Ridi, Pagliaccio

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De que ri Passos Coelho? É um riso juvenil, narcisista e brincalhão. Neste caso, brinca com o orador, o qual por pouco não se desmancha a rir em parelha. Que será que os faz gozarem como compinchas de farra metidos num teatro que têm de prolongar até se voltarem a encontrar na privacidade da copofonia e das festanças? É o assunto. O tal assunto.

Seguro, pela primeira vez no que à minha memória diz respeito, falou do passado que não passou. Isto é, recordou um episódio em que o PSD votou a favor de mais despesa pública contra o Governo e o PS de então. E o valor dessa proposta atingiria três mil milhões de euros a ter sido aprovada. Não sei o que o terá levado, 15 meses depois de estar diariamente a ser bombardeado com acusações canalhas contra os seus camaradas que exerceram cargos governativos – e nunca tendo gastado uma caloria na sua defesa – a sacar de uma entre dezenas ou centenas de situações factuais e à prova de estúpidos para dizer o óbvio: que o actual PSD faz política com a coerência, a moral e a desbunda com que na Feira da Malveira se fazem vigarices desde o século XVIII. Mas sabemos, porque o Tó Zé assim se prestou a ser documentado, que a ocasião foi para ele um exercício de farsa levado a cabo na Assembleia da República e partilhado a mielas com um certo primeiro-ministro que prometeu ao tomar posse não utilizar o passado como desculpa e que não tem desde há um ano, afinal, outro discurso que não o da culpa e da irresponsabilidade. Repare-se na advertência risonha e infantilóide com que Seguro termina o número circense, na prática validando a lógica e o conteúdo dos achincalhos da direita contra os socialistas ao equivalê-los à situação que desenterrou a contragosto. Constate-se como também para este opaco e tortuoso homem a política ao mais alto nível pode ser reduzida ao triunfo impune da sonsice.

Não se conhecem as opiniões de Seguro a respeito do modo como o PSD e Cavaco levaram Portugal para a ruína na golpada de Março de 2011. Não se conhecem as opiniões de Seguro a respeito da fraude eleitoralista em que consistiu a campanha do PSD e CDS para as legislativas de 2011. Não se conhecem as opiniões de Seguro a respeito da influência de Belém na degradação do regime. Não se conhecem as opiniões de Seguro a respeito das conspirações judiciais-mediáticas que alimentaram o desgaste, o cerco e o boicote aos Governos PS desde 2008. Desconhecemos o que o dr. Relvas terá de fazer mais para entrar no perímetro do radar da transparência e da luta contra a corrupção que Seguro utiliza para vigiar os socráticos. Apenas temos visto o líder da oposição a queixar-se de que ele conseguiria errar menos do que Passos na execução do Memorando e a dar nervosa atenção à sua imaculada pessoa, parecendo ser esta a sua única estratégia até às eleições. Acontece é essa cena chata de os silêncios e omissões terem consequências em política. Necessariamente assim é, sob pena de se ficar numa efectiva relação de cumplicidade, quando os governantes eleitos dependem de uma cultura de hipocrisia, tratantadas e violência para exercerem o poder.

Apagar a história do modo como o actual poder executivo se constituiu interessa apenas aos que para tal contribuíram: PSD, CDS, BE, PCP e Presidente da República. Destes agentes não devemos esperar qualquer assomo de responsabilidade. Mas não é preciso ser militante, sequer simpatizante, do PS para ter direito à actividade neuronal. Nesta, a origem das actuais políticas além-troika e da respectiva incompetência granítica e devassa tem nomes, datas e decisões. A ideia de se fazer oposição sem a tal fazer a mínima referência é tão absurda que começa por gerar um longo período de incredulidade. Passamos dias, semanas e meses à espera que se confronte o caudal de mentiras, distorções e pulhices com alguma resposta apoiada no princípio da realidade. E nada. A recusa de Seguro em representar o seu anterior secretário-geral, e as equipas que com este serviram Portugal, não encontra explicação nalguma racionalidade bondosa, pois o que apenas consegue obter é a continuidade e agravamento do obsessivo acinte. Um estratagema que não se limita a ser parte do inevitável folclore da política partidária, antes serve um propósito cristalino: enquanto a direita puder manter os mecanismos da diabolização de Sócrates, o escrutínio popular a respeito dos seus desmandos fanáticos e erros grosseiros ficará atenuado, quando não desculpado.

Talvez o riso de Passos seja apenas de alívio. Alívio por ter como líder da oposição alguém que lhe permite dizer tudo e o seu contrário, alguém que não o trata como o pobre traste que é.

10 thoughts on “Ridi, Pagliaccio”

  1. Depois das cartinhas para lá e para cá este vídeo mostra , claramente, que Seguro e Passos estão bem um para o outro.
    Fingem que dão raspanetes um ao outro mas não se levam a sério.
    Uma vergonha.

  2. Hipótese a considerar: será que o Relvas e o Seguro pertencem à mesma “loja”? Nesse caso, os “negócios” seriam combinados no GOL e as disputas partidárias serviriam apenas para distrair o pessoal…

  3. com esta deixa, era impossível resistir, não é, ignatz?Grande ponto.
    Mas também podemos ver pelo lado da esquizofrenia qu este tipo de episódios pode provocar e isso faz-me relembrar a nossa génia palmer.For the old times sake. “Loucura” fora a caixa pode ser resistência contra os palhaços: melhor loucura consciente que estupidez.
    http://www.youtube.com/watch?v=5i0o3JRaF2g

  4. O PS merece o riso cínico de uma bandalho como o passos coelho. O PS não se deu ao respeito, elegendo um sonso palermóide para secretário geral. O PS actual é uma caricatura, sem rumo, sem argumentos, balofo, amedrontado, ridículo.
    Este psd de trafulhas brinca e goza com o PS que não reage e se esconde.

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