Desabafo sobre a actualidade nacional: o nosso novo populismo
Arquivo da Categoria: Valupi
A pergunta do momento
Vítor Gonçalves é um jornalista medíocre e mal-educado, porque sonso em versão Mr. Smile. Tal não impediu que Proença de Carvalho lhe, e nos, oferecesse uma aula sobre o que é o Estado de direito e o que deve ser uma imprensa que o respeite e promova. Quanto a saber se o Vítor Gonçalves a compreendeu, ou sequer se tem alguma noção do que seja o Estado de direito ou o sigilo profissional e a privacidade, as imagens disponíveis não permitem dar resposta a essas magnas questões.
Para além disso, Proença de Carvalho desanca em Paula Teixeira da Cruz, assinala a anomalia que aconteceu nas sentenças do Face Oculta e faz a pergunta do momento: quem são os poderosos?
Baldaia’s effect
Costa acabou de perder os dois debates com Seguro, mesmo que a ansiedade de uma parte significativa dos comentadores não lhes tenha permitido ver nem a vitória de Seguro no primeiro debate nem a contradição de Costa no segundo, quando atacou as banalidades do seu próprio PS "copiado" pelo PS de Seguro. Tivesse Seguro a comunicação social e a opinião publicada que tem Costa e eu não apostava um cêntimo sobre quem vai ganhar as primárias socialistas.
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O Baldaia é um incansável defensor de Cavaco e de Passos. Nada contra isso, obviamente. O Baldaia é igualmente uma máquina de fabricar platitudes, o que pelos vistos compensa pois suponho que esteja a ser pago pelo trabalho. Essa dupla condição não retira o interesse, imprevisto, ao contacto com o seu pensamento. No exemplo acima, ficamos com o retrato mental do direitolas típico a olhar para o actual PS.
Começa com a declaração de que Costa perdeu os dois primeiros debates com Seguro. Que significa o verbo “perder” neste texto? Apenas que o Baldaia, independentemente do que viu ou lhe terá atravessado a cognição em relação aos debates, não gosta da possibilidade de ser Costa o próximo secretário-geral do PS. Vai daí, dizer que Costa perdeu é o seu contributo para a desvalorização desse candidato. É o equivalente exacto do apupo.
Sabemos que entrámos dentro da cabeça do Baldaia através da sua retórica simplista porque o homem não gasta um caracter a explicar como é que alguém, que até podia ser a minha vizinha do 4º andar, pode perder debate algum com um ser que quase se desfez em lágrimas na fúria de anular a discussão política e de emporcalhar o seu adversário, e que depois foi reduzido à sua fétida inanidade do princípio ao fim dos segundos 30 minutos. O Baldaia não explica esse mistério, talvez porque os mistérios não têm explicação, mas desencantou um enigma de arrebimbomalho: Costa tem a comunicação social e a opinião publicada na mão. Exemplos? Népias. Está a falar do quê e de quem? Acaso sabe o que se tem dito de Costa nos jornais e televisões? Estará a falar da sua TSF? A declaração é tão fantástica que até duvido que o Baldaia tenha ouvido ou lido algum comentário aos debates.
Eis aqui um jornalista a dar a sua opinião política, e muito bem, mas a deixar igualmente um convite a que se opine sobre a sua pessoa política. E é nessa junção, a partir da qual intervém na discussão pública, que o jornalista saí conspurcado pelo sectarismo político manifestado. Por exemplo, o Baldaia acha que Costa denunciou “banalidades” do PS quando este estava era a desmontar a fraude que Seguro é. Baldaia não quis perder tempo a pensar e aproveitou logo para carimbar como “contradição” a maravilhosa descoberta. Mais tarde, olhando à sua volta, constatando que mais ninguém estava a reclamar esse tesouro, começou a desconfiar que havia algo de errado. Concluiu que o erro não era dele, era da conspiração costista que tinha tomado conta do comentário profissional.
Se o Baldaia é capaz de uma avaria destas perante uma situação à prova de estúpidos como aquela, do que não será capaz sem a ajuda do Costa?
