A política é um circo, mas cuidado com os palhaços

Uma das mais proveitosas actividades que se podem ter em frente a um televisor é a de papar documentários sobre a origem e ascensão do nazismo. E esses documentários estão cada vez melhores, tanto no plano analítico como artístico. Constatar como foi possível na cultura que nos deu Kant, Hegel e Leibniz que um doente chamado Hitler pudesse vergar milhões de alemães à sua loucura é uma lição que só ganha importância e actualidade à medida que nos afastamos no tempo desses acontecimentos.

Num dos episódios, dedicado à retórica de Hitler, aprendi que na opinião de muitos na Alemanha dos anos 20 e 30 ele não passava de um palhaço. O seu discurso consistia apenas em fórmulas vazias, genéricas e alucinantes na sua expressão de um desejo de grandeza abstracto. Era a lógica do simplismo, a aversão à inteligência, o culto do ódio a consubstanciarem o apelo político. Para cúmulo, o modo como discursava exibia um estado de exaltação demente. Donde, esses que assim o descreviam por assim o observarem não acreditavam que fosse possível verem Hitler no poder. Seria absurdo, impossível à luz do que conheciam da sociedade e do sistema político à época.

Ora, o paralelo com o que em 2016 constatamos na América tem pontos de exacta coincidência. Também no Verão de 2015 muitos vocalizaram a sua certeza de que Trump já estaria despachado para o fundo das sondagens presidenciais quando se chegasse ao Natal. A quantidade de merda saída daquela cabeça loira assim o garantia, garantiam. Passados 6 meses, Trump é nesta altura o mais destacado e mais forte candidato a ser o vencedor das primárias Republicanas. E não por ter mudado fosse o que fosse no seu discurso e na sua pose, pelo contrário. Tem levado ao extremo essas características, chegando ao ponto de ter proposto algo congénere ao anti-semitismo nazi: a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA.

Num debate ocorrido há dias, uma jornalista perguntou-lhe com ironia se também pretendia levantar um muro na fronteira com o Canadá, tal como pretende na fronteira com o México, posto que há terroristas a ameaçarem entrar no Canada e daí poderem passar para os EUA. Vou repetir: um muro a toda a extensão da fronteira com o Canadá. A fronteira com o Canada. Canadá. A resposta que Trump deu não interessa para nada, o que está aqui em causa é o facto de a pergunta ter sido feita, num dos mais importantes debates da campanha, a alguém que poderá vir a ser o próximo Presidente norte-americano. É um sintoma do nível populista, e da tipologia demagógica, em que mergulhou a racionalidade da comunidade americana no debate sobre a escolha do líder da única super-potência mundial.

Trump não é um Hitler. Trump é apenas um palhaço num tempo e numa sociedade onde Hitler teria sido internado à força. Todavia, quando um palhaço chega ao poder, qualquer palhaço, o que acontece a seguir não tem graça nenhuma. E nós, em Portugal, acabamos de sair duma dessas fases.*

38 thoughts on “A política é um circo, mas cuidado com os palhaços”

  1. Val, querido, que o circo não passe de “uma arena pequena fechada e um lugar de esquecimento”.
    viva o Valupi! e viva o Miller! :-)

  2. A desigualdade cultural é bem mais perigosa e mais vasta que a desigualdade de base económica. Enquanto for assim, estamos sujeitos a ver os “democratas” a elegerem um qualquer Hitler, louco ou tonto.
    Há uma falta de cultura generalizada, impensável há algumas décadas, que nos fez entrar no terceiro milénio quase reféns, por exemplo, do obscurantismo religioso. Ele aí está, de pedra e cal, do Oriente ao Ocidente. A Ocidente, a democracia consegue, ainda, refrear os ímpetos obscurantistas. Não sabemos até quando.
    Apesar de Kant, Hegel e Leibniz, como a história veio a demonstrar de forma trágica, o povo alemão, no seu conjunto, estava muito mais capacitado para compreender e aceitar Hitler, que a cultura religiosa de fraternidade cristã, a cultura científica e artística. Temo que, a nivel global, estejamos quase na mesma

  3. Valupi: «Uma das mais proveitosas actividades que se podem ter em frente a um televisor é a de papar documentários sobre a origem e ascensão do nazismo. E esses documentários estão cada vez melhores, tanto no plano analítico como artístico. »

    Está tudo dito, e sem um pingo de ironia. Vejam televisão e sejam felizes…

  4. Na America? e então em Portugal em que um J.Jardim ou um Socrates governaram tantos anos e ainda são escutados com desvelo.?

