Arquivo da Categoria: Valupi

Ai, a tola

São muito poucas as figuras públicas que se tenham pronunciado sobre o caso Augusto Santos Silva-TVI/Sérgio Figueiredo, no meu conhecimento. Ainda menos aquelas que botaram faladura depois do seu epílogo. Mas deviam ser mais, porque Santos Silva tudo fez para transportar o episódio para a rua e solicitou apoio. Do outro lado, Sérgio Figueiredo resistiu com discrição durante semanas ao bombardeamento, até que explodiu por escrito num jornal. Aparentemente, não haverá novos desenvolvimentos, ficando a réplica à réplica sem tréplica.

Nuno Santos – Censura é outra coisa – puxa as orelhas ao Augusto, dizendo-lhe que ele já tinha idade, e estatuto, para ter juízo. A sua opinião, todavia, peca por ser demasiado simpática, quase neutra. E isso acaba por não fazer justiça a um dos políticos mais importantes em Portugal pelo seu percurso como cidadão, responsabilidades governativas assumidas e características intelectuais. Há que praticar nesta ocasião aquele talento que mais admiro em Santos Silva enquanto interventor no debate político, a lucidez implacável.

Acalentei a esperança de que a prometida resposta ao esclarecimento do Sérgio fosse uma ocasião para Santos Silva dar um exemplo de grandeza numa situação onde tinha tropeçado em si próprio com estardalhaço. Ainda bem que não apostei, pois o que saiu foi não só mesquinho como até grave dada a pessoa em causa. Eis os factos:

– O Sérgio testemunhou por escrito que, antes de ter ficado ofendido com as declarações públicas de Santos Silva, tinha aceitado participar num evento de lançamento do seu livro, primeiro, e que tinha interesse em falar ao vivo e privadamente nessa oportunidade ou noutra acerca das queixas que lhe tinham sido enviadas por escrito pelo comentador, depois. Santos Silva não o desmentiu quanto a estas declarações, o que implica estarmos perante a chave do problema. O relato do Sérgio fica carimbado como exacto, posto que ele narra a sua experiência: recebeu um email, respondeu apaziguando o seu interlocutor e propondo uma conversa face a face, para depois se dar conta que, entretanto, esse mesmo interlocutor já tinha escalado o problema para um nível que ultrapassava a esfera daquela comunicação privada e exigia uma resposta institucional da TVI. Isto é simples de perceber.

– Santos Silva atacou o esclarecimento com nova bateria de insultos e ofensas, alegando que a publicação no Facebook das suspeitas de perseguição política era legítima tanto por ter sido feita antes de receber o convite para a conversa como por se tratar de “hipóteses verosímeis e assentes na observação de factos“. Assim, temos a seguinte sequência de eventos: às 9.24, está a mandar um email ao responsável da estação onde se queixa de um problema; às 9.32, está a anunciar ao mundo que a estação para quem trabalha a troco de dinheiro o persegue por razões políticas; às 12.48, recebe as palavras que o Sérgio tornou públicas e concorda com o pedido para uma conversa a dois ou três. Que fez a seguir? Deixou pendurada no Facebook a insinuação que lhe apeteceu espalhar de manhã e nada mais explicou a respeito. Isto é também simples de perceber, mas acumula com ser grave.

É grave que Santos Silva não pareça dar-se conta da puerilidade da sua argumentação falaciosa. Obviamente, a posição de Sérgio Figueiredo na questão é a de um director que pretende exercer o seu poder sobre a grelha pela qual responde à sua administração. Ao mesmo tempo, tem de gerir as consequências psicológicas, emocionais, nas vedetas afectadas pelas suas decisões. É o que fica patente nas palavras que dirige a Santos Silva antes de saber que o jogo tinha mudado de regras. Quem sabe o que resultaria dessa conversa, caso o princípio da confiança não tivesse sido rompido? Talvez algo tão simples como se acordar em mudar “Os porquês da política” para um dia da semana onde ficasse mais resguardado do império do futebol, por exemplo. O que não poderia ficar sem resposta, precisamente por se tratar de uma grave insinuação, era uma declaração pública onde se punha em causa a honra dos responsáveis da estação, fossem quem fossem posto que não se nomeava ninguém na calúnia. Para mais, uma acusação que não se retirou ou contextualizou apesar da promessa de um encontro para se resolver o conflito de interesses.