Revolution through evolution
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Vamos lá a saber
Exactissimamente
E não é que ele acertou?
E o cabrão do Lino?
O acórdão do Face Oculta está disponível para consumo caseiro. Ao contrário do que parece quando se pensa nas suas 2781 páginas, o meio digital permite uma leitura cómoda e rápida. Isso porque não há que ler tudo para ficar lido no que cada um considerar essencial. Por exemplo, usando a função “localizar” ficamos logo a saber que o nome “Sócrates” aparece escrito 35 vezes. Depois, caso seja esse o nosso tópico de interesse, podemos saltar de passagem em passagem com a maior simplicidade. Para além disso, o registo de escrita, por se pretender analítico e justificativo, é igualmente de grande clareza tanto na forma como no conteúdo. Finalmente, o documento tem um interesse acrescido para aqueles que sintam curiosidade a respeito do modo como as autoridades judiciais raciocinam adentro de uma investigação sobre tráfico de influências.
E é essa uma das perplexidades, no mínimo interrogação, talvez enigma, do processo: por que razão deixaram escapar o Lino? De acordo com o acórdão, o ex-ministro foi parte activa do plano gizado pelo Manuel Godinho. Está relatado que ele tentou, em diferentes ocasiões, favorecer os interesses do sucateiro por influência de terceiros. O Tribunal, para agravar o que já parecia irremediável, não deu credibilidade ao seu depoimento, o que equivale a carimbar o homem como mentiroso. Mas deixou-o escapar num exercício de magnanimidade que não tiveram com mais ninguém sobre quem recaiu uma suspeita, bem pelo contrário. Nem sequer por falsas declarações foi processado. Porquê?
Não terá sido por ele ser socialista, mas pode ter sido por ser ex-ministro. A perspectiva de se lançarem numa acusação dessa gravidade a uma figura nessa posição, sem provas incontestáveis dada a complexidade do suposto crime em causa, poderia abrir uma batalha política que iria prejudicar o que já davam por garantido: conseguir acusar todos os envolvidos e aplicar-lhes um castigo draconiano. Ainda assim, o dano público e político continuaria a ser feito à pessoa do Mário Lino e ao Governo de que fazia parte, pois o acórdão deixa sem margens para dúvidas que o Tribunal considera haver indícios mais do que suficientes para o poder ter acusado com a mesma lógica usada para acusar Vara.
O tratamento dado a Lino não se explica por critérios de boa conduta judicial do Tribunal, ficando como contraditório. Para quem tanto se preocupou em realçar que o crime de tráfico de influências nem sequer carece de realização final para ser concretizado, bastando alardear a capacidade para tal, e contando com uma testemunha ao serviço da acusação com o peso de Ana Paula Vitorino, a ideia que fica é a de que o Ministério Público e o Tribunal de Aveiro calcularam politicamente as consequências das suas decisões e optaram por garantir o maior dano pessoal e social para o maior número de envolvidos. Fazer de Lino arguido poderia comprometer o pacote final, dado que não seria um desfecho desejável que fosse ilibado nem seria sensato dar-lhe uma pena que, então, até teria de ser muito maior do que a de Vara dada a proporção por via da sua responsabilidade no Estado. Deixando-o sem acusação formal, mas exibindo que é culpado, tem a vantagem assassina de impedir que se defenda, ficando com a sombra da pena a persegui-lo até ao último dos seus dias. Prender um ex-ministro socialista por causa do sucateiro seria um terramoto na política nacional. Demasiado arriscado quando se garantiram os troféus de caça suficientes.
Ler o acórdão também é benéfico para se contemplar o poder devastador das escutas. Não só a privacidade dos alvos fica exposta como à disposição de manipulações incontroláveis, a começar logo pelo facto de uma transcrição não captar a totalidade da comunicação oral onde a entoação é fonte de sentido. Daí ser tão importante garantir que não possam ser usadas como arma política. E daí serem prática corrente nas ditaduras, precisamente como arma de perseguição política.
