Confissões de um bandido

Continuando a divagar na entrevista de Seguro ao Público, eis mais um naco a pedir catalogação:

- Como é que se escrutina [a ligação entre a política e os negócios], se não sabemos do que é que o secretário-geral do PS está a falar ou de que pessoas?

Em 2007, quando coordenei a reforma do Parlamento, propus e foi aceite que a declaração de interesses dos deputados estivesse disponível na Internet. Isso permite saber quais os interesses que possam existir por parte dos deputados – que podem ser legítimos e aceitáveis. O que não é aceitável é que existam deputados que, por serem advogados, estejam a coberto do estatuto dos advogados e argumentem que não podem dizer para quem é que trabalham e de quem é que recebem dinheiro. Aqui está um exemplo do estabelecimento de uma fronteira entre os negócios e a política. A responsabilidade de um político é criar níveis de transparência para que os eleitores possam avaliar, a responsabilidade das polícias e da Justiça é investigar quem comete essas ilegalidades.

A “separação” entre a “política” e os “negócios”, a avaliar pela insistência e ênfase, é o grande programa político de Seguro para o País. A temática simboliza, ou sintetiza, as da “transparência” e da “ética” que igualmente invoca copiosamente. Tendo em conta que já agita essa bandeira há vários e bons anos, sendo uma vedeta com pleno acesso à comunicação social para expor o seu pensamento e propostas, é revelador que em 2014, Agosto, os dois jornalistas que o entrevistam não saibam nem do quê nem de quem está o homem a falar. Oportunidade para esclarecer, dada a frontalidade da pergunta e relevância da matéria? Melhor: obrigatoriedade para explicitar e justificar as gravíssimas acusações, posto que Seguro é um ser dotado de uma enorme coerência, o qual pretende dar exemplos morais aos seus pares e à plateia e o qual reclama estar a inaugurar o ciclo histórico da nova forma de fazer política? Népias.

A única certeza que temos a respeito do sentido da campanha negra de Seguro é a de que ela se dirige ao tal “PS associado aos negócios e interesses que é apoiante de António Costa“, os tenebrosos membros do “partido invisível” – portanto, aos socráticos, sejam eles quem forem. Será esta uma opinião popular, quiçá maioritária entre a população, como facilmente se demonstra. Há dias ouvimos Passos Coelho a repetir ipsis verbis o ataque de Seguro. Escusamos de telefonar ao Nuno Melo para descobrir o que o CDS tem a dizer sobre o assunto. O PCP e o BE com entusiasmo se juntam a este coro, aproveitando para voltar a denunciar esse perigoso direitista-imperialista inimigo da classe operária e do povo chamado Sócrates. Ana Gomes por aí anda a amplificar e detalhar o evangelho de Seguro, assim mostrando que os demónios da corrupção socrática já nem no Rato encontram abrigo. E o Marinho e Pinto, provavelmente, acrescentará alguns capítulos aquando do período eleitoral das próximas legislativas. Só está a faltar uma coisinha neste arraial – pensar.

Pensemos. Em 2007 foi dada a Seguro a liderança da equipa que fez a reforma do Parlamento. Anos mais tarde, Seguro reclama os louros por esse trabalho, sublinhando que foi graças a si que se conseguiu introduzir mais transparência na vida política. Ao mesmo tempo, Seguro diz que os mesmos que lhe deram essa e outras oportunidades de influenciar processos vários, os mesmos que lhe deram repetidamente o lugar no Parlamento apesar da sua falta de lealdade, são os mesmos contra os quais combate na pugna pela separação da política e dos negócios. Então, por que razão foram os corruptos oferecer a Seguro um machado para ele lhes cortar as cabeças? É que, como se lê na resposta dada ao Público, agora a declaração de interesses dos deputados está disponível na Internet, permitindo saber quais os interesses que possam existir por parte dos deputados. Aparentemente, portanto, os corruptos querem é mais transparência, não o contrário. Faz isto algum sentido?

Faz. Basta recordar que Seguro aceitou pertencer durante anos a um grupo de deputados que legitimava Governos que ele denuncia na actualidade como sendo os mais perversos e danosos que Portugal teve. Quando se diz que indeterminados ex-governantes e parlamentares são cúmplices, activos ou passivos, da “captura do Estado por interesses particulares” está-se a elaborar uma das mais graves acusações que é possível fazer seja a um político ou a um cidadão. Equivale, literalmente, a dizer que gente morreu, gente adoeceu, gente foi roubada, bens públicos e particulares foram destruídos e danificados, entre um sem-número de outros males, porque alguém num Governo desviou recursos públicos para bolsos privados. É de crimes gigantescos que estamos a falar, ainda mais graves por ocorrerem no topo da hierarquia do Estado. Pelo que o sentido das palavras de Seguro encontra-se nas acções de Seguro. É o próprio que assume a sua colaboração ininterrupta com aqueles que hoje nos diz serem os maiores criminosos de Portugal. E essa é uma confissão que devemos respeitar e tornar consequente – começando por exigir que Seguro se retire da política para todo o sempre.