E é gravíssimo que Santos Silva continue, apesar das evidências, a cavalgar a acusação da censura por motivos políticos partidários. Quando alguém, para mais académico, ainda por cima político, coloca no plano das “hipóteses verosímeis e assentes na observação de factos” tal suspeita, a pergunta imediata é esta: a que período diz respeito essa observação de factos? A partir do seu pressuposto A – “a TVI ofende tão flagrantemente as obrigações de pluralismo no comentário político no canal generalista” – somos forçados a concluir que será desde que Santos Silva se tornou espectador da TVI, posto que sempre assim foi por lá, quando não pior e muitíssimo pior; bem antes, portanto, de ter aceitado colaborar com essa estação nada plural, e sobretudo nos restantes dias até à data em que foi colaborador satisfeito. Qual a razão para só agora termos acesso ao que ele foi pensando em segredo da estação que servia com as suas competências e zelo profissional? A resposta está no pressuposto B, o seu espaço ter vindo a ser perturbado. Conclusão: não fosse ter sofrido esse aborrecimento continuaríamos sem topar o seu profundo repúdio democrático para com a casa onde ia buscar um dinheirinho jeitoso, protagonismo mediático e influência política. Gravíssimo.

Santos Silva abdica com gosto das palavras mansas. Esse é o único ponto, no meio desta infeliz situação, em que estou completamente de acordo com ele.

Revolution through evolution

Ethics of tomorrow? Should androids have the right to have children?
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Mum’s the word: Maternal language has strong effect on children’s social skills
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Musical tastes offer a window into how you think
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Connection found between audience reaction, candidate debate success
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Majority rule: Why conformity can actually be a good thing
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Perfectionism linked to burnout at work, school and sports, research finds
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Why Alfred Hitchcock Grabs Your Attention
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Prender primeiro e investigar depois não é algo que pertença à política ou deva incomodar um político, defende Ana Gomes

"Em Portugal, só o Sócrates é que pensa que é um preso político. Ninguém mais sustenta que ele é um preso político, ele está acusado por crimes económicos, corrupção, branqueamento de capitais. E a Justiça portuguesa tem que fazer o seu trabalho", enfatizou a eurodeputada socialista, mesmo assumindo como "negativo" que "não se tenha investigado primeiro e prendido depois".


Ana Gomes diz que “só Sócrates pensa que é um preso político”

O que fez Sócrates?

Rui Tavares foi a banhos deixando um texto que, na aparência, se destina a qualquer um – O que faria Aristóteles? Está construído para ser pedagógico, ou propedêutico, e nem os salpicos de erudição criam qualquer obstáculo ao leitor comum. O seu resumo, ao meu gosto, podia ser este: os fanáticos e os sectários são imbecis. A sua imbecilidade consiste em reduzirem a complexidade do mundo a dualismos antagónicos e, portanto, redutores, grosseiros e nefastos. Quem é que poderá discordar deste argumento? Só um retinto imbecil.

O artifício do Rui passou por ir buscar Aristóteles e discorrer como se estivesse perante uma turma do 10º de escolaridade. Nada mais adequado ao país e ao tempo que são os nossos. Mas surge a inevitável pergunta: a quem é que essa carinhosa, e caridosa, lição se destina mesmo, ou primeiro, ou principalmente? Aposto os 10 euros que tenho no bolso como o Garcia a quem a carta gostaria de chegar se imagina como “a esquerda pura e verdadeira”; ou seja, PCP, BE e satélites ou cópias. Isto porque o PS não carece de lições acerca da complexidade do real nem é estranho à cultura da negociação e do convívio com a alteridade. Daí o texto finalizar pondo em raciocínios igualmente básicos, quase infantis, a noção de que para diferentes forças políticas se unirem não precisam, concomitantemente, de perder a sua identidade e o seu projecto. Pelo contrário, são essas respectivas diferenças que, no contexto de um acordo, estarão a dinamizar e a enriquecer o labor político que daí nasça. Sim, estamos perante um registo ingénuo; só que de uma ingenuidade intencional, por isso potente e criativa.

