Hã?…

Mulher 1O Vara, foi julgado e apanhou 5 anos naquele processo da corrupção.

Mulher 2 Ai sim?… ah, mas agora começam com os recursos, e isso ainda vai acabar por prescrever, já se sabe…

Mulher 1Pois… mas olha que com esta ministra da Justiça as coisas já não são assim…

Mulher 2Sim, sim. Ela é dura e não permite essas coisas.

Mulher 1Pois é, pois é.

Não faço ideia se 5 anos de cadeia efectiva correspondem à pena mais justa para os crimes que o Tribunal de Aveiro deu como provados adentro da acusação feita a Armando Vara. Se calhar até merecia mais. Se calhar merecia menos. E até se pode colocar a fantástica hipótese de merecer um pedido de desculpas. Mas no que não tenho dúvidas é aonde a estratégia populista do PSD e CDS no combate ao PS de Sócrates conduziu, ao serviço de uma oligarquia apavorada e vingativa: o bom povo português acha que a Justiça pode ser mais ou menos castigadora de supostos corruptos consoante os ministros se exibam mais ou menos justiceiros.

Quando pensamos no que a elite da direita tem feito em Portugal desde o Cavaquistão, culminando na procura de troféus de sangue em ordem a se poder continuar a imaginar intocável, apetece largar uma homérica gargalhada para cima desta decadência ubíqua onde até a direcção do maior partido da oposição deve estar neste momento a dançar em êxtase à volta do madeiro incandescente, tamanha a alegria com o auto-de-fé em curso.

Estado Islâmico contra o resto do Mundo

O procurador-geral russo pediu hoje restrições no acesso a um vídeo difundido no YouTube pelo Estado islâmico em que ameaça "destronar" Vladimir Putin e iniciar uma "guerra de libertação" no Cáucaso russo.

EI ameaça “destronar” Putin devido ao seu apoio à Síria

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Quando se vê estes chanfrados dos cornos a pedir aos EUA, à NATO, à Rússia e a uma série de outras potências militares para se unirem num bombardeamento em grupo sobre os seus corpinhos, fica evidente que não estamos a lidar com extremistas religiosos – trata-se apenas de uma alucinação colectiva cujo desfecho é o suicídio. Pelo que o enfoque principal neste fenómeno não está na dimensão militar – pese a urgência em parar os crimes, ou em reduzi-los ao mínimo possível – mas no estudo dos processos psicológicos pelos quais se dá a alienação.

Seja qual for a estratégia a adoptar por americanos e europeus, um facto crucial mantém-se: os muçulmanos, vivam onde viverem, continuam sem repudiar politica e culturalmente os crimes que são cometidos em nome da sua religião e da sua fé. Essa é a principal passividade dos justos que há a lamentar, uma que alimenta directamente a loucura criminosa e suicida.

Costa, estadista ou excursionista?

Na entrevista de António Costa desta quarta-feira, na TVI24, a última pergunta foi algo como “Consigo vai regressar a tralha socrática?“. Paulo Magalhães chegou ao ponto de embrulhar o momento num manto de seda, carimbando a pergunta como sendo “provocatória”. Com isso estava a querer mostrar que a entendia – e queria que Costa disso se aproveitasse – como elemento da retórica de baixa política usada por Seguro.

Não foi oferta que Costa tivesse aceitado, pois de imediato revelou o desconforto, mesmo insegurança, que o tema lhe provoca. E saiu-se com algo como “A actual direcção errou ao fingir que o passado não existe. O PS é todo o seu passado, com o que tem de bom e o que tem de mau. Os erros que se cometeram são para serem assumidos.” e etc. e tal. À superfície, estamos perante a expressão de uma posição de mero bom senso, com a qual qualquer um se pode relacionar vendo nela racionalidade e bondade. Mas no fundo do que ficou dito, pela enésima vez, estamos confrontados por uma gravíssima disfunção do candidato a primeiro-ministro.