  5. Se avaliarmos este texto ao peso, esta mais perto de Nietzsche que dos outros “socios” alemães mencionados. O conceito do eterno retorno.

    A cultura e a inteligência individual ou colectiva
    são qualidades muito sobrevalorizadas politicamente e erradamente associadas a democracia, bondade, bom juizo e justiça. Assim como a idealização do Povo. O nazismo tinha a cumplicidade do povo alemão. Os americanos sabem bem que Trump não vai construir nenhum muro na fronteira com o Canadá. E um Cartoon criado e credibilizado pela TV q utiliza a linguagem simplista da política espectáculo das 24 news. Assim como Marcello. A empatia está criada, vive num estado de irresponsabilidade absoluta.

    Se ganhar, poder-se-a dizer que a TV reality show destronou o digital(Obama)? Yes we’ve fun!

    Aposto que o Bernie ainda sova a Hillary, come uma lata de espinafres e arranca a doninha da cabeça do Trump. :)

  6. Maior palhaçada que um governo Catarina/Jerónimo com o porta-voz Costa?

    Vale mais um Rendimento Mínimo Garantido, que um Salário Mínimo Precário!

  7. Tu também já deverias ter sido internado compulsivamente, tal é a quantidade de cavalidades que garatujas. Já deves uns anitos a Rilhafoles.

  8. Trump é um palhaço. Mas é o único candidato republicano que afirma sem tibiezas que a segunda guerra do Iraque foi o maior erro estratégico da história recente dos EUA e é o que mostra menos saudades da Guerra Fria. Talvez por isso tenha tantos votos. Acho fará menos mal ao mundo do que Hillary Clinton.

  9. Justin Timberlake: «Depois à volta passa por aqui https://www.youtube.com/watch?v=bxSkZjrbi4c »

    Nada de novo nessa frente, Justino. Se não tens mais nada que fazer, relê a discussão, a partir deste comentário:
    https://aspirinab.com/valupi/we-all-live-in-israel/#comment-200090

    Uma técnica consagrada para deitar poeira nos olhos dos incautos é procurar amalgamar as aldrabices (Hitler-furioso-roedor-de-alcatifas, Holocausto telepático, evaporação dos milhões etc.) com as pseudo-aldrabices (demolição controlada das Torres Gémeas etc.). Como distinguir? Não há forma, para além do crivo mental de cada um, que deve ser suficientemente aberto para captar as variantes que vão do suficientemente implausível ao absolutamente impossível, mas suficientemente cerrado para não deixar entornar o cérebro para o chão.

  10. O fenómeno nazi ainda não foi devidamente estudado. E não é por acaso. É um fenómeno tabu e há muita gente interessada em que continue a sê-lo. Em alguns países ocidentais é até crime por em causa a versão oficial do que aconteceu na Alemanha.

  11. Manolo Heredia: «Em alguns países ocidentais é até crime por em causa a versão oficial do que aconteceu na Alemanha.»

    Não são alguns, são muitos a seguir a proibição inaugurada e imposta por Israel (Lei nº 1187 de 1986), mas essa proibição não diz respeito de modo geral e vago ao que «aconteceu na Alemanha». Diz respeito, muito precisamente, ao conceito-amiba totalmente impreciso e desprovido de contornos exactos ou sequer aproximados a que se dá a designação de «Holocausto». Trata-se de uma palavra-vaca-sagrada e não de um acontecimento histórico. Essa vaca é suposta, sempre que faz ouvir os seus mugidos na imaginação condicionada do palrador, despoletar outros mitos menores que lhe estão subordinados, como seja o do Hitler histérico iresponsável e o estribilho «ai, valha-nos Beethoven e Schiller e Goethe e toda essa malta porreira, como foi possível?… como foi possível?… ».