O debate “muito histórico”
Um rolo compressor passou por cima de Seguro durante 30 minutos, para a frente e para trás. Costa foi exímio a demonstrar a fraude que Seguro é. Talvez no último debate lhe dê para mostrar o pulha que Seguro igualmente é, seguindo o avisado conselho de Ana Gomes e Carlos Abreu Amorim para se higienizar o PS.
Pensar alto
A percepção de que Costa está a cometer erros estratégicos nesta campanha adensou-se com o 1º debate. Se venceu a prova do auto-domínio emocional, uma das qualidades pilares da liderança mais ameaçadas pelo desvairo emocional e ataques canalhas de Seguro, falhou quando foi arrastado para uma falácia oleosa e quando foi atingido na sua insegurança.
A falácia consistiu na comparação entre as decisões de um secretário-geral do PS, ainda por cima chefe da oposição parlamentar, com as declarações de um comentador político num regular exercício de comentário mediático. Ir buscar afirmações avulsas de Costa para o expor em supostas contradições é, acto contínuo, intencionar uma difamação que não tem defesa directa naquela situação. O alvo tenderá na maior parte dos casos a retorquir de forma atabalhoada, dada a pressão do tempo disponível e a complexidade necessária para desmontar uma descontextualização pejorativa. Costa tentou, sem sucesso, denunciar o golpe baixo. Sem surpresa, os apoiantes de Seguro na comunicação social amplificaram a percepção difamatória ao serviço da descredibilização de Costa. Acontece que não há comparação possível, salvo em ordem a lançar sofismas, entre o estatuto e a responsabilidade de um secretário-geral do PS perante o Orçamento para 2012 e a performance de um comentador num programa televisivo de opinião à época. O que está em causa não é saber o que se disse na Quadratura do Círculo mas sim o que se fez na Assembleia da República.
O ataque à sua insegurança diz respeito a tudo o que envolva Sócrates, seja lá o que for. O desconforto de Costa com essa matéria foi indisfarçável no debate precisamente quando começou a querer mostrar que também ele tem erros a apontar. Começando a análise pela temática dos erros, constata-se a transformação de um substantivo comum numa categoria específica para gasto com Sócrates. E entende-se facilmente porquê: estamos em 2014 mas continuamos no ciclo aberto pelo afundanço do País às mãos da união nacional composta pelo CDS, PSD, BE e PCP. Culpar Sócrates e o PS pela Troika, pelo “além-Troika” e por qualquer coisa negativa que aconteça em Portugal vai ser uma prática diária da direita decadente até ao ano 3000. O que ninguém poderia imaginar, nem nos seus pesadelos mais assustadores, era ver um secretário-geral do PS a repetir essa cassete. Haverá Governos que não tenham cometido erros? E o que serão erros para uns têm de ser erros para todos? Como é óbvio, a discussão acerca dos “erros” dos Governos de Sócrates não pretende conhecer, discutir e pensar coisa alguma, pretende é fazer um julgamento sumário, seguido de execução e abandono dos cadáveres na vala comum.
A insegurança de Costa nesta importantíssima questão estratégica – fosse quem fosse, e seja quem venha a ser, o secretário-geral do PS – materializa-se na sua ambiguidade. Por um lado, quer marcar uma distância, por outro lado, quer manifestar uma solidariedade. Ora, a ambiguidade fragiliza-o, ao ponto de um calhordas político como Seguro se aproveitar desse flanco descoberto para causar o maior dano mesmo que tal leve, concomitantemente, a provocar danos ao seu próprio partido. A situação é tão vexante que seria preferível para Costa simplesmente ficar calado e não se pronunciar sobre Sócrates e socratismos. Ou até a de alinhar no ataque, concordando com Seguro e festejando já estarmos livres do diabo – pelo menos, o assunto ficaria esgotado.
