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Começa a semana com isto

Carol Tavris on Mistakes, Justification, and Cognitive Dissonance
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Para além da graça de vermos o simpático Sean Carroll no papel de entrevistador de uma psicóloga social, ele que é um famoso físico teórico especializado em mecânica quântica e cosmologia, e não esquecendo que a entrevistada inaugura o seu podcast, chamo a atenção para duas passagens onde a simpática e risonha Carol Tavris nos tenta ajudar:

– Quando descreve como nos interrogatórios policiais e judiciais é fácil (frequente?) partir-se de uma presunção de culpa do interrogado que jamais será abandonada pela autoridade em causa na situação. Independentemente do que o suspeito diga em sua defesa, calhando não haver evidências a seu favor, quem interroga tenderá a ficar cognitivamente limitado pela visão em túnel, pelo viés de confirmação e pelo viés de investigação. Esta distorção pode gerar violência sobre o suspeito e até forçá-lo a aceitar assumir falsas confissões.

– Quando conta uma história que termina assim: “When a friend makes a mistake, the friend remains a friend and the mistake remains a mistake.”

Revolution through evolution

Being a selfish jerk doesn’t get you ahead: Study
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Is being generous the next beauty trend?
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Body mass index is a more powerful risk factor for diabetes than genetics
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People love winning streaks by individuals – teams, not so much
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New electronic skin can react to pain like human skin
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How we sleep today may forecast when Alzheimer’s disease begins
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Atheists are more likely to sleep better than Catholics and Baptists
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Em defesa da educação da liberdade

Em resposta à audiência concedida pelo Presidente da República a Manuel Braga da Cruz e Mário Pinto, primeiros subscritores do abaixo-assinado ‘Em defesa das liberdades de educação”, surgiram duas tomadas de posição que argumentam a favor da disciplina Educação para a Cidadania: o documento “Cidadania e desenvolvimento: a cidadania não é uma opção” + o Manifesto em Defesa da Educação para a Cidadania

Que se está a passar? De um lado, temos a direita no fundo do poço, o poço está seco, e eles continuam a escavar – cada vez mais febris com sede, mais exaustos, mais emporcalhados, mais afundados num ciclo em que trocaram a decência e o bem comum pelo ressentimento e o ódio. Do outro, vemos a esquerda a ocupar o centro, pois o princípio supremo da política é o do espaço do poder nunca ficar vazio.

O que se ensina na disciplina Educação para a Cidadania é, nem mais nem menos, a ideologia do centro numa democracia liberal onde o Estado tem eficácia soberana. Precisamente por estarem em causa valores morais eclécticos e universalistas, mas não neutros pois não existe tal coisa na axiologia, o lado que abriu as hostilidades ao usar como casus belli «Artur Mesquita Guimarães e sua Mulher, pai e mãe de dois filhos alunos da escola pública de Famalicão» barricou-se na figura legalmente ilegítima da “autoridade da família” contra o resto do mundo. Colocaram-se a jeito para serem bombardeados com noções básicas de História, de constitucionalismo e de bom senso.

Sonho com uma escola pública que tivesse como finalidade primeira formar alunos que no final da escolaridade obrigatória recebessem o título de cidadãos, após terem passado 12 anos a estudar a Constituição da República Portuguesa – todas as restantes disciplinas a serem subsidiárias deste eixo central de aprendizagem: descobrir donde veio a liberdade, onde e com quem está, e para onde nos pode levar.