Ninguém faz ideia do que vai acontecer ao projecto político que Rui Tavares encabeça nas eleições de Outubro. Ninguém sabe se a eleição de eventuais deputados possibilitará qualquer influência na futura governação. Ninguém sabe se, calhando não elegerem ninguém, voltam à carga em eleições futuras ou se desagregam. O que sei é que não parece haver grande vantagem em ter como espaço de crescimento o eleitorado do PS. Crescer através do enfraquecimento do PS não resolve o bloqueio do sistema à esquerda, prolonga-o. Para o LIVRE/Tempo de Avançar ser essa pedrada no charco infecto dos sectarismos esquerdistas e esquerdolas será preciso ir buscar votos ao PCP e ao BE, ou à abstenção, ou a ambos os campos. A primeira via não parece viável, pois não se vê qualquer estratégia, sequer táctica, nesse sentido. A segunda via também não tem sido trabalhada em termos de propaganda, embora haja sementes inerentes ao projecto que permitam esse florescimento como agregador de votos outrora perdidos para a desilusão e o cansaço. E a terceira via seria a mais lógica, posto que são dois alvos complementares para quem se anuncia capaz de fazer alianças com o PS para governar à esquerda, dependendo da prévia existência de qualquer uma das opções anteriores para ser percorrida. Neste quadro, o simpático e estival texto que nos levou até Aristóteles pode significar qualquer coisa, incluindo não significar nada para além do cumprimento do dever editorial de preencher o espaço com um número mínimo de caracteres. Esperemos pelos fogachos da campanha eleitoral e aí tudo ficará esclarecido.

Há uma ironia, se não for uma vocação, na remissão para Aristóteles, todavia. É que se o confronto entre a democracia ateniense e a democracia contemporânea não pode ser realizado para efeitos de avaliação comparativa, tão diferentes os sistemas, os regimes e as sociedades em causa, podemos sem embaraço reconhecer em Aristóteles um defensor de soluções governativas ao centro das ideologias e forças políticas em disputa pelo poder – de resto, tal como exige a tradição sapiencial grega e seu culto do equilíbrio. Não só, podemos até ver na teoria política aristotélica uma concepção onde uma classe média burguesa – tomada aqui na sua acepção de pequenos proprietários de terra e de unidades produtivas ou prestadoras de serviços – representa a perfeição da vida comunitária. O centrão, pois, seria o espaço natural para Aristóteles caso viesse parar às nossas democracias, precisamente por ser ao centro que a complexidade é maior, implicando um inevitável poder negocial para atender ao conjunto dos problemas assumidos na governação. Por contraposição, uma qualquer visão extremista pressupõe a destruição, ou abandono, de partes da comunidade de forma a anular aquelas diferenças que não se admitem na violência e alucinação sectária. Esta é a história de todos os despotismos, antigos e modernos. Para quem já anunciou que se pretende colocar no meio da esquerda, fica a dúvida acerca da relatividade e transitividade desse ponto central, o terceiro aristotélico. É que, vai na volta, só com Aristóteles não nos safamos.

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Michael Sandel é professor de Filosofia em Harvard. Nestes 20 minutos, que passam a correr, também pede ajuda a Aristóteles para nos dar uma lição acerca do que é, ou pode vir a ser, a democracia. Se alguém pensa que a neurose do desgosto por causa da qualidade dos políticos e do mau ambiente da política é um mal português, então é porque nunca saiu à rua. Desde há séculos e séculos, a começar nos gregos, e intensamente a partir da Revolução Francesa, que os sentimentos de frustração e indignação acompanham o desenvolvimento histórico das democracias onde quer que elas se estabeleçam.