Que deve Costa fazer, então? A resposta é só uma: o que lhe der na real gana. Se acha que há erros dos Governos de Sócrates que colham ser discutidos na presente disputa eleitoral, então bute, venham eles e venham límpidos, crus. Venham com a marca da sua autenticidade, da sua convicção. Se acha que o assunto é espúrio e está ao serviço das pulhices de Seguro, então bute, que assuma isso mesmo e que tal seja dito na cara de Seguro sempre que ele quiser ir por aí. O que está a prejudicar inutilmente Costa é a sensação espalhada involuntariamente de estar a ser hipócrita, de preferir não ter de lidar com essa parte do PS que, ao mesmo tempo, acusa o adversário de ter recusado e maltratado.
Em 2011, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Sócrates 1 568 168 cidadãos. Em 2014, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Seguro 1 033 158 cidadãos. Para quem gosta de agitar gráficos e sondagens, estes números são significativos. Significam que falta nesta disputa interna do PS quem queira dar ao ciclo político de 2005-2011 uma sentido outro para além da tribal culpabilização, seja a de direita ou de esquerda. E para o fazer não é preciso estar de acordo com muito nem com pouco do que aconteceu. Basta pensar alto.
Marx, pá, voltaste a acertar
No debate de ontem, Seguro quis que o seu eleitorado primário, o qual em muito ultrapassa o dos militantes e simpatizantes socialistas, ficasse com a seguinte imagem a seu respeito:
– Que quem se lhe opõe não tem honra e é cúmplice da corrupção.
– Que o tempo dos sacrifícios acabou.
– Que ele já fez as contas.
– Que é necessário e urgente falar verdade aos portugueses.
– Que Sócrates é o culpado de tudo o que aconteceu e acontece de mal ao PS e ao País.
Aquele velhinho cliché de a História se repetir, primeiro como tragédia e depois como farsa, tem no Seguro imitador de Passos uma paradigmática concretização.
Marcelo e os factos jurídicos
As sentenças de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os sentenciados do Face Oculta teriam sempre um interesse duplo, ou triplo. Tendo sido um dos mais notáveis, e sofisticados, divulgadores das campanhas negras contra Sócrates, o homem é também uma sumidade jurídica e desfruta de uma posição única na sociedade portuguesa: é presença constante na TV de sinal aberto, em horário nobre, com promoção e aparato de vedeta, onde defende as agendas mutáveis e plurais da direita com um domínio perfeito da linguagem televisiva. Nenhuma outra área política conseguiu tal feito.
Dividiu em três aspectos o seu julgamento. Primeiro, referindo o óbvio: o Face Oculta atinge Sócrates e o PS. Há danos inerentes. Depois, fazendo um exercício retórico habilidoso que consistiu em voltar a referir o óbvio, isso de as penas “terem sido muito elevadas” para o tipo de crimes em causa, e apresentando duas hipóteses explicativas da anormalidade. Na primeira, o Tribunal teria sido influenciado por uma suposta opinião pública já formada sobre os arguidos, assim levando os juízes a quererem corresponder à expectativa castigadora do povo. Na segunda, aquela que Marcelo considerou a mais importante, e aquela que deixou para último lugar na sua exposição, o Tribunal teria manifestado um suposto efeito desequilibrante na Justiça que leva ao aumento das penas em crimes contra o património por comparação com crimes contra a integridade física.
Não é um acaso esta teoria da valorização dos crimes contra o património ter ficado para o fim e ser apresentada como a explicação mais relevante. É que estamos perante uma patranha cabeluda, um “facto jurídico” herdeiro da melhor tradição dos seus “factos políticos” da era Expresso. É o próprio que começa por circunscrever o fenómeno a julgamentos com jurados, sendo a tese a de que eles se imaginariam mais facilmente a serem vítimas de ataques ao património do que à integridade física. Nenhuns dados estatísticos são apresentados, nenhuma referência a uma qualquer literatura científica é referida. Mas mesmo que o tivesse sido, este julgamento não teve júri. A prova da desonestidade intelectual está na sua conclusão de que nada se pode concluir, seja porque são raros os processos desta natureza, ou mesmo sendo este inédito em Portugal pela tipologia dos envolvidos e seus crimes julgados, seja porque precisaríamos de uma série longa para começar a perceber como é que as penas respectivas comparavam com esta em ordem a saber se estávamos perante a excepção ou a regra. Ou seja, voltamos a discutir o caso daqui por 100 anos, mínimo.
