Arquivo da Categoria: Valupi

Cognição revogável

Neste Frente a Frente entre Mariana Mortágua e Diogo Feio podemos admirar as qualidades da bloquista em confronto com a retórica de cassete do centrista. Umas das facetas mais valiosas da sua postura pública em contexto argumentativo é o domínio emocional que exibe. Isso contribui para a capacidade de ir desmontando pedagogicamente algumas falácias bolçadas pelos ocasionais adversários, talento que a Mariana revela ter já num estado amadurecido. O momento igualmente importa como demonstração prática do que acontece quando a esquerda pura e verdadeira põe a sua inteligência ao serviço da esquerda impura e apenas certeira, em vez de se aliar à direita decadente numa oposição de terra queimada e sectarismo encardido. Veremos até quando vai durar o serviço público que BE e PCP estão por agora a prestar.

Todavia, nesta ocasião a mana Mortágua cometeu um erro que tem interesse tanto no plano cognitivo como no plano social, e ainda no mediático – portanto, também chegando à esfera política. Ocorreu quando sacou do gráfico da dívida portuguesa ao longo dos anos recentes e apontou para o seu nível mais alto, meados de 2012, atribuindo esse valor à crise da demissão de Portas. Repetiu várias vezes essa correlação, posto que era a essência mesma do seu argumento na altura. Incrivelmente, Diogo Feio corroborou a associação, o mesmo fazendo a jornalista presente posto que não a desmentiu.

Ora, a “crise do irrevogável” deu-se mais de um ano depois, em Julho de 2013. De facto, tal originou uma subida nos juros da dívida, mas sem comparação com o valor da mesma um ano antes, ainda com Portas e Vítor Gaspar num Governo que prometia ir além da Troika custasse o que custasse e sem qualquer misericórdia para com os piegas. O Feio não deve ter achado nada bonito ter-lhe escapado algo tão básico, ainda por cima em relação ao seu líder na berlinda.

O que me chama mais a atenção no episódio é a facilidade com que um erro cognitivo pode aparecer e espalhar-se, mesmo entre especialistas (no caso, políticos e jornalista) e numa situação de extrema concentração nas informações em discussão. Se tal acontece com esta naturalidade debaixo dos holofotes, e até levando um político a desperdiçar uma oportunidade crassa para descredibilizar o seu opositor, então podemos ter a certeza de que muitos mais, e muito maiores, erro cognitivos estão a ocorrer nas instituições políticas, governativas, admnistrativas, educativas e empresariais no conforto dos gabinetes.

Razões para desesperar? Não, para pensarmos. Cada vez melhor.

-2.59

O Expresso tem uma nova secção digital (ou videográfica), intitulada 2.59. Por agora, apenas Pedro Santos Guerreiro e Bernardo Ferrão lá põem os butes, mas o formato admite a participação de qualquer jornalista da casa. Consiste num vídeo onde se recorre à infografia para explicar as cenas. Algo que parece uma boa ideia. E que ainda não mostrou ser mais do que isso.

Começando pelo título, tropeçamos logo na derrota da inteligência. A entidade autoral está a admitir que o seu público não tem cabeça para formatos mais longos. Quais 60 minutos, qual quê, essas durações jurássicas que já ninguém aguenta. Nem 30, nem 15, nem 10, nem 5, nem sequer 3 minutos. Toma lá com a psicologia do preço e retiramos uma décima para fingir que reduzimos uma unidade. Se não resultar, ainda veremos a transformação do nome dos vídeos para “0.59”, “0.9”, e, final e inevitavelmente, “0.0”. Tudo em nome da incapacidade cognitiva, e falta de interesse pelos conteúdos tratados, da audiência a quem se dirigem.

