Arquivo da Categoria: Valupi

Exactissimamente

2. O conceito de saldo estrutural, apresentado como princípio fulcral do Tratado Orçamental, é, afinal, gerador dos maiores equívocos. Tem contornos imprecisos e ambíguos, baseia-se em critérios subjetivos de classificação de receitas e de despesas públicas e numa fórmula de cálculo de impossível aplicação objetiva. Ficámos a saber que o novo instrumento da Comissão Europeia serve sobretudo para mostrar quem manda, para mostrar o desagrado com opções de política que procuram caminhos alternativos aos da política de austeridade. O grau de flexibilidade inscrito neste indicador está a ser usado de forma discricionária para beneficiar os grandes países ou os países alinhados com a ortodoxia de Bruxelas.


MARIA DE LURDES RODRIGUES

Soromenho contra Soromenho

Sob as tílias, em Berlim – 5 de Fevereiro de 2016

Há apenas oito anos, a dívida alemã e a portuguesa eram quase iguais, respetivamente, 65,2% e 68,4% do PIB. A crise financeira obrigou os dois países a endividarem-se para evitar o colapso financeiro (respetivamente mais 17,3 e 25,6 pontos percentuais até o início de 2011). Se em 2011 o BCE tivesse já em vigor o atual mecanismo de apoio condicional, mas "ilimitado", à compra da dívida pública, Portugal não teria sido empurrado para o resgate. A nossa dívida não teria disparado dos 94% para os atuais 130%. Sem resgate, muito sofrimento e destruição material teriam sido evitados.

[retirado o lustro]

Sócrates contra Sócrates – 28 de Abril de 2011

O ainda primeiro-ministro ficará para sempre ligado à situação perigosa em que o País mergulhou. Só uma visão distorcida poderá reduzir todas as causas complexas à sua culpa pessoal, mas, como dizia o Sócrates imortalizado por Platão: "Um chefe de Estado nunca pode ser vítima inocente da cidade a que preside" (Górgias, 519c). Os psicólogos talvez ajudem a perceber as razões que levaram o chefe do Governo demissionário a identificar-se na esfera pública com a figura do filósofo Sócrates, e não com os nomes de seus pais, como ocorre na nossa tradição. É provável que essa escolha tenha sido motivada pelo apelo da ressonância universal do mestre e alter ego de Platão. Paradoxalmente, o contraste entre o estilo e a prática política do Sócrates luso, e a teoria política do imortal filósofo grego é total e absoluto.

No diálogo Górgias encontramos a expressão plena da tarefa e missão da política, segundo o filósofo ateniense: educar os cidadãos, desenvolver-lhes as capacidades do pensamento crítico, de procura e aceitação da verdade. Em relação aos célebres líderes Temístocles e Péricles, o filósofo fazia um balanço duríssimo: "Diz-se que fizeram grande a cidade, mas não se vê que ela está apenas inchada, que esta grandeza que lhe criaram é uma espécie de tumor (...) encheram a cidade de portos, estaleiros, muralhas, impostos e outras bagatelas do género" (519a). O tumor que o Sócrates luso ajudou a expandir traduz-se numa dívida externa, cuja punção vai exigir os sacrifícios de uma geração. As obras de alcatrão e cimento sobraram, as do espírito escassearam. Para que Portugal possa prosseguir como comunidade de destino precisamos de mudar de método. Substância em vez de aparência. De olhos na verdade. Como ensinava Sócrates. O grego.

Seríamos mais ricos do que a China, se por cá a falta de vergonha na cara pagasse imposto

Nuno Magalhães diz após reunião com Mário Centeno que os centristas não vão dar luz verde a "aumento de impostos sobre a classe média"

"Não há dúvidas quanto a essa matéria porque este não é o nosso caminho", afirmou Magalhães acerca do sentido de voto do CDS, sublinhando que a bancada a que preside não compactuará com medidas fiscais que "afetem a classe média".


Fonte

Cineterapia

Mark Ruffalo
Spotlight_Tom McCarthy

A imagem acima não é do filme de que falo. Ou será? Capta uma micro-expressão de Mark Ruffalo ao ser entrevistado sobre o seu trabalho. Esplêndido trabalho, o melhor da sua carreira até à data (enfim, sei lá eu). Nesse preciso momento, estava a explicar que os padres violadores escolhem rapazes como vítimas para os seus abusos não por motivos relativos à orientação sexual mas ao efeito destrutivo que esses abusos têm nas crianças e jovens do sexo masculino – para mais já fragilizados por ambientes familiares social e economicamente degradados, a tipologia preferida dos sacerdotes criminosos. Estas vítimas ficam esmagadas pela vergonha e pela confusão, o que as leva a sentirem-se impotentes sequer para pedirem ajuda, assim permitindo o prolongamento dos abusos. O rosto deste actor não está aqui a expressar prazer, o que vemos não é um sorriso. Trata-se de um esgar de dor, incontrolado, que dura menos de 1 segundo. É o rosto de um cidadão.

Há três histórias a decorrerem em simultâneo nesta obra que se vê com um ambíguo sentimento de orgulho colectivo. Uma relativa ao papel do jornalismo como autêntico quarto poder. Outra relativa à Igreja Católica como instituição cúmplice de crimes abomináveis, tanto pelas consequências individuais como pela escala. E uma terceira, e a mais importante na trilogia, que concerne aos mecanismos pelos quais a sociedade convive e protege o crime. No caso, o crime é do foro sexual, mas a lição aplica-se a outros crimes que dependem do acordo de poderes fácticos variados. O filme não se inibe de fazer uma comparação com a Alemanha Nazi e o alegado desconhecimento dos alemães civis ao tempo acerca do que se estava a fazer aos judeus e outras minorias. Sabe-se hoje que até no exército regular alemão havia soldados a participarem em chacinas, assim como ninguém acredita que as populações junto dos campos de concentração ignorassem a matança industrial.

O arco narrativo institui no seu interior uma contraposição entre dois pólos, assim estabelecendo um círculo hermenêutico nuclear onde o filme se assume como acto político. De um lado, temos a cena em que se dramatiza como Sacha Pfeiffer convenceu Joe Crowley a ser explícito a respeito dos abusos sexuais e emocionais que sofreu, não se ficando por expressões genéricas e evasivas no seu testemunho. O diálogo frisa a necessidade moral de se exibir com objectividade e realismo os acontecimentos. Estamos, pois, perante o simétrico do voyeurismo, este mais uma violação na sua intenção e fruição. Do outro, temos a cena em que se dramatiza a indignação, raiva, desespero que invadem Rezendes quando este se confronta com a demora em denunciar os crimes e os criminosos. Já não estava em causa o jornalismo nesse momento da personagem e do filme, era outra coisa que aparecia absoluta. Era o sentido da vida e o seu ofuscante apelo do amor ao próximo ou do amor à cidade. É escolher, sendo que os dois conceitos admitem plena equivalência.

Para nós, afonsohenriquinos, o filme tem um duplo interesse acrescido. Sendo o fiel relato do que aconteceu em Boston no princípio da década passada, a ascendência de Mike Rezendes, neto de açorianos, intensifica o valor do seu exemplo como repórter de investigação ao serviço de causas nobres. Esta uma trivialidade secundária, pois o amigo Rezendes é um americano de gema para lá da árvore genealógica. O outro ponto de interesse remete para o panorama da imprensa portuguesa. Quem é que se lembra de algum jornal, rádio ou televisão que tenha feito uma investigação capaz de afrontar algum poder nefando ou que tenha alterado a forma como a comunidade se vê a si própria? Em vez disso, parece que os nossos heróis jornaleiros encontraram um fulano que é o responsável por todos os males da Nação, nem carecendo de condenações ou sequer acusações para irem enchendo os bolsos e a pulhice própria na exploração desse maná sensacionalista e calunioso. Descobriu-se que ele fez férias ali e acolá, coisa para uns milhares de euros de cada vez, e que até comia ostras em Paris, vejam bem a pinta do monstro. Nisso, Portugal é muito parecido com essa cidade norte-americana de cultura católica, a qual tentou abafar as violações cometidas e por cometer. Nós assistimos a algo análogo que nos é servido com a suprema perfídia de ser apresentado como sendo para o nosso bem, tal qual como se pratica na ancestral arte da manipulação de consciências. Não estamos em Boston, mas estamos na bosta.

Revolution through evolution

Attitude to aging can have a direct effect on health, researchers confirm
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Anxiety can impact people’s walking direction
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Messages from the food police
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Food imported from low-GDP nations poses higher safety risks, study finds
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Why you should never use the term ‘the mentally ill’
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Ecotourism, natural resource conservation proposed as allies to protect natural landscapes
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Large-scale conspiracies would quickly reveal themselves, equations show

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És de direita e famoso? Então serve-te e fica à-vontadinha

No domingo das eleições, ao ouvir as declarações de Portas onde apelava ao voto em Marcelo, senti um choque. Pequeno choque. Talvez “choque” nem seja a palavra certa, terá sido mais um safanão, daqueles recebidos de quem anda na rua como se ela fosse sua. Consequências do calejamento. E fui à minha vida. Horas mais tarde, soube que a Comissão Nacional de Eleições as tinha proibido. Fui tomado por um sentimento de regozijo pelo funcionamento do Estado de direito, primeiro, e pela constatação da fatal derrota, logo depois: agora é que essas declarações tinham garantida a audiência máxima, pois até aqueles que ainda não tinham tropeçado nelas as iriam querer conhecer de imediato.

Para percebermos o que está em causa, imaginemos que algum socialista com notoriedade suficiente para atrair microfones e câmaras, esteja ou não no Governo, resolvia apelar à derrota de Marcelo no próprio dia das eleições. Para tal, bastaria usar e adaptar a fórmula seguida pelo feirante da Malveira:

Acho que, se houver boa participação hoje, o assunto pode passar para a segunda volta e eu sou daqueles que acho que o que pode ser resolvido à segunda volta não se deve deixar para uma primeira volta, que já se sabe como termina.

Como reagiriam PSD, CDS, Portas, Passos e a legião de directores e comentadores que adoram espancar socialistas na comunicação social? E nem precisava de ser alguém com a metade da projecção mediática de Portas, qualquer meia-leca do partido, desde que tivesse conseguido aparecer na pantalha, chegava e sobrava para um fogaréu que continuaria ainda hoje a dar para assar um frango e várias sardinhas.

Portas, o mestre do soundbite (or so they say), mefistofélico praticante de um jornalismo de faca na liga, um fulano cujos discursos revelam que ele adora ouvir-se a si próprio (e nada contra), uma das figuras com mais experiência política em cena (só perde para Cavaco, creio), sabia que as suas declarações iam violar a lei eleitoral – o que constitui crime. E, muito provavelmente, também sabe que nada lhe vai acontecer. Nada de nada de nadinha de nada.

Depois de conseguir ligar Sócrates a Maria de Belém, este crânio explica como nascem as perseguições

Outra acusação tem a ver com aquilo que Vera Jardim, Alberto Martins, Manuel Alegre e outros, criticaram como onda de populismo. É verdade! Eu não concordo com a subvenção vitalícia sem condição de recurso (ou seja atribuída independentemente de outros rendimentos), como Maria de Belém e outros deputados pediram. Mas uma divergência política não é, não pode ser, uma acusação de falta de seriedade, de ganância ou de privilégio. Ao mesmo tempo que sinto ser curioso ver alguns dos indignados contra Maria de Belém desvalorizar casos mais graves, como o de Sócrates, sinto que é preocupante esta deriva que leva a considerar a posição política própria como inatacável, íntegra e pura, e a dos outros como desonesta ou impura. É este o princípio da demagogia e da falta de tolerância pelos outros. Começam assim as perseguições.


Henrique “Não contem comigo para denunciar a Inventona de Belém” Monteiro

Revolution through evolution

Mixed emotions a sign of emotional depth, not indecision, say researchers
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Laws of nature predict cancer evolution
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Human sounds convey emotions clearer and faster than words
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Memory capacity of brain is 10 times more than previously thought
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The world’s greatest literature reveals multifractals and cascades of consciousness
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Mentally Challenging Activities Key to a Healthy Aging Mind
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Zuckerberg or Buffett — Is Youth or Experience More Valuable in the Boardroom?
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Sublime inspiração

Igreja-S-C-Jesus

Por razões pessoais, que não só as estéticas, também me encanta desvairadamente o seu trabalho no Alto do Restelo e no Bloco das Águas Livres. Já quanto ao “franjinhas”, e apesar da boa disposição da coisa, o júri ainda está a deliberar.

Alvejar

Que aconteceria, numas eleições legislativas, se todos os votos contados estivessem em branco? As eleições teriam de ser repetidas, claro. Os problemas da governação, sempre urgentes, permaneceriam sem boa resolução por mais uns meses. Mas os partidos não deixariam de existir por causa desse espantoso fenómeno. Apenas mudariam as lideranças, os programas, os discursos, ou nem isso.

Que aconteceria, numas eleições presidenciais, se todos os votos estivessem em branco? Ou se cada candidatura registasse apenas um 1 voto e os restantes fossem brancos, para atenuar uma beca o penoso absurdo deste exercício? As eleições teriam de ser repetidas, claro. Nenhum problema de maior para o interesse nacional ou para a boa gestão da coisa pública adviria pelo atraso na escolha do novo Presidente da República. E, provavelmente, alguns candidatos chumbados desistiriam, ou todos, aparecendo novas candidaturas.

As diferenças entre as duas eleições são substantivas e espelham a arquitectura do regime. Num caso, elege-se um órgão de representação indirecta, o Parlamento, donde sairá a formulação do Governo e futura legislação. No outro, elege-se um sujeito político individual que representa directamente o seu eleitorado e, por função constitucional, a nação, dentro de rígidos e constritos limites quanto aos seus poderes.

Estes dois cenários impossíveis relevam para a qualidade do voto branco em cada eleição. Nas legislativas, o voto branco é potencialmente prejudicial, para além de ser inútil. Nas presidenciais, o voto branco é potencialmente benéfico, apesar de ser inútil.

O adubo é a estupidez

O populismo pode ter várias tipologias, características e expressões (é ir estudar o assunto), mas, na sua essência, como perversão política, corresponde a uma réplica redutora e degradante do ideal democrático. Como tal, implica que as vítimas do populismo – mas não necessariamente os manipuladores populistas – desconheçam o que seja a democracia, tanto como entidade histórica, conceito político e prática cívica. Despida da sua complexidade, a democracia presta-se a ser uma caricatura de si mesma, acabando por gerar o que pretende evitar: a violência na cidade. O populismo embrutece e apela à irracionalidade, levando a que a inteligência se deixe oprimir por um maniqueísmo primário onde qualquer titular de um cargo político ou público passa a inevitável culpado de abuso de poder por actos, omissões ou simples usufruto da sua autoridade. É o “são todos iguais, são todos ladrões” que tem séculos de gasto e que se berra tão mais alto quão maiores forem as ameaças larvares à coesão da comunidade. O tempo das crises sociais por causas económicas é propício ao aparecimento de populistas que exploram a ignorância e a estupidez natural de quem conseguirem apanhar; como Trump na América, por exemplo. A ideologia é outro dos factores mais fortes para o surgimento de colectivos e indivíduos populistas; como o PCP e sua retórica, por exemplo.

Péricles, um dos inventores da democracia, constatou que diferenças no património poderiam fazer com que os mais ricos tivessem disponibilidade para participar com maior frequência e demora nas decisões políticas, enquanto os menos ricos e os pobres ficariam de fora por terem de ocupar o seu tempo na procura do sustento. Resolveu o problema passando a pagar aos cidadãos que exercessem actividade política. A partir daí, as desigualdades sociais já não eram impeditivas de se atingir uma igualdade política. Eis o sonho democrático a realizar-se num dos pináculos da sua promessa libertadora. Que diria a Péricles um dos nossos populistas encartados? Que ele não deveria gastar o precioso dinheirinho de Atenas com essa malandragem que precisava era de arranjar trabalho e baixar a bola. Facto: os broncos são sempre muito poupadinhos, a começar pelo gasto neuronal.

Deve um ex-Presidente da República receber uma pensão vitalícia só por ter ocupado esse cargo? O populista virá dizer que não, alegando que esse indivíduo não é mais do que os outros que não chegaram lá, era o que faltava. Quer-se dizer, já não lhe bastava ter estado a mamar à pala do Estado durante anos e anos e agora, quando já não serve para a função, ainda lhe íamos estar a dar mais dinheiro? É desta bronquite crónica, onde o serviço à comunidade em cargos de alta responsabilidade e consequência é apresentado como irrelevância, defeito ou aleatoriedade de índole estomacal, que se fazem as vocações fogareiras. Mas convidemos o bronco para uma experiência mental. Ele que imagine o Abílio, que até tem dois táxis e tudo, a chegar a Presidente fresquíssimo nos seus 35 ou 40 ou 50 ou 60 anos. Enquanto Presidente da República vai ter acesso a informações e personalidades que a quase totalidade daqueles que não sejam eleitos para tal cargo jamais chegará a conhecer. Quando o Abílio deixar os popós com motorista, e os banquetes, e a GNR em parada, tudo pago com os nossos ricos impostos, voltará para os seus dois táxis sem nenhuma pensão, posto que já não trabalha no tal palácio. Perguntemos ao bronco se é justo para os restantes taxistas ter o Abílio de novo como concorrente, agora que ele pode vender-se como mais nenhum dos fogareiros à sua volta poderá. Que diria o bronco? Seria capaz de perceber que há algo de intrinsecamente injusto em se permitir a alguém ter acesso a tanto poder e depois fingir-se que essa experiência não alterou perenemente o seu estatuto cívico e que tal privilégio equivale a uma vantagem perante os restantes cidadãos que não passaram por lá? Nesta experiência ficam de fora, propositadamente, as dimensões atinentes à dignidade dos cargos públicos e ao simbolismo das funções de representação na cúpula do Estado, por demais intangíveis e incompreensíveis para as capacidades mentais do bronco. Podemos ficar pela lógica do pilim, como se mais nada interessasse enquanto consumirmos o oxigénio deste planeta e o mercado fosse o paraíso. Bronco, estás aí?

Em Portugal, desde sempre nos partidos da esquerda pura e verdadeira, no CDS de Monteiro e Portas e na direita em geral desde 2008, o populismo de variada graduação e impacto tem moldado o combate político. Um combate contra o PS, oásis imune ao populismo até Seguro e de novo imune com Costa. Recentemente, políticos do PSD e do CDS chegaram a pedir a criminalização de governantes socialistas por razões do foro político, e o actual Presidente da República, em discursos solenes e actos públicos, espalhou venenosas sementes populistas ao protagonizar ataques canalhas contra a classe política de que é o seu mais poderoso membro, tanto pela longevidade na actividade como pelos cargos ocupados e seus efeitos. A isto acresce uma comunicação social onde o Correio da Manhã é o triunfal dominador populista através de uma violenta e selecta campanha de assassinatos de carácter, calúnias e crimes impunes, conseguindo influenciar a restante concorrência inclusive na suposta “imprensa de referência”. Como resultado, qualquer palhaço se arma em cavaleiro contra a corrupção, não precisando sequer de subir para cima do cavalo em ordem a se conceber vitorioso. A consequência é a anestesia geral da sociedade, a impotência cívica.

Quão mais estúpidos formos, quão mais atacarmos o Estado de direito, quão mais cedermos à cultura da calúnia, quão mais aceitarmos sermos enganados por quem não respeita a nossa inteligência, mais este país será um viveiro de populistas.

Declaração de voto

Até à eclosão da polémica das subvenções o meu voto estava destinado à Marisa. Por esta única razão: independentemente do caudal de divergências face ao que ela representa ideológica e politicamente, era a única candidatura que não insultava a minha inteligência. Agora, perante o oportunismo (comandado por Louçã) com que usou a problemática da decisão do Tribunal Constitucional para obter ganhos marginais à custa da completa degradação da campanha eleitoral numa orgia populista, já não terá o meu voto.

Em 2011 votei Defensor Moura. Era um voto decente, no mínimo dos mínimos, um recurso à disposição para não votar em branco. Em 2016, à 1ª volta, não tenho sequer esse recurso. Todas as candidaturas, sem excepção, exibem cidadãos indecentes enquanto candidatos presidenciais, embora não pelas mesmas razões. Pelo que me limitarei a dobrar o boletim sem gasto de esferográfica estatal ou privada. O meu país que decida o que fazer perante esta miséria a que chegámos na procura de um Presidente da República.

Se formos para uma 2ª volta, aí votarei contra Marcelo. Ele é o mais hipócrita, e o mais cínico, de todos os candidatos que alguma vez concorreram a Belém. Eis onde é grandioso.

Les beaux esprits se rencontrent

Em segundo lugar, somos agraciados com mais uma fundamentação delirante por parte do Tribunal Constitucional, invocando o sacrossanto princípio da protecção de confiança para impedir o poder executivo legitimamente eleito de corrigir situações de privilégio que considera injustas e reequilibrar as contas do Estado. Nas mãos de juízes aos quais parecem ter sido extirpados os sentidos da prudência e da ponderação (sete em 13, neste caso), é evidente que o princípio da protecção de confiança dará sempre para impedir qualquer lei de alterar qualquer direito que seja considerado “adquirido” – ele é uma monumental estátua ao statu quo que deveria substituir a de Pombal na rotunda do Marquês, já que estamos todos condenados, pela Maldição do Palácio Ratton, a andar eternamente à roda do velho regime, sem nunca sair da sua insustentabilidade.


Caluniador pago pelo Público

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Há quem ganhe dinheiro (e quanto?) a promover a erosão e degradação do Estado de direito. Este cromo da indústria da calúnia aqui vem, sob a égide do que já foi um jornal de referência, atacar o princípio da confiança e o respeito pela Lei. Que pretende ele que aconteça sem esses pilares constitucionais? Basta ler o que tem apoiado politicamente e o que tais políticos pretendiam fazer e não conseguiram precisamente pelas mesmas razões – porque existiu um Tribunal Constitucional a impor um limite ao arbítrio governativo e à violência política.

Nesta questão das subvenções, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim de Sousa Ribeiro, teve de vir a terreiro dizer o b-a-bá do que está em causa: não gostam da lei, mudem a lei. Não se queira é que os juízes decidam para agradar à turbamulta em vez de respeitarem o que o Soberano instituiu.

Antes a geringonça do que a república dos fogareiros

Quando uma decisão política, tomada por políticos eleitos e que interfere apenas com a classe política é desfeita por um tribunal (a pedido de uma minoria de políticos, entre os quais a candidata Maria de Belém...) está tudo dito sobre a rigidez do sistema. Simplesmente não se pode mudar quase nada, porque haverá sempre um argumento qualquer para abater uma mudança destinada a corrigir uma lei parola. Mais do que nunca, será preciso rever os poderes do TC, alinhando-o com o interesse da comunidade. Um governo de juízes não serve. A geringonça é isto.


André Macedo

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O André faz um editorial no centenário DN a apelar à revisão dos poderes do Tribunal Constitucional porque… a Lei foi cumprida. Fez-se Justiça, logo algo está mal. Pelo caminho, imagina-se fogareiro e dispara contra a classe política, o regime e o Estado de direito. Às tantas, ainda vai imitar o Observador e lançar uma revisão constitucional feita na casa com o prestimoso contributo de uns cliques que representem o “interesse da comunidade”.

Foda-se. Tu é que perdeste por completo o juízo, amigo.  Olha que nessa categoria de “imprensa” a concorrência é feroz e já domina o mercado. O mercado e, pelos vistos, a elite da opinião profissional portuguesa.