A hipótese de o Tribunal de Aveiro ter cedido ao clima populista geral, a ânsia de ver políticos no chilindró, é apresentada para que se saiba que o Marcelo sabe que isso também terá acontecido. E que ele aprova. Aprova porque as vítimas são xuxas, ainda por cima de raça socrática. Por isso não perde muito tempo com a coisa e embrulha-a no meio do falatório. Também aqui, porque tem a noção da enormidade que está a celebrar, remete para um futuro longínquo a avaliação do presente. Só com outros julgamentos iguais, em circunstâncias sociais iguais, é que daria para observar se a seta na balança sobe, desce ou mantém-se. Uma chatice, não pensemos mais no assunto.
Súmula objectiva do seu exercício:
– Marcelo atesta que as penas são muito elevadas, ao ponto do exagero caricato.
– Marcelo avança com duas explicações, enfatizando a mais inverosímil e inócua.
– Marcelo não faz referência à decisão de recolher o ADN dos condenados a penas superiores a três anos.
– Marcelo não faz referência à tese do procurador Marques Vidal em que este declarou em tribunal que o Governo de Sócrates violou o segredo de justiça ao descobrir, primeiro, a existência das escutas e, depois, o seu móbil, sendo por isso que o suposto plano gizado por Godinho não se concretizou com decisões governamentais.
– Marcelo não toca sequer ao de leve na novidade de pela primeira vez se ter espiado um primeiro-ministro através da Judiciária e do que se fez judicial e politicamente com os registos obtidos.
– Marcelo não recupera o choque entre as autoridades judiciais à volta deste caso, com os magistrados em Aveiro em conflito aberto com o Presidente do Supremo por causa de umas escutas sem qualquer relevância para o processo Face Oculta.
– Marcelo não retira consequências, para uma correspondente responsabilização das entidades judiciais envolvidas, das explicações que dá publicamente.
Ou seja, Marcelo abafa com rigor geométrico a dimensão política deste caso. Confrontado com o dado bruto das penas e sua desmesura, a explicação mais simples é anulada. A explicação mais simples não é a de que aqueles juízes são volúveis ao brado da turba-multa medido em capas do CM. A explicação mais simples ainda menos é a de existirem jurados, algures, que decidiram não sei o quê não sei quando. A explicação mais simples para aquelas penas, já para não falar na obtenção de prova no que ao Vara diz respeito, é só uma: castigo político. São os próprios responsáveis da investigação, do inspector Teófilo ao procurador Vidal, que publicitam a sua intenção persecutória contra aquele poder político.
Admitamos, para avaliação intelectual, que o Marcelo está cheio de razão. Admitamos que o processo Face Oculta não tem um pingo de motivação política. Nesse caso, será aceitável que um tribunal decida que alguns cidadãos podem ser castigados com penas acima da prática corrente só porque um juiz se lembrou de querer passar uma mensagem através do sacrifício da liberdade alheia? Será aceitável que um tribunal elabore as sentenças de acordo com a sua percepção do que seja a opinião pública do momento? Acaso essas eventuais práticas não são, precisamente, a negação da justiça? Acaso constatar que um tribunal corrompe a função suprema de que está investido não é muito mais danoso, muito mais grave, infinitamente mais perverso para a segurança da comunidade do que as supostas trafulhices do sucateiro e do amigo do outro?
Marcelo Rebelo de Sousa, um dos mais poderosos passarões da nossa elite, ri-se enquanto alvitra que há tribunais e juízes que são inimputáveis, distribuindo penas a bel-prazer que não carecem de justificação. A face oculta da nossa elite nunca teve razões de queixa da inimputabilidade dos justiceiros da Justiça. É só rir nesse meio onde se criam factos jurídicos.
Não estamos em condições normais
Henrique Monteiro é um dos mais fogosos defensores de Seguro. Em condições normais, tal bastaria para já não ser preciso fazer mais dois debates. Toda a gente se calaria. Os holofotes apagavam-se. Os dois candidatos poderiam tirar umas merecidas férias. No dia 28 de Setembro, num silêncio apaziguado e convicto, votava-se.