Segue-se a inexperiência do PSG para a tarefa. Provavelmente, ele e os amigos acharão que vai muito bem. Fora desse círculo, a prestação está ao nível de um apresentador do serviço meteorológico numa TV regional. Muito melhor surge o Ferrão, mas este tem anos de experiência como palhaço na SIC, onde andou a fingir ser jornalista só para ir atacando Sócrates adentro da campanha que o império Balsemou desenvolveu contra o Governo PS de então. Este aspecto do talento teatral e da fotogenia liga-se directa e indirectamente com a actual transformação da imprensa escrita numa televisão com textos. Tornando-se obsoleto o jornal em papel para a quase totalidade dos títulos, embora se mantenham excepções sociológicas (por exemplo, Correio da Manhã) e temáticas (por exemplo, jornais desportivos), o único caminho aberto pela digitalização mediática é o da imitação dos canais televisivos por via do crescente consumo de vídeo em computadores e telemóveis. É assim que se chega à semelhança crescente entre a forma como um jornal e uma rádio comunicam na Internet, ambos desejando distribuir e produzir vídeos e imagens às pazadas. Cá está, o meio é a mensagem.

Last but not least, temos o imbróglio da infografia. Não é um acaso que a moda a que deu origem, há uns 5 ou 6 anos, tenha desaparecido da vista do público. Os cromos da disciplina foram trabalhar para grandes empresas e a promessa de vermos a infografia a ser adoptada como linguagem corrente pela comunicação social profissional não se cumpriu. As causas para esse fracasso, ou para esse adiamento, não estão só do lado da crise financeira na imprensa. Outra razão terá de ser reportada ao erro que se constata em todos os vídeos do Expresso – e que também se encontra nos vídeos de Costa a explicar o Orçamento – onde os materiais gráficos não servem a narrativa, antes obrigam a narrativa a servi-los ou são negativamente redundantes (por exemplo, colocar palavras a pairar ao lado do orador sem que tal contribua para o entendimento da mensagem, antes ficando como ruído visual). Resultado? Os locutores de serviço tentam debitar o máximo de informação no mínimo espaço de tempo possível, acreditando (mas será mesmo que acreditam?…) que o espectador assimila os dados despejados graças à bonecada colorida e saltitante. O inverso é o que acontece, porém, pois não é à bruta que os nossos neurónios funcionam. No tempo em que o termo storytelling se tornou num bordão do marketing e das indústrias de comunicação, um dos mais prestigiados e poderosos grupos de imprensa, tal como o próprio Governo e o partido donde emana, ainda mostram não dominar os mínimos da arte de contar histórias com sons e imagens.

Revolution through evolution

New study finds our desire for ‘like-minded others’ is hard-wired
.
Why people oppose same-sex marriage
.
What keeps passion alive in long-term relationships?
.
Television exposure directly linked to a thin body ideal in women
.
Complexity theory needed for better management of financial-economic crises
.
Conservatives prefer using nouns, new research finds
.
People stay true to moral colors, studies find
.
Continuar a lerRevolution through evolution

A política é um circo, mas cuidado com os palhaços

Uma das mais proveitosas actividades que se podem ter em frente a um televisor é a de papar documentários sobre a origem e ascensão do nazismo. E esses documentários estão cada vez melhores, tanto no plano analítico como artístico. Constatar como foi possível na cultura que nos deu Kant, Hegel e Leibniz que um doente chamado Hitler pudesse vergar milhões de alemães à sua loucura é uma lição que só ganha importância e actualidade à medida que nos afastamos no tempo desses acontecimentos.

Num dos episódios, dedicado à retórica de Hitler, aprendi que na opinião de muitos na Alemanha dos anos 20 e 30 ele não passava de um palhaço. O seu discurso consistia apenas em fórmulas vazias, genéricas e alucinantes na sua expressão de um desejo de grandeza abstracto. Era a lógica do simplismo, a aversão à inteligência, o culto do ódio a consubstanciarem o apelo político. Para cúmulo, o modo como discursava exibia um estado de exaltação demente. Donde, esses que assim o descreviam por assim o observarem não acreditavam que fosse possível verem Hitler no poder. Seria absurdo, impossível à luz do que conheciam da sociedade e do sistema político à época.

