Despir a camisola

No auge do conflito entre Bruno de Carvalho e Marco Silva, em Janeiro deste ano, os adeptos presentes no estádio de Alvalade sonorizavam ostensivas manifestações de apoio ao treinador. Essa terá sido uma das razões que levou o taralhouco presidente do Sporting a aceitar que tinha perdido essa batalha, isto depois de se ter chegado à frente de tal forma que qualquer cedência sua seria sempre vista como uma derrota. Igual a todos os megalómanos, terá passado os dias seguintes até ontem a planear a vingança.

Marco Silva foi visto, de modo inequívoco, como vítima do fanatismo patológico do bronco. É também um jovem treinador a quem se antecipa uma carreira destinada ao sucesso, tal o talento que já mostrou. E acaba de dar ao Sporting o primeiro título no futebol profissional em 7 anos, numa final marcada por dramatismo épico a favor da sua equipa. A Taça ainda está quente dos festejos. Pois a semana do triunfo vai a meio e o clube acaba de anunciar o despedimento deste treinador por “justa causa”.

Se Jesus for mesmo para o Sporting, ele o seu novo presidente ficarão unidos num pacto trágico nascido de uma dupla húbris. A tensão à volta de cada jogo, de cada resultado, será algo que muito provavelmente nunca se conheceu antes em Portugal. Isto porque qualquer coisa que fique abaixo da perfeição, do registo invencível em todas as competições, incluindo nos jogos-treino, despertará uma onda de violência e achincalho emocional contra a equipa vinda de dentro e de fora do clube. O presidente que não conseguiu contratar nem um reforço de qualidade, ou até sem qualidade, para o ataque na época de 2014-2015, e que deixa sair a custo zero uma estrela em potência como Carrillo, mas que consegue pagar a Jesus aquilo que nem o Benfica, quiçá nenhum outro clube no mundo, estava disposto a pagar, viverá com o seu treinador 6 milhões em regime de tolerância zero. Sabendo-se do descontrolo psíquico do maluco que os sócios do Sporting puseram a mandar na casa, veremos cenas inauditas na história do futebol português.

Estarão neste momento a fazer-se sondagens para descobrir qual é a opinião dos sócios e simpatizantes do Sporting acerca deste circo vexante. Aposto que a maioria não concorda e até se sentirá magoada. Não concorda com a vinda de Jesus e sente-se magoada com o tratamento dado ao Marco. É uma mixórdia de absurdo com injustiça. Fede. E rompe com a lógica sentimental que justifica a existência dos clubes. Os adeptos benfiquistas e sportinguistas que estavam em festa foram arrastados para a cruel consciência de não haver qualquer lealdade para com os clubes, entendidos como poder de criação de colectividades identitárias, por parte do poder circunstancial e arbitrário dentro dos clubes.

Conceber um clube como se fosse uma empresa, e os seus profissionais como mercenários e mercadoria, equivale a destruir a mística. A mística dos clubes, no seu único ponto de contacto com a mística espiritual, implica a crença num poder sobrenatural inefável incarnado nos heróis que vencem. A mística é tão mais intensamente vivida quanto essas vitórias resultem de uma transfiguração pelo sofrimento. O Sporting veio de uma vitória desse cariz. Está agora a pagar ao general que obteve esse troféu com a traição. Isto, sim, é que justifica um despedimento com justa causa.

Bruno de Carvalho, despe a nossa camisola porque tu não és do Sporting.

10 thoughts on “Despir a camisola”

  1. ui, mais um post de reflexão. Reflitamos. Isto é importante. Escrevamos muito sobre o esférico, pensemos, demonstremos o nosso sentido de adultos e capacidade de corrigir as más paixões.

  2. Excelente texto.

    Resisti aos disparates de Jorge Gonçalves. Resisti ao básico Sousa Cintra. Depois de 26 anos de associado, com lugar cativo no “velho” estádio há 21, não resisti ao descalabro da dupla Santana/Roquette. Não sou, pois, sócio do Sporting desde 1996. Se ainda o fosse, ter-me-ia demitido agora, em consequência das indignidades deste pirómano.