Costa não controla o que os outros dizem, restando-nos a esperança de que controle o que diz. Se resolve botar faladura sobre a canalha matéria dos “socráticos” tem de se decidir: ou aborda a questão como estadista ou como excursionista. Nesta última opção, pode falar em “erros”, “falhas” e até “maldades” sem justificar a ponta de um corno. Está tudo bem porque é tudo derrisório, como assinalou o jornalista, o que significa que é tudo irrisório, é conversa de merda. Como estadista as regras são outras, sendo a primeira a da responsabilização. Quando Seguro e os seus dizem que elementos não identificados dos Governos e direcções partidárias liderados por Sócrates desviaram dinheiro público para bolsos privados, práticas que o actual secretário-geral do Partido Socialista (!!!) associa ao “partido invisível dos negócios e interesses”, esta é uma calúnia até prova em contrário. Calúnia agravada por estar a ser usada como arma política contra camaradas seus e no âmbito de uma disputa interna. Não há, então, qualquer consequência dessa violência? Será um acto lícito, seja à luz do Estado de direito ou da moral cívica? Também no PS vale tudo, como o PSD e o CDS consagraram a partir de 2008? É neste tipo de pulhices, onde se acusa sem prova só para efeitos de assassinato de carácter, que a comunidade se encontra com o melhor de si própria?

A desconcertante e infeliz conclusão é a de que Costa comunga da axiologia difamatória usada por Seguro, pois admite haver uma parte “má” que se deve carregar como penitência por amor aos nossos e critica-o por não ter feito esse sacrifício. Mas de que se fala? De quem se fala? Quem fez o quê? E quem são os socráticos, afinal? É o Campos e Cunha? O Freitas do Amaral? O Francisco Assis? O Carlos Zorrinho? O Alberto Martins? É que toda essa malandragem, e dezenas ou centenas doutros, andou ao serviço do diabo.

A postura de Costa, ficou nesta entrevista clarificado, é paternalista. Ele está a transmitir ao eleitorado que não é um socrático, seres algo peçonhentos, mas que muito pior do que ser-se socrático é não se ser defensor do partido. E o partido, qual família, para o bem e para o mal, tem de perdoar aos seus e tirar daí lições para que os erros não se repitam. Portanto, com ele, esses erros são passado – e não tentar escondê-los será a forma mais rápida de os levar a ficarem esquecidos. Esse pormenor, coisa de nada, do Seguro à solta fora da gaiola ter muito claramente replicado o argumentário das campanhas negras ainda hoje usadas contra Sócrates e contra o PS é olimpicamente ignorado pelo pater familias que julga poder varrer para debaixo do tapete uma cisão sem possibilidade alguma de reconciliação sob pena de o PS se transformar num circo grotesco.

Resta-me a consolação de imaginar que num universo paralelo há um António Costa a responder a um Paulo Magalhães paralelo o seguinte: “Não sei o que a expressão “tralha socrática” quer dizer, mas tenho reparado que sai invariavelmente de cabeças a quem os portugueses não devem nada. Bem pelo contrário.

Vamos lá a saber

Se nem com este Governo além-Troika, nascido de uma fraude eleitoralista, o povo se virou para a esquerda pura e verdadeira a pedir protecção e auxílio, quando é que a esquerda pura e verdadeira vai poder finalmente libertar-nos do imperialismo norte-americano e da exploração capitalista? Quando o Cinfães ganhar a Champions?

O exemplo dos mortos-vivos

Quando questionado sobre a situação das eleições para a Federação Distrital de Braga, no porto de pesca da Póvoa de Varzim, o dirigente socialista disse que condena "todas as irregularidades, tenham a origem que tiverem".

"Felizmente introduzi regras no PS que permitem detetar as irregularidades e corrigi-las", acrescentou o secretário-geral do PS.

Seguro, Agosto de 2014

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As palavras em política estão gastas e perderam significado. A melhor maneira de reconciliarmos os portugueses com a política, em particular com o PS, é através do exemplo.

Seguro, Julho de 2011

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A invasão de zombies no PS de Braga não é das mais difíceis de explicar. Rick Grimes resolveria o problema entre dois bocejos. Isto porque bastava ter-se feito o que até em editoriais de jornais se demonstrou ser canja fazer: identificar os prevaricadores. Tal não foi feito. Ainda mais estranhamente, apareceram dirigentes do PS a desvalorizar a situação, senão mesmo a validá-la como normal. Dirigentes ligados ao secretário-geral. O homem transparente, com três gloriosos anos no lombo de heróica construção da nova forma de fazer política, decidiu-se finalmente a falar no assunto e o que lhe saiu é paradigmático do que está em causa tanto para o futuro do PS como para o futuro do País (isto, na eventualidade de chegar a primeiro-ministro).

