O Crachá de Ouro perdeu o brilho

Teófilo Santiago, o inspector da PJ que dirigiu a investigação do processo Face Oculta, foi entrevistado pela TVI, SIC e RTP no rescaldo da leitura das sentenças em Aveiro. São peças que variam entre os 2 e os 5 minutos, repetindo o mesmo enfoque narrativo: a exploração do estado emocional, afectivo e sentimental do entrevistado. Os perguntadores aparecem a guiar e forçar as declarações, como parteiras das expressões que vão saindo com hipócrito esforço do sujeito. Da TVI para a RTP, passando pela SIC, há um crescendo da anulação da função jornalística, com as suas competências críticas e obrigações deontológicas, substituída pelo simulacro de uma entrevista que não passa de um tempo de antena. A duração das peças acompanha a extensão da manipulação, sendo a RTP a ir mais longe na (con)fusão com a subjectividade do estupendo inspector.

Que ficámos a saber pela boca do próprio? Que teve “satisfação” com as sentenças, que “se fez justiça”, que “as penas não são pesadas, são justas”, que “as sentenças decorrem naturalmente do que os acusados fizeram”, que “o tribunal foi corajoso” e que, apesar de se mostrar um especialista-tagarela em jurisprudência, “não faz parte da sua forma de ser comentar as decisões judiciais”. Primeiros corolários: este inspector da Judiciária (i) vê o julgamento das provas obtidas nas investigações como uma mera extensão mecânica, invariável, da recolha das mesmas e (ii) só raramente vê os tribunais a lavrarem sentenças que decorram do que os acusados fizeram, daí louvar a excepção, a “coragem”, deste tribunal neste processo. Ou seja, os tribunais portugueses, na sua prática corrente, não são “corajosos”, não aplicam a Lei, não “fazem justiça”, afiança o crachá de ouro.

Que mais ficámos a saber pela boca do próprio? Que num processo onde estão envolvidos, directa e indirectamente, um ex-secretário de Estado, um ex-ministro, uma secretária de Estado em funções, um ministro em funções, um primeiro-ministro em funções, processo que rebenta em cima de um período eleitoral para umas legislativas e autárquicas, processo onde pela primeira vez na democracia portuguesa se espia um primeiro-ministro através de uma instituição estatal, processo onde a investigação ilude a legislação antes, durante e depois da espionagem, processo que gera fugas ao segredo de justiça que passam a servir de arma política, processo que dá origem a um clima de suspeição à volta de um Procurador-Geral da República e de um Presidente do Supremo, processo que vai para o Parlamento na forma de uma comissão de inquérito onde se arrasta durante meses, pois é este mesmo processo que o Teófilo considera ser ofensivo considerar como “político”. Ofensivo para si, para a sua equipa, para a Judiciária, para os magistrados e para o Tribunal. Tão ofensivo que ele chega a sugerir que só não respondeu (??) a essas declarações porque não pôde. Será que está a responder agora? Será que lhe chega tratar como “cobardes” os que ousaram fazer tais declarações? Qual seria o castigo suficiente para que o grande Teófilo se sentisse, também aqui, “satisfeito”? Segundos corolários: este inspector da Judiciária (i) não distingue entre tipologias de crimes, esferas do Estado, consequências políticas da acção policial e judicial e (ii) personaliza a reacção dos envolvidos e concebe-se como representante corporativo para efeitos de multiplicação e maximização de um suposto dano de honra. Ou seja, estamos perante um concepção primária, ou fundamentalista, da acção policial e testemunhamos a exposição de um estado mentalmente perturbado que colide com as exigências profissionais de um vulgar agente da Judiciária, quanto mais de um investigador de topo e com a sua responsabilidade num processo deste melindre.

Quem quiser investigar o investigador encontra nesta entrevista de Março de 2014 – «PERDI A INOCÊNCIA NO APITO DOURADO. E COM O FACE OCULTA DESACREDITEI DE TUDO» – indícios suficientes para abrir um processo na Procuradoria-Geral da Inteligência a seu respeito. Por ela ficamos a saber que o Teófilo Santiago tem uma excelente opinião acerca da sua magnífica pessoa, que odeia políticos, que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento protegeram Sócrates (portanto, que são corruptos) e que acha que há leis a mais. A entrevista é radical porque o levou a libertar duas considerações que iluminam a face negra do Face Oculta:

TS- Até já ouvi dizer que mais vale uma primeira página de um jornal do que um acórdão.

NM- Mas podem-se usar os media para ajudar na investigação?

TS- Usar sim, abusar não.

E quem é que decide se é abuso ou santo combate contra o mal? Os Teófilos com o seu brilho nos olhos. Brilho que diz ter perdido após este feito heróico em que filou o sucateiro e o amigo do outro. Só que não o deixaram completar o trabalho, os vígaros do costume, o que lhe provocou uma depressão.

O crachá de ouro perdeu o brilho, a cidade está sem xerife.

14 thoughts on “O Crachá de Ouro perdeu o brilho”

  1. Post abjecto de tão cretino. Se a intenção é demonstrar que quem vem ca procurar informação, distância e ponderação apenas esta a perder o seu tempo, então trata-se de um belo “conseguimento”.

    Ciao

  2. parabens pelo poste.este tipo de gente mete-me nojo! .quando forem julgados os assaltantes de bancos, vai haver recolher obrigatorio! começo a pensar que é preferivel aturar um ditador,pois sabemos com quem não podemos contar e contra eles lutamos sempre de uma forma ou de outra,com esta escumalha eleita democraticamente, e com a imprensa tambem ao seu serviço a vida torna-se mais dificil por que a verdade é nos escondida democraticamente! até sobre os incendios nos mentem.

  3. tanto tempo de antena para falarem de mágoa na hora da despedida. que interessa isso para o caso? pareceu-me perceber a voz trémula e adivinhar uma lágrima ao canto – na esquina da pouca vergonha.

  4. O Lisbroa bem semeia, por tudo quanto é blogue, o endereço da pocilga onde caga a posta. Ao que diz quem por lá passou, o mau cheiro é de tal ordem que nunca mais lá voltou. Parece que aquilo é só bafio e merda.

  5. Seguindo o mesmo estilo de investigação do tal crachá,
    podemos recuar ao tempo em que o mesmo se incompa-
    tibilizou com um antigo Diretor Geral nomeado por um
    ministro do PS, são situações que acabam por criar uns
    certos anti-corpos contra tudo o que possa ser do PS!
    Até porque, um operacional de tanto mérito tem obriga-
    ção de saber que a corda acaba por partir pelo lado mais
    fraco … não há dúvida uma coisa é ser o maior do Porto
    outra é estar a contar caracóis em Cabo Verde!!!

  6. o otário do teófilo ainda não percebeu que o western acabou com o derrube do sócras e que mais episódios da série só podem comprometer os actores principais no filme que ainda não foi exibido “a vingança do cavacoise”.

  7. Então vejam melhor o génio que temos em presença:
    http://ocultaface.blogs.sapo.pt/o-rei-do-face-oculta-13657

    justiça era tão fácil no tempo da inquisição. Se parece, é.
    Voltámos quase a esses tempos.
    Agora são os jornais e os inspectores que decidem quem é criminoso e quem não é. Já não é preciso pensar, nem apresentar provas. A convicção de uma qualquer Felícia Cabrita ou de um Santiago bastam para resolver as injustiças do Mundo. Afinal tão fácil.

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