Nem Sócrates, nem os seus advogados, nem Soares, nem nenhuma das raras figuras públicas que se pronunciaram a respeito, conseguiram conquistar o apoio da opinião pública para as denúncias de graves irregularidades no processo que mantém Sócrates preso. Serão várias as razões na origem desse fracasso, a começar pelos anos continuados de assassinato de carácter, pelo ódio político à direita e à esquerda, pela complexidade das questões judiciais na berlinda e, talvez a razão principal, por continuar sem validação institucional o argumentário da defesa – o que, simetricamente, reforça a imagem da acusação. Sócrates já era culpado antes de ser arguido, e o que se confirmou pelo próprio a respeito da sua heterodoxa forma de financiamento pessoal só cristalizou e agravou as suspeitas.
Porém, consta que nem o Correio da Manhã consegue identificar a fonte do mal, o que é um sintoma perturbador. Para haver corrupção, algum contrato, pelo menos um, terá concretizado o acto. Qual foi? E quem são os cúmplices? Posto que nenhum primeiro-ministro, sequer um qualquer ministro ou mero secretário de Estado, tem contacto directo com os responsáveis na administração pública que efectuam as avaliações e decidem quais serão os fornecedores do Estado, para se construir um caso judicial de corrupção vai ser preciso envolver mais gente, quiçá muito mais gente. Quando é que a ramona começa a recolher o bando?
Os crimes de corrupção, se nem o corrompido nem o corruptor colaborarem com as autoridades, são dos casos mais difíceis de investigar. Por aqui, a iniciativa e a estratégia do Ministério Público até se poderá vir a comprovar como a mais correcta, eventualmente brilhante. Para isso, será necessário que tenha existido, de facto, um acontecimento de corrupção e que tal prova seja passível de ser obtida. Se não tiver existido, ou se faltar a prova inquestionável para tão grande suspeita, então não estaremos apenas perante uma prestação muito questionável da Justiça. Estaremos também face a uma exploração política com beneficiários identificáveis e vastas implicações para o regime. Ora, tanto da parte de Sócrates como dos seus advogados o que vemos são sinais que antecipam esse desfecho. A forma desbragada e cáustica como João Araújo entrou em cena, e assim se mantém, tem um lado humorístico delicioso, mas tem outro lado que nasce da dimensão deontológica. Araújo aposta a sua credibilidade na inocência de Sócrates. Porque é tonto? Porque foi enfeitiçado pelo grande Satã à portuguesa? Ou porque estaremos perante uma situação esdrúxula para os Henrique Monteiro da triste vidinha, embora legítima e imaculada para as Hannah Arendt da vida grande? É que vir com a cantilena do “Ai, que esquisito, não conheço quem tenha feito coisa igual” pode chegar para a felicidade dos pulhas que intoxicam o espaço público, entende-se sem esforço. Não chegará, e nunca, é para quem coloque a justiça à frente das aversões e cagufas de estimação.
A 11 de Abril, de manhã, Helena Matos publicou um típico exercício de ódio – Tal como se esperava – onde resfolegava de prazer imaginando o seu apaixonado Sócrates a fenecer agonizante e abandonado num escuro calabouço da distante Évora, para lá do fim do mundo. De caminho despejou a seu fel alucinado em cima de qualquer um que tenha tido contacto com o monstro, ou que lhe tenha manifestado alguma simpatia, quiçá incluindo os que calharam sonhar com o fulano. A escrita é revanchista, o espírito é o da caça às bruxas, a intenção é racista. Na tarde desse mesmo dia, Guterres foi visitar Sócrates. Pela segunda vez. E sem qualquer razão aparente para o fazer, em especial tendo em conta que esse foi o período em que mais insistentemente se falou de Guterres como candidato presidencial. Que foi fazer a Évora, de novo, aquele de quem se dizia unanimemente que seria o vencedor antecipado das presidenciais, assim o quisesse? De que falaram ao longo de 1h30m? Do Freeport? De outros crimes que envolvam Guterres, ou amigos seus? Aliás, será possível ter algum tipo de conversa com Sócrates que não meta capitosas referências explícitas ou cifradas a milhões sacados ao Estado? Para a Helena Matos, nisso representando a era da calúnia que marca a política nacional desde que Sócrates surgiu como candidato a primeiro-ministro em 2004, os únicos socialistas íntegros e cumpridores da Lei são os socialistas por nascer. Estranhamente, o PS finge que este tipo de poder fáctico, onde há uma permanente campanha negra apontada à honra de pessoas e instituições, não é um agente operativo na dinâmica política em Portugal.
Se Sócrates tiver sido corrompido, isso terá o seu impacto político, social e cultural. Impactos devastadores, embora imprevisíveis nas suas consequências. Será também um caso de psiquiatria e neurologia, porque poucas vezes se terá visto criminoso tão original; reunindo em si as mais sofisticadas capacidades cognitivas para crime de alta complexidade e, ao mesmo tempo, sendo um dos corruptos mais estúpidos na história do crime, tendo de imediato começado a chamar a polícia para o apanhar. Se, pelo contrário, for verdade que Santos Silva se limitou a fazer com o seu dinheiro o que lhe deu na real gana sem actos de corrupção no horizonte, uma parte do País continuará até à cova a considerá-lo culpado. Não será possível afastar Sócrates das suspeitas, o dano é irreparável.
Assim, no meio disto tudo e enquanto a Justiça não se decide, talvez o facto mais extraordinário seja esse de termos visto o ex-futuro Presidente da República, e possível secretário-geral da ONU, a mostrar ao Henrique Monteiro e à Helena Matos, mais ao tutti quanti, que prefere o convívio íntimo com criminosos desmiolados caídos em desgraça a ir ocupar um Palácio de Belém ainda empestado pelo fedor largado pelo mais poderoso símbolo vivo desta direita decadente que nos calhou ter de sofrer.