    A resposta óbvia é «não foi», mas o óbvio é sempre a primeira coisa a ser exterminada pelo condicionamento pavloviano.

  12. Dizia eu «ai, valha-nos Beethoven e Schiller e Goethe…». Na versão valupiana parece que é «Kant, Hegel e Leibniz», mas dá no mesmo, ou melhor dá nas alcatifas roídas, mais (até agora) do que nos milhões gaseados. Mas o mecanismo é o mesmo: ding… ding… ding… saliva… saliva… saliva.

    :^D

  13. Dito isto, claro que sim, claro que o dito Hitler era um ditador nato, cheio de desprezo pelo método democrático de governo (apesar de ter conseguido a lei dos plenos poderes por vias que, em rigor, não foram completamente anti-democráticas), mas o Hitler doente mental cartoonesco que o Valupi invoca está muito longe da figura histórica e das suas consideráveis qualidades e talentos vários (políticos e militares, entre outros), e da maior quota parte de responsabilidade pela guerra — que só pode ser correctamente compreendida numa perspectiva de 1914 a 1945 — que não lhe pode ser assacada.

  14. Gungunhana, a Hitler TV (canal historia) da para os dois lados, se achas que caricatura Hitler também o engrandece. Por exemplo essa de ser um gênio militar. Teve sim grandes generais (Rommel) e um poderio militar assolador.
    A solução final nunca existiu?

  15. Gungunhana Meirelles, confesso que ainda não percebi qual é o peixe que andas a tentar vender, porém ele cheira muito mal e deves esperar a visita da ASAE em breve. Pegando numa das pontas da tua converseta, temos então que consideras ter sido Hitler um bom general, quiçá até um genial estratega. Estás, portanto, a falar do mesmo Hitler que conseguiu destruir o seu exército, e com isso reduzir para 5 anos uma guerra que demoraria muito mais, ao invadir a Rússia. Se tiveres alguns conhecimentos a respeito dessa guerra na frente leste, ou se tivesses, saberás que toda a operação, do princípio ao fim, foi uma sucessão de erros incríveis.

    O que se sabe de Hitler, condizente com a sua atitude suicida, é que ele se foi afundando num processo de decisão militar cada vez mais isolado e, por isso, irracional e alucinado. Acabou enfiado num buraco, a mexer em brinquedos por cima de um mapa da Alemanha invadida e a fazer festas na cara de miúdos de 12 anos, a sua última linha de defesa.

  16. [Repetição com correcção dos links, com as minhas desculpas]

    Joe Strummer: «A solução final nunca existiu?»

