A banalidade do horror

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Este mapa do pretenso califado criado e a expandir pelo ISIS teve destaque na imprensa internacional sensacionalista nos finais de Junho. Foi supostamente publicado pelo ISIS, ou por algum seu apoiante ou simpatizante. Vem acompanhado pela informação de corresponder a um plano de 5 anos para se realizar. Obviamente, trata-se de uma piada infantilóide, ou burlesca, tal é o grau da alucinação. Mas também poderá ser uma peça de propaganda destinada aos seus presentes e futuros militantes, os quais dependem da alucinação para o projecto suicida, tragicamente burlesco, que lhes dá sentido à vida. Leia-se What is ISIS hoping its abhorrent beheading video will achieve? para uma contextualização da estratégia de comunicação deste grupo na batalha pela notoriedade mediática.

O vídeo onde se filma o assassinato de James Foley foi tão eficaz na sua onda de choque emocional que até obrigou o Presidente da única superpotência no Mundo a fazer uma declaração especial. Declaração essa marcada pela mesma perturbação emocional pública a que pretendia responder. Não será arriscado supor que sem o vídeo a registar uma decapitação a mesma morte teria gerado muito menos impacto político. Até podemos supor que um vídeo onde se mostrasse James Foley a ser morto por fuzilamento levaria a prescindir-se do tom que Obama exibiu ontem. Que há numa decapitação que provoca uma reacção mais intensa do que numa outra qualquer forma mais comum de matar alguém? Talvez estes dois aspectos: o de assim se exibir a irreversibilidade da morte, pois não há recuperação possível e a eventual esperança mais desvairada desaparece, e o de se estimular agudamente a nossa empatia, levando-nos a somatizar os golpes observados. É o mesmo mecanismo que explica a popularidade dos filmes de terror, e até de qualquer cena de violência, levando a descargas neuronais de alarme que acabam por originar uma fase de prazer.

Abre-se aqui uma questão em relação à resposta que as sociedades democráticas devem dar ao óbvio interesse da propagação mediática dos efeitos criminosos e destrutivos do terrorismo para os seus agentes e responsáveis últimos. Por exemplo, censurar esses conteúdos parece fazer sentido, nem que seja como retaliação se mais nenhum valor for metido na balança. Ora, essa tentativa depara-se com um singelo facto: é impossível de realizar num ecossistema digital que começa por permitir aos criminosos uma actividade impune e imparável de divulgação. Alguns, ainda assim, alegarão que qualquer forma de mitigação e constrangimento da transmissão dos conteúdos é melhor do que a aplicação dos nossos sacralizados princípios da liberdade de expressão e do direito à informação a quem se está a servir deles para nos atacar. A questão, pela sua profunda complexidade e melindre, leva rapidamente à polarização argumentativa.

Creio que os EUA erraram ao dar aos assassinos o tipo de atenção que eles pediram. A ocasião poderia ter sido utilizada para começar a desmontar a retórica do horror que é o combustível da real violência cometida por estes grupos de alienados, psicopatas e crianças abandonadas. É que não há qualquer diferença quanto à dignidade e à compaixão em causa, quanto à revolta e à fúria que possamos sentir, entre a morte de um jovem jornalista norte-americano e a de um velho pastor, de quem nunca saberemos o nome e a história, deixado a agonizar num desterro qualquer do Iraque por assassinos similares. Isso está a acontecer há semanas ou meses, numa carnificina circense, e todos os líderes mundiais o conhecem com o detalhe que quiserem. Pelo que estamos a precisar de quem nos reoriente o olhar para a fonte do horror. Não é o vídeo, a faca, a cabeça cortada. Esse é o efeito aleatório e secundário do horror. O horror está a nascer noutro lado. Na passividade dos justos.

33 thoughts on “A banalidade do horror”

  1. em absoluto acordo. o horror nasce muito antes da sua materialização e do espectáculo que se gera à volta do mesmo. nasce com a banalização da vida e com a crescente importância que a sociedade dá ao que é não ser. que nojo.