Como nos tenta explicar Sandel, esse problema não se resolve fugindo da vida política e cívica. É ao contrário. Porque, e disso sabia muito bem o mestre do mestre de Aristóteles, se calha sermos seres com inteligência, então se calhar o que o Universo inteiro quer que façamos com ela é usá-la. Cada vez melhor.

Lixo

"Segunda volta faria subir taxas de juro. Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o País e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro."

"No próximo domingo vai ser escolhido aquele que deve estar muito atento às injustiças na distribuição dos sacrifícios que nesta fase de crise são pedidos aos portugueses, como é o caso dos servidores da função pública. Merecem da nossa parte o maior respeito e a maior consideração.»


Cavaco, Janeiro de 2011

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Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados "olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia", porque "há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português".

No seu entender, "assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas, até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal".

"Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o 'rating', não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses - ainda não se sabe quando haverá um novo Governo", acrescentou.


Março de 2011

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“As empresas de rating estão à espera do resultado das eleições”, alertou o primeiro-ministro.


Passos Coelho, Julho de 2015

O espaço vazio da política portuguesa

"O prolongamento, ou mesmo o agravamento, dos momentos difíceis não deve trazer consigo um inelutável aligeirar do controlo da constitucionalidade das normas. Pelo contrário, bem se compreende que, nos momentos de tensão e de dificuldades várias, a Lei fundamental assuma papel destacado, enquanto bitola delimitadora da margem de liberdade de que dispõe o legislador. E se a energia vinculativa de uma norma constitucional pode, em certos aspetos e com apertados critérios, esmorecer no confronto com um interesse público de relevância absolutamente indiscutível, ainda e sempre a criatividade do legislador terá de funcionar no quadro da Constituição."

Catarina Sarmento e Castro, juíza do Tribunal Constitucional, in Uma fundamental inaptidão (VIII, IX & X)

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Desde 2008 que a direita portuguesa, liderada por Cavaco e PSD e tendo no CDS o cúmplice para todo o serviço, vê no ataque ao Estado de direito a sua mais potente arma política. As principais causas dessa histórica novidade encontram-se na mediocridades das suas lideranças, na ausência de um projecto político que tenha algum pensamento que interesse às populações, e no contexto de graves e prolongadas crises financeiras, económicas e sociais, as quais promovem o aumento do populismo antipolíticos e anti-elites a toda a extensão do espectro ideológico. Sobra-lhes apenas a vontade do poder pelo poder, instinto primordial, o que conduz a uma cultura onde a disputa eleitoral se limita ao processo de destruição moral dos adversários e às mentiras obscenas num registo de duplicidade sistemática – em vez da afirmação e defesa de uma ideia com alcance comunitário, a essência da democracia como procura das melhores soluções de governo.

A fórmula resulta porque à esquerda, inclusive dentro de partes do PS, existe uma cultura simétrica. Quem se der ao trabalho de ler a propaganda do PCP, desde o 25 de Novembro de 1975, vai encontrar uma matriz que tem sido repetida obsessivamente até à actualidade: o regime está nas mãos do imperialismo capitalista, esta democracia é uma fantochada, só a verdadeira esquerda poderá libertar o povo, o PS está a mando dos reaccionários. Esta cassete foi sendo repetida por qualquer partido que se considere à esquerda do PS, só variando, em muitos casos nada, no léxico da retórica. Por exemplo, Louçã fez um aggiornamento ao discurso comuna por intuição publicitária, mas não lhe alterou os paradigmas e sua inviolável lógica. Também para ele o PS era um instrumento da direita, o que fazia com que as décadas de democracia que tínhamos gozado desde o 25 de Abril não passassem de uma ilusão que Louçã, assim que destruísse o Largo do Rato às mãos de uma mole de professores furiosos, se encarregaria pessoalmente de substituir pela luz ofuscante e pura da “esquerda grande”. Resulta daqui que não é junto destes iluminados que devemos procurar bravos defensores do Estado de direito, posto que eles consideram que o actual regime é corrupto, a começar pela Constituição que não impõe a ditadura do proletariado. E assim se explica a aliança entre a direita decadente e os comunas, abraçados nessa perseguição aos socialistas, o inimigo comum perante o qual a violação do Estado de direito se impõe como uma necessidade da guerra. Quando PSD, CDS, PCP e BE se voltaram a unir para aprovarem na Assembleia da República o crime de enriquecimento ilícito, em Fevereiro de 2012, tratou-se da formalização parlamentar de uma prática política contínua cujo alvo invariável é o resistente PS, bastião da ilustre e corajosa tradição política que não cede ao populismo do tempo nem ao sectarismo.