Quando Seguro diz condenar “todas as irregularidades, tenham a origem que tiverem“, está a transmitir a seguinte mensagem aos seus apoiantes e eleitorado:

– Há várias irregularidades, não só esta de Braga, esqueçamos a de Braga, ele há tantas irregularidades, não falemos mais desta.
– As irregularidades têm diferentes origens, isto é que importa realçar.
– Sim, algumas das irregularidades podem ser da responsabilidade de pessoas ligadas a mim, talvez, mas outras vêm dos outros, fatalmente.
– No fundo, isto é normal, é a regra, é assim que se faz política, como o povo bem sabe.
– Os outros que se estão a queixar são os piores, porque fazem o mesmo que nós, ou pior, mas fingem que são puros, como o povo bem os topa.
– O único puro nisto tudo sou eu, pairando acima das irregularidades, como o povo deve ficar a saber para saber em quem votar.

As discrepâncias entre a retórica angélica e messiânica de Seguro, um triste que não passa um dia sem dizer a alguém quão valioso ele se acha a si mesmo, e a sua praxis, mais um sonso a repetir a estratégia do PSD no ataque aos socialistas desde 2008 até ao presente, atingem o zénite no quadro das suas relações com o seu próprio partido. Como é que se permite a um fulano que entra em cena como o Torquemada da purificação da política supostamente corrompida por camaradas seus tamanhas exibições de hipocrisia e cumplicidade com a corrupção de processos democráticos? É que nem jornalistas nem militantes o confrontam com a obscenidade ululante; numa aparente, ou real, aceitação desta inaudita decadência no PS.

A candidatura de António Costa, se outros méritos não tivesse, já estaria justificada por ter levado o passaroco a sair da gaiola, assim mostrando a toda a gente as porcarias que está disposto a fazer. E não se imagina possível uma futura reconciliação entre os dois lados da barricada, precisamente porque não está em jogo nenhuma diferença ideológica ou programática de fundo. Nesses casos, é possível construir pontes dado existir uma topografia comum. Na situação actual do PS, e sem paralelo na sua história, o conflito opõe regulares socialistas a exemplares mortos-vivos vindos lá do outro mundo.

O pastor e os borregos

A propósito da fúria da Ana Matos Pires – E ela cedeu – aproveito para publicar um documento que interessa a jornalistas e cidadãos por igual. Trata-se de uma entrevista feita por Marília Gabriela ao Silas Malafaia em 2013. A parte mais interessante, e intensa, do episódio é sobre a homossexualidade e sua visceral condenação pelo entrevistado. Mas o que causa perplexidade é a incapacidade da jornalista para desmontar o discurso primariamente falacioso do Malafaia. Tal revela graves falhas de conhecimentos científicos, históricos, bíblicos e teológicos por parte da Gabi, a qual é só uma das mais reputadas e experimentadas jornalistas brasileiras. A situação vai ficando vexante para o espectador com dois neurónios a funcionar à medida que vamos assistindo ao progressivo encantamento que o discurso sinistro e demente provoca na senhora.

Muitas são as lições que se podem tirar deste espectáculo.

Semedo acerta contas com Louçã

O coordenador do Bloco de Esquerda afirmou na sexta-feira à noite não ter "qualquer expetativa" em relação às eleições internas no PS, considerando que, independentemente de quem ganhar, "não vai nascer uma alternativa de esquerda".

"No Bloco de Esquerda, não estamos disponíveis para dar o braço a quem faz da política uma simples rotação, uma simples alternância", afirmou, contrapondo que o partido dá "a mão, o braço, o corpo e a luta àqueles que querem mudar para a esquerda a vida do país".

Semedo, 2014

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Rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise.

Louçã, 2011

O quarto poder não deve adormecer no quarto do poder

"Science is the belief in the ignorance of experts."

Richard Feynman

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A partir de 15 de Setembro, André Macedo deverá ser o novo director do Diário de Notícias, caso nenhuma oposição interna apareça a perturbar ou impedir o processo. Oportunidade para dizer uns disparates acerca do papel cívico da imprensa. Tenho a vantagem, no que ao disparate diz respeito, de não ter qualquer informação a respeito do porquê e do para quê dessa escolha para além daquelas que foram tornadas públicas.