Ora, o paralelo com o que em 2016 constatamos na América tem pontos de exacta coincidência. Também no Verão de 2015 muitos vocalizaram a sua certeza de que Trump já estaria despachado para o fundo das sondagens presidenciais quando se chegasse ao Natal. A quantidade de merda saída daquela cabeça loira assim o garantia, garantiam. Passados 6 meses, Trump é nesta altura o mais destacado e mais forte candidato a ser o vencedor das primárias Republicanas. E não por ter mudado fosse o que fosse no seu discurso e na sua pose, pelo contrário. Tem levado ao extremo essas características, chegando ao ponto de ter proposto algo congénere ao anti-semitismo nazi: a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA.

Num debate ocorrido há dias, uma jornalista perguntou-lhe com ironia se também pretendia levantar um muro na fronteira com o Canadá, tal como pretende na fronteira com o México, posto que há terroristas a ameaçarem entrar no Canada e daí poderem passar para os EUA. Vou repetir: um muro a toda a extensão da fronteira com o Canadá. A fronteira com o Canada. Canadá. A resposta que Trump deu não interessa para nada, o que está aqui em causa é o facto de a pergunta ter sido feita, num dos mais importantes debates da campanha, a alguém que poderá vir a ser o próximo Presidente norte-americano. É um sintoma do nível populista, e da tipologia demagógica, em que mergulhou a racionalidade da comunidade americana no debate sobre a escolha do líder da única super-potência mundial.

Trump não é um Hitler. Trump é apenas um palhaço num tempo e numa sociedade onde Hitler teria sido internado à força. Todavia, quando um palhaço chega ao poder, qualquer palhaço, o que acontece a seguir não tem graça nenhuma. E nós, em Portugal, acabamos de sair duma dessas fases.*

Revolution through evolution

Does sexual aggression alter the female brain?
.
Good but few and underpaid: Female inventors gain 14% less than men
.
As the rich get richer everyone else gets less happy
.
What values are important to scientists?
.
New study finds clear differences between organic and non-organic milk and meat
.
Eternal 5D Data Storage Could Record the History of Humankind
.
Participatory governance in planning processes: How do public administrations learn?
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Grão-mestre vitalício já temos

A Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique corresponde ao segundo grau, em importância, de uma ordem honorífica criada em 1960. Américo Thomaz condecorou Salazar com o Grande-Colar, o grau mais alto, em 1968. Cavaco fez o mesmo a Durão Barroso em 2014. O seu âmbito de atribuição é lato o suficiente para transcender o simbolismo do padroeiro, o qual remete para feitos ao serviço de Portugal efectuados no estrangeiro, admitindo a valorização de qualquer “serviço relevante a Portugal, no País ou no estrangeiro“. Fica assim ao critério de quem a atribui, sempre o Presidente da República, definir-se o que seja um serviço tão relevante a Portugal, em Portugal, que mereça uma das 7 ou 8 modalidades adentro da Ordem do Infante D. Henrique para a celebração institucional e registo na História de certos cidadãos e entidades.

Há dias, Cavaco agraciou Luís Campos e Cunha com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique pelo facto de ter sido ministro das Finanças entre Março e Julho de 2005. 4 meses onde mostrou completa inépcia para o cargo, tendo sido incapaz de conquistar sequer a solidariedade dos seus pares e do partido. Pelo meio, exibiu indisfarçável fragilidade psíquica perante a tensão e exigências da posição, fosse por razões circunstanciais ou endógenas. Após ter saído do Governo, tornou-se um dos seus mais ferozes e activos opositores, usando para o efeito o seu acesso à comunicação social e ainda a SEDES, uma agremiação de patuscos cuja única finalidade entre 2005 e 2011 foi a de servir para espalhar alarmismo na sociedade ao serviço do desgaste e bloqueio da governação socialista. Comparando os dois períodos em compita e respectivos feitos em cada um, os 4 meses como disfuncional ministro de Sócrates e os 6 anos como infatigável franco-atirador contra Sócrates, não é difícil de perceber o que está Cavaco realmente a premiar usando para isso a Presidência da República de forma a agravar ao máximo a afronta.