Como é curiosa a luta contra a corrupção em Portugal

Quantas vezes, ao longo da nossa vida (cada um que pense na sua), a corrupção nos causou um qualquer dano? E a ter causado, quando foi a última vez? Somando as parcelas, qual é mais danosa para o País, a grande ou a pequena corrupção? Se a “Operação Marquês” é o mais importante processo judicial de sempre no Portugal democrático, e se esse caso nasceu por suspeitas de corrupção e produziu uma acusação de corrupção, existe alguma prova directa de corrupção nas 53 mil páginas e nos 13,5 milhões de ficheiros informáticos reunidos? A haver, mesmo que seja prova indirecta, e visto dizer respeito a actos de um primeiro-ministro, como é possível não existir mais nenhum ex-governante, ou que fosse mero funcionário público, a ser acusado de cumplicidade? Aliás, o que é a corrupção? Há uma definição legal, restrita ao âmbito dos funcionários públicos. Há a definição popular, em que a corrupção é o que todos os outros fazem a toda a hora. E há a definição populista à portuguesa, em que a corrupção só existe porque existem socialistas a ocupar posições estatais. Os inquéritos mostram que a percepção sobre a corrupção em Portugal é muito elevada entre os que respondem a esses levantamentos; o que parece inevitável quando há uma indústria da calúnia onde o tema é explorado à exaustão de acordo com todas as técnicas sensacionalistas e persecutórias, situação agravada pela decadência da direita que, por factores pulsionais e contextuais, igualmente faz do espantalho da corrupção uma estratégia retórica dado não ter mais nenhum discurso para apresentar aos cidadãos e aos eleitores.

João Miguel Tavares, quando andava a passear no Iraque em aventuras de guerra com Ana Lucas Coelho, estava muito longe de imaginar que se iria tornar numa super-vedeta da indústria da calúnia por ter despachado, em Março de 2009, um exercício displicente onde acusava um primeiro-ministro de ser corrupto apenas com base no que o autor tinha recolhido na comunicação social. Começava aí uma carreira gloriosa que o iria levar para o panteão daqueles que por feitos extraordinários ao serviço de Portugal e da cultura e comunidades portuguesas foram convidados a ilustrar o 10 Junho, assumindo a presidência das comemorações e tendo direito a dizer das suas para edificação da Grei. O actual Presidente da República justificou a escolha declarando que via no nomeado de 2019 um representante do “jornalismo” e que o “jornalismo” estava a precisar de ajuda, pelo que as peças encaixavam na perfeição – a transformação da actividade jornalística na mera opinião vulgar e o prémio político dado a quem fez da pulhice um negócio. Ora, este importantíssimo especialista em corrupção socialista acaba de publicar um importantíssimo tríptico onde exibe os seus superiores talentos analíticos. Foi assim, sirvo os sumários executivos:

Portugal e o problema da corrupção – parte 1 – Cuidado com os socráticos. Costa é igual aos socráticos, cuidado com o Costa. A corrupção é o Diabo, e os socialistas são diabólicos.

Portugal e o problema da corrupção – parte 2 – O regime é corrupto. Em 1788, alguém na América disse: “A natureza humana é socialista, só os anjos é que se safam mas temos de esperar pelo Passos Coelho.” Entretanto, não dá para acelerar a produção de prisioneiros socialistas voltando à rapidez e limpeza dos tribunais plenários?

Portugal e o problema da corrupção – parte 3 – Um estudo da Católica que não fala de Portugal é o guia ideal para falar de Portugal. Ao mais de resto, anda tudo a gamar e ninguém quer saber. A própria Suécia já foi como Angola, portanto… Adam Smith não sei quê e foda-se. Ah, isto que eu aqui deixo é que é o jornalismo.

Uma característica curiosa das intervenções deste famoso jornalista e grande investigador do fenómeno da corrupção é nunca terem qualquer número relativo à problemática na berlinda. Ele despreza percentagens, ocorrências, segmentações, comparativos, tabelas, mapas, gráficos, estatísticas. Abomina a gentalha das ciências sociais que tresanda a socialismo. Não precisa, dispensa. Para quê perder tempo com essa tralha dos factos e seu tratamento rigoroso e isento, o que muito provavelmente só iria aborrecer os seus leitores, quando basta ler o esgoto a céu aberto e depois passar meia hora a teclar para aplauso da claque, e ainda sacar o belo à Sonae para poder ir de férias com a família? Não serei eu a condená-lo por essa vida tão confortável que alcançou. Mas confesso ficar um bocadinho pesaroso ao tropeçar no seu silêncio sobre essa mesma Católica que referiu, e por onde se passeia com intimidade de braço dado com o Zé Manel, precisamente no capítulo da corrupção, o combate da sua vida. É que um jornalista curioso não deixaria passar sem uma referência esses tempos em que um primeiro-ministro montou um esquema fiscal que, noutros tempos ainda mais remotos, lhe teria garantido uma bula papal e a promessa do início do processo de beatificação aquando do passamento, tamanhos os benefícios financeiros dados à UCP. A mesma UCP onde esse primeiro-ministro e a esposa foram professores, entre outras figuras com responsabilidade governativa no tal decreto-lei. Curiosa a selectiva falta de curiosidade do nosso herói da luta contra a corrupção, né?