  2. Não concordo nadinha com essa abordagem “compreensiva” e “desvia pró lado” que afinal não é assim tão grave…
    O “problema” está mal identificado e mal visto. O problema na verdade é o Islão, o qual está muito bem representado na sua autenticidade original, pelo Estado Islâmico. Ao menos eles, a quem a “sobranceria” ocidental, e particularmente a esquerda, chama de lunáticos, representam a continuidade, o estilo e a retórica, de Maomé. Este regresso às origens explica o despertar de paixões jihadisticas entre a juventude muçulmana e o seu caráter transnacional. A Al Qaeda era uma coisa de conspiração revanchista. O Califado é a “reconquista” na sua primeira fase. É o facto “game changer” duma batalha ancestral que agora ganha novo fulgor. Nada voltará a ser como antes, ainda que leve gerações a atingir os seus fins.
    Na verdade o califa Ibrahim, não sonha assim tão alto. Ele é o centro, e o elemento agregador que unirá as diferentes tensões violentas que hoje abalam o mundo por efeito da crescente dinâmica “missionária” islâmica. Esta não tem, nem nunca teve, monges ascéticos de corda à cintura. Tem guerreiros de negro que convertem ou matam.
    Se por um momento esquecermos o paradigma do respeito pelas opções religiosas, “que tem de ser tratadas todas por igual”, e bla, bla, bla, bla, e fizermos um juízo crítico, moral e político do Islão, encontramos algo de terrível, assustador, brutal, e contrário a tudo aquilo que o Ocidente “aprendeu”, desenvolveu e criou, e concluímos que o supremacismo totalitário e teocrático que nos querem impor (e querem mesmo…) ao lado do nazismo faz deste uma brincadeirinha infantil…

    “The Muslims are the crudest, and the most sectarian. Their watch-word is: there is one God (Allah), and Mohammed is His Prophet. Everything beyond that not only is bad, but must be destroyed forthwith, at a moment’s notice, every man or woman who does not exactly believe in that must be killed; everything that does not belong to this worship must be immediately broken; every book that teaches anything else must be burnt. From the Pacific to the Atlantic, for five hundred years blood ran all over the world. That is Mohammedanism.” – (Vivekananda, 1863-1902)

  3. Luis FA, não percebo onde estás a ver um “desvia para o lado”, mas entendo que tens algo a dizer sobre o Islão. Presumo, então, que tenhas também uma solução pronta a aplicar. Conta lá qual é.

  4. Antes da solução é preciso fazer o “trabalho de casa” que pessoas como Sam Harris, Roger Scruton, Richard Dawkins, Ayaan Hirsi, e outros, já fizeram. Trata-se de “ler” (em alguns casos reler) a História com olhos abertos e livres. Esquecer o “bull shit” delirante da “golden age” (que nunca existiu enquanto “produto” da “cultura” Islâmica). Ler os “livros fundamentais” desta “religião” e os atos dos seus seguidores, começando pelo principal… Em seguida confrontar o resultado com tudo aquilo que significa o “nosso mundo imperfeito” onde a liberdade, democracia e direitos humanos que ainda assim existem, custaram uma “pipa de sacrifícios”. Depois é preciso entender que as religiões não são todas iguais, e que a partir do momento que se metem na vida das pessoas, ficam sujeitas à avaliação moral e política… Feito este trabalho não tenho dúvidas de que no caso do Islão apenas existe uma solução: obviamente, bani-lo.

  5. A Europa, depois de tantos tiros nos seus pés, não tem genica para se defender das invasões mediterrânicas e islâmicas.

    Mais um motivo para eu ser um grande reaça!

  6. Tudo isso não passa de uma quimera. Ma para os Ocidentais em geral e Americanos em particular fica o aviso: Saddam’s, Kadhafi’s e Al Assad’s podem sere males necessários, sobretudo quando a alternativa é a que agora se apresenta.

    Vamos deixar que cada povo faça o seu caminho e as mudanças internas que acha dever fazer. Vamos deixar de tentar higienizar o mundo à nossa maneira e vamos preocupar-nos com os nossos próprios problemas.

    Se eles se virarem a nós, aí sim, resta-nos defender-mo-nos.

    http://pensamentoliberalelibertario.blogspot.pt/

  7. E tu, Val, és um grande exemplo da passividade dos mansos. Quanto aos realmente justos, agirão quando forem chamados in extremis por patetas aflitos como tu, ou seja, depois da falência das vossas brincadeiras de recreio a que chamam “convites à reflexão”, “tertúlias” e “esforços pela paz”. Apenas querem o reconhecimento de pacifistas para que, como desculpa, não tenham de pegar em armas e lutar quando chegar o dia. O exemplo de Churchill diz-nos muito acerca da natureza de pessoas fracas e insidiosas como tu, Val, que, democraticamente, temos de tolerar, tal como nos diz acerca de inimigos que, pela sua ideologia e intentos radicais, têm de ser combatidos sem compromisso possível.