O DN publicou as declarações do novel grã-cruzado. São cristalinas do que esteve e está em causa:

«O ministro das Finanças no primeiro governo de José Sócrates disse ao DN que "serve-se o país de várias maneiras, incluindo quando se demite de funções por entender haver razões" para isso. "Também é um serviço", apontou o economista que em 2005 esteve quatro meses à frente do Ministério das Finanças até se demitir em desacordo com a política em curso. "Nos quatro meses fiz coisas importantes e saí por razões que hoje são mais evidentes", frisou.»

Portanto, a demissão foi um serviço ao País – algo com que, estou 357% certo, ninguém discordará. Mas depois acrescenta que as razões para tal são hoje mais evidentes. Aqui já a doutrina se divide. O que é que poderá ser hoje mais evidente, ao ponto de ter levado Cavaco a instrumentalizar o Estado e o seu património simbólico no afã de atingir quem concebe como inimigos? Quais são os nexos possíveis entre 2005 e 2016? Estará a referir-se ao TGV e ao aeroporto da Ota, motivos invocados então para a sua deslealdade política e algo que ficou por construir, para o qual havia fundos europeus, que surgia na sequência de decisões de Governos anteriores, que resultava de projecções económicas legítimas e que se ponderava num contexto internacional sem qualquer paralelo com aquele que se instaura a partir de 2008? Ou estará a falar de outra coisa? Se sim, qual será? Quem tiver um palpite, que o partilhe para ilustração geral. É que esta gente séria parece ter alguma dificuldade em largar o registo da insinuação mais manhosa.

Num outro plano de análise, e até mais fascinante, temos a questão de saber como é que a figurinha acabou por ser a eleita de Sócrates para aquela pasta, primeiro, e o que a terá levado a aceitar, depois. Sócrates foi também quem validou entusiasmado e convicto a escolha de Carlos Costa para o Banco de Portugal, só para descobrir, pouco tempo depois, que o Governador era uma das mais insidiosas forças de ataque ao seu 2º Executivo naqueles meses selvagens que antecederam o chumbo do PEC IV e o subsequente afundanço de Portugal. Vai na volta, este Sócrates não é o tal monstro sinistro com super-poderes que ainda hoje faz as delícias do erotismo do Pacheco Pereira e da Helena Matos, antes um tipo que se engana até ao pescoço como qualquer outro. Ou a explicação poderá ser mais realista, admitindo que é preciso abrir os melões para saber se estão maduros, pelo que há sempre elementos imprevisíveis em tudo o que seja uma relação humana – para mais sujeita a tantas e tão fortes pressões como as desses dois casos de traição.

Cavaco rejeitou condecorar Sócrates como é da praxe em relação a ex-primeiros-ministros. Não contente com essa humilhação formal, resolveu ofender por escrito, enquanto Presidente da República, um governante com quem trabalhou institucionalmente. Isto em si mesmo é original e pode servir de fundamento para a criação de uma nova ordem honorífica portuguesa, a Ordem da Urbanização da Coelha. Esta ficaria como uma distinção de mérito que premiaria, em vida ou a título póstumo, os cidadãos portugueses que se notabilizassem por feitos cívicos ao serviço da sonsice, da pulhice e do rancor muito para além do que o comum mortal seria capaz de alcançar nem que para isso dedicasse a vida toda a tentar imitá-los. Grão-mestre vitalício e inspirador mítico desta nova ordem já temos, só falta sacar-se um dinheirito oficial para se fazerem as medalhas e pagar os croquetes aos jornalistas.

Dou 10 euros a quem me explicar isto

"É o que se espera de um governo que não pode repetir as bravatas de José Sócrates."


André Macedo

__

Portugal é pequenino. Culturalmente, não somos dados à leitura nem à reflexão. Sociologicamente, reina um anti-intelectualismo larvar, quando não impante, que está na origem tanto da baixa produtividade como do crescente império do esgoto a céu aberto, entre uma miríade de outras consequências negativas em todas as dimensões do que estrutura e dinamiza um país. Daí estarmos sempre a falar dos mesmos, os poucos mesmos. Se estes mesmos se apresentam com certas características públicas, é delas que falamos a partir do nosso ponto de vista.