    Claro que existiu, mas a palavra »Endlösung« não foi inventada com um sentido oculto e sinistro pelos alemães. Pelo contrário, queria dizer apenas «solução final» (da questão judaica) e era a expressão consagrada, e usada tanto por judeus como por não-judeus, desde o séc. XIX, para designar a emigração das minorias judaicas.
    Por exemplo, em 1897, nas Teses da Associação Nacional de Judeus de Colónia: «A experiência mostrou que a emancipação cívica não conseguiu atingir o objectivo de assegurar um futuro social e cultural ao povo judeu. A solução final da questão judaica reside portanto no estabelecimento do estado judeu».
    Ou na carta de 1899 de Theodor Herzl, o fundador do Sionismo, ao Czar russo, transcrita nos seus Diários Completos (vol.3): «Completei esta diligência na minha carta ao Czar: “Senhoria: É à graça de sua Alteza Real o Grão-Duque de Baden que consentiu em patrocinar a minha humilde solicitação de audiência com Vossa Majestade Imperial que devo a minha autorização de submeter o plano Sionista para a solução final da questão judaica”».
    O mesmo na História do Sionismo de Nahum Sokolow, em 1919: «O progresso da civilização moderna acaba por ser visto como uma espécie de Messias moderno para a solução final do problema judaico».
    Mais algumas «soluções finais»:
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    É com este mesmo sentido que a «solução final» (»Endlösung« com maiúscula simplesmente porque é essa a regra para os substantivos em alemão) figura nos documentos alemães, incluindo os relativos à conferência de Wannsee, convocada numa fase da guerra em que as considerações de ordem económica e a falta de mão de obra se tornavam prementes, para organizar a Operação Reinhardt (o nome, com «t», provém do apelido do secretário de estado das finanças Fritz Reinhardt e não do primeiro nome de Reinhard Heydrich) que consistiu na deportação de judeus através de campos de trânsito, incluindo a confiscação dos seus bens (nota no entanto que, por exemplo, a deportação de judeus de França quase não atingiu os de origem francesa relativamente aos judeus estrangeiros emigrados para França antes da ocupação), rumo aos campos de trabalho e guetos industriais do leste, como o complexo de Maly Trostinets na Bielorússia.
    O plano de deportação para Madagáscar, depois de uma conclusão vitoriosa da guerra e da imposição de um estado judaico nessa ilha à França, foi discutido até essa data, mas a partir daí foi abandonado por razões de ordem prática, e não para dar lugar a um plano tresloucado que só prejudicaria o esforço de guerra. A ideia de que, numa altura em que as vias férreas sobrelotados e debaixo de ataque eram mais do que nunca necessárias para a logística militar e civil, os eficientes alemães se divertiam a encher comboios com judeus de todos os pontos da Europa para os ir executar em massa, por meios surrealisticamente impraticáveis — com o mesmo gás usado nos campos e em muitos outros locais para desinfectar roupas e instalações, combater o tifo e preservar a vida — a muitas centenas ou milhares de quilómetros dos seus locais de residência, em vez de proceder ao seu assassinato in loco, pelo método tradicional, eficaz e barato que as fossas de Katyn tão bem documentam por parte dos «profissionais» do NKVD , só pode suscitar a incredulidade.

  17. Valupi: «Gungunhana Meirelles, confesso que ainda não percebi qual é o peixe que andas a tentar vender, porém ele cheira muito mal e deves esperar a visita da ASAE em breve.

    Uma vez que em Portugal ainda não existe nenhum equivalente próximo da lei Fabius-Gayssot, devo ficar à espera que me mandes colocar uma cabeça de cavala no travesseiro ou é só pescaria «a brincar», a ver se morde?

    Pegando numa das pontas da tua converseta, temos então que consideras ter sido Hitler um bom general, quiçá até um genial estratega.

    Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Do ponto de vista militar, sobretudo um decisor com um grande conhecimento do assunto, um notável domínio dos pormenores e a inspiração bastante para reconhecer os melhores (Manstein, Kesselring, Schörner, Rommel etc.) e as melhores estratégias, muitas vezes contra o parecer de muitos dos profissionais mais conservadores. A campanha de França de 1940 é um bom exemplo disso, contra a oposição frontal do Franz Halder, o então chefe do Estado Maior do Exército.

    Se os temas militares te interessam para além do Canal de História acompanhado a cervejola nos intervalos do futebol, hás-de reparar que os detractores profissionais de algumas das opções mal sucedidas do Hitler são muitas vezes os mesmos generais que, in illo tempore, se opuseram às mais brilhantes e bem sucedidas, como é o caso do referido Halder. Pelo contrário, do lado dos melhores generais, esse tipo de crítica é bastante mais raro, ainda que culpar o Hitler de tudo e mais alguma coisa se tenha tornado praticamente uma obrigação moral.

    Estás, portanto, a falar do mesmo Hitler que conseguiu destruir o seu exército, e com isso reduzir para 5 anos uma guerra que demoraria muito mais, ao invadir a Rússia.

    Mito. A abertura da guerra a Leste arrastou uma situação de guerra activa em duas frentes (perigo de que o Hitler tinha uma consciência aguda, mas não o poder de o evitar), mas o suposto erro estratégico é facilmente compreensível à luz de três factores decisivos: a provável iminência de uma invasão soviética, o atraso da invasão alemã (inadiável por muito mais tempo) devido à tareia que os italianos estavam a levar nos Balcãs às mãos dos gregos, e a severidade do inverno de 1941, um dos mais rigorosos da história registada. Imagina tu que a própria decisão de desviar o exército blindado do Guderian de Moscovo, rumo ao fantástico sucesso que foi o fecho da bolsa de Kiev pode perfeitamente ser defendida como uma decisão correcta (o Napoleão tomou Moscovo, mas não se assegurou das vias de abastecimento necessárias, nem eliminou previamente as poderosas forças inimigas nos seus flancos, e o resultado não foi melhor). E é claro que a posteriori até a madre Teresa fica em condições de apontar «erros» militares…

