A inteligência em prisão preventiva

Na edição de 6 de Junho do Bloco Central, tendo Augusto Santos Silva como convidado, os Pedros voltaram a expor a sua crítica ao desnorte comunicativo do PS. A tese é a de que Costa, ou qualquer dos seus tenentes, não consegue apresentar uma narrativa sólida, simples e sedutora. A pluralidade de pontos de vista e de propostas socialistas que foram sendo lançados em catadupa nos últimos meses não estará a provocar um efeito de convicção no eleitorado que pode dar a maioria absoluta, sequer naqueles grupos que neste momento era suposto estarem sem a mínima das dúvidas quanto ao seu voto, continua o argumento. Em contraposição, o Governo e a Coligação dispõem de recursos narrativos amadurecidos e potencialmente eficazes, os quais consistem num discurso dúplice e contraditório onde se acusa o PS de ser o responsável pela austeridade por ser o causador da “bancarrota” ao mesmo tempo que se reclama ter sido a austeridade um colossal sucesso regenerativo graças à qualidade da actual governação.

Santos Silva, no seu papel de militante e não de opinador, recusou o diagnóstico. Fez a defesa do processo faseado e aberto de construção do programa eleitoral socialista e garantiu que a diferença do PS face aos restantes partidos, especialmente os da direita, é manifesta para o eleitorado. Porém, a sondagem saída há dias estabelece uma diminuição da distância entre o PS e a Coligação. Será apenas uma variação aleatória, ou circunstancial, ou revelará uma tendência? Como é óbvio, ninguém faz a menor ideia. As sondagens são intrinsecamente falíveis e muita água terá ainda de correr até às eleições.

De um ponto de vista sociológico, aparece-me como estranho, se não for bizarro, que um partido com o peso histórico e a natureza ecléctica do PS ignore as consequências de ser tratado como um covil de corruptos e um asilo de estroinas ao longo de anos e anos. Especialmente quando esses ataques estão ao serviço do boicote da discussão política e servem como apagamento da responsabilidade do PSD e CDS no afundanço do País no resgate e demais violentações do contrato eleitoral e governativo a que Pedro&Paulo se entregaram. Costa imita Seguro nisso de não tomar uma posição clara sobre o anterior Governo socialista e seu desfecho, embora por diferentes razões, tendo como resultado a impunidade para a repetição da cassete onde o PS surge diabolizado e onde, de facto, está a ser perseguido pela Justiça por actos relativos à sua governação. A estratégia de fingir que se pode passar pelo meio dos pingos de ácido sulfúrico será vista como a mais correcta, até a única possível, caso Costa obtenha a maioria absoluta. Qualquer outro resultado deixará a questão em aberto.

Paradoxalmente, para uma lógica simplista, a prisão de Sócrates veio dar ainda mais urgência ao que já era urgente logo a partir de 5 de Junho de 2011: introduzir no espaço público uma versão dos acontecimentos que levaram ao resgate que fosse capaz de fazer frente à estupenda campanha de distorção que a direita e a comunicação social montaram. Tal nunca aconteceu. Não aconteceu com o próprio PS de Sócrates, apanhado no turbilhão do tempo. Não aconteceu com o PS de Seguro, apostado em explorar o ódio a Sócrates para obter ganhos internos, e não aconteceu com o PS de Costa, fruto de um calculismo e pragmatismo que marcam o seu trajecto político. Entretanto, o cidadão racional não encontra um ponto de apoio sólido onde se possa encostar para resistir à fúria da judicialização da política e do aviltamento do Estado de direito. A inteligência da comunidade também está em prisão preventiva.

34 thoughts on “A inteligência em prisão preventiva”

  1. Valupi,

    Tem toda a razão. A opinião pública está capturada pela opiniõa publica. Recentemente, Estrela Serrano fez uma boa análise desse processo a propósito da cobertura do caso “Face Oculta”. Mas, assumida essa consciência, que partilho, sobra-me uma dupla questão para a qual não encontro resposta: será possível inverter esse processo ? Como ?

  2. Não me parece que a metáfora da “prisão preventiva” seja a mais adequada. A inteligência da comunidade padece sim do “sindroma de Estocolmo”, i.é, identifica-se a tal ponto com as justificações dos seus carcereiros para a manter aprisionada, que odeia a mera sujestão de ver abertas as portas das celas que lhe balizam o pensamento. Isso complica a situação: não é fácil libertar quem não quer ser libertado!

    MRocha

  3. “A tese é a de que Costa, ou qualquer dos seus tenentes, não consegue apresentar uma narrativa sólida, simples e sedutora.”

    Basta ver a posição de um dos tenentes mais mediáticos (e valorizados publicamente) do PS sobre a privatização da TAP: enquanto Costa adverte o vencedor com a possível reversão do contrato, o mesmo vencedor é assessorado por António Vitorino (http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-06-14-Vitorino-bate-Marques-Mendes-na-TAP).
    O que pensar a partir daqui?

  4. “O que pensar a partir daqui?”
    Correcção e precisão.

    Partindo deste facto, imagine que um marketeer imparcial era convidado a construir uma narrativa sobre a venda da TAP. Qual seria a narrativa mais fácil de construir e com aceitação imediata pela opinião pública?
    É esse o problema do PS. É que as narrativas mais simples, mais fáceis de construir,e com melhor aceitação por parte da opinião pública (porque recorrem a “factos” já assimilados – o PEC IV já tinha austeridade e foi chumbado até pela esquerda, o próprio Teixeira dos Santos achava que o FMI era inevitável, a Grécia mostra que não há alternativas à austeridade dentro do euro, a bancarrota ocorreu durante o governo do PS, foi o PS que negociou com a Troika, …) são as da direita.
    Já para não falar do “vivemos acima das nossas possibilidades” que cada português, olhando para o seu vizinho, aceita sem reservas.
    Repare que eu não estou a defender estes “factos” e eles são obviamente contestáveis. Mas não com a mesma simplicidade com que são afirmados. E não com estes tenentes. É uma batalha perdida insistir nisso. Alternativa? Não sei.

  5. De um ponto de vista sociológico ainda gostava de ver os resultados de um inquérito que perguntasse:
    – Conhece casos de pessoas que antes da crise compraram casa, carro ou que fizessem férias acima das suas possibilidades?

    Talvez a partir daí se compreendesse melhor a aceitação, ainda que implícita, do argumento “vivemos (os outros, claro!) acima das nossas possibilidades” e de todas as narrativas construídas a partir dele.

  6. Sócrates é o líder do PS. Costa é apenas o seu testa de ferro (que gostaria de se emancipar).
    Se tivermos consciência desse facto, tudo passa a fazer sentido. A vossa sanidade e coerência é que estão há muito em prisão Preventiva … com a “anilha” cheia de mistificação e proselitismo parolo !

  7. Há erros de avaliação que acabam por se pagar caro! Face ao evoluir da
    situação interna do PS que, pela mão de Seguro aceitou e engoliu toda
    a lenga lenga da maioria sobre a bancarrota e, que de vitória em vitória
    caminhava para o “centrão”, a entrada tardia de Costa na liderança do
    partido e a sua política de pacificação interna permitiu à maioria conso-
    lidar as suas narrativas, desde a saída limpinha até ao estatuto de salva-
    dores da Pátria … quando a realidade é muito diferente para pior!
    Há gente competente no PS capaz de dar a volta à situação, basta mandar
    os comentadeiros para o tal sítio pois, se a competência está nos chama-
    dos socráticos que se lixem os “jornaleiros” , o PS tem que se fazer repre-
    sentar por quem saiba explicar não só a governação anterior como, e isto
    é importante, a próxima governação deverá ser! Não pode ser “one man
    show” !!!

  8. “oh anonimo, qual é o cargo que o vitorino ocupa no ps e qual a incompatibilidade que daí advém?”

    Vitorino não ocupa nenhum cargo e não há nenhuma incompatibilidade. É um facto. Tem toda a razão. Agora experimente explicar isso à opinião pública contrariando esta narrativa: “o Costa diz que é contra a privatização mas o Vitorino afinal até esteve do lado do consórcio que venceu”.

  9. Ó ignatz, parafraseando o numbelonada, você é mesmo um ignaro e não vale a pena estar aquí a perder tempo consigo.
    Não é o cargo que ocupa, é os cargos que ocupou!
    Que conferem uma agenda rica de contactos e conhecimentos, para ele tratar da vidinha dele!

  10. Um dos argumentos mais utilizados para contrariar as teses da direita é que “gerir um país não é o mesmo que gerir uma família”.
    Qualquer economista sabe que isso é verdade: os Estados têm mecanismos (desde logo emissão de moeda, …) que as famílias não têm, o que faz com que algumas opções defendidas para a gestão das finanças familiares não façam qualquer sentido quando falamos de Estados, ou possam até ter o efeito contrário.

    Até aqui muito bem. Mas quem diz isto (“gerir um país não é o mesmo que gerir uma família”) e assenta neste pressuposto as suas propostas para o país, esquece-se que está precisamente a falar para famílias e não para economistas! Daí que defender o pagamento das dívidas (até pela questão de honra envolvida), ou defender um orçamento equilibrado (não gastar mais do que o que se ganha, …) seja muito mais facilmente aceite pelo eleitorado do que elaborações complexas contra-intuitivas que só a racionalidade de um economista permite perceber.
    Mais uma vez, não se trata de saber quem apresenta os argumentos correctos: trata-se de perceber quem apresenta os argumentos mais simples e que qualquer eleitor percebe e aceita à luz do que é a sua prática (familiar) de gestão.

  11. oh pimpolho, o marques mendes nunca ocupou cargo nenhum e deve ter sido por isso que o consórcio efromobichado perdeu o negócio.

  12. O que pode e deve mover os eleitores são os factos reais e não a narrativa. Trata-se da vida das pessoas e não dum concurso de impressionar o juri. E as enormes despesas que nos deixaram para ser pagas no futuro não nos deixa esquecer o defice das eolicas, parque escolar, autoestradas… esse é que deve ser o prerjuizo para o PS e não as “promessas” ou a forma como são apresentadas

  13. antonio cristovao, estás precisar de reciclar essa semântica da palavra “narrativa”. O conceito não é sinónimo de “ficção”, como o Piares Maduro teve o descaramento de ir dizer em público.

    Entretanto, trazes a tua narrativa predilecta. Fala-nos desses défices em tanto lado, e traz os factos para avaliarmos que promessas outras são essas que te encantam.

  14. ” … o defice das eolicas, parque escolar, autoestradas…”

    oh são cristovão, aí nessa pregação só as auto-estradas é que ficam de foram. as outras tiveram benção da união europeia, há uma carta do barroso a mandar investir a toda a força contra a crise e a velha que na altura era presidenta do psd elogiava o investimento de próximidade. o investimento no parque eólico foi elogiado em todo o mundo, ainda hoje os alemães e os usa citam-nos como exemplo na independência energética.

  15. Ó incorrigível Ignaro:

    Marques Mendes ocupou cargos e muitos, também tem informação – e se calhar até priveligiada, – e talqualmente, Vitorino, conhecimentos que abrem muitas portas.

    Perdeu ?
    Para já quem perdeu foi o cliente dele, os honorários de MMendes, já ninguém los tira.
    E Eframovitch, ja anunciou que vai recorrer .
    Se ganhar, ainda vamos todos (o Estado Português) pagar-lhe uma indemnização.
    É como dizia o major Valentim Loureiro : calma que dá para todos !

    Você se queria dizer alguma coisa atinada, e consensual, dizia:
    A Secretária de Estado, Castelo Branco, tem ar de tresloucada, e é disléxica

    M

  16. A inteligência NÃO está em prisão preventiva! A inteligência está PRESA, de facto, pela democracia viciada pelos votos dos IGNAROS, sendo o dispensário um viveiro de «mentes» que ILUSTRAM a IGNORÂNCIA de andantes com dianteiras que deviam estar no CHÃO! Parece que esta PRISÃO já ultrapassou o limite máximo das penas em Portugal – 25 anos.

    Quanto ao recluso de Évora – o outdoor não ajudou, nem ajuda. É fruto do ópio dos que conseguem – com sucesso – enganar o povão, que se alegra com o circo. Vejam lá! O arguido e recluso até noticia, propagandeia que PREFERE ficar preso do que confinado ao colchão do Marquês de Pombal, com as visitas da beleza da Fava, a sopinha de primeira, da criada do amigo altruísta e as visitas do seu causídico ARREbujo. Acresce que o secretário pessoal – Costa ( que até convém comportar-se como está a fazer, i.e – «não comenta sobre processos judiciais») lá vai trilhando as indicações de alguém que se «sacrifica» na choldra, pois se o PS ganhar, o que é que vai acontecer? O que é? Digam lá?! O legislador é também profícuo e faz tudo o que lhe mandam…mudar códigos, revogando-os, etce e tal, é algo que se faz em Portugal, em jeito de mudar de cuecas ( evidentemente, não estou a considerar os badalhocos, mas estes fazem o que a figura do outdoor manda). Tou a bere, umas cousinhas a mudare…uns preceitos, ou umas interpretações, daquelas que o TC manda fazer e publicar.

  17. Por isso, I SAY: a mim não me enganas tu! Nem ao Carlos Alexandre nem ao RTeixeira, que já estão bem documentados. Bolas, quando soubermos quem bufou…ai, aí é que o »confiança no mundo» se revoga a ele próprio…fogo, fica desatualizado no momento.

  18. eu quero que o vitorino se foda,mas mas não posso criticar,quando aceita estes trabalhos.espero que não tenha sido por sua influencia que a tap foi vendida ao preço da chuva….

  19. Finalmente um pouco de verdade neste blog:

    “PS ignore as consequências de ser um covil de corruptos e um asilo de estroinas ao longo de anos e anos”

  20. Como habitualmente, os carcereiros da inteligência não se inibem de mostrar serviço aos respectivos amos.
    Coitados !