Acontece que o nosso Estado de direito tem um terceiro atributo decisivo que pertence ao seu conceito e à sua nomenclatura, o ser democrático. Isso filia-o na vanguarda civilizacional das democracias liberais; ou seja, vivemos juntos sob o modelo de organização do poder político que melhor estrutura e equilibra, dentro da nossa experiência histórica, a liberdade individual com os constrangimentos comunitários. Não surpreende, portanto, que projectos políticos de cariz marxista e/ou revolucionários, ou fascistas, não se identifiquem com a democracia liberal. Mas é espantoso assistir ao cortejo de figuras portuguesas, algumas graúdas e outras apenas arraia-miúda, que alimentam diariamente a antinomia de se consideraram representantes de uma direita não decadente e, em simultâneo, colocam as suas paixões e interesses à frente do Estado de direito. Seja pela linhagem conservadora ou liberal, passando pela democracia-cristã e personalismo, é inconcebível a justaposição de uma matriz onde o respeito pela Lei é pilar sine qua non da liberdade com a exploração da judicialização da política e a perseguição mediática difamatória e caluniosa – já para não falar nos crimes insidiosos e alarmantes cometidos pelo caminho, como acontece na violação do segredo de justiça. Aliás, esses mesmos seriam, e serão, os mais assanhados na defesa oportunista e hipócrita do Estado de direito calhando algum dos seus ser vítima da milionésima parte do que infligem aos inimigos. Fariam um berreiro infernal, chegando alguns, dados ao radicalismo na defesa dos seus valores, a sacrificarem a sua hora de almoço para irem vestidos de branco protestarem junta da casa dos deputados. Sim, veríamos cenas maravilhosas como essas desses maravilhosos paladinos da liberdade que, no entretanto, se têm embevecido a contemplar os adversários a serem linchados na praça pública.

Uma sociedade envelhecida, inculta e com uma cidadania larvar, ou atrofiada, é pasto perfeito para estratégias políticas onde se cultive um populismo selecto e se tente canalizar o sofrimento, a frustração e a impotência para a diabolização de quem assusta esta direita cujo símbolo maior e perfeito é Cavaco. Reflectir sobre a importância do Estado de direito requer competências cognitivas e intelectuais um pouco mais sofisticadas do que aquelas necessárias para ler o Correio da Manhã ou aplaudir a anfibologia do Pedro. Quem utiliza a fragilidade e carências da comunidade para degradar o debate e o espaço público espera obter um ganho que só pode ser decadente posto que se limita a garantir o acesso ao poder sem passar pela legitimidade da vontade esclarecida do eleitorado. É o que a direita tem feito com a anuência, aqui, e a colaboração, ali, da esquerda. Razões para desistir? Não. Antes, a consciência calma e límpida de um espaço imenso que está por ocupar. Um espaço onde apetece morar ou, nessa impossibilidade, ir lá muitas vezes a passeio. O espaço da perene liberdade nascida do encontro de todos os que se queiram igualmente livres.

Lapidar

Na análise do putativo crime de enriquecimento injustificado, o Tribunal Constitucional veio, mais uma vez, recordar o princípio da presunção de inocência. Num Estado de Direito, é um princípio absoluto, que não consente exceções nem se pode conjugar entre o sim e o não. Se assim é no espaço público, deveria ser também um imperativo ético no espaço privado. Não deixou de me surpreender que um eventual candidato presidencial, Rui Rio, não se tivesse coibido de considerar Sócrates culpado, ainda que temesse que tal convicção pudesse estar viciada pela manipulação comunicacional.


