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E porque não abdicar do palácio, do motorista e das idas ao estrangeiro?

Nóvoa esperou pelo fim do debate na RTP, ontem, para vir dizer que abdicará da subvenção vitalícia caso seja eleito para Presidente da República. O facto de não o ter dito no debate sugere que não o pensou durante esse período, muito menos antes – sendo aqui o antes todos os meses em que está em campanha, mais todos os anos em que se considera sujeito político. Se não o pensou, terá sido uma ideia que lhe ocorreu nesses minutos em que saiu do palco e foi para a sala à espera de ser entrevistado, ou mesmo durante a entrevista, qual iluminação fulminante. É uma possibilidade. Outra é a de alguém lhe ter dito à saída do debate que aquilo não lhe tinha corrido bem, que era preciso dizer uma cena qualquer de impacto para não se deixar contaminar mais ou para limpar um bocado da má imagem causada pelo seu silêncio ao longo do dia, ainda por cima face à exuberância da Marisa e da habilidade do Marcelo no trato da questão. É outra possibilidade, que me parece mais provável do que a anterior. Mas também considero a anterior credível, e muito.

Acontece que, com essa declaração, Nóvoa apenas consegue transmitir que se assume como volúvel e oportunista face à pressão populista contra os políticos. Não há nenhuma razão do foro orçamental que justifique estar-se a cortar um rendimento vitalício a quem desempenhou o cargo de Chefe de Estado. Por isso, não é apenas ridículo, é patético estar a invocar gastos exagerados ou errados para o Orçamento. Restam as razões moralistas, de uma moral abjecta ou alienada nos seus princípios e finalidades.

Austeridade? Paf!

Austerity has slowed regional recovery during the post-2008 recession, says new LSE study

Aguarda-se que os pafiosos apresentem os seus estudos onde se demonstre a eficácia da austeridade punitiva. Porém, tratando-se de uma maltósia onde tropeçamos em negacionistas do aquecimento global, até negacionistas da evolução (ou tendo tios da América que o pensem), talvez o melhor seja esperar deitado.

Entretanto, sabemos quem foi que disse o que disse, e quando o disse. Disse.

Revolution through evolution

Girls should expect poorer physics grades, new report suggests
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A man’s best friend: Study shows dogs can recognize human emotions
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Study examines the downside of larger families
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What you eat can influence how you sleep
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‘Why I Give Patients My Cell Phone Number’
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Religious decline does not equal moral decline, says researcher
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Faz hoje 50 anos que

Caíram 4 bombas atómicas na Península Ibérica. Dois aviões norte-americanos, um com as bombas e o outro de abastecimento de combustível, chocaram no ar. Só no final de 2015 é que os Estados Unidos aceitaram responsabilizar-se pela limpeza dos terrenos contaminados com plutónio. Não sei o que será mais incrível nesta história, se a imagem de 4 bombas atómicas a caírem mesmo aqui ao lado de Portugal, e logo por acidente para ser ainda mais absurdo, se a demora dos americanos em tratarem do problema que causaram, no que fica potencialmente como o absurdo maior.

A BBC explica.

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Os fios da telefonia

Afinal, a manifestação de capacidade crítica para com Cavaco, mostrada por Paulo Baldaia após as legislativas, não pode ser compreendida sem o recente anúncio de ir abandonar a direcção da TSF. Esta percepção só se reforça à luz da escolha do seu substituto, David Dinis, o qual fez do Observador um antro da direita radical à portuguesa. Basta consultar a lista dos comentadores, e ver como os autores das notícias tratam os assuntos onde se pode prejudicar o PS, para termos o retrato completo do que esta direita decadente tem para oferecer. Não chegam ao registo do Correio da Manhã mas trazem deste tudo o que seja aproveitável para os mesmos fins. No resto são iguais ao Expresso e ao DN do Marcelino, quando este trabalhava intensamente para meter Passos no poder. O Povo Livre tem ali um forte concorrente.