O ciclo do João Marcelino fica marcado pela constante erosão nas vendas e por ter deixado, ou ter querido, que o jornal se transformasse num órgão de apoio político faccioso e chunga. Conseguiu ser quanto ao fanatismo e à baixa política uma versão do Correio da Manhã, donde o próprio tinha vindo, sempre alinhado com os interesses de Passos Coelho ainda no tempo em que este andava a elogiar Sócrates só para indispor a Manela. Colhe esclarecer onde está aqui o problema: não no facto de um órgão de comunicação social ter uma agenda política, qualquer que ela seja desde que a Constituição o permita, mas no facto de essa agenda não ser assumida deontologicamente. Isso gera perversidades várias que se ligam directamente com o papel da imprensa num regime democrático e num país onde a iliteracia e o absentismo cívico são um flagelo que afecta toda a comunidade em todas as suas dimensões estruturantes e dinâmicas. Assim, Marcelino é um director do DN que se vê partir com alívio pois nada do que fez se aproveita civicamente, bem pelo contrário.

André Macedo, sendo uma escolha da casa, suscita toda a espécie de expectativas, sejam positivas ou negativas. Tanto poderá ser uma opção ditada pelo preço ou pelo tempo, indicando uma perspectiva economicista ou uma solução provisória, como poderá ser a intenção de abrir a direcção a uma nova geração para que se renove de cima a baixo o projecto editorial. É nesta última hipótese que aposto, esperando que o André continue a exibir a sua habilidade para explicitar as matérias económicas e que permaneça fiel ao espírito de decência que revela nos seus artigos de opinião. Se o “Dinheiro Vivo” servir de exemplo do que possa ser o futuro do DN, então veremos a promoção de uma outra inteligência no tratamento informativo, uma inteligência sintonizada com a parte mais dinâmica da economia e da sociedade.

Só que não chega. A imprensa escrita está sob ameaça de extinção em todo o Mundo dada a abundância de informação gratuita e ubíqua. Toda a gente antecipa o iminente desaparecimento dos jornais em papel, mas ninguém ainda descobriu como obter lucro com os jornais digitais. A situação poderá mudar à medida que os suportes tecnológicos mudam, e eles mudam incessantemente, mas a questão do financiamento é uma incógnita sem resposta na actualidade. Que fazer? Ir ao encontro das necessidades dos indivíduos, uma receita com milhares, ou milhares de milhões, de anos. Será que esses indivíduos, no que ao caso do DN diz respeito, precisam assim tanto de mais uns bacanos obsessivamente envolvidos numa caça a Sócrates e aos socráticos? Hum… enfim… é discutível. O que não oferece discussão, todavia, é o reconhecimento da necessidade de termos quem faça sínteses da crescente complexidade, e também do selvagem caos, que nos cerca. Para tal, uma nova geração de jornalistas, e de jornalismo, precisa de surgir. Características como a especialização académica, a interdisciplinaridade do trabalho de investigação e uma cultura política de serviço à comunidade farão a diferença no mercado. Ou isso ou o jornalismo desaparece por completo, o que será uma outra forma de resolver o problema.

Como lembra Feynman, a descoberta da verdade é realmente a descoberta da mentira, e chega para o gasto. Vale para a ciência e vale para a imprensa – essa arte de mostrar como nem todos os reis vão nus, alguns passeiam-se com umas ceroulas ridículas.

Revolution through evolution

Daughters Provide as Much Elderly Parent Care as They Can, Sons Do as Little as Possible
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Influenced by Self-Interest, Humans Less Concerned About Inequity to Others, Researchers Find
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Does love make sex better for most women?
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Once a Cheater, Always a Cheater?
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Men viewed more favorably than women when seeking work-life balance
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Middle-Aged Women Missing Passion (and Sex) Seek Affairs, Not Divorce
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Abusive leadership infects entire team

Continuar a lerRevolution through evolution

A banalidade do horror

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Este mapa do pretenso califado criado e a expandir pelo ISIS teve destaque na imprensa internacional sensacionalista nos finais de Junho. Foi supostamente publicado pelo ISIS, ou por algum seu apoiante ou simpatizante. Vem acompanhado pela informação de corresponder a um plano de 5 anos para se realizar. Obviamente, trata-se de uma piada infantilóide, ou burlesca, tal é o grau da alucinação. Mas também poderá ser uma peça de propaganda destinada aos seus presentes e futuros militantes, os quais dependem da alucinação para o projecto suicida, tragicamente burlesco, que lhes dá sentido à vida. Leia-se What is ISIS hoping its abhorrent beheading video will achieve? para uma contextualização da estratégia de comunicação deste grupo na batalha pela notoriedade mediática.

