Judite - Embora o valor que se tenha falado, enfim, que se andou aí a falar, fosse um valor de milhões, e não de 600 mil euros...
Marcelo - Por isso é que a notícia dizia que era um começo de pagamento...
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Ontem, a Judite lançou o tema do apartamento de Sócrates vendido a Makhdoom Ali Khan pelo lado da suspeição a respeito do comprador. Marcelo não se entusiasmou com isso, pois era chão sem uvas, e rapidamente estava a expressar a sua preocupação com a eventualidade de a acusação ficar fragilizada caso Sócrates usasse o dinheiro recebido para pagar os empréstimos concedidos por Santos Silva. A atitude da Judite, do princípio ao fim, foi de ostensivo gozo, transmitindo a mensagem de considerar a versão dos empréstimos uma mentira e, quiçá, não se importando nada que este paquistanês passasse a vedeta do Correio da Manhã e do Sol. E conseguiram juntos chegar ao ponto que o diálogo citado documenta. Uma profissional da comunicação social, presumo que com carteira de jornalista, e um prestigiado professor e consultor de Direito, uma das mais famosas e influentes personalidades públicas e políticas, foram para uma estação de TV líder de audiências, num dos programas com maior popularidade na televisão portuguesa, espalhar como facto que Sócrates deve milhões a Santos Silva. A partir de que informações? Não as da defesa do arguido, as quais nunca admitiram tal, nem as das declarações de Sócrates. Terão acesso ao processo e andaram a somar as parcelas? Se não têm, como se permitem tomar partido abertamente pelo lado da calúnia?
Não é especialmente custoso o exercício de perceber as vantagens para a direita de terem em diferentes graus de cumplicidade, variando ao longo do tempo e consoante os órgãos em causa e suas direcções respectivas, o grupo Renascença, o grupo Impresa, o grupo Cofina, a Newshold, a Media Capital e a Sonae, a que se veio juntar o Observador. Que sobra no ecossistema mediático nacional? E, do que sobra, que pode ser associado aos interesses do PS, fossem eles quais fossem? Nada de nadinha de nada. Já quanto aos interesses da direita, que se resumem a ter acesso ao poder, a luta consiste em desgastar e apoucar o PS, protegendo PSD e CDS. É só isto, é básico, e faz-se através do afastamento do debate político tomado como confronto de projectos de governação, substituído pela promoção da perseguição e ostracismo moral. Daí a existência de uma indústria da calúnia, com produção diária ao longo dos anos, e também a cultura do ódio, cujas raízes antropológicas fazem parte da matriz conservadora (seja esta de direita ou de esquerda) e que atingiram um nível de violência mediática nunca antes visto de 2008 a 2011.
O caso de Marcelo é paradigmático do radical desequilíbrio entre as agendas de direita e do PS, cenário instituído como normal desde os anos 90. De notar que a esquerda pura e verdadeira tem sido muito bem tratada pela direita, dado terem o mesmo inimigo em comum. O PCP está satisfeitíssimo da vida com o papel de capitalista maioritário e GNR das manifestações dos trabalhadores e do povinho, garantindo que elas ocorrem com soviética organização e respeito estalinista pela integridade das montras dos burgueses. O BE, enquanto durou a fantasia, tinha as suas vedetas mediáticas como coqueluches dos espaços de informação política, onde deram o seu melhor não no ataque à direita mas ao PS, alinhando invariavelmente com a estratégia laranja do derrube de Sócrates pela via moral. Ora, o lugar que Marcelo ocupa subsome este mapa de regiões centrais e limítrofes, pontos baixos e altos, zonas férteis e agrestes. Ele é a prova falante de que é possível vender como espaço de opinião política um formato de entretenimento, ao mesmo tempo que se vende como entretenimento o que é propaganda política. Na prática, existe há 15 anos um tempo de antena semanal, no horário nobre da TV portuguesa, sem rival sequer aproximado pela base. E devido aos dotes superlativos de comunicador, a forma como a política é reduzida à psicologia de café e à intriga telenovelesca favorece com estupenda eficácia a dissolução do político no moral. Também isto é populismo, sofisticado e pronto a mastigar por uma audiência universal.
Quantos milhões acham Judite e Marcelo que Sócrates deve a Santos Silva? Não quantificaram, até porque deixar o número no ar permite que a imaginação de cada um o leve para onde lhe apetecer, mas não erraremos por muito se dissermos que para eles Sócrates deve tantos milhões quantos o Correio da Manhã decidir. Qualquer coisa como 30, ou 17, ou 25. Tanto faz. Milhões. Se deve, gastou. Ou talvez nem precise de ter gastado. Pode dever por antecipação. Deve só porque eles estão numa conta do Santos Silva. E tudo o que pertença a Santos Silva está destinado a ser emprestado a Sócrates. Ou só naquela conta, como parece suspeitar a acusação. E, se estão naquela conta, então esse dinheiro é de Sócrates. E Sócrates, afinal, não deve nada, está só a fingir para ver se escapa ao chicote. Eis a única explicação possível para esta coisa tão estranha de ver amigos ricos a emprestar dinheiro a amigos, transmitem Marcelo e Judite aos outros milhões. Os milhões que dão sentido ao quotidiano político, e decidem o seu voto ou a sua abstenção, acreditando em quem tão sistemática e divertidamente espezinha a honra de vários concidadãos e de um partido.