    Os principais erros do Hitler, na modesta opinião deste teu correspondente razoavelmente bem informado, foram quatro: 1) ter preferido couraçados praticamente simbólicos ao plano atempado dos 200 submarinos do Dönitz (o Hitler sempre foi um «terrestre» muito pouco sensível à guerra naval); 2) confiar excessivamente na vontade de paz da Inglaterra em 1940; 3) não ter privilegiado Malta sobre Creta para o que veio a ser a derradeira ofensiva possível de páraquedistas e forças aero-transportadas; 4) ter demorado a possibilidade de retirada do exército cercado em Estalinegrado quando ela ainda existia, erro grave mas compreensível à luz do perigo inicial de isolamento das forças que tinham avançado a sul, rumo ao Cáucaso (o que aliás deu origem ao mito de que o Hitler nunca permitia retiradas estratégicas, coisa absurda desmentida em Falaise, por exemplo, bem como no Norte de África e durante inúmeras manobras durante a defesa móvel do avanço soviético até ás portas da Alemanha) [*].

    Se tiveres alguns conhecimentos a respeito dessa guerra na frente leste, ou se tivesses, saberás que toda a operação, do princípio ao fim, foi uma sucessão de erros incríveis.

    Valupi, o teu problema é que julgas que se aprende história no Canal de História (como alias o teu post amplamente documenta). Se aprofundares esse «conhecimento», poderás acabar por ficar surpreendido, mas terás de te dar a algum trabalho prévio. Se até lá quiseres discutir alguma decisão militar específica do teu papão favorito e não me mandares prender pela ASAE (ou outra qualquer), fico à tua disposição, com apoio dos meus próprios elementos de informação sobre todas estas interessantes questões.

    O que se sabe de Hitler, condizente com a sua atitude suicida, é que ele se foi afundando num processo de decisão militar cada vez mais isolado e, por isso, irracional e alucinado. Acabou enfiado num buraco, a mexer em brinquedos por cima de um mapa da Alemanha invadida e a fazer festas na cara de miúdos de 12 anos, a sua última linha de defesa.

    Sabe-se muito mais, Valupi. Tu é que não sabes, mas podes passar a saber se procurares passar inda além da taprobana televisiva.

    ___________________________________________________________

    [*] A propósito desse grave erro de Estalinegrado, supostamente de amador principiante, mas na realidade bem mais complexo do que isso, convém ter presente opiniões como esta:
    https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Stalingrad
    “Field Marshal Erich von Manstein advised Hitler not to order the 6th Army to break out, stating that he could break through the Soviet lines and relieve the besieged 6th Army. The American historians Williamson Murray and Alan Millet wrote that it was Manstein’s message to Hitler on 24 November advising him that the 6th Army should not break out, along with Göring’s statements that the Luftwaffe could supply Stalingrad that “… sealed the fate of the Sixth Army.” After 1945, Manstein claimed that he told Hitler that the 6th Army must break out. The American historian Gerhard Weinberg wrote that Manstein distorted his record on the matter. Manstein was tasked to conduct a relief operation, named Operation Winter Storm (Unternehmen Wintergewitter) against Stalingrad, which he thought was feasible if the 6th Army was temporarily supplied through the air.”

  18. Joe Strummer: «O mesmo sucedeu antes, na Batalha de Inglaterra, com uma superioridade indiscutível, errou tactica e estrategicamente».

    É verdade que durante a Batalha de Inglaterra o Hitler caiu na armadilha do Churchill, que consistiu em iniciar bombardeamentos sobre objectivos civis alemães na esperança de suscitar represálias alemãs do mesmo teor que desviassem a ofensiva aérea dos aérodromos e outros objectivos militares muito mais cruciais. Mas isso não significa que existisse alguma «superioridade indiscutível» alemã como pretendes.