12 thoughts on “Confissões de um bandido”

  1. Não foi o PS que pôs Seguro como secretário geral, assim como não foi o PSD quem pôs Coelho no lugar em que está.
    Alguém duvida disto?
    Pois é disto que se fala quando se fala de ligação de interesses económicos com a política.
    Cada um deles defende quem lá o pôs. E não me peçam o nº de cartão de cidadão, morada e profissão desse quem lá o pôs. Que é o que nos pedem estes secretários gerais quando lhes falamos assim…
    Não sei. Só conheço o milagre. Pelo milagre é fácil deduzir que santo lhe esteve na origem, embora seja muito difícil prová-lo.

  2. Tudo se resume ao chamado marketing político!
    O Tozé como réplica do Passos Láparo, está a agir
    como se fosse numa “marcha” em que ambos pegam
    na ponta do varal que suporta o arco da governação,
    no caso, como os portugueses há muito que desacre-
    ditaram nos políticos que, de um modo geral melhoram
    de vida à conta da “porca” e, começam a considerar os
    partidos como associações de malfeitores eis que, aí
    estão eles a “lutar” pela transparência e pelo acabar
    da mistura de negócios com a política … como se isso
    fosse possível! É o mais puro cabotinismo e atirar areia
    para os olhos dos eleitores!
    No caso particular do PS, são montes de casos duvidosos
    ocorridos no consulado do Tozé, hoje mesmo, se fala de
    mais uma golpada para as eleições da distrital de Braga,
    algo que já aconteceu em Matosinhos em que subiu um
    parada “fervoroso” apoiante do ainda lider que, por sua
    vez de forma muito transparente escolheu um inimigo
    declarado do Governo do PS para concorrer à Câmara
    de Cascais … mas, há mais, por isso as declarações dos
    jotas valem o que valem, eles só leram as capas dos livros!!!

  3. se há alguem supeito de não separar a politica dos negocios é jose seguro.nunca ouvi defender a introduçao dos genericos.nunca o ouvi criticar o sr. joão cordeiro,e para pôr a cereja no bolo,convida para candidato à camara de cascais,o maior adversario do ps e do serviço nacional de saude!

  4. entretanto, decorre uma votação no ionline sobre o candidato preferido e …o seguro está à frente! será possível que o nosso povo seja tão estúpido ao ponto de dar a vitoria a este demagogo ?? por favor, digam-me que não ou vou já ali abrir os pulsos…

  5. Seguro tem a máquina laranja a trabalhar para ele e o Relvas a inscrever militantes. Está no papo.

  6. com estas sondagens,limpo o meu tutu!é a direita a comandar os seus jornais!há tempos, ouvi dizer que a imprensa regional ia receber apoios! é o vale tudo.ao que chega a filha da putice de um politico,que põe adversarios do ps a votar em eleiçoes dentro do partido.não acredito, mas é bom ,este “sobressalto” para mobilizar as hostes de antonio costa.

  7. O que me admiraria era ver Seguro perder as primárias, tamanha é a “chapelada” que aí vem. E querem saber a verdade? De pois de “isto” ter chegado ao ponto que chegou, já tanto faz Seguro como Costa. Ontem contaram-me que um magistrado envolvido em diligências sobre “montes brancos” e afins encontrou um arma carregada em cima da sua mesa de cabeceira. Alguém a colocou lá, sem recado escrito. A arma foi ameaça suficiente e clarissima. Que acham que este magistrado vai fazer? Pedir socorro a Cavaco, a Passos, a Portas, à maioria parlamentar, à PGR , ao Governador do BdP, ao Provedor da Santa Casa? Ao Jerónimo, ao Louçã, ao Seguro; ou ao Marinho e Pinto que agora está mais interessado em saber qual o valor do subsidio da CML à fundaçâo Soares, do que falar do completo descalabro da justiça e de outras instituições da República? insituiç, nto dinheiro, ao ;, omo

  8. “Que acham que este magistrado vai fazer?”

    o habitual, armar em vítima para acautelar engulhos futuros. isso é treta do costume, são todos ameaçados mas nunca morre ninguém.

  9. Ignatz, de facto nunca morre ninguém. Cá estão os “brandos costumes”. A cobardia ou simples cedência amedrontada. Foram séculos a engolir ditaduras religiosas e “laicas”. De modo que, agora, basta uma simples ameaça que a gente caga-se toda. “Eles” sabem muito bem com que povo lidam. Por ser como somos, depois desta troikada toda , passamos ao mundo a ideia de que se pode fazer tudo sobre um povo todo, até lhe destruir a Constituição e as instituições, sem que um assomo de dignidade se erga do chão queimado que já deixou de ser pátria de gente para ser domínio de párias com “visto gold”.

  10. o senhor juiz, tinha por habito dormir com a pistola no quarto.nessa noite esqueceu-se de a levar para o quarto. o mordomo (tambem têm direito a mordomo) a meio da noite,foi lá colocá-la.esta é a verdade.

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