Quando o DN publicou esta coisa – Testemunhos confirmam suspeitas sobre Vale do Lobo – constatei duas outras coisas: que o título não correspondia ao teor do texto, e que a edição digital do jornal lhe deu grande destaque, mantendo-o no topo da página mais de 24 horas, talvez mesmo 48. Obviamente, aceitarei ser corrigido caso a memória esteja a exagerar, mas não seria nunca por muito o eventual exagero. A peça era sensacionalista e foi explorada nessa lógica.
Hoje, o mesmo DN publica um texto de João Araújo – Testemunhas: o que pensa a defesa de Sócrates – cujo título parece ser da responsabilidade do jornal perante a iniciativa do advogado que terá mandado uma carta. Estou a presumir, pois ignoro. A ser, será uma continuação do primeiro título que lhe dá origem. Nesse, declarava-se apodicticamente existirem testemunhos que validam a suspeita de terem ocorridos ilícitos da responsabilidade de Sócrates relacionados com Vale do Lobo. Daí, estar tudo a correr bem do ponto de vista da investigação. Não só havia mesmo fumo como o fogo está quase a ser descoberto. No segundo título, circunscreve-se o texto a um ponto de vista, ainda por cima da defesa de Sócrates. Logo, não tem comparação com a credibilidade que o DN conferiu ao que Carlos Rodrigues Lima se lembrou de escrever. Para mais, e coerentemente com a tese que o jornal indicia perfilhar, estas declarações do defensor oficial de Sócrates não têm qualquer destaque na edição digital neste momento em que teclo, permanecem refundidas na secção de opinião.
Se isto é jornalismo de referência, então a referência é o esgoto a céu aberto. Sócrates não tem apenas inimigos na oligarquia económica e política, é também vítima dos poderes fácticos da comunicação social que obedece a quem a paga. Porque basta fazer contas neste país minúsculo e ver quem é que ocupa os lugares com maior influência crítica (em especial, acrítica) no espaço público. Constate-se como há um grupo muito reduzido que cruza rádios, jornais e televisões. Esse grupo acumula com ser também um clube dos directores dos órgãos de informação, e seus tenentes, assim ficando como montra da cultura jornalística e respectiva orientação política nos seus respectivos corpos redactoriais. O simulacro de pluralidade é dado pelo acrescento de umas poucas vozes diversas e independentes, as quais servem como álibi para o que é uma das maiores forças da direita portuguesa. Estas personagens não precisam de estar mancomunadas, elas são farinha do mesmo saco, para usar a expressão favorita do Jerónimo, mas um saco que contém grãos de diversa proveniência ideológica aqui agregados por um ódio, e um proveito, comum.
Quem usa o processo judicial onde Sócrates é arguido para o atacar, com variegados ganhos políticos e comerciais em perspectiva nesses ataques, serve-se de uma duplicidade que maximiza os castigos e danos possíveis. Por um lado, diz-se que ele não passa de mais um cidadão igual a todos os outros, daí estar sujeito ao que acontece a qualquer um. Ou seja, se é detido para prestar declarações e se depois fica preso sem saber porquê, isso é o normal, é o que se passa todos os dias. Aliás, se tal acontece é por culpa dele, que foi primeiro-ministro e não tratou do assunto. Por outro lado, diz-se que ele não é um cidadão igual a todos os outros. Daí se poder fazer da sua detenção um espectáculo, e depois prendê-lo sem provas que o justifiquem, prendê-lo para o investigar, deixá-lo preso mais três meses numa cela porque foi o que apeteceu aos magistrados e há que comer e calar, e ver ao longo de todo este tempo a sua privacidade devassada e pervertida na comunicação social através do recurso a crimes e a deturpações, com a supina canalhice de se invocar o “interesse público” para chafurdar e caluniar aqueles que consigam apanhar.
Isto é feito a Sócrates com o beneplácito da sociedade. Estamos a ser testemunhas de uma violação colectiva, seguida de espancamento e apelos à lapidação. Uns de nós berram de prazer e fúria, outros limitam-se a ficar imóveis a olhar para a matança. E porquê? Porque Sócrates é o maior corrupto de que há memória? Porque já foi condenado por algum crime? Porque já temos uma acusação formada que dê para conhecer os males em causa? Porque as suspeitas no espaço público são claras a respeito da existência de algum ilícito que se aguente no tribunal? Não. É só porque há quem nos trate como gado para abate. E nós deixamos.