A direita a devorar-se a si própria

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Há uma protecção à figura institucional do Presidente da República que quase não carece de ser explicada por se compreender e aceitar intuitivamente. O regime precisa, a Assembleia da República necessita, os cidadãos esperam, que o garante do regular funcionamento das instituições democráticas mantenha a sua autoridade política e moral (não sendo o mesmo podem ser a mesma) num plano imaculadamente soberano. Por exemplo, do próprio Marcelo, então comentador, muitas vezes nos chegaram declarações com sorrisos de escárnio ao lembrar que Sócrates e o PS nada poderiam fazer contra os desvairados boicotes e ataques de Cavaco; pois quando os Governos e os partidos hostilizam o Presidente, acabam os primeiros por perder sempre o braço-de-ferro com o último. O povo está com a Presidência, advindo da eleição directa deste especialíssimo representante um poder único, plástico, críptico na arquitectura da República.

Será? Para mim, o episódio da “Inventona de Belém” marca a data em que tal complacência deixa de ser patriótica (ou decente, ou democrática, ou republicana, é escolher). O que se seguiu, o comportamento de Cavaco na noite da reeleição em que atacou os restantes candidatos após ter vencido, e o seu comício no discurso solene da tomada de posse, em que pré-anunciou o afundanço de Portugal na crise devastadora que promoveu sonsa e cinicamente, crise resultante do chumbo do PEC IV que até Merkel achou inacreditável não se ter evitado, confirmaram os idos do Verão de 2009. Um Presidente que não respeita o bem comum nem se dá ao respeito, um Presidente que prefere o interesse pessoal ao interesse nacional, não é apenas inepto para a função, acumula com ser um dos maiores perigos políticos e sociais para a comunidade.

É só por não termos imprensa, e a comunicação social estar na sua enorme maioria na mão da direita, que o episódio de Marcelo Rebelo de Sousa em despique verbal com uma popular, acima exposto, não provoca um escândalo para a História. Do princípio ao fim, incluindo as justificações aos jornalistas, vemos um sujeito amedrontado, impaciente, confuso e desleixado. Claro, o sujeito que preenche a figura institucional de Presidente da República pode, em variegadas circunstâncias, mostrar-se em público desleixado, confuso, impaciente e amedrontado sem que tal nos deva afligir dado concordarmos em ter um ser humano a desempenhar essas funções. Mas é preciso que a realidade em causa confirme essa bondade. No caso da Feira do Livro do Porto, a brutal realidade infirma-a e deixa-nos com um pavoroso diagnóstico entre mãos: o Professor de Direito esqueceu o dito, o católico não se lembra do Evangelho nem da catequese, o político odeia o Parlamento e o chefe de Estado não faz ideia de quando é que se aumentou o salário mínimo. Perante uma pessoa num estado mental exaltado, com um discurso provocatório e a passos demente, o “presidente dos afectos”, que fica tão bem nas fotografias popularuchas e populistas, colocou-se ao nível psicologicamente miserável de quem o acossava, primeiro, e depois deu por si afundado no vazio, ao nada encontrar para responder a quem lhe perguntou se conseguiria viver com 580 euros por mês e se aceitaria trocar de casa. Este vazio imprevistamente exposto no espaço público está saturado de outros vazios, é um vazio asfixiante e esmagador. Usar os mortos e a destruição dos fogos de 2017 para fazer brilharetes frente às câmaras e deixar os direitolas em êxtase com mais uma cabeça cortada na Hidra socialista é fácil num artista deste calibre, saber o que dizer a quem aponta um telemóvel e dispara rajadas de desigualdade de tudo e por tudo já não é matéria que se ensine no circuito das melhores famílias de Cascais.

Cavaco foi o líder da direita durante três décadas. Marcelo tem sido o líder da direita desde que entrou em Belém. Os decadentes estão em campanha para que Passos Coelho volte como líder da direita. E André Ventura, no seu deboche crescente, vai angariando pilha-galinhas, rufias, trafulhas e psicopatas para brincar aos líderes da direita posto que ele vem desde Loures a constatar que vale tudo nesse deserto de ideias e de ética onde montou a barraca. O que Marcelo mostrou, numa insólita tarde de final de Agosto, é que não há grandes diferenças entre estas quatro figuras. No essencial, nem conseguem viver com 580 euros por mês nem tencionam sujeitar os pobrezinhos ao incómodo de trocarem de casa com eles.