    Muito pelo contrário, a Luftwaffe estava colocada numa posição de grande inferioridade frente à RAF, tanto pela dificuldade que os seus caças encontravam em combater perto do limite do seu raio de acção, com tempos de manobra e aceleração reduzidos devido ao afastamento das suas bases, como pela total inexistência de bombardeiros estratégicos alemães capazes de imitar o tipo de guerra que os ingleses — e mais tarde os americanos — conduziram a partir do ar.

    Repara que até os bombardeiros alemães de maior raio da acção eram bimotores muito limitados, mais destinados ao ataque ao solo do que à guerra aérea concebida por estrategas aéreos como Giulio Douhet no pós-Grande Guerra e praticada em todas as frentes pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. É essa falta de quadrimotores de grande capacidade e raio de acção, aliás, que explica o recurso alemão , mais tarde, às V-1 e V-2 («V» de Vergeltungswaffen = armas de Vergeltungs, i.e. de retribuição, represália, retaliação).

  19. Disse eu «mais destinados ao ataque ao solo». Entenda o prezado Strummer esta expressão no sentido técnico do inglês “ground attack”, i.e. do apoio táctico próximo às forças no terreno, no papel de, por assim dizer, artilharia com asas. Portanto no polo oposto da guerra aérea estratégica pelo bombadeamento de objectivos económicos e/ou de terror sobre as populações civis.

  20. Gungunhana Meirelles, não pretendo aprender contigo, prefiro o canal História (ou até o canal Disney). No canal História e quejandos, a mielas com boa televisão, encontro a exibição de informação objectiva, documentada. Contigo, encontro interpretações conspiracionistas dessa informação objectiva. Obviamente, nada tenho contra o teu gosto e a forma como gastas o teu tempo. Prezo é suficientemente o meu tempo para não o desperdiçar com o gosto dos outros quando esse gosto dispara em direcção ao pensamento mágico.

    Também constato que, para ti, os erros crassos cometidos por Hitler na estratégia da Frente Leste não existem e são substituídos por elogios ao que não existiu, como se os alemães tivessem vencido, afinal. E até chegas a ter graça ao falar do clima, quando ao soldado alemão a caminho da Russia no final do Verão nem sequer roupa de Inverno tinha sido dada.

    Claro que para ti não pode haver discussão alguma sobre os factos, sei bem, pois te consideras senhor dos mesmos. E lá voltamos ao conselho de Aristóteles, velhinho de 2300 anos, para lidar com situações destas.

  21. Valupi: «No canal História e quejandos, a mielas com boa televisão, encontro a exibição de informação objectiva, documentada. Contigo, encontro interpretações conspiracionistas dessa informação objectiva».

    I rest my case. Pela boca morre o peixe, e nada há a acrescentar.

  22. Mas não deixa de ser interessante continuar a observar os curto-circuitos mentais incapacitantes que o condicionamento da caixa dos pirolitos despoleta.

  23. Por falar em circo, estava eu aqui com o meus botões a pensar que o “Botas”, enquanto ministro das finanças, reestruturou a dívida e ganhou créditos com isso a ponto de dar um pontapé nos monárquicos, mandar os militares para os quarteis e mudar o regime. Depois lembrei-me do coiso que lá em Paris disse que as dívidas não se pagam, gerem-se, o que virou escândalo no burgo do Passolas, o tal que queria pagar tudo duma vez p’ra coisa sair mais barata e aprendermos uma lição, nem que para isso arrancássemos todos os pelos do nariz. Vai daí, aparece o Jerónimo e a pequerrucha a defender a reestruturação da dívida.
    Dito isto, o palhaço de voz maviosa destoa neste circo ou é só a minha impressora que está avariada?

  24. Valupi: «Contigo, encontro interpretações conspiracionistas»

    E mais essa para rematar. Nem sequer tinha reparado à primeira, mas não me admira muito, porque é mesmo um clássico: quem procura desmistificar as pseudo-conspirações (haverá alguma maior do que o famoso plano secreto para exterminar todo um povo sem ninguém dar por isso, por meios telepáticos e palavras-códigos, sem transmisão de ordens, nem orçamentos, nem meios adequados, nem coisa nenhuma?) é que é o conspiracionista…

    Pois sim, Valupi. Vai lá ver televisão porque está a dar o novo Hitler da semana. Parece que agora é o Assad. À morte o Assad! Vivam as guerras justas para impedir holocaustos! Viva a televisão do Grande Irmão!