Presunção de inocência

Revolution through evolution

Keep fears at bay by learning something new
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Resolving social conflict is key to survival of bacterial communities
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First evidence of farming in Mideast 23,000 years ago
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Acupuncture Impacts Same Biologic Pathways in Rats that Pain Drugs Target in Humans
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College social life can predict well-being at midlife
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Online symptom-checkers are often wrong
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Computer security tools for journalists lacking in a post-Snowden world

Pride

Nairobi, Kenya, Africa - Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama's step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.  (Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)
Nairobi, Kenya, Africa – Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama’s step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.
(Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)

Da meia-verdade à meia-estratégia

Junker contou que Portugal, Espanha e Irlanda afastaram do acordo com a Grécia a temática da reestruturação, pois estão os três num ciclo eleitoral e tal seria visto como uma derrota para as suas posições a favor da austeridade à alemã. Esta declaração do presidente da Comissão Europeia apenas sela com voz testemunhal o que já se sabia desde que o Syriza chegou ao poder. Qualquer alívio dado aos gregos espelharia a cumplicidade dos Governos português e espanhol, em especial estes, com a estratégia do empobrecimento violento e irracional seguida na Europa como resposta falhada à crise das dívidas soberanas. Na praia lusitana, de uma forma tão estouvada que ameaça tornar-se num caso de psiquiatria, Cavaco Silva tem assumido o papel de carrasco oficial da Grécia, desdobrando-se em declarações onde aparece como castigador implacável das pretensões de Tsipras e do povo grego. A actual direita chafurda neste ódio soberbo e parolo.

Para Passos é decisivo continuar a mentir e a praticar uma duplicidade obscenamente hipócrita, lá fora boicotando a resolução da tragédia grega e cá dentro dizendo que foi ele que salvou a Grécia com uma ideia da sua cachimónia lançada como quem não quer a coisa para cima da mesa das negociações. Esta palhaçada pode ser feita, e resulta, porque estamos em Portugal. É a política reduzida à gestão de eleitores com uma idade mental de 7 anos, embrulhados num ecossistema mediático onde um populismo de precisão é cultivado na indústria da calúnia com extrema eficácia. Mas por isto mesmo tem relevância o modo como Passos reagiu a Junker. Ele não o desmentiu, antes confirmou ser verdade o que ficou dito. E lançou-se para mais uma tanga só possível porque não existe imprensa por cá: substituiu a lógica eleitoral pela suposta lógica da confiança, onde a Grécia teria primeiro de ser avaliada adentro deste acordo antes de se tocar no assunto da reestruturação.

Há várias formas de analisar o episódio, mas vou escolher aquela que passa pelo editorial não assinado do PúblicoA “meia verdade” e “meio mal-entendido” – em ordem a matar dois ou três coelhos (salvo seja) com o mesmo texto. Nele, o autor trata com bonomia e superficialidade a mentira de Passos, não retirando daí nenhuma ilação ou consequência. Não mostra preocupação com a dimensão moral das sistemáticas mentiras do primeiro-ministro e, o que é ainda mais grave, ignora a dimensão política do que está em jogo. É que há votos para perder no caso de a opinião pública interiorizar que a coligação PSD-CDS concebe a política como mera luta do poder pelo poder, dispondo-se a contribuir para o sofrimento de milhões de europeus habitantes na Grécia se preciso for para salvarem as suas regalias e benesses. Este editorial bonacheirão, ou sonolento, não se pode sequer enquadrar numa qualquer agenda política, antes ficando como transparência para um estado de depressão colectiva.

O PS também não se pronunciou sobre a troca de galhardetes entre Junker, Passos e Cavaco. O facto de ter calhado em cima da discussão final para as listas de deputados não é uma justificação válida, sequer uma atenuante. Os socialistas têm uma estratégia de oposição espantosa, é o que é – ou talvez não passe de uma “meia-estratégia”, deixando-nos com a boca aberta de espanto ao vermos como desperdiçam oportunidades atrás de oportunidades para definirem a sua diferença cultural face à decadência reinante.