O vídeo onde se filma o assassinato de James Foley foi tão eficaz na sua onda de choque emocional que até obrigou o Presidente da única superpotência no Mundo a fazer uma declaração especial. Declaração essa marcada pela mesma perturbação emocional pública a que pretendia responder. Não será arriscado supor que sem o vídeo a registar uma decapitação a mesma morte teria gerado muito menos impacto político. Até podemos supor que um vídeo onde se mostrasse James Foley a ser morto por fuzilamento levaria a prescindir-se do tom que Obama exibiu ontem. Que há numa decapitação que provoca uma reacção mais intensa do que numa outra qualquer forma mais comum de matar alguém? Talvez estes dois aspectos: o de assim se exibir a irreversibilidade da morte, pois não há recuperação possível e a eventual esperança mais desvairada desaparece, e o de se estimular agudamente a nossa empatia, levando-nos a somatizar os golpes observados. É o mesmo mecanismo que explica a popularidade dos filmes de terror, e até de qualquer cena de violência, levando a descargas neuronais de alarme que acabam por originar uma fase de prazer.

Abre-se aqui uma questão em relação à resposta que as sociedades democráticas devem dar ao óbvio interesse da propagação mediática dos efeitos criminosos e destrutivos do terrorismo para os seus agentes e responsáveis últimos. Por exemplo, censurar esses conteúdos parece fazer sentido, nem que seja como retaliação se mais nenhum valor for metido na balança. Ora, essa tentativa depara-se com um singelo facto: é impossível de realizar num ecossistema digital que começa por permitir aos criminosos uma actividade impune e imparável de divulgação. Alguns, ainda assim, alegarão que qualquer forma de mitigação e constrangimento da transmissão dos conteúdos é melhor do que a aplicação dos nossos sacralizados princípios da liberdade de expressão e do direito à informação a quem se está a servir deles para nos atacar. A questão, pela sua profunda complexidade e melindre, leva rapidamente à polarização argumentativa.

Creio que os EUA erraram ao dar aos assassinos o tipo de atenção que eles pediram. A ocasião poderia ter sido utilizada para começar a desmontar a retórica do horror que é o combustível da real violência cometida por estes grupos de alienados, psicopatas e crianças abandonadas. É que não há qualquer diferença quanto à dignidade e à compaixão em causa, quanto à revolta e à fúria que possamos sentir, entre a morte de um jovem jornalista norte-americano e a de um velho pastor, de quem nunca saberemos o nome e a história, deixado a agonizar num desterro qualquer do Iraque por assassinos similares. Isso está a acontecer há semanas ou meses, numa carnificina circense, e todos os líderes mundiais o conhecem com o detalhe que quiserem. Pelo que estamos a precisar de quem nos reoriente o olhar para a fonte do horror. Não é o vídeo, a faca, a cabeça cortada. Esse é o efeito aleatório e secundário do horror. O horror está a nascer noutro lado. Na passividade dos justos.

Confissões de um bandido

Continuando a divagar na entrevista de Seguro ao Público, eis mais um naco a pedir catalogação:

- Como é que se escrutina [a ligação entre a política e os negócios], se não sabemos do que é que o secretário-geral do PS está a falar ou de que pessoas?

Em 2007, quando coordenei a reforma do Parlamento, propus e foi aceite que a declaração de interesses dos deputados estivesse disponível na Internet. Isso permite saber quais os interesses que possam existir por parte dos deputados – que podem ser legítimos e aceitáveis. O que não é aceitável é que existam deputados que, por serem advogados, estejam a coberto do estatuto dos advogados e argumentem que não podem dizer para quem é que trabalham e de quem é que recebem dinheiro. Aqui está um exemplo do estabelecimento de uma fronteira entre os negócios e a política. A responsabilidade de um político é criar níveis de transparência para que os eleitores possam avaliar, a responsabilidade das polícias e da Justiça é investigar quem comete essas ilegalidades.