Falar da imprensa é falar de cidadania e de liberdade. Falar do Diário de Notícias é falar da imprensa de referência. Falar do André Macedo é falar da linha editorial do DN. E falar de um editorial do DN assinado pelo André será falar disto tudo junto. Eis a génese da minha perplexidade. E tenho os 10 euros prontos para dar a alguém que me consiga explicar o que faz a frase citada no texto onde foi posta.

Independentemente do que possamos achar do resto da prosa – e acho que é uma bela merda que aparenta ter sido escrita apenas para ocupar espaço, dada a sua irrelevância e até confusão – o que está em causa é tentar descobrir quais os mecanismos mentais, qual a suposta lógica, que levou o André a colar Sócrates no retrato fotonovelesco que estava a fazer de Centeno. Qual o sentido? Qual era a necessidade? Qual é a intenção?

Ainda mais irritante é a ausência de referências, fazendo com que não se possa saber do que está a falar. Que bravatas foram essas a merecerem preciosa recordação num editorial do DN onde se fala de motas e blusões de cabedal? Adorava descobrir do que está a falar, nem que fosse só o conhecimento de uma dessas “bravatas” que pudesse ter comparação com a situação do actual Governo e seu Orçamento para 2016. Uma que fosse. Ou até meia.

Talvez a explicação seja simples, afinal. Embora o André não se possa de forma óbvia incluir no grupo dos “fazedores de opinião” para quem as referências a Sócrates são a manifestação de estados patológicos, como acontece com o Zé Manel ou o Henrique Monteiro por exemplo, ele recorre amiúde a Sócrates neste registo onde se lançam insultos de avaliação impossível ao serviço de uma certa imagem que pretende divulgar oficialmente. Está criado um novo recurso literário de apoio aos comentadores com dificuldades argumentativas, o Sócrates ex machina.

Revolution through evolution

Your brain may be what interests that guy checking you out
.
Horses can read human emotions
.
Feeling Older Increases Risk of Hospitalization, Study Says
.
When the boss’s ethical behavior breaks bad
.
University of Alabama Researchers Unlock the Key to Happiness at Work
.
Sleep Deprivation Linked to False Confessions
.
Male biology students consistently underestimate female peers, study finds
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Bowie da Costa

O dia 7 de Fevereiro é muito fixe porque, entre outros méritos, regista a publicação de ★ (reprise), peça da autoria do nosso João Pedro da Costa – o mais criativo blogger de sempre em toda a língua portuguesa (se alguém pretender contestar esta factual e ditirâmbica avaliação, é favor enviar as provas aqui ao pilas). Falo de uma peça porque o que nos aparece no ecrã não se limita a exibir um texto, nem sequer um texto com imagens e vídeo. É antes uma performance que consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem a David Bowie, uma reflexão sobre a estética da fotografia, uma análise semiótica da cultura pop e uma declaração de amor ao seu filho acabado de nascer há meses – entre outras possibilidades de catalogação.

Foi para desfrutarmos de maravilhas destas que o Al Gore inventou a Internet.

Foi pena

Ver Rui Pereira, e especialmente Maria de Lurdes Rodrigues, a participar numa farsa sectária e odiosa de Cavaco, para além de desolador, é vexante.

Sei bem que nunca ninguém lhes pedirá em público para justificarem essa decisão. E que se tal acontecesse até seriam capazes de agravar o dano ao tratarem Cavaco como um Presidente da República legítimo. Coisa que ele não é no plano moral e patriótico.

É pena. Foi pena, o desperdício de mais uma ocasião para dignificar a Presidência da República na recusa de associar o nome próprio a quem tanto a conspurcou e aviltou.

As palavras dos números

Por diferentes razões, e em vários planos, Os Números do Dinheiro é um dos melhores programas da televisão portuguesa. Num tempo em que há uma saturação da TV fala-barato, pois os custos de produção dos talk shows são mínimos e há excesso de oferta de participantes (inclusive à borla, aposto), daí resultando um maremoto de inanidade sedativa, esta hora de conversa semanal sob a batuta especialista e elegante de Perez Metelo vale todos os segundos registados pelas câmaras. Os benefícios começam pelo jornalista que, não abdicando das suas inevitáveis idiossincrasias opinativas, mantém uma exemplar equidistância ideológica ao serviço da variedade e riqueza intelectual dos debatentes. O elenco funciona amplamente como amostra do espectro político, por um lado, e apresenta qualidades fotogénicas interessantes que se reforçam pela boa química de grupo, pelo outro.

