As palavras dos números

Por diferentes razões, e em vários planos, Os Números do Dinheiro é um dos melhores programas da televisão portuguesa. Num tempo em que há uma saturação da TV fala-barato, pois os custos de produção dos talk shows são mínimos e há excesso de oferta de participantes (inclusive à borla, aposto), daí resultando um maremoto de inanidade sedativa, esta hora de conversa semanal sob a batuta especialista e elegante de Perez Metelo vale todos os segundos registados pelas câmaras. Os benefícios começam pelo jornalista que, não abdicando das suas inevitáveis idiossincrasias opinativas, mantém uma exemplar equidistância ideológica ao serviço da variedade e riqueza intelectual dos debatentes. O elenco funciona amplamente como amostra do espectro político, por um lado, e apresenta qualidades fotogénicas interessantes que se reforçam pela boa química de grupo, pelo outro.

Da esquerda para a direita temos Ricardo Paes Mamede, economista situado nesse território de independentes de esquerda vizinhos do PS, Teixeira dos Santos, economista peso-pesado do regime com profunda experiência política no campo do socialismo democrático, e Jorge Braga de Macedo, um dos economistas mais poderosos no sistema e ex-líbris da oligarquia nacional. Os três estabeleceram espontaneamente uma dinâmica que replica na perfeição o arco ideológico presente. O Ricardo é o esquerdista, e também o moço, que desperta no Jorge, o direitista, e também o mestre-escola, um entusiasmo paternalista mesclado de arrogância e admiração. No meio, simbolizando e substanciando o centro, o Fernando exprime a visão de uma racionalidade com os pés na terra e a cabeça dirigida ao horizonte das possibilidades. É essa a vantagem do centro, e também o flanco pelo qual é atacado pela esquerda e pela direita, a preferência pela inteligência do saber de experiência feito.

O programa consegue o feito homérico de permitir que cada participante consiga expor raciocínios completos, servidos pelos materiais gráficos respectivos quando os há. O resultado é duplo, a argumentação ganha qualidade dialéctica e o ambiente de respeito pelas intervenções, imune à vozearia usada como boicote pelos políticos decadentes, faz com que a audiência se concentre nas lógicas em disputa. Como estamos perante temáticas de grande complexidade conceptual e técnica, cada programa consegue assim ir ao encontro das diferentes literacias e graus de informação na audiência. Um caso onde nivelar por cima corresponde a aumentar a base de recepção das mensagens.

Apesar de me congratular pela presença de Perez Metelo na TV do Estado, onde está a produzir verdadeiro serviço público, de me reconfortar com a qualidade intelectual e moral do Paes Mamede e de ver aumentar o meu já elevado apreço pelo mal-amado Teixeira dos Santos, o preferido do quarteto pelo estrito critério do espectáculo é o Braga de Macedo. Trata-se de um genuíno snob, como já não há e fazem falta, que por isso mesmo espalha graça de cada vez que aparece, de cada vez que fala, de cada vez que reage facialmente. O seu papel é o de sabichão, e ele leva-o visceralmente muito a sério. Estamos num nível já anedótico, típico dos corredores académicos das centenárias universidades com as suas figuras de uma excentricidade ecologicamente natural para a função professoral, iniciática e até xamânica. Todavia, por detrás da máscara vemos alguém igual a todos os outros, apenas mais sofisticado, ou tão-só teatral, nas defesas e artimanhas com que tenta impor as suas crenças e apetites. Dando um exemplo, o último programa onde resolveu carimbar como “vitória de Pirro” a aceitação do Orçamento português pela Comissão Europeia. A expressão não carece de explicitação, dado ser do conhecimento corrente. Qualquer outro – e refiro-me mesmo a qualquer outro sem excepção conhecida – limitar-se-ia a vocalizar “vitória de Pirro” e continuava a dizer outras coisas. Não com esta cabeça, a qual resolveu contar a história da locução com tanto refinamento que chegou mesmo a traduzir o nome do senhor grego em causa. Ou seja, tratou os seus colegas de debate e os espectadores como se fossem todos uma ranchada de adolescentes a olharem para o palco onde ia debitando ilustrações eruditas para seu interior contentamento. Tem isso algum mal? Nenhum de nenhum. É televisão da boa, com a vantagem de alimentar o conhecimento geral e o gosto pela aprendizagem. Que depois este simpático bufão seja igualmente um instrumento da violência política com origem num radicalismo ideológico indiferente à destruição social que causa, essa é outra conversa. Uma excelente conversa, aliás.