Os para quês da política

O caso Augusto Santos Silva-TVI parece estar agora definitivamente encerrado, após se ter acrescentado à rescisão do contrato a antecipação do fim das presenças do comentador no espaço “Os Porquês da Política” na TVI24 – as previstas edições até ao fim de Julho já não terão lugar. Ocasião favorável a um balanço como mero espectador, nada mais sabendo para além daquilo que é público.

Aparentemente, o que causou a decisão para terminar com a ligação de 3 anos estará relacionado com as seguintes palavras, saídas do seu teclado a 18 de Junho:

Ora bem, o horário dos meus 'Porquês da política' na TVI24 deixou de estar condicionado apenas pelo futebol. Ontem andou em bolandas e na semana passada foi interrompido abruptamente a meio por razões que manifestamente nada têm a ver com essa distinta atividade humana. É, pois, tempo, antes que se faça tarde, para aplicar os ensinamentos de Popper e avançar umas tantas conjeturas, à espera de refutação. Assim, as frequentes mudanças de horário, muitas delas clandestinas, ocorrem:
1. Porque sim.
2. Porque esse é mesmo o verdadeiro poder da bola: condicionar tudo o resto mesmo quando não existe.
3. Porque a TVI já estará farta de comentadores inscritos em partidos políticos e, como já lá tem fartura que chegue de inscritos no PSD, não precisa de um inscrito no PS.
4. Porque eu digo disparates e ninguém me vê e todas as informações em contrário que recebo da própria TVI24 são mentiras piedosas que, como tudo na vida, também um dia terão de ter o seu fim.
5. Porque a minha voz se está a tornar muito incómoda neste clima de sufoco que vivemos.

Esta não foi a primeira vez que se queixou em voz alta das alterações de horário, mesmo interrupção do seu espaço, por causa do futebol. Mas como se lê nas palavras citadas, o actual desabafo indica que outros conteúdos para além do futebol estiveram na origem de mais perturbações que o prejudicaram mediaticamente. Daí a virulência do seu protesto, presume-se sem esforço, construído com a intenção de politizar as ocorrências disfuncionais através de uma suspeição: a TVI estaria a afastar comentadores do PS para favorecer os do PSD neste preciso contexto eleitoral. Convenhamos, é uma acusação de arrebimbomalho para quem está a ser remunerado por aqueles cuja deontologia, até a honra, acaba de ser posta em causa.

Qual poderia ter sido a resposta da TVI? Uma qualquer. Aquilo é deles. Optaram por despedir sem nada explicar, secos e frios. Isto despertou em Santos Silva uma reacção furiosa, onde se declarou vítima de censura e carimbou como cobardes os responsáveis da estação, embora não tenha nomeado a quem se dirigia. Ao mesmo tempo, apelou abertamente a que terceiros assumissem as suas dores, tentando amplificar e espalhar a sua indignação. Reptos esses entremeados com alusões desafiadoras a alguns aspectos da correspondência entre ele e alguém da TVI responsável pelo processo. Chegou ao ponto de contar ter recebido vários convites de uma outra estação, os quais teria então recusado dado pretender cumprir o contrato com a TVI. Em suma, deu parte de fraco. E fracassou na intenção de angariar aliados que lhe dessem o gosto de uma vitória moral.

Ver Santos Silva a fraquejar tem tanto de raro como de espectacular. Só encontro um exemplo parecido, mutatis mutandis, quando lhe deu para se justificar a propósito da expressão “malhar na direita”, verbalizada em 2009; a qual ganhou notoriedade por ser inspiradora, por um lado, e por se constituir como munição que essa mesma direita não iria desperdiçar, por outro. Apenas recordando um episódio desse tempo, na própria RTP se fez grosseira manipulação com ela – colocando a gravação da sua expressão captada numa reunião partidária sobre imagens suas captadas na Assembleia da República – num registo sistemático de apelo ao ódio contra os governantes socialistas e o PS que nem uma maioria no Parlamento conseguiu evitar numa estação pública. Pois Santos Silva, por mais de uma vez ao longo dos anos, sentiu necessidade de se desculpar, recorrendo a uma explicação do foro semântico tão pueril e tão falha de convicção que acaba a despertar compaixão. Azar o nosso, dado que estamos perante uma das figuras mais acutilantes e sugestivas do socialismo democrático em Portugal.