Da esquerda para a direita temos Ricardo Paes Mamede, economista situado nesse território de independentes de esquerda vizinhos do PS, Teixeira dos Santos, economista peso-pesado do regime com profunda experiência política no campo do socialismo democrático, e Jorge Braga de Macedo, um dos economistas mais poderosos no sistema e ex-líbris da oligarquia nacional. Os três estabeleceram espontaneamente uma dinâmica que replica na perfeição o arco ideológico presente. O Ricardo é o esquerdista, e também o moço, que desperta no Jorge, o direitista, e também o mestre-escola, um entusiasmo paternalista mesclado de arrogância e admiração. No meio, simbolizando e substanciando o centro, o Fernando exprime a visão de uma racionalidade com os pés na terra e a cabeça dirigida ao horizonte das possibilidades. É essa a vantagem do centro, e também o flanco pelo qual é atacado pela esquerda e pela direita, a preferência pela inteligência do saber de experiência feito.

O programa consegue o feito homérico de permitir que cada participante consiga expor raciocínios completos, servidos pelos materiais gráficos respectivos quando os há. O resultado é duplo, a argumentação ganha qualidade dialéctica e o ambiente de respeito pelas intervenções, imune à vozearia usada como boicote pelos políticos decadentes, faz com que a audiência se concentre nas lógicas em disputa. Como estamos perante temáticas de grande complexidade conceptual e técnica, cada programa consegue assim ir ao encontro das diferentes literacias e graus de informação na audiência. Um caso onde nivelar por cima corresponde a aumentar a base de recepção das mensagens.

Apesar de me congratular pela presença de Perez Metelo na TV do Estado, onde está a produzir verdadeiro serviço público, de me reconfortar com a qualidade intelectual e moral do Paes Mamede e de ver aumentar o meu já elevado apreço pelo mal-amado Teixeira dos Santos, o preferido do quarteto pelo estrito critério do espectáculo é o Braga de Macedo. Trata-se de um genuíno snob, como já não há e fazem falta, que por isso mesmo espalha graça de cada vez que aparece, de cada vez que fala, de cada vez que reage facialmente. O seu papel é o de sabichão, e ele leva-o visceralmente muito a sério. Estamos num nível já anedótico, típico dos corredores académicos das centenárias universidades com as suas figuras de uma excentricidade ecologicamente natural para a função professoral, iniciática e até xamânica. Todavia, por detrás da máscara vemos alguém igual a todos os outros, apenas mais sofisticado, ou tão-só teatral, nas defesas e artimanhas com que tenta impor as suas crenças e apetites. Dando um exemplo, o último programa onde resolveu carimbar como “vitória de Pirro” a aceitação do Orçamento português pela Comissão Europeia. A expressão não carece de explicitação, dado ser do conhecimento corrente. Qualquer outro – e refiro-me mesmo a qualquer outro sem excepção conhecida – limitar-se-ia a vocalizar “vitória de Pirro” e continuava a dizer outras coisas. Não com esta cabeça, a qual resolveu contar a história da locução com tanto refinamento que chegou mesmo a traduzir o nome do senhor grego em causa. Ou seja, tratou os seus colegas de debate e os espectadores como se fossem todos uma ranchada de adolescentes a olharem para o palco onde ia debitando ilustrações eruditas para seu interior contentamento. Tem isso algum mal? Nenhum de nenhum. É televisão da boa, com a vantagem de alimentar o conhecimento geral e o gosto pela aprendizagem. Que depois este simpático bufão seja igualmente um instrumento da violência política com origem num radicalismo ideológico indiferente à destruição social que causa, essa é outra conversa. Uma excelente conversa, aliás.

Soromenho e a sua revolução copernicana

É mesquinho querer ganhos táticos, quando o interesse nacional exige dos partidos seriedade, compromisso e convergência estratégica. O espírito de fação levou-nos à beira do abismo. Se não quisermos mergulhar nele, teremos de pensar e agir de modo diferente.


11 de Fevereiro

__

Qual a importância do Soromenho? A que lhe quisermos dar, óbvio. Para mim, representa uma certa imprensa, uma certa forma de fazer política, uma certa cidadania. Uma ridícula e perniciosa cagança. Aqui o temos, trocando palavreado por dinheiro, a ocupar espaço num jornal dito de referência. Na passagem citada, a mensagem surge salubre, bondosa, imaculada. Impossível discordar. O único problema? É que este melro, no mesmo espaço, a troco do mesmo dinheiro, vai despejando exercícios de facciosismo, leviandade, ressabiamento, rancor.

Acaso, em 2010 e 1ª metade de 2011, não esteve Portugal numa situação onde, por todas as razões conhecidas então e por conhecer, mais falta nos fez o espírito de esforço comum na classe política e na sociedade para evitarmos os danos maiores de um contexto internacional onde não passávamos de uma casca de noz no mar alto? E não assistimos então à política da terra queimada, da mentira obscena, das golpadas institucionais, só para se conseguir derrubar um Governo e substituir os governantes mesmo que tal implicasse afundar o País? Que fez o Soromenho nessa altura? Onde estava o seu cuidado com o “interesse nacional”, qual era a sua consciência da “seriedade” partidária, que noção tinha dos conceitos de “compromisso” e “convergência estratégica” ao tempo?

Antropológica e psicologicamente, a contradição não surpreende, sequer tem interesse. Os mecanismos pelos quais a afectividade e as emoções moldam e condicionam a cognição são lana caprina da natureza humana que até em contexto académico e científico revela invencível poder. Quão mais, portanto e por tanto, na política, arena de paixões, e no jornalismo de opinião, circo e feira de vaidades. Ainda assim, a agenda secreta, podendo inclusive ser secreta para os próprios, destes infelizes tem uma característica comum: alucinarem-se os tais generais sem exército que Musil glosou. É por isso que merecem crítica e repúdio, pois fomentam a violência, conspurcam o espaço público e degradam a inteligência da comunidade.

#ConselhosdoCosta

Aproveitem a experiência acumulada a tratar os portugueses como gado com amnésia para escrever livros e dar cursos de formação #ConselhosdoCosta

Criem o partido dos directores e comentadores de imprensa com alergia raivosa ao PS #ConselhosdoCosta

Esqueçam a Cristas e entreguem já o CDS ao Nuno Melo para acelerar o processo #ConselhosdoCosta

Peçam ao Duarte Marques que defina a estratégia do PSD para os próximos 40 anos #ConselhosdoCosta

Mantenham o Portas no activo para ir explicando as cenas à sua maneira #ConselhosdoCosta

Continuem com o aldrabas de Massamá a liderar a oposição #ConselhosdoCosta

Convençam Cavaco a lançar as suas memórias sobre a “Inventona de Belém” e publiquem-nas em fascículos no esgoto a céu aberto #ConselhosdoCosta

Revolution through evolution

Job growth, consumer spending to boost state and national economies
.
Exploring Gambles Reveals Foundational Difficulty Behind Economic Theory (and a Solution!)
.
Popular diet myths debunked
.
Lifespan of mice extended by as much as 35 percent; no adverse effects found
.
Fight Your Fears: Facing Down Anxieties Can Expand Your World
.
Imagining positive outcomes may bring pleasure now but pain later
.
High-Tech Toys Could Stagnate Babies’ Communication Skills

.

Continuar a lerRevolution through evolution

Humor muito negro

No recente caso que envolve José Veiga e outros, há indícios de conluio entre representantes de várias classes profissionais. Também jornalistas poderão ter participado nos esquemas. Nós, no CM, não desistiremos até saber de todos os que participaram e como. Se há alegados jornalistas envolvidos, aqui os apontaremos. Não queremos ter a mesma carteira profissional que gente dessa.


Director do esgoto