14 thoughts on “As palavras dos números”

  1. o adiantado mental não vale um caralho, melhor caracterizando “a vitória dum espirro”, um chulo do orçamento de estado com folha de serviços que vai de jovem agricultor subsidiado a presidente de institutos tropicais e entrevistas exóticas em pijama, fórmula pulido valente em versão água das pedras.

  2. Concordo com a analise. O programa tem um beneficio, desintoxica do economes.
    No último pareceu-me ouvir uma piada de mau gosto do Janota que passou despercebida. A proposito de uma referência critica do Metello aos pundits q infestam o comentario levezinho retorquiu fazendo-se desentendido que era uma cena ou família indiana (já não me recordo bem). Em ingles ha uma obvia conotacao fonetica entre o termo e os nomes indianos mas no contexto do assunto, o orcamento, e de mau gusto. Em ingles tambem.

  3. ai! que delícia é ler-te! acabei de ver uma fotografia, preto no branco – e branco no preto -, da sociedade. estou a arrotar. :-)

  4. Braga de Macedo-Vive no Sec. XIX , mas com reforma do Sec. XXI. Para o estatuto do Silva Lopes, mais vale esperar deitado!
    T. Santos- A banca apertou, e ele foi com o aperto. Para quem parecia senhor do seu nariz, quebrou cedo demais. – Quanto mais fala, mais se enterra.
    Paes Mamede- Todos que equacionem hayek, e modus operandi, como Chile, devem ser ouvidos.
    E quanto ao programa em questão, vale por este último, já que os outros dois, apesar da patente, melhor fariam em desaparecer de cena.

  5. Sim, este programa é interessante. Vejo sempre. O da Justiça, dirigido pela Cristina Esteves, que penso ser formada em Direito, também é muito interessante. Mas são duas exceções, claro.

  6. «Jorge Braga de Macedo, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva […], que ficou conhecido como “o adiantado mental” [e] cuja tirada jornalística mais conhecida foi registada quando lhe perguntaram se os portugueses iam sentir o aumento do IVA na carne e ele respondeu sem pestanejar: sim, sim, na carne, no peixe, no pão, no leite… Valha-nos a sensibilidade social.»
    Miguel Abrantes, blogue «Câmara Corporativa», 12.8.2011

  7. O lunático comprou um “monte alentejano” por x e declarou y.
    No último programa em relação a uma afirmação de Teixeira dos Santos com a qual não concordava disse com um cara muito enjoada: “não esperava isso de de si, Fernando”.

  8. Valupi, não aprecio, o Metelo dá uma no cravo, outra na ferradura, coisa típica de economistas, o Macedo é doido varrido e o Teixeira é bronco e uma nulidade, reconheço o saber e a explanação cristalina do Ricardo Pais Mamede, acho que a RTP, devia ter sido extinta, a partir do momento que Guterres não aproveitou e não fez uma limpeza profilatica, que se impunha e não afastou os laranjões assumidos e declarados que por lá pontificavam, refiro-me a Rodrigues dos Santos e Judite, a rtp para mim acabou .

  9. “O lunático comprou um “monte alentejano” por x e declarou y.”

    não foi nada disso. vou reformular: o monte de merda sacou uns subsídios para o cunhado, jovem agricultor do eixo católica-harvard, que geria um monte de frades e depois armou em lunático para disfarçar, técnica usada para rebocar os buracos em que se mete.

    http://www2.iict.pt/archive/doc/HespanhaComent.pdf

  10. Sem dúvida um belo pedaço de aprendizagem com diferentes pontos de vista.

    Mas, convém lembrar:
    – Teixeira dos Santos também fez a mesma figura de Rui Pereira e Maria de Lourdes.

    Não é nada , mesmo nada, bom de ver mas depois…
    – nada muda na qualidade e defeitos de cada um.

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