Grande verdade
Já só faltam dois
É tímido, mas também bom rapaz
Na entrevista de António Costa à TVI24, na semana passada, Paulo Magalhães tentou que o seu interlocutor abandonasse o registo das indirectas, ainda por cima básicas, e nomeasse aquele a quem se dirigia. Costa recusou de modo infantil parar com a infantilidade. O assunto pode parecer menor mas nada há de irrelevante quando está em jogo a liderança de um Governo. É para esse cargo que ele concorre, e, pelos vistos, não está a ter o aconselhamento estratégico que o desafio merece. Porque a ideia que fica é a de uma duplicidade imatura, uma parvoeira. Algo que diminui o seu carisma e levanta dúvidas sobre o seu auto-domínio.
Estando eu na posse de um curso de psicologia de café, atribuo a malapata à timidez. Costa é tímido, o que o leva para posturas onde se inibe. Porém, como simultaneamente usufrui do poder no topo da pirâmide, a tensão acumulada solta-se imprevista e violenta. Foi o próprio que o admitiu numa outra entrevista, quando justificou berros e murros na mesa como formas naturais do exercício da gestão sobre as suas equipas. É aquilo a que se tem assistido, ao começar por prometer que não respondia a ataques pessoais, uma excelente ideia, e pouco depois estar também a fazê-los, uma péssima ideia. Sim, os ataques de Seguro são canalhas, apontam ao carácter e à honra do seu adversário, enquanto os ataques de Costa são políticos, denunciam a fraqueza e perversão dos actos do seu adversário. Todavia, para a audiência, Costa aparece a rebolar com o porco na pocilga.
O PS não precisa de união, uma contradição que tolhe o discurso e a pose de Costa. O PS não precisa de Seguro no próximo grupo parlamentar do PS. O PS não precisa de Seguro no PS. O PS, numa situação única na sua história em que tem um secretário-geral disposto a destruir o partido porque se considera superior a ele, precisa de desunião. Frontal, total e decidida desunião. O combate pela liderança do partido está a ser um palco para se exibir a capacidade de liderar o País. Um País que, igualmente, não precisa de união, posto que não há união possível com quem o afundou para o explorar nem com os seus aliados de ocasião.
Vai Costa assumir a evidência? Não. Mas só porque é tímido, não porque seja mau rapaz.
O Crachá de Ouro perdeu o brilho
Teófilo Santiago, o inspector da PJ que dirigiu a investigação do processo Face Oculta, foi entrevistado pela TVI, SIC e RTP no rescaldo da leitura das sentenças em Aveiro. São peças que variam entre os 2 e os 5 minutos, repetindo o mesmo enfoque narrativo: a exploração do estado emocional, afectivo e sentimental do entrevistado. Os perguntadores aparecem a guiar e forçar as declarações, como parteiras das expressões que vão saindo com hipócrito esforço do sujeito. Da TVI para a RTP, passando pela SIC, há um crescendo da anulação da função jornalística, com as suas competências críticas e obrigações deontológicas, substituída pelo simulacro de uma entrevista que não passa de um tempo de antena. A duração das peças acompanha a extensão da manipulação, sendo a RTP a ir mais longe na (con)fusão com a subjectividade do estupendo inspector.
Que ficámos a saber pela boca do próprio? Que teve “satisfação” com as sentenças, que “se fez justiça”, que “as penas não são pesadas, são justas”, que “as sentenças decorrem naturalmente do que os acusados fizeram”, que “o tribunal foi corajoso” e que, apesar de se mostrar um especialista-tagarela em jurisprudência, “não faz parte da sua forma de ser comentar as decisões judiciais”. Primeiros corolários: este inspector da Judiciária (i) vê o julgamento das provas obtidas nas investigações como uma mera extensão mecânica, invariável, da recolha das mesmas e (ii) só raramente vê os tribunais a lavrarem sentenças que decorram do que os acusados fizeram, daí louvar a excepção, a “coragem”, deste tribunal neste processo. Ou seja, os tribunais portugueses, na sua prática corrente, não são “corajosos”, não aplicam a Lei, não “fazem justiça”, afiança o crachá de ouro.