  25. Atrocidades parecidas com as ocorridas no tempo de Hitler, com perseguição, limpeza religiosa e étnica, assassínios em massa, ocorrem actuamente.
    https://m.youtube.com/watch?v=Xb959nKgtZg
    Até financiadas pelos contribuintes europeus, ainda que através de descrições eufemísticas
    http://www.nytimes.com/2015/11/30/world/europe/eu-offers-turkey-3-billion-euros-to-stem-migrant-flow.html?_r=0
    Palhaço és tu, Valupi, sou eu, somos todos nós que assistimos a uma barbaridade destas, instigada e patrocinada pelas nossas instituições, enquanto nos aliviamos com o circo dos outros.

  26. Meireles,
    “que o condicionamento da caixa dos pirolitos despoleta.”
    querias dizer espoleta e não despoleta. De qualquer forma, tem cuidado com a espoleta, não te magoes. Olha que os enfermeiros estão de fim de semana e, na caixa, só há aspirinas fora de prazo.

  27. Lucas Galuxo, sobre a alocução da irmã Guadalupe: notável primeira parte, muito interessante, focando a situação real, as origens do conflito, a sua mistificação no (e pelo) Ocidente e a calamidade resultante. E segunda parte quase a cancelar a mensagem da primeira, perdendo por completo o foco eficaz e substituindo — sem dúvida com a melhor das intenções — a informação e indignação essencial pela pregação e prioridades pessoais, a que só falta, no fim, dar graças pelos sofrimentos dos mártires e pelos tormentos que nos assegurarão a todos, juntamente com a castidade nesta vida, uma boa segunda vida no além, única coisa que interessa, como não se cansa de repetir. Julgava eu que o que interessava era evitar calamidades como as da Síria, mas parece que afinal até são boas porque ajudam a forjar o carácter e a salvar a alma. Obrigado terroristas: os leões rugem, mas os cristãos cantam. E desata a cantar. My take, right or wrong.

  28. Ignatzia, sobre alguma inversão do sentido no uso de «despoletar» por «espoletar», estou de acordo, mas há certos usos que resultam tão consagrados que se torna pretensioso contrariá-los. É um pouco como o pedal de «embraiagem» que devia ser de «desembraiagem» (é o que se faz quando se carrega nele). Além disso pensa no uso do sinónimo «desencadear». Porquê «desencadear» (i.e. fazer alguma coisa acontecer na sequência de uma acção) em vez de «encadear»? Que eu saiba, por nada. Simplesmente pelo que o uso passou a determinar, como em «despoletar».

  29. Certo, Gungunhana. O que nos interessa agora é discutir a prestação da senhora. Se utiliza uma linguagem que nos é mais ou menos familiar, se partilha a nossa visão religiosa do mundo, se canta bem ou desafina, as suas intenções espirituais,… assim podemos virar a cara para os factos por cuja coragem pessoal temos acesso a testemunho vivo e directo. Aliás, os jornais e as televisões estão cheios de notícas que relatam o que se está a passar, tal e qual.
    Na minha opinião, nas próximas décadas, só a abundância de pessoas com a capacidade de olhar de frente este mal, que me parece ter encontrado no seu relato, pode impedir que ele domine o mundo. Até chegar ao conforto do sofá em que, para aliviar a nossa cobardia, escrevemos comentários nas redes sociais. Isso e alguma luz que apareça na inteligência dos dirigentes ocidentais, que os faça compreender que as saudades da guerra fria, com as suas entregas de armas a todos os que lhes prometem combater interesses russos, acabarão por arrastar o Ocidente para a sua própria perdição.

  30. Ó tozé, claro que Sócrates não chega aos calcanhares do ilhéu Jardim.

    Nem o Jardim não chega aos calcanhares do ilhéu Carlos César.

    Estes dois sim saber como se mama.

    Têm um mamar muito doce! Aqui no rectângulo nem sentimos!

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