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How men and women network impacts their labor market performance
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Having a doctor who shares the same race may ease patient’s angst
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Clubs Closed? Study Finds Partygoers Turn to Virtual Raves and Happy Hours During Pandemic
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Cycling Keeps You Young
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Study: Despite Training, Vermont Police Departments Still Show Widespread Racial Bias
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When it comes to supporting candidates, ideology trumps race and gender
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When two tribes go to war – how tribalism polarized the Brexit social media debate
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O Expresso e a filthy season

«O mês de Agosto potenciou o silêncio à esquerda. Do PS não se ouviu nem leu uma palavra, nem boa nem má, sobre as declarações da ministra do Trabalho e Segurança Social e da esquerda também ainda ninguém tinha vindo a terreiro falar do tema que tem aquecido o espaço público, desde a entrevista de Ana Mendes Godinho ao Expresso. Ainda antes de os intervenientes principais nesta trama terem falado (primeiro a própria ministra e depois o primeiro-ministro), Catarina Martins criticava, mas não ia mais além do que isso. [...]»

Lares. Catarina Martins: “As afirmações foram infelizes. As tragédias não se relativizam”

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Liliana Valente é uma jornalista especializada em política nacional que começou no i, de lá passou para o Observador, daí saltou para o Público e está há uns meses no Expresso. Este trajecto não é cadastro mas o seu currículo é perfil. Esses quatro jornais são siameses na promoção de uma agenda de direita e na defesa dos seus interesses económicos e sociais. Por essa razão, os sucessivos patrões desta jornalista terão gostado exactamente do mesmo a seu respeito: o binómio “qualidade profissional” + “cumplicidade ideológica”.

No trecho citado acima, o qual abre uma notícia neste momento totalmente esquecida até dos pouquíssimos que a tenham lido, as duas qualidades podem ser apreciadas com detalhe. Logo desde a primeira frase estamos perante o pretexto do texto e seu subtexto, a intenção de chafurdar na exploração hipócrita, sensacionalista e demagógica de uma entrevista dada ao mesmo jornal onde a Liliana ganha aquilo com que se compram os melões. Na segunda frase, ficamos com a informação (com a notícia? o furo?) de que a famigerada entrevista e seus destaques, da responsabilidade deontológica de colegas da jornalista Valente, consistia no “tema que tem aquecido o espaço público“. E a terceira frase chega ao ponto de criticar Catarina Martins por não ir além da crítica, assim sugerindo que a esquerda à esquerda do PS não estava a querer aproveitar o servicinho do Expresso para brincar às guilhotinas. Isto é jornalismo? É opinião? É jornalismo de opinião? Ninguém quer saber – à excepção dos directores e editores do Grupo Impresa, que a sabem toda pois passam os dias a virar destes frangos há décadas.

O “tema que tem aquecido o espaço público” foi uma invenção do Expresso, o que se dá a ver pela forma cínica como descontextualizaram as respostas de Ana Mendes Godinho e geraram um resumo cuja intencionalidade não é a de informar os leitores ou contribuir para o esclarecimento de qualquer assunto com interesse para a comunidade – o propósito é exclusivamente o de manipular a percepção da audiência de modo a suscitar uma inevitável onda de indignação pelos profissionais da mesma, pelos fanáticos e pelos broncos. Criou-se um “facto político” a partir da deturpação de declarações banais e bondosas. Pode-se alegar que tal prática é universal, que sempre houve, e sempre haverá, queixas contra as opções editoriais da imprensa ao destacarem o que os visados consideram irrelevante ou enganador. E mais se pode dizer que um órgão de comunicação social privado tem direito a procurar receitas através do sensacionalismo, não estando obrigado a respeitar qualquer noção de “serviço público” ou mera “decência”. Sendo tal verdade, não menos verdadeira é a constatação de que o director ou directores (sei lá) do Expresso quiseram pegar fogo ao Governo e apanharam uma ministra que se pôs a jeito na sua boa-fé.