Que mais ficámos a saber pela boca do próprio? Que num processo onde estão envolvidos, directa e indirectamente, um ex-secretário de Estado, um ex-ministro, uma secretária de Estado em funções, um ministro em funções, um primeiro-ministro em funções, processo que rebenta em cima de um período eleitoral para umas legislativas e autárquicas, processo onde pela primeira vez na democracia portuguesa se espia um primeiro-ministro através de uma instituição estatal, processo onde a investigação ilude a legislação antes, durante e depois da espionagem, processo que gera fugas ao segredo de justiça que passam a servir de arma política, processo que dá origem a um clima de suspeição à volta de um Procurador-Geral da República e de um Presidente do Supremo, processo que vai para o Parlamento na forma de uma comissão de inquérito onde se arrasta durante meses, pois é este mesmo processo que o Teófilo considera ser ofensivo considerar como “político”. Ofensivo para si, para a sua equipa, para a Judiciária, para os magistrados e para o Tribunal. Tão ofensivo que ele chega a sugerir que só não respondeu (??) a essas declarações porque não pôde. Será que está a responder agora? Será que lhe chega tratar como “cobardes” os que ousaram fazer tais declarações? Qual seria o castigo suficiente para que o grande Teófilo se sentisse, também aqui, “satisfeito”? Segundos corolários: este inspector da Judiciária (i) não distingue entre tipologias de crimes, esferas do Estado, consequências políticas da acção policial e judicial e (ii) personaliza a reacção dos envolvidos e concebe-se como representante corporativo para efeitos de multiplicação e maximização de um suposto dano de honra. Ou seja, estamos perante um concepção primária, ou fundamentalista, da acção policial e testemunhamos a exposição de um estado mentalmente perturbado que colide com as exigências profissionais de um vulgar agente da Judiciária, quanto mais de um investigador de topo e com a sua responsabilidade num processo deste melindre.
Quem quiser investigar o investigador encontra nesta entrevista de Março de 2014 – «PERDI A INOCÊNCIA NO APITO DOURADO. E COM O FACE OCULTA DESACREDITEI DE TUDO» – indícios suficientes para abrir um processo na Procuradoria-Geral da Inteligência a seu respeito. Por ela ficamos a saber que o Teófilo Santiago tem uma excelente opinião acerca da sua magnífica pessoa, que odeia políticos, que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento protegeram Sócrates (portanto, que são corruptos) e que acha que há leis a mais. A entrevista é radical porque o levou a libertar duas considerações que iluminam a face negra do Face Oculta:
TS- Até já ouvi dizer que mais vale uma primeira página de um jornal do que um acórdão.
NM- Mas podem-se usar os media para ajudar na investigação?
TS- Usar sim, abusar não.
E quem é que decide se é abuso ou santo combate contra o mal? Os Teófilos com o seu brilho nos olhos. Brilho que diz ter perdido após este feito heróico em que filou o sucateiro e o amigo do outro. Só que não o deixaram completar o trabalho, os vígaros do costume, o que lhe provocou uma depressão.
O crachá de ouro perdeu o brilho, a cidade está sem xerife.
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When offering someone a job hurts more than it helps
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2-D or 3-D? That is the Question
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Reacting to Personal Setbacks: Do You Bounce Back or Give Up?