  3. O mais curioso neste caso todo é a loucura colectiva para justificar todas as acções do bruno carvalho. Eu gostava mesmo de saber é qual é a causa para o despedimento, visto que já poucos têm dúvidas que o marco silva andou o ano todo a conspirar para ficar em 3º lugar.

  4. Surgem fortes dúvidas de que o presidente do Sporting acabe
    com dignidade o actual mandato! Dizem que tem cela reserva-
    da junto do “saudoso” Vale e Azevedo na Carregueira!
    Não há justa causa que possa ser invocada, no Tribunal do
    Trabalho, o Sporting irá pagar todo o contrato com o Treinador
    despedido mais, uma percentagem, pelos danos morais causados!!!

  5. Estou plenamente de acordo com o Sr. Aspirina, porque não sei o nome dele. Eu também sou sportinguista desde que nasci e preferia a continuação de Marco Silva. Sobre a questão de Jesus ir para o Sporting, ninguém se pode atirar a ele porque em finais de Junho termina o contrato com o Benfica. Sobre falta de gratidão os benfiquista e o Benfica, os portista e o Porto devem estar caladinhos.!

    O Benfica e o Porto é o que menos me interessa, porque nunca podem falar no Sporting. Eles até fizeram uma união de facto no futebol para acabarem com o Sporting, mas este não é o caso em apreço. Não me revejo na atitude de Bruno Carvalho e estou revoltado! Não é deste modo que se goza com um Sr. de 37 anos e com qualidade como treinador. É convocado para ir a Alvalade e o presidente tem “lata” de não o receber e ainda por cima propõe-lhe a rescisão com justa causa? Ele não o recebeu porque a consciência tem muita força.

    Todos os amigos que leem este meu comentário daqui a um ano, irão dar-me razão, é só aguardar. Pelo que me apercebo, 80% dos árbitros de futebol da primeira liga, são benfiquistas, no primeiro terço da liga 2015/2016, vão fazer a folha ao Sporting, por isso com o Jesus, não vão vencer nada. Ele levantava-se esbracejava e fazia tudo porque estava no Benfica. No Sporting, nem o deixam levantar do banco! Vou dar um exemplo do que estou a argumentar. Na final da Taça de Portugal, escolheram um árbitro chamado Marco Ferreira que não arbitrou um único jogo das 34 jornadas da liga que terminou. Em 34 jornadas não arbitrou um jogo do Sporting, alguém me sabe dizer porque surgiu do “céu” para arbitrar a final da taça de Portugal entre o Sporting e o Braga? Seria que a taça estava para ser entregue ao Braga? Não tenham dúvida, a supertaça já em dono.

    Como resumo diria, Bruno Carvalho não atuou bem com Marco Silva porque o desprezou, penso eu, e irá pagar caro a sua ousadia. Já agora para completar a saga, era bom os seus advogados perguntarem ao Departamento de Desporto da UE se a FPF pode impedir a requisição de árbitros internacionais europeus para arbitrarem os jogos do Sporting.

  6. Como sócio do Sporting permita-me que lhe diga.
    Discordo completamente do seu post.
    Décadas de presidentes “betos” e simpáticos levaram o clube à falência. Deste presidente, mesmo com um estilo mais “popular”, vi e senti apenas a defesa intransigente dos interesses do nosso clube. E em relação ao MS julgo ser perigoso tirar conclusões precipitadas. Ainda a procissão vai no adro. É perigoso acreditar em tudo o que aparece na nossa comunicação social que, maioritariamente, detesta o Bruno de Carvalho, e é manipulada pelo sistema de poder no futebol que não quer ver o Sporting a importunar os lampiões e os andrades.
    SL

  7. portanto, precisamos de presidentes operários, daqueles de mão no ar, e manga arregaçada…é isso ?

  8. Não vale a pena perder muito tempo com o assunto, que isto deve ser coisa para não durar muito.
    Ou eu estou redondamente enganado, ou esta ida do JJ para o Sporting é, parafraseando os Jafumega, “uma passagem para a outra margem”. Do Douro, digo eu……
    E depois….., ah!….., depois o Sporting livra-se do Bronco de Carvalho . De vez!

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