A entrevista de Costa ao Expresso surge como uma vitória para os autores do assédio, de novo colocando o jornal no centro do circo mediático. Vale a pena deturpar as declarações de um governante pois o prémio é vir o chefe a correr encher mais umas páginas do pasquim para ajudar a passar o Verão, conclui-se. Nesse sentido, ter partido do Expresso a iniciativa de gravar secretamente Costa a falar sem pudor e com emoção, e depois alguém do Expresso ter mandado o trecho para o mundo imundo, garantindo-se que tal vídeo para sempre acompanhe o futuro político de Costa, é de uma supina coerência com tudo o que foi feito antes e que obedecia à mesmíssima lógica. Não importa se foi planeado ou apenas um acidente cheio de coincidências tão oportunas. Importa é registar que no Expresso a silly season foi trocada pela filthy season.

Começa a semana com isto

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Conta-se que Platão tinha à entrada da Academia o seguinte repto: “Não entre ninguém sem saber geometria.” Aristóteles, o seu melhor aluno, até para a ética utilizou a geometria (a justiça é geométrica ou não é justa, intemporal noção). E é por causa da geometria que me parece o centro a melhor posição política no espectro ideológico tradicional. É ao centro que se é mais atacado, pois se leva porrada por igual dos sectários, dos fanáticos e dos maniqueístas da direita e da esquerda. E é ao centro que a complexidade da análise e da decisão é maior, posto que não existe nenhum radicalismo a servir de encosto moral, nem existe nenhum viés de confirmação a servir de palas à inteligência.

Jonathan Haidt é um psicólogo social que se tem ocupado de questões morais e políticas. Um tema que poderá resumir o cerne da sua investigação, e que está directamente ligado com as convulsões identitárias ocorridas nas universidades norte-americanas nos últimos anos, é o da polarização. Nos seus estudos, obras publicadas e intervenções, este cientista ajuda-nos a decifrar o que vemos nas arenas sociais – aplicando-se os seus ensinamentos na perfeição ao que aconteceu, e está a acontecer, em Portugal a propósito da problemática do racismo.

Nesta palestra há um bónus final, o de vermos e ouvirmos Van Jones a defender o direito ao crescimento intelectual, e do carácter, sem limitações à liberdade de dissensão.

Revolution through evolution

Research challenges popular belief that ‘unbridled ambition’ costs female candidates votes
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Half of parents report butting heads with child’s grandparent over parenting
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Mother bats use baby talk to communicate with their pups
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Broccoli and Brussels sprouts a cut above for blood vessel health
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Picture this: Employee fraud decreases when they see family photos
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Police officers face multifaceted, compounding stressors that can lead to adverse events during high-stress calls
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People Who Feel Their Lives Are Threatened Are More Likely to Experience Miracles
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A capital europeia do comentariado imbecil

A 22 de Junho, Daniel Oliveira escreveu no Expresso o seguinte:

«Não acredito que a Champions aconteça com público, que viria de todo o mundo. Era preciso que, em agosto, tudo estivesse quase resolvido. Sendo sem público, qual é a vantagem? Dizem que a publicidade, que contribuirá para a recuperação mais rápida do turismo. Mas isso é partir do princípio que as coisas estarão bem em agosto. Não fazemos ideia se assim será. Se as coisas piorarem, a publicidade só pode ser negativa. Se for desmarcada, teremos um foco na situação portuguesa que seria evitável. Se não for desmarcada, teremos televisões de todo o mundo, sem público como tema de reportagem, a apontar os seus holofotes para cada caso e cada perigo, transformando Lisboa na capital europeia do covid. Mesmo que esteja a correr pior noutras paragens. Vale o risco?»

Fonte

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O catastrofismo presente nesta citação é exemplar. Uma vedeta do jornalismo de opinião, que aparenta viver exclusivamente dos proventos adquiridos nessa actividade, optou pelo sensacionalismo ressabiado para servir ao público e aos seus patrões. Lógica? A da motivação da baixa política, a do quanto pior melhor pois não gosto daqueles gajos, à mistura com a soberba de quem compete pelo dom da infalibilidade. Apostar no cenário pessimista, e maximizar as suas potenciais consequências, é um exercício que enche de dopamina e testosterona o articulista implacável, imaginando-se a cavalo numa carga heróica contra esses políticos broncos, alarves e malvados que insistem em fazer as coisas sem primeiro pedir o sapientíssimo conselho (aprovação?) do Daniel Oliveira.