  21. Val, o PS está a pagar a passagem do Seguro e seus acólitos pelo poder, e o Costa, fruto de inoperância ou resistência interna, não consegue implementar uma linha discursiva congruente. Ao disparar para todos os lados, limita-se a gastar as poucas energias necessárias a um combate sério à aldrabice da maioria da nossa classe política. Repara que a tarefa não é fácil. À direita o PSD/PP, limitam-se a debitar o discurso habitual. À esquerda o PC e o BE preferem o ataque ao PS adoptando discursos semelhantes. Agravando a situação, a escolha de porta-vozes e chefes de bancada vai de mal a pior. Ao erro de ‘casting’ que foi Ferro Rodrigues, juntam-se outras figuras menores que chegam a fazer-me ter saudades do Brilhante Dias. O país, esse, como diz bem o JRodrigues, divide-se confuso no meio do envenenamento decorrente da maioria da opinião publicada, quer a dada pelos canais televisivos, quer a que escreve as ‘gordas’ na pasquinada.
    A tudo isso, junta-se o medo de defenderem a arbitrariedade e o ‘voyeurismo’ em que está envolvido o ex-primeiro-ministro, com medo que os acusem de estar a interferir com a ‘justiça’.
    Tenho pena que o PS se encontre refém de tanto calculismo, no entanto é o que há, e será certamente melhor do que mais quatro anos nas mãos deste grupo de incompetentes, que apenas lá estão para servirem as suas clientelas.

  22. “Nenhum problema poderá ser resolvido se nos mantivermos no mesmo grau de consciência em que foi posto”, já dizia o Einstein. Ora, dado o estado das coisas e a infeliz realidade de termos que viver no meio delas, por mais que seja uma variação às lúdicas telenovelas ou jogos futebolísticos, a lúdica actividade de comentar os que comentam e tentar colar culpas àqueles que nunca as aceitarão terá um eventual efeito placebo na consciência cívica mas em nada ajuda a mudar o abismo para onde caminhamos. E por esta senda mantemos a nossa inteligência em “prisão preventiva”, em coma, chama-se o que se quiser…
    Perante a falta de opções, a questão em quem votar torna-se quase uma dúvida existencial! Quem disse o quê? Não interessa. Mais ou menos dizem todos o mesmo de modos diferentes. Quando de lá saem o resultado é mais do mesmo: eles mais ricos, o resto mais pobre. Mudam as moscas…
    Da esquerda à direita estão todos partidos. Partidos de esquerda, de direita, de centro…É por isso que quando se vota, é só num bocadinho que vê só um prisma, e que após a governação se vem a concluir que o resultado prático é o mesmo…. Mas os entalados nesta engrenagem, que não têm como fugir, precisam de quem veja o todo e as reais desgraças que estão a acontecer!
    Que interessa quem fez o quê a não ser como motivo de conversa de café? Quero é saber: que fazer para resolver a merda feita??
    Há que libertar a inteligência e ver acima dos partidos (Matar as moscas e apanhar a merda!)

  23. Acautelando os perfeccionistas: sim, há erros de pontuação e letras trocadas. Ainda mais grave: não escrevi com o acordo ortográfico (opção propositada, último reduto de consciência luso-literária). E agora?

  24. “Há que libertar a inteligência e ver acima dos partidos”

    memphix, temos aqui um promitente lutaking para chefiar o etarianismo & esgoto nacionais, quiçá potencial exportador de merda a nível mundial. meter tudo no mesmo saco, baralhar e dar de novo é a proposta da direita para esquecermos a merda que têm feito nestes últimos 4 anos. de um lado está quem construiu e defende o estado social, do outro está quem o quer liquidar e tem destruído últimamente e pelo meio aparecem uns quantos oportunistas que vivem à custa de convulsões sociais, portanto não é difícil identificá-los e escolher em quem votar.

  25. “…natureza ecléctica do PS ignore as consequências de ser tratado como um covil de corruptos e um asilo de estroinas ao longo de anos e anos.”
    tudo tão estranho quando os factos mostram que o gangue está no ppd (como bom gangue até banco, bpn, tinham), que o ppd foi o partido condenado por financiamento ilícito (da somague que foi enchida artificialmente com contratos do estado para ser vendida aos espanhóis com ganhos desmesurados para os antigos accionistas) e que o cds não o foi por comiseração (digamos assim) dos juízes no célebre caso dos sobreiros&jacinto leite capelo rego.

  26. A ESCATOLOGIA no seu melhor. Quando o cheiro se sentir na net, os IGNORANTEZES, vulgo, IGNARALHOS vencem as doentias melenas.

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