  8. Olha, Val, toma lá disto para ver se consegues endireitar essa coluna vertebral, antes que te tenha de chamar traidor: “Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and if, which I do not for a moment believe, this island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God’s good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old.”

  9. foda-se, até troco os olhos; e os meus pêlos arrepiam-se de susto; a derme coça-se e as unhas crescem ao contrário: um quilinho de entendimento, por favor, para as mesas corriqueiras ali de cima.

  10. enapa, é isso mesmo,

    o pacifismo exagerado capa os povos. Quando for necessário lutarem para sobreviver à barbárie reparam que não têm tomates, e fazem figuras tristíssimas, como tem acontecido a alguns norte americanos levados a combater em sítios bárbaros. Transformam-se em cobardolas sádicos. Só fazem merda.

  11. Alguns são intencionais e maliciosos, mas a maioria dos comentários são tão básicos que até dói. Parece que a blogosfera está pejada de pastores transmontanos, tal é o alheamento em relação à história recente das manobras geo estratégicas e realpolitik, tão bem servidas pelas “Black Ops”, longe do olhar da borregada que dança ao som dos tambores de guerra dos mérdia.
    Deixo-vos uma citação de Robin Cook, retirada de um artigo do The Guardian :
    “Bin Laden was, though, a product of a monumental miscalculation by western security agencies. Throughout the 80s he was armed by the CIA and funded by the Saudis to wage jihad against the Russian occupation of Afghanistan. Al-Qaida, literally “the database”, was originally the computer file of the thousands of mujahideen who were recruited and trained with help from the CIA to defeat the Russians”.
    Embora contida, esta declaração não vos aguça a curiosidade acerca das possibilidades infinitas de manobras sujas nas costas da opinião pública?
    Não acham estes terroristas demasiado idiotas e convenientes para a agenda Israelense /americana no médio oriente?
    Já sei, indivíduos que, como eu, questionam, são considerados “teóricos da conspiração”,…
    depois vêm os borregos, básicos e outros crentes,…
    finalmente… os filhos da puta que sabem perfeitamente do que falo.

  12. Vieira, junta-te àqueles céticos muito vigilantes e opinativos que acham que o Holocausto não existiu e que foi tudo uma invenção para impedir a harmoniosa e justa visão que Hitler tinha para o nosso mundo. E também as hipérboles contidas no Mein Kampf ou no Alcorão não são para serem levadas a sério, eram só os respetivos autores a brincar, apedrejar até à morte mulheres que se recusam a ser escravas e a viver de acordo com a merda da Sharia ou a intenção de limpar os judeus e os ciganos da face da terra, eram apenas excessos literários e que devem ser perspetivados de acordo com o exemplo de vida profundamente pacífico e edificante desses tais autores. Mas, Vieirinha, worry not, porque, ao contrário dos islâmicos, palhaços como tu têm, ainda assim, direito a viver em democracia.

  13. Shalom enapa, tu és dos tais que sabem perfeitamente do que falo.
    Merda como tu pulula por essa internet fora. A argumentação, além de previsível, é que parece um pouco esforçada e anacrónica. Não achas, watchdog do caralho?

  14. Vi há pouco quase em direto a execução pelo Hamas de 16 palestinianos “traidores e vendidos a Israel”! Não esqueço que quem mais manobrou no sentido da a actual divisão do poder político da Palestina entre Hamas e Frente de Libertação, foi o próprio Israel! Interessava-lhe dividir! Não esqueçamos que os dois lideres de ambos lados (Arafat e Isaac Rabin) adeptos da via negocial e pacífica foram ambos assassinados. Isaac Rabin pelo seu próprio povo.

  15. heheheh, olha o guardian a dizer que al-quaeda significava o ficheiro de base de dados com os nomes dos guerrilheiros mujaedin.
    mas assim, Val, como é que fica o 11 de Setembro, meu?

  16. Justin, não percebi nada do que escreveste. Aliás, minto: a parte do “heheheh” parece-me passível de entendimento.

    Tenta lá outra vez, please.

  17. –Valupi, o teu sentido de humor é muito engraçado! Mas já te cacei!… És o Vitor Cunha a fazer umas horas extra por estes lados…

  18. o cunha censura e deixa passar o que lhe agrada, que comenta com a lógica da batata escola miranda ou provocação rosqueira à amorim. o que não for alinhado com o estado-geral da basófia é bloqueado.

  19. @ ignatz — Verdade, verdade… E está a perder a graça… Quanto ao Valupi, apesar de tudo, talvez ainda não seja um caso tão definitivamente perdido…

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