Dois meses se passaram. E há que fazer justiça ao profeta, realmente os números da situação em Portugal deram que falar na imprensa internacional. Da primeira vez, por causa dos 8-2 com que o Bayern esmagou o Barcelona. Da segunda, quando Portugal entrou na lista dos corredores aéreos do Reino Unido, permitindo uma expectativa de divisas e uma diminuição do desemprego cruciais. Chegamos ao dia da final e registam-se 145 novos casos enquanto em Espanha, França, Itália e Alemanha se está em aceleradíssimo crescimento. Mas não só, os espectaculares casos de Israel, Croácia e Nova Zelândia, países dados como referência de excelência na gestão da epidemia e sua contenção ao mínimo possível, revelam que a dinâmica da propagação do contágio ultrapassa qualquer capacidade dos governos seja em que geografia ou sociedade for. Como ilustração suprema, o que se passou na Nova Zelândia (uma ilha, para quem não sabe, e com metade da população portuguesa) é a prova de que estar na plateia a apupar os governantes porque os números são assim ou assado é uma prática que pode ser financeira e psicologicamente muito consoladora mas que no plano cívico e ético fica como uma pulhice. Ou então, às tantas, talvez tenham razão e sejam mesmo os infecciosos transportes públicos de Lisboa que estão a causar o recrudescimento dos surtos um pouco por todo o Mundo, como também afiançaram há umas semanas, quem sabe?

Daniel Oliveira não ficou sozinho. Difícil, ou muito provavelmente impossível, é alguém no comentariado ter resistido à pulsão de caricaturar e achincalhar os representantes do Soberano. Pessoas que se ofereceram para tomar diariamente, horariamente, decisões que afectam o presente e futuro de milhões de concidadãos sem poderem ter sequer um bilionésimo da certeza apodíctica que os génios jornaleiros espalham pelo teclado e pelos estúdios. Onde são tão inteligentes, tão corajosos e tão felizes.

Coisas do Carvalho

«Um a um, os profetas do populismo de extrema-direita vão mostrando a sua verdadeira face, estatelando-se em casos de corrupção que tinham prometido não só combater, mas erradicar na Europa ou nas américas. Um dos mais perigosos missionários dessa promessa de regeneração moral, Steve Bannon, foi detido ontem por alegadamente se ter apropriado de um milhão de dólares de donativos para a construção do muro na fronteira sul dos EUA. O exemplo é esclarecedor da mentira e da hipocrisia do personagem e não é o primeiro a desvendar a natureza dos que se propõem restaurar as sociedades, depurando-as de imigrantes, fazendo regressar os ressentimentos nacionalistas ou acabando com a corrupção [...]»


Manuel Carvalho

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Populismo, extrema-direita, combate à corrupção, regeneração moral, mentira, hipocrisia, restaurar as sociedades e o fim da corrupção… Onde é que já ouvimos isso? ‘Pera aí, onde é que podemos encontrar isso, tal qual, se não for diariamente pelo menos semana sim, semana sim? Olha a coincidência, é no jornal do Carvalho! Basta ir lendo os seus editoriais, mais as crónicas do caluniador profissional cujo programa consiste na purga que lhe vai enchendo os bolsos, e de novo levarmos com o caluniador profissional citado nos editoriais. O Carvalho que agora aparece a largar banalidades contra um Bannon aparentemente em queda é o mesmo Carvalho que tecla fogosos autos-de-fé contra os corruptos da sua predilecção, todos socialistas e todos pertencendo à elite espúria que tentou tomar de assalto o sistema financeiro.

Como é que o Carvalho consegue habitar na sua própria cabeça? O grau de dissonância cognitiva que ostenta, calhando pagar imposto, dava para um século de superavits.