A “separação” entre a “política” e os “negócios”, a avaliar pela insistência e ênfase, é o grande programa político de Seguro para o País. A temática simboliza, ou sintetiza, as da “transparência” e da “ética” que igualmente invoca copiosamente. Tendo em conta que já agita essa bandeira há vários e bons anos, sendo uma vedeta com pleno acesso à comunicação social para expor o seu pensamento e propostas, é revelador que em 2014, Agosto, os dois jornalistas que o entrevistam não saibam nem do quê nem de quem está o homem a falar. Oportunidade para esclarecer, dada a frontalidade da pergunta e relevância da matéria? Melhor: obrigatoriedade para explicitar e justificar as gravíssimas acusações, posto que Seguro é um ser dotado de uma enorme coerência, o qual pretende dar exemplos morais aos seus pares e à plateia e o qual reclama estar a inaugurar o ciclo histórico da nova forma de fazer política? Népias.

A única certeza que temos a respeito do sentido da campanha negra de Seguro é a de que ela se dirige ao tal “PS associado aos negócios e interesses que é apoiante de António Costa“, os tenebrosos membros do “partido invisível” – portanto, aos socráticos, sejam eles quem forem. Será esta uma opinião popular, quiçá maioritária entre a população, como facilmente se demonstra. Há dias ouvimos Passos Coelho a repetir ipsis verbis o ataque de Seguro. Escusamos de telefonar ao Nuno Melo para descobrir o que o CDS tem a dizer sobre o assunto. O PCP e o BE com entusiasmo se juntam a este coro, aproveitando para voltar a denunciar esse perigoso direitista-imperialista inimigo da classe operária e do povo chamado Sócrates. Ana Gomes por aí anda a amplificar e detalhar o evangelho de Seguro, assim mostrando que os demónios da corrupção socrática já nem no Rato encontram abrigo. E o Marinho e Pinto, provavelmente, acrescentará alguns capítulos aquando do período eleitoral das próximas legislativas. Só está a faltar uma coisinha neste arraial – pensar.

Pensemos. Em 2007 foi dada a Seguro a liderança da equipa que fez a reforma do Parlamento. Anos mais tarde, Seguro reclama os louros por esse trabalho, sublinhando que foi graças a si que se conseguiu introduzir mais transparência na vida política. Ao mesmo tempo, Seguro diz que os mesmos que lhe deram essa e outras oportunidades de influenciar processos vários, os mesmos que lhe deram repetidamente o lugar no Parlamento apesar da sua falta de lealdade, são os mesmos contra os quais combate na pugna pela separação da política e dos negócios. Então, por que razão foram os corruptos oferecer a Seguro um machado para ele lhes cortar as cabeças? É que, como se lê na resposta dada ao Público, agora a declaração de interesses dos deputados está disponível na Internet, permitindo saber quais os interesses que possam existir por parte dos deputados. Aparentemente, portanto, os corruptos querem é mais transparência, não o contrário. Faz isto algum sentido?

Faz. Basta recordar que Seguro aceitou pertencer durante anos a um grupo de deputados que legitimava Governos que ele denuncia na actualidade como sendo os mais perversos e danosos que Portugal teve. Quando se diz que indeterminados ex-governantes e parlamentares são cúmplices, activos ou passivos, da “captura do Estado por interesses particulares” está-se a elaborar uma das mais graves acusações que é possível fazer seja a um político ou a um cidadão. Equivale, literalmente, a dizer que gente morreu, gente adoeceu, gente foi roubada, bens públicos e particulares foram destruídos e danificados, entre um sem-número de outros males, porque alguém num Governo desviou recursos públicos para bolsos privados. É de crimes gigantescos que estamos a falar, ainda mais graves por ocorrerem no topo da hierarquia do Estado. Pelo que o sentido das palavras de Seguro encontra-se nas acções de Seguro. É o próprio que assume a sua colaboração ininterrupta com aqueles que hoje nos diz serem os maiores criminosos de Portugal. E essa é uma confissão que devemos respeitar e tornar consequente – começando por exigir que Seguro se retire da política para todo o sempre.