Paulo Bento não tem culpa nenhuma
Uma justiça patriótica e de esquerda, com o patrocínio do CM
O Correio da Manhã – um esgoto a céu aberto que António Costa admira, defende e promove – podia ter feito a sua 1ª capa pós-sentenças do Face Oculta dramatizando o castigo imposto a essa figura patética chamada Manuel Godinho, o sucateiro crucificado no altar da Justiça furiosa. Teria sido uma capa do agrado popular. Ou podia ter colocado pai e filho Penedos lado a lado, dramatizando a desgraça que atingiu essa família outrora tão poderosa e reputada. Teria sido uma capa do agrado popular. Ou podia ter dado o protagonismo ao Tribunal, ou ao juiz que leu a sentença, assim dramatizando a excepcionalidade do processo e do seu desfecho exemplar e justiceiro. Teria sido uma capa do agrado popular. Podiam ter ido por aí, sem receio de perder leitores, se estivéssemos perante um tablóide apenas com interesses comerciais – e não face a um tablóide com uma agenda política específica e sistemática. Assim, a capa que montaram dramatiza a figura de Armando Vara e acrescenta-lhe uma ligação a Sócrates. O agrado popular terá à mesma sido atingido.
Dentro do pasquim, Miguel Alexandre Ganhão, subchefe de Redacção, expande a doutrina aveirense – Vara e Salgado – e anuncia ao povo que já pode dormir descansado: os monstros estão a ser caçados, finalmente. Louva “a igualdade de todos perante a lei”.
No Público – um jornal de referência, certo? – a Direcção Editorial também toma partido pelo povo: Justiça sem medo do poder. É isto que o povo quer, é disto que o povo gosta. O poder que se cuide. Daí terminar o seu manifesto em nome do povo com: “Vara disse estar «chocado» com a condenação. Os portugueses que acompanharam o processo não estão”. Vara, grande javardão, desiste. És apenas um contra os portugueses.
Mas o prémio para o maior amigo do povo tem de ir para o Jerónimo de Sousa, et por cause. Ei-lo, em 47 segundos, a dar-nos um lamiré do que poderá vir a ser uma Justiça patriótica e de esquerda: «A justiça funcionou neste caso». É o próprio que admite não ter lido o acórdão, sendo que tal pormenor em nada o inibe de concluir pelo funcionamento da Justiça. A Justiça terá funcionado para o Jerónimo, conclui-se por exclusão de partes, porque toda aquela bandidagem apanhou pela medida grande. É só esse o critério. Imaginemos que o Tribunal tinha ilibado os réus, ou imaginemos que o Tribunal tinha ilibado o réu Vara – nesse cenário, Jerónimo teria a certeza de que a Justiça não funciona e continuaria sem precisar de ler o acórdão. A rematar, a voz do povo: “Este princípio democrático de uma Justiça igual para todos é fundamental”.
Uma Justiça igual para todos nasceu em Aveiro, dizem em coro esses especialistas em povo que são o Correio da Manhã e o PCP. Contudo, há um sucateiro condenado a mais anos de prisão do que muitos assassinos e por causa de dinheiros a uma escala caricata quando comparada com outros escândalos financeiros. Há um ex-gestor de um banco que não viu provada em tribunal a existência da verba que viu provado em tribunal ter recebido. Há a decisão inaudita de recolha do ADN numa tipologia de crimes que até agora não suscitou tal necessidade em mais nenhum tribunal português. Há o dado estatístico bizarro de todos os 36 arguidos terem sido condenados. Ou seja, aquilo com que estamos a lidar nesta sentença poderá ser qualquer coisa menos a expressão de uma Justiça igual para todos. Tudo neste processo, desde o início e incluindo a exploração política que alimentou, é diferente e estranho.
Se com o Correio da Manhã e com o Jerónimo estamos perante sectários inveterados, já a posição do Público exprime o sentimento colectivo de que Armando Vara, fosse qual fosse a sentença que recebesse, estaria sempre condenado. Não se lhe concede a presunção de inocência depois de tantos anos de assassinato de carácter e perante a pulsão vingativa que a queda de Jardim Gonçalves originou. A sua carreira estava destruída, mesmo ilibado continuaria a ser perseguido. E nessa crença vem por arrasto a tentação para o inibir nos seus direitos. Caso um eventual recurso lhe reduza a pena ou o ilibe, tal gerará reacções furibundas dos especialistas em povo.
Queremos mesmo viver numa sociedade onde o Correio da Manhã e o Jerónimo é que estabelecem quais são os casos onde a igualdade de todos perante a Lei foi servida?