46 anos depois, Ventura

Ter André Ventura na segunda posição das intenções de voto numa sondagem, a menos de 6 meses das eleições presidenciais, é uma esplendorosa lição a respeito do que 15 anos de uma estratégia de terra queimada, levada a cabo pela direita partidária e seus impérios comunicacionais, fizeram no País. Porque nada de nada do que Ventura usa como técnica retórica é alheio, na essência decadente, ao que se tem visto nos dirigentes políticos, deputados, editores e comentadores que se colaram ao populismo do tempo para arrastarem a competição política para a dimensão moral, e aqui chegados continuaram a reduzir a moral à perseguição e à culpabilidade, e para tal recorreram furiosos e ressabiados à calúnia e às golpadas mediáticas e judiciais. Ventura não só foi um aprendiz desta cultura logo enquanto artista do tribalismo futeboleiro, caiu de pára-quedas no palco da política como uma original estrela em ascensão levada ao colo por Passos Coelho. Foi-lhe dada a chancela do PSD e o patrocínio do seu presidente. Ventura – não apesar mas por causa do que hoje exibe com impante obscenidade – era quem Passos queria em Loures a provar que a completa falta de escrúpulos compensa.

No dia 9 de Março de 2011, num comício na Assembleia da República, Cavaco Silva declarou solenemente: “Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.” No dia 1 de Abril de 2011, respondendo a adolescentes, Passos jurou que não ia cortar subsídios. Noutras ocasiões dessa campanha repetiu o mesmo, tal como os seus tenentes laranjas que garantiam ter as contas todas feitas e que só gorduras seriam cortadas. Com eles no lugar dos diabólicos socráticos seria indolor e ficaríamos lindos. Poucos dias depois de vermos o Pedro ocupar S. Bento, e sem a mínima surpresa, vieram as notícias dos cortes aqui, ali e onde ele conseguisse enfiar a faca. As suas mentiras cínicas e grotescas, dada a inevitabilidade dos cortes violentos para a população e a economia após o chumbo do PEC IV e o afundanço no resgate de emergência, não tiveram qualquer sanção na sociedade e na imprensa. O comentariado direitola mal tocou no assunto, e quando falou foi só para se congratular por se ter feito o que era necessário fazer para vencer o soberbo inimigo. Cavaco atacava o Governo socialista declarando que fazia cortes a mais enquanto o PSD atacava o Governo socialista dizendo que fazia cortes a menos. Caído esse Governo, Cavaco e Passos coordenaram o tempo da campanha e do acordo com a Troika para manter o povinho na cruel ilusão de ir escapar aos fanáticos da austeridade salvífica. Em 2016, nos EUA, Trump não fez outra coisa ao perverter de modo sistemático a veracidade do seu discurso, e até hoje não tem feito coisa outra; o que levou, também em 2016, a que o termo “pós-verdade” fosse escolhido como palavra do ano pela Universidade de Oxford. Destas fórmulas boçais para audiências e eleitorados “deploráveis”, onde reina a iliteracia política e a alienação cívica, Ventura se fez em Portugal o mais desavergonhado executante por estrita lógica de sobrevivência. É que ele está a lutar pela continuação da sua marca mediática, não pelo seu futuro político que é nenhum, daí ter atravessado o Rubicão onde PSD e CDS nunca ousaram sequer molhar o pezinho.

O Twitter de Ventura merece visita diária. Nele está o cardápio do que tem para vender, uma juliana de apelos folclóricos aos instintos irracionalizantes que atravessam os mais frágeis na comunidade: frágeis economicamente, frágeis socialmente, frágeis psicologicamente, frágeis escolarmente, frágeis eticamente. Uma turbamulta que se cola a um palhaço como Ventura não por ver nele a resposta para as suas necessidades enquanto cidadãos mas, precisamente ao contrário, por nem sequer entenderem em que consiste a cidadania; daí estarem disponíveis para fazer coro a qualquer barbaridade que saia da boca e do teclado de alguém que está em transe fáustico. Grande parte nem sequer vota, e parte desta parte nem nunca irá votar, mas entretanto há circo na aldeia. Por isso Ventura mergulha de cabeça nos tabus que a módica decência tinha até agora impedido PSD, CDS e sua legião na imprensa de usar como bandeiras no vale tudo em que transformaram a arena política desde 2007: a cartada racista, a cartada xenófoba, a cartada salazarista, a cartada Fátima/evangélicos, a cartada do Estado policial. Depois de lançadas – e agora que estão normalizadas pelo próprio Rui Rio, num acontecimento que o próprio ainda não foi capaz de perceber nas suas consequências para o regime – Ventura pode simplesmente voltar ao papão da “corrupção e impunidade” para que se inscreva nesse mantra do passismo miliciano e da indústria da calúnia os ovos da serpente que já espalhou e vai continuar a espalhar.