Nosso o azar ao constatarmos que o legado do seu saber e experiência, tanto como académico como político, a que se junta uma paixão pelo debate, não esteja a servir da melhor maneira a melhor das causas. Ter a sua tribuna numa TV será agradável para a sua natural vaidade, e útil à comunidade, vai sem discussão. Mas é também poucochinho, convencional e preguiçoso. É-o porque estamos a falar de Augusto Santos Silva, um dos mais próximos de Sócrates ao longo de toda a governação anterior. O seu papel nesta fase da política nacional poderia ser outro que apenas esse de ficar satisfeito por dizer umas coisas para militante socialista concordar. Poderia, outrossim, ser o da peleja directa, olhos nos olhos, contra os populistas, os demagogos, os hipócritas e os cínicos. Ou poderia ser o de Platão do regime, teorizando a prisão de Sócrates e o seu processo por corrupção da religião vigente e da juventude. Tudo actividades que requerem outro cenário alheio ao conforto de um estúdio de televisão e seu jornalista simpático. Aliás, é para mim um absurdo – ou talvez faça todo o sentido – ter-se Jorge Coelho a debitar vacuidades na “Quadratura do Círculo” quando só Santos Silva ou Pedro Silva Pereira mereceriam lá estar para, finalmente, se atingir algum equilíbrio naquele histórico triângulo do comentarismo político.

Santos Silva sentiu-se ultrajado pelo tratamento despótico, ou desprezativo, recebido na TVI. Respondeu a partir do orgulho com que concebe o seu estatuto, procurando fazer da rejeição algo que não conseguiu demonstrar. Creio que nessa tempestade emocional se esqueceu dos para quês da política. A política é para a comunidade. E a comunidade, mesmo que não o saiba, precisa que o brilhantismo e coragem deste augusto cidadão venha em nosso socorro.

Ao cuidado do 19-1

The research team warns that a tendency to overclaim, especially in self-perceived experts, may actually discourage individuals from educating themselves in precisely those areas in which they consider themselves knowledgeable - leading to potentially disastrous outcomes.

For example, failure to recognize or admit one's knowledge gaps in the realm of finance or medicine could easily lead to uninformed decisions with devastating consequences for individuals.

"Continuing to explore when and why individuals overclaim may prove important in battling that great menace - not ignorance, but the illusion of knowledge," the research team concludes.


Self-proclaimed experts more vulnerable to the illusion of knowledge

Aquele momento em que

Aquele momento em que estou a ouvir Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, despejar a mais funda indignação contra quem trouxe a doença de Laura Ferreira para o combate político a propósito da viagem a Cabo Verde, sem nunca nomear o alvo ou alvos do seu nojo, e depois a ouvi-la recusar-se comentar o tratamento da mesma situação de doença na biografia de Passos Coelho lançada em período eleitoral, por fim a ouvi-la passados minutos a dizer que Passos é um político que cultiva a imagem de português de classe média para obter ganhos eleitorais, é um momento de iluminação sobre a dinâmica das emoções na deformação cognitiva.

Não só o que está em causa não remete para a decisão pessoal de aparecer em público com sinais visíveis do tratamento oncológico, como o que está em causa ficou ainda mais reforçado com a exploração hipócrita que os direitolas fizeram da denúncia de objectiva manipulação política. Porque se fez, faz e fará aproveitamento político da doença do cônjuge do primeiro-ministro. Quem trouxe a doença para a esfera mediática, logo política pelo contexto das suas responsabilidades, foi Passos Coelho. E quem decide fazer uma parangona com a sua mulher rodeada de três ministros não está a dar uma informação acerca da pessoa Laura e do modo como lida com a sua doença. Há nisto uma outra doença, moral, que torna o espaço público infecto e que atinge até aqueles que pareciam imunes.