Como será a TSF com o David Dinis? Nalgumas coisas, exactamente igual. Baldaia nunca escondeu as suas preferências, tendo defendido Cavaco, Passos e Portas durante anos. Parece acompanhá-los em sincronia de fim de ciclo. Em inúmeras ocasiões os comentadores profissionais chamados ao Fórum TSF, por exemplo, vinham com a mesma cassete onde o PS/Sócrates era o alvo a abater. Este Dinis traz energia nova para fazer o mesmo e ir mais além. Talvez consiga meter o Zé Manel, a Helena Matos, o Rui Ramos e a Maria João Marques no éter para levarem ao ouvinte parado na bicha automóvel um fanatismo doentio desconhecido até agora na história da estação.

Para além do império que a direita já tem na comunicação social – incluindo os principais títulos da imprensa escrita, todos os canais de TV (posto que na RTP igualmente moldam a agenda editorial) e a Renascença – conseguir domar por completo a TSF apresenta-se como uma forte candidata à explicação principal para a escolha de quem tem um currículo jornalístico tão militante e sectário.

Fazia falta ter este César no palácio

Estou curioso a respeito do resultado que Maria de Belém obterá. Por diversas vezes, no contexto da escolha do candidato do PS para as presidenciais de 2011, aqui defendi ser ela a melhor candidata no páreo com Cavaco. A ter concorrido nessa altura, teria ao seu dispor a máquina do partido e pela frente um Cavaco debilitado pelo rancor e perfídia da sua luta contra Sócrates e os Governos socialistas. Poderia, nessa altura, ir buscar uma parte importante do voto do centro e das mulheres, suficiente para obrigar a uma 2ª volta. Lá chegada, teria fortes possibilidades de ganhar. Em vez disso, Alegre e Louçã boicotaram essas eleições e levaram à incrível derrota da esquerda. Incrível porque é absolutamente incrível que Cavaco tenha sido reeleito depois de ter feito o que fez a partir de 2008, culminando na “Inventona de Belém” e na armadilha de permitir um Governo minoritário num contexto de desvairadas e colossais crises internacionais que deixavam Portugal num estado de emergência financeira, económica e política. Sabemos o que aconteceu logo a seguir à sua reeleição e como daí vieram 4 anos e meio de insanidade e castigo.

Agora, Belém fala para velhinhos e empregados do Estado. É apenas uma entre várias candidaturas que se nivelam por baixo, tamanha a falta de legitimidade histórica e de carisma. Para o cenário ser completamente mau, a crise entre Seguro e Costa revelou-lhe uma faceta sectária que tinha ficado mais ou menos abafada enquanto Sócrates foi secretário-geral. Isso retira-lhe, aos meus olhos, estatuto presidencial. Vê-la a concorrer em 2016 significa apenas que é essa a energia onde carrega as pilhas, ficando como a representante de Seguro nas tais primárias referidas por Costa.

Ignoro por completo por que é que Carlos César, por exemplo, não está na corrida após ter ficado encerrado o capítulo Guterres. Se calhar, por alguma circunstância da sua vida pessoal ou familiar, se calhar porque não teve vontade para tal, se calhar porque o partido não quis. Apenas sei que ele seria o candidato natural do PS, trazendo uma experiência, um perfil e uma atitude que não teriam rival no campo das qualidades que associamos a um Presidente da República de todos os portugueses.

Azar o nosso.

Maquiavel está de saúde e recomenda-se

Se perguntarmos a qualquer político ou jornalista em que lugar coloca a Justiça numa hierarquia de importância constitucional, social e política vamos ter como invariável resposta que ela deve ocupar o topo da escala. Porque é lógico: será possível ter uma comunidade organizada sem cuidados de saúde, sem polícia, sem exército, até sem dinheiro, como ocorreu durante milhares e milhares de anos na História, mas não é possível que um qualquer grupo humano se mantenha com coesão identitária sem que haja uma qualquer forma de estabelecer e aplicar a justiça. Sem um corpo de princípios coercivamente “justos”, e força para o instituir, os grupos desagregam-se, geralmente pela violência interna.

A partir desta consensualidade, os ingénuos como eu esperavam que a lógica se mantivesse calhando ocorrer na esfera da Justiça algo de inusitado, espectacular e gravíssimo, como a abertura de uma investigação a respeito de suspeitas de corrupção de um ex-primeiro-ministro. A dimensão institucional desse caso, e a notoriedade mediática que gera, mais o alarme social criado, e ainda as implicações eleitorais inerentes, são camadas que acrescentam importância ao que a elite da opinião publicada portuguesa considerava já ser da maior importância nacional mesmo a um nível corrente. Em concomitância, o caso permite olhar com uma luz muito mais intensa para a Justiça, ficando esta com a obrigação de aparecer exemplar e à altura da complexidade jurídica do que pretende investigar e, eventualmente, julgar.

Saltemos agora para a entrevista de Sócrates à TVI em Dezembro. Deixando a parte das suas explicações acerca dos motivos que o levaram a pedir dinheiro emprestado a um amigo e logo àquele, ficando para a consciência de cada um a avaliação da credibilidade dessa justificação e a moralidade da mesma dado o seu estatuto, temos um conjunto de afirmações que se reportam directamente à actuação da Justiça. Essas declarações não foram desmentidas, algumas correspondem a factos já estabelecidos publicamente, e vêm de um arguido onde o tal estatuto como ex-primeiro-ministro, ex-ministro, ex-deputado e ex-secretário-geral do PS aumenta o peso das denúncias que faz. Estas:

- Detenção e prisão alegando existirem provas irrefutáveis a justificarem as medidas. Mais de um ano depois, não foram apresentadas essas provas, nem a acusação, nem sequer os factos que indiciam os crimes de corrupção.

- A acusação não foi ainda feita porque o Ministério Público não tem provas para tal. No processo, não consta nenhum indício de corrupção na altura da detenção.

- A prisão foi justificada com o perigo de perturbação do inquérito. Mas o que se pretendeu evitar foi só a liberdade de expressão de Sócrates para se defender.

- Qual a razão para se terem feito protestos contra a prisão de um cidadão preso em Timor-Leste sem acusação durante 5 meses e não se terem feito protestos iguais, ou até maiores, em Portugal por causa da situação da prisão de Sócrates, igualmente sem acusação ao fim de 11 meses de encarceramento?

- A violação dos prazos legais do processo corresponde à violação dos direitos do arguido.

- O Ministério Público tem feito uma campanha de difamação contra Sócrates, por actos ou omissões, cuja finalidade foi a de criar uma presunção de culpabilidade através de fugas de informação seleccionada.

- A detenção foi encenada para ser pública, apesar de Sócrates ter informado as autoridades que viria de Paris para prestar declarações assim que chegasse.

- Prenderam "toda a gente", sem provas nem indícios suficientes, na expectativa de encontrarem alguma coisa na devassa da privacidade de Sócrates e terceiros.

- A recusa da pulseira electrónica levou a que Sócrates fosse castigado com mais 3 meses de prisão em Évora por estar a exercer um direito.

- Uma parte do inquérito, o tomo 60, não foi disponibilizada à defesa de Sócrates ao arrepio do que determinou o acórdão da Relação.

- A descoberta dos responsáveis pelas violações ao segredo de justiça remete para apenas três pessoas, declarou o chefe da investigação fiscal a Sócrates referindo-se a si próprio, a Rosário Teixeira e a Carlos Alexandre.

- Os prazos do inquérito são meramente indicativos, queremos manter esse arbítrio que permite a permanência das suspeitas levantadas contra alguém por tempo indefinido?

- Procuradora-geral da República tem que justificar as acções e omissões do Ministério Público.

- O Estado permitiu que fosse levada a cabo uma campanha de denegrimento pessoal.

- Desde o dia 15 de Abril de 2015 que o Estado não respeita os direitos da defesa.

- Rosário Teixeira terá admitido a Sócrates que ele foi detido e preso para ser investigado. As suspeitas lançadas na indústria da calúnia em direcção a diferentes alvos comprovam que assim aconteceu.

- O Ministério Público não investigou nada que tenha relação com a suposta corrupção de Sócrates.

- O caso Freeport nasceu no gabinete de Santana Lopes quando este era primeiro-ministro. O caso das escutas a Cavaco nasceu na Casa Civil da Presidência.

- Existe um processo no Ministério Público sobre as PPP, para o qual foram feitas buscas e apreensões em casas de ex-ministros socialistas, que dura já há mais de 5 anos e meio e ainda nada se sabe sobre as suspeitas levantadas.

- A detenção e prisão de Sócrates foram decisivas para a derrota do PS nas eleições de 2015, parecendo fazer parte de um plano para tal.

Qualquer uma destas pontas soltas relaciona-se fundamentalmente com a Justiça como serviço à comunidade e respeito pela Constituição, para além de abrirem inevitáveis questões políticas. Teriam interesse jornalístico por si só caso o arguido fosse um ilustre desconhecido da multidão. Sendo quem é, trata-se de matéria com combustível suficiente para incendiar o regime. Porém, a reacção dos tais que enchem a boca com a primazia da Justiça qual foi? Da esquerda à direita, dos jurisconsultos aos publicistas, dos políticos profissionais aos amantes da política, dos estouvados aos sensatos, quem é que aceitou assumir a indignação de Sócrates? Uns poucos muito poucos. O que se passou na RTP é paradigmático da resposta dada pela elite ao desafio lançado por Sócrates.

Para quem não saiba ou esteja esquecido, há que lembrar ser a RTP uma estação de televisão paga pelo Estado e obrigada a respeitar o que se considere ser serviço público. O que tal seja no campo da informação, todavia, aparece como enigmático à luz do exemplo seguinte. Na RTP3 foram chamados José Manuel Fernandes e André Macedo para comentarem a entrevista de Sócrates, tendo Adelino Faria como jornalista da casa. O mesmo trio repetiu em dois dias os comentários à 1ª e 2ª parte da entrevista. E a primeira pergunta dada a opção tem de ser a respeito do critério que levou a RTP, e logo a RTP, a escolher estas duas figuras para se pronunciarem. Para além de terem o mesmo ponto de vista político e moral sobre Sócrates e a Operação Marquês, no caso do Zé Manel estamos perante um infeliz que dá sobejos sinais de ser vítima de uma obsessão raivosa contra o sujeito a quem lhe pagam ou pedem para falar, patologia nascida aquando do episódio da OPA da Sonae à PT em 2007. Como se pode ver ou rever – 1ª parte | 2ª parte – ambos relativizaram e desvalorizaram a dimensão estritamente formal do processo, preferindo dirigir a sua atenção para a dimensão das suspeições criminais. Nesta, usaram as notícias despejadas no espaço público tomando-as como factos inquestionáveis, provas. A partir delas, assumiram o papel de interrogadores e queixaram-se por Sócrates não ter satisfeito as suas expectativas e desejos. A isto correspondeu Adelino Faria com cumplicidade ou aprovação explícita e implícita.

Olhemos com mais atenção para o que se passou. O canal especialista em informação da estação pública de televisão toma uma opção editorial com vastas consequências na sua audiência (seja ela qual for quanto à dimensão e tipologia) ao escolher certas figuras, e não outras, para condicionar a opinião pública a respeito de um grande acontecimento político, social e até cultural, dado o seu impacto percebido e novidade histórica. As figuras escolhidas não oferecem qualquer bipolarização ou divergência opinativa substancial, antes comungam da mesma narrativa e só se diferenciam por uma estar doente e a outra manter um mínimo de salubridade ética e deontológica (embora colada com cuspo e cheia de buracos). Esta posição comum acaba reforçada pelo jornalista supostamente neutro, assim exponenciando o veredicto: Sócrates está a ser justa e correctamente investigado, as suas queixas não têm importância para a gente séria, e o arguido não consegue defender-se do que já foi lançado contra ele. Em suma, é o próprio canal do Estado quem estabelece a culpabilidade de Sócrates, haja ou não acusação, haja ou não condenação.

Corolário, o crime compensa. As violações ao segredo de justiça, em si criminosas a montante e jusante, são legitimadas pela opinião profissional e exploram-se como arma de arremesso para agendas políticas, comerciais ou individuais nascidas da inveja, do ressentimento, da vingança e da pulhice. Maquiavel escreveu, faz algum tempo, acerca deste mecanismo do poder onde o que está em causa é conseguir impor à moral popular uma prática imoral alegando que a mesma é necessária face ao perigo em causa. Daí a intensidade das campanhas de ódio, as quais servem o propósito de diabolizar aquele a quem se pretende fazer algum mal que, sem essa diabolização, seria censurado pela comunidade. Pintando-o como um monstro, consegue-se o melhor dos dois mundos – atacá-lo sem piedade nem limites e passar por protector da sociedade. Recorde-se o episódio, de 2010, em que Pacheco Pereira e João Oliveira se enfiaram numa saleta da Assembleia da Republica para cheirarem as cuecas de um primeiro-ministro apanhado em escutas ilegais e recorde-se como um deles saiu a berrar que tinha visto o Diabo e o outro veio dizer que nada de relevante do ponto de vista criminal ou político lá se encontrava. Recorde-se como em 2015 nenhum partido quis levar a votação qualquer proposta a respeito da Justiça, tendo sido um assunto completamente ausente da campanha. Recorde-se como, há dias, um cavaleiro andante do calibre de Sampaio da Nóvoa, quando instigado com insistência por um jornalista para se pronunciar acerca da demora no desfecho na Operação Marquês, fugiu por onde pôde e nada disse para não se comprometer ou queimar. O Estado de direito que se foda, é a mensagem da classe política e jornalística neste jardim à beira-mar abandonado.

Sócrates é o caso supremo, na memória viva dos portugueses, deste exercício de hipocrisia letal.

Revolution through evolution

Racial bias may be conveyed by doctors’ body language
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Why white, older men are more likely to die of suicide
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Religious beliefs don’t always lead to violence
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Roman toilets gave no clear health benefit, and Romanization actually spread parasites
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Tackling World’s Problems with Human-Computer Intelligence
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When you don’t seek out ethical products, you denigrate those who do
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Study Strengthens Link Between Stock Market Performance and Employee Health and Safety Programs
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O topete do biltre

"Eu não venho para deixar tudo na mesma. O que incomoda pessoas como o professor Marcelo Rebelo de Sousa é que eles sabem que eu não venho para deixar tudo na mesma. Que eu não venho para deixar a política em Portugal nas mãos dos mesmos e da mesma maneira. Sabem que eu vou trazer uma dimensão nova para a política. Isso incomoda-os muito e reagem como um corpo que se fecha, como uma corporação que se fecha, como uma espécie de um clube privado, tentando desqualificar o que é a vida das pessoas, a vida nas profissões, a vida cívica. Depois de terem estado muitos anos a apelar a que novas pessoas viessem para a política.

Eu estou a candidatar-me à Presidência da República depois de longuíssimas conversas com as três pessoas que melhores, que mais qualificadas estão para saber se eu posso ou não exercer bem este cargo - os três anteriores Presidentes da República: general Ramalho Eanes, doutor Mário Soares e doutor Jorge Sampaio. São eles, mais do que outras pessoas, que me podem dar essa opinião e esse conselho de que eu estou em condições de exercer este cargo, e foi isso que eles fizeram. E a decisão deles, a opinião deles, foi absolutamente decisiva para a minha decisão."


Nóvoa para Marcelo

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Sampaio da Nóvoa é um moço que já ultrapassou os 60 anos. O 25 de Abril de 74 apanha-o com umas pujantes 19 primaveras. A vida toda pela frente. A liberdade e a democracia ao dispor para a sua realização política. Que fez a seguir? Pelos vistos, muita coisa. Daquelas que geram boa fama para além do bom proveito. Mas o que não fez, pelo menos em público, foi a denúncia de estar a política na mão dos “mesmos”, os tais da corporação que se fecha e do clube privado a que em 2016 alude mauzão. Não o fez, facto, ponto final. E é o próprio a explicar esse silêncio ao elogiar Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. Foi porque não o pensou durante três décadas, ou quiçá mais tempo ainda, eis o enigma resolvido. Terá sido recentemente que descobriu o tal problema que garante ser ele quem melhor o pode resolver logo que ganhe as eleições presidenciais. Como é que sabe ser ele o melhor cidadão português maior de 35 anos para a função? Disseram-lhe, e ele acreditou. Ou melhor, decidiram, como chega a verbalizar, e ele obedeceu.

Pelas contradições é que se topam à distância os biltres. Podemos encontrá-los na família, no café, no emprego. Nos jornais, rádios e televisões. E nos consultórios, disto e daquilo. Podemos apanhá-los dentro de nós próprios, entretidos a despachar ideias manhosas, foleiras e cobardes para o nosso córtex frontal. Fatalmente, vamos apanhá-los na política. É o caso deste Nóvoa que anuncia o tempo novo, mais uma revolução pronta a revolucionar bastando juntar água. Ele sabe, e tem supino gosto em revelá-lo ao povoléu, que lhe chega a sua magnífica pessoa de reitor para mudar a História. Pelo que tudo se resume ao seu esforço para repetir essa informação perante brutos que manifestem dificuldade em perceber ou aceitar o que diz.

O candidato que promete ouvir todos e todos abraçar, alguns com beijinho, deixou ver como toma grandes decisões na vida, no caso concorrer a Presidente da República. A sua preferência é, e sem qualquer surpresa, pelo recurso à autoridade. Uma autoridade reunida em conselho de sábios. O que lá se decidir, em longuíssimas conversas, fica decidido. E depois há que dizer o que for apropriado para as inteligências menos desenvolvidas, sempre carentes de simplificações e reagindo com os instintos. Há que acusar os adversários daquilo que se pratica por não se conceber outro o exercício do poder. É nesta tradição que Nóvoa se revela mestre, e tem uma carreira brilhante atrás de si a comprovar o acerto desse ancestral modus operandi.

Vir depois desta manifestação do mais retinto conservadorismo oligárquico agitar a bandeira do terramoto por encomenda ao serviço da salvação colectiva graças à força telúrica que o anima é algo mais do que hipocrisia, é topete.

Muralhas ao abandono

"Sabe como eu acompanho com apreço a sua luta no domínio da corrupção. Falei dela muitas vezes."

Marcelo para Morais

"Muitas das denúncias que o dr. Paulo Morais tem feito são denúncias certas."

Nóvoa para Morais

"Tenho a minha biografia, tenho a minha vida claramente ao serviço da luta contra a corrupção."

Belém para Morais

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Os mais fortes candidatos a serem o próximo Presidente da República sujeitaram-se obnoxiamente, nos debates respectivos, ao tratamento demagógico e populista com que Paulo Morais explora a problemática da corrupção. Marcelo declarou-se fã, Nóvoa validou o método e a matéria e Belém reclamou pertencer ao clube. Este espantoso espectáculo exibe a uma luz implacável o estado de decadência política a que a direita conduziu o País desde 2004, com o lançamento do caso Freeport, e depois a partir de 2008 e até ao presente, em carga desenfreada envolvendo partidos, comunicação social, Presidência e agentes de Justiça. Não se sabe quando é que a estratégia terá fim ou se o terá.

Este Morais, mais um “homem do Norte” que se oferece para meter na ordem a moirama com uns berros, funciona como a perfeita caixa de Petri do fenómeno. Licenciado em Matemática (pasme-se), doutorado em Engenharia e Gestão Industrial (assombro) e professor catedrático há décadas a ensinar aos petizes universitários o que é a estatística e quejandos (temor e tremor na Grei), seria de esperar que o seu discurso contivesse números a respeito da corrupção. Pelo menos, alguns. De um fulano que anuncia ter dedicado a sua vida a esta causa, e que se apresenta como um académico e figura pública de alto prestígio, pelos menos um esboço dos casos e indícios de corrupção em Portugal, por mais preliminar que fosse, era o mínimo dos mínimos a trazer para sustentar a retórica de feira. Ainda por cima, estando numa campanha onde promete acabar com o mal recorrendo apenas ao poder mágico que o destino confiou à sua impoluta e magnífica pessoa. Como é que estamos de corrupção nos Governos, nas autarquias e nos institutos públicos? Onde cresce, onde diminui, onde se mantém, onde nunca ocorreu? Quais os padrões, qual a tipologia, quais as causas? Quem está a falhar, e a acertar, no campo da fiscalização? E no da prevenção? E no da investigação? E no da condenação? E porquê? Se alguém quiser que o Morais trate do assunto com alguma objectividade, com algum acesso tangível, concreto e racionalizador, terá de aguentar até à sua reencarnação.

Na verdade, o Morais caçador de corruptos tem números. Muitos. Resolveu a carência dos dados sobre a corrupção real indo buscar todos os números da corrupção possível. E estamos a falar mesmo, mesmo, mesmo de todos os números. Foi assim que chegou à fórmula suprema para encantar o taxista e o leitor do esgoto a céu aberto: os Orçamentos de Estado são o instrumento da corrupção da classe política. Não é simplesmente linda esta ideia? A partir dela, dos deputados aos ministros, passando pelos Presidentes da República e tribunais, vai qualquer um na enxurrada. Só se salva ele e quem ele indicar. Também nesta lógica surge uma outra ideia igualmente linda, a de que os Orçamentos de Estado são complexos de mais, e que bastaria uma semana para elaborar um. Aqui temos de reconhecer o espírito de misericórdia que revela, pois ele poderia ter dito que os Orçamentos de Estado se fazem num fim-de-semana havendo vontade para tal, ou até numa tarde de amena cavaqueira desde que esta viesse na continuação de um almoço bem regado. Podia, mas concedeu mais tempo a uma classe política que sabe ser intelectualmente desqualificada e corrupta, uma semana inteirinha. Talvez seja da proximidade do Natal.

O Morais anuncia mais. Diz que irá a Angola e ao Brasil dar um responso aos governantes e políticos corruptos desses países. Ainda não o disse, mas creio que lá chegado terá tempo de puxar as orelhas aos magistrados angolanos e brasileiros e deixar um conjunto de leis que espera ver aprovadas quando voltar a esse ultramar para fiscalizar as mudanças exigidas. Por cá, com ele a mandar nisto a partir do palácio rosa à beira Tejo, assistiremos a um festival de quebra de contratos entre o Estado e privados, o que nos deixará em superávite no espaço de um ano. O critério é tão simples como o que nos permite ter Orçamentos de Estado for dummies: se os contratos tiverem algures a sigla PPP ou tiverem a assinatura de algum ministro socialista, o Presidente Morais interrompe de imediato os pagamentos. É que Sócrates é um dos grandes representantes da corrupção em Portugal, como já afirmou, tendo sido muito bem acusado, como igualmente já profetizou antecipando-se ao próprio Ministério Público e dando mais um exemplo de como com ele a tomar conta disto os problemas resolvem-se num piscar de olhos.

Esta patética figura reproduz o discurso do ódio aos políticos, às instituições democráticas e ao Estado de direito. Nisso imita como caricatura ambulante e tosca a parte principal da opinião difundida pela imprensa portuguesa, incluindo parte dos seus directores. É um espelho da sociedade actual e das agendas dominantes. Não admira que tenha também em Sócrates e no PS um alvo favorito, como fazem todos os da sua laia. O que há de notável no seu caso, porém, não se circunscreve à sua pessoa. Antes, é o que ele permite descobrir dos restantes actores políticos, especialmente daqueles a quem se exige maior responsabilidade política e cívica. Para nossa miséria, até esses capitulam perante alguém que tinham o dever de denunciar e castigar com tolerância zero. Eis a corrupção fundamental no seu esplendor, quando os guardas abandonam as muralhas da cidade e participam, por actos ou omissões, no assalto e na pilhagem.

Ao sonso-mor, segue-se o pantomineiro major

Marcelo é o muitíssimo provável próximo Presidente da República. Está a fazer tudo bem, aparecendo manso, ecuménico. E não irá fazer pior do que Cavaco, mas aqui apenas por tal não ser possível. Acontece é que Marcelo não merece ser o próximo ocupante do Palácio de Belém. Ou melhor, merecíamos muito melhor no topo da hierarquia do Estado do que um inveterado e compulsivo pantomineiro que acumula com ser um dos mais sofisticados praticantes da baixa política.

Mas a esquerda portuguesa, vítima de si própria, merece o castigo.

Revolution through evolution

Competitive Auctions Drive Women to Bid — and Value Winning — More Than Men
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In race stereotypes, issues are not so black and white
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Eating when we are not hungry is bad for our health
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To Bolster a New Year’s Resolution, Ask, Don’t Tell
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