Quem também quer muito, muito e muito acabar com a corrupção e a impunidade é o João Miguel Tavares. No seu texto ontem publicado num jornal de referência conseguiu apanhar mais um corrupto socialista (passe a tautologia). Eis o que se pode ler assinado com o seu nome:

«Vítor Escária é um lobista, um facilitador e angariador de negócios que António Costa acaba de colocar no coração do seu gabinete. O facto de o primeiro-ministro assumir de forma tão aberta essa relação de confiança pessoal é demonstrativo de uma continuidade preocupante com os tenebrosos anos 2005-2011. O facto de esta notícia passar com um encolher de ombros é demonstrativo de que não aprendemos nada com a Operação Marquês, e que o regime continua podre, pervertido e perigoso.»

João Miguel Tavares considera que os deputados fazem leis com a intenção de proteger políticos que cometam crimes de corrupção. Este mesmo senhor também acha que os magistrados que cometem crimes de violação do segredo de Justiça estão a fazer justiça pois é a única forma que encontram para furar as leis corruptas dos políticos. E aqui nesta citação podemos lê-lo a dizer que um processo judicial onde ainda não há qualquer sentença, e que está cheio de abusos e violência do Estado e dos poderes fácticos sobre os arguidos, serve como prova transitada em julgado para uma condenação política. Nessa condenação considera que António Costa, actual primeiro-ministro, é um governante podre, pervertido e perigoso. Visto que João Miguel Tavares, única e exclusivamente por ser um caluniador profissional, foi escolhido como um dos portugueses mais meritórios na História pátria pelo actual Presidente da República, fica evidente como o fenómeno que Ventura está a protagonizar se trata de uma evolução na continuidade. Ventura é a estátua viva da abjecção a que a direita portuguesa chegou 46 anos depois do 25 de Abril.

Volta, Menezes, estás perdoado

18 dias. Rui Rio passou mais de duas semanas a ver em silêncio o tumulto que a sua inconsciente (porque lhe saiu no momento, sem pensamento prévio nem prudência na ocasião) legitimação do Chega como potencial aliado do PSD causou em quem tenha uma costela liberal ou um mero pingo de social-democracia a correr nas veias. 18 dias. Até que, finalmente, tomou uma posição de comando na crise em curso, mostrou quem manda na barraca. E foi para o Twitter. Onde colocou em exposição o que factualmente tinha dito há 18 dias. 18 dias sem qualquer justificação, explicação ou interpretação só para acabar a provar ao mais matarruano dos cépticos que o actual presidente do PSD é bem capaz de ser o pior líder desde a fundação do partido.

Todos os vitupérios que desabem sobre esta vergonhosa imitação de estadista não serão de mais, bem pelo contrário. A avaliar pelo que entretanto se soube do apoio de dirigentes avulsos do PSD a uma parceria com Ventura, a situação revela-se extremamente grave para a salubridade do regime. Daí merecer escândalo e coragem o actual momento de um partido que tem sido pilar da democracia e do desenvolvimento do País (vamos fazer o favor de esquecer o Cavaquistão, a traição de Barroso, Santana e Passos). No entanto, porém, todavia, a última entrevista de Rui Rio à RTP tem outros momentos que superam em ilustração de incompetência a cena desonrosa sobre o Chega. Momentos que jamais alguém irá comentar dado que em Portugal não existe imprensa. Um deles começa no minuto 12 mais 16 segundos. Vítor Gonçalves lança o tema: “Na sua opinião, como é que o Governo tem estado na resposta à epidemia e às consequências da pandemia?

Saltemos para o minuto 16 mais 34 segundos. É a altura em que o mesmo Vítor Gonçalves muda de assunto. Ficámos, contas exactas, com 4 minutos e 18 segundos gastos a transmitir ao público a avaliação do líder da oposição ao Governo adentro da actual crise de saúde, a qual é também uma crise económica e social sem precedentes e de consequências imprevisíveis. Ingénuos e distraídos que não tenham visto o segmento acreditarão em duas balelas: (i) que 4 minutos e tal de televisão (10% do tempo útil da entrