Pensar alto

A percepção de que Costa está a cometer erros estratégicos nesta campanha adensou-se com o 1º debate. Se venceu a prova do auto-domínio emocional, uma das qualidades pilares da liderança mais ameaçadas pelo desvairo emocional e ataques canalhas de Seguro, falhou quando foi arrastado para uma falácia oleosa e quando foi atingido na sua insegurança.

A falácia consistiu na comparação entre as decisões de um secretário-geral do PS, ainda por cima chefe da oposição parlamentar, com as declarações de um comentador político num regular exercício de comentário mediático. Ir buscar afirmações avulsas de Costa para o expor em supostas contradições é, acto contínuo, intencionar uma difamação que não tem defesa directa naquela situação. O alvo tenderá na maior parte dos casos a retorquir de forma atabalhoada, dada a pressão do tempo disponível e a complexidade necessária para desmontar uma descontextualização pejorativa. Costa tentou, sem sucesso, denunciar o golpe baixo. Sem surpresa, os apoiantes de Seguro na comunicação social amplificaram a percepção difamatória ao serviço da descredibilização de Costa. Acontece que não há comparação possível, salvo em ordem a lançar sofismas, entre o estatuto e a responsabilidade de um secretário-geral do PS perante o Orçamento para 2012 e a performance de um comentador num programa televisivo de opinião à época. O que está em causa não é saber o que se disse na Quadratura do Círculo mas sim o que se fez na Assembleia da República.

O ataque à sua insegurança diz respeito a tudo o que envolva Sócrates, seja lá o que for. O desconforto de Costa com essa matéria foi indisfarçável no debate precisamente quando começou a querer mostrar que também ele tem erros a apontar. Começando a análise pela temática dos erros, constata-se a transformação de um substantivo comum numa categoria específica para gasto com Sócrates. E entende-se facilmente porquê: estamos em 2014 mas continuamos no ciclo aberto pelo afundanço do País às mãos da união nacional composta pelo CDS, PSD, BE e PCP. Culpar Sócrates e o PS pela Troika, pelo “além-Troika” e por qualquer coisa negativa que aconteça em Portugal vai ser uma prática diária da direita decadente até ao ano 3000. O que ninguém poderia imaginar, nem nos seus pesadelos mais assustadores, era ver um secretário-geral do PS a repetir essa cassete. Haverá Governos que não tenham cometido erros? E o que serão erros para uns têm de ser erros para todos? Como é óbvio, a discussão acerca dos “erros” dos Governos de Sócrates não pretende conhecer, discutir e pensar coisa alguma, pretende é fazer um julgamento sumário, seguido de execução e abandono dos cadáveres na vala comum.

A insegurança de Costa nesta importantíssima questão estratégica – fosse quem fosse, e seja quem venha a ser, o secretário-geral do PS – materializa-se na sua ambiguidade. Por um lado, quer marcar uma distância, por outro lado, quer manifestar uma solidariedade. Ora, a ambiguidade fragiliza-o, ao ponto de um calhordas político como Seguro se aproveitar desse flanco descoberto para causar o maior dano mesmo que tal leve, concomitantemente, a provocar danos ao seu próprio partido. A situação é tão vexante que seria preferível para Costa simplesmente ficar calado e não se pronunciar sobre Sócrates e socratismos. Ou até a de alinhar no ataque, concordando com Seguro e festejando já estarmos livres do diabo – pelo menos, o assunto ficaria esgotado.

Que deve Costa fazer, então? A resposta é só uma: o que lhe der na real gana. Se acha que há erros dos Governos de Sócrates que colham ser discutidos na presente disputa eleitoral, então bute, venham eles e venham límpidos, crus. Venham com a marca da sua autenticidade, da sua convicção. Se acha que o assunto é espúrio e está ao serviço das pulhices de Seguro, então bute, que assuma isso mesmo e que tal seja dito na cara de Seguro sempre que ele quiser ir por aí. O que está a prejudicar inutilmente Costa é a sensação espalhada involuntariamente de estar a ser hipócrita, de preferir não ter de lidar com essa parte do PS que, ao mesmo tempo, acusa o adversário de ter recusado e maltratado.

Em 2011, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Sócrates 1 568 168 cidadãos. Em 2014, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Seguro 1 033 158 cidadãos. Para quem gosta de agitar gráficos e sondagens, estes números são significativos. Significam que falta nesta disputa interna do PS quem queira dar ao ciclo político de 2005-2011 uma sentido outro para além da tribal culpabilização, seja a de direita ou de esquerda. E para o fazer não é preciso estar de acordo com muito nem com pouco do que aconteceu. Basta pensar alto.

4 thoughts on “Pensar alto”

  1. Penso o mesmo. Esta ambiguidade do António Costa é constrangedora. Não foi só ontem, já de há muito que tem faltado convicção e firmeza na defesa de um passado de que se deve orgulhar, mesmo com os tais erros que diz que existiram, e concordo que existiram, o pouco investimento na cultura foi o maior dos erros.
    Acho que se trata de uma questão táctica. Evitar falar em Sócrates para os media não pegarem no assunto, e consequentemente máquina de propaganda do psd.

  2. Estamos f…..s, amigo! Estamos f…..s! E eu que estava a treinar para te desancar pela tua má (boa) vontade contra o Costa. Mas pelo que vislumbrei és capaz de não estares totalmente fora da razão.

  3. É isso mesmo, Val!
    Aguardemos o debate de hoje: António Costa não pode continuar a ter medo de levantar os alçapões que achar necessários para “calar de vez” o choradinho da vitimização e da traição, – únicas acusações de Seguro.

    Mas tenho de confessar que é nestes momentos que tenho tantas saudades de ver José Sócrates a “desmontar” os seus opositores quando era atacado…!

  4. Por calculismo ou seja lá pelo que for, Costa foge de falar em Sócrates como o diabo da cruz. É lamentável. Será com esta timidez que vai enfrentar a direita? Uma vez vi o Fernando Ruas deixá-lo caladinho e enroscado como um cachorrinho, numa questão em que Costa tinha a razão toda pelo seu lado. Só porque o Ruas falou com um cinismo desarmante. Desarmou o pobre do Costa. Meteu dó. Foi no programa da Fátima Campos Ferreira, era Sócrates PM e o Ruas presidente da ANM. Pode ser que o homem cresça. Vou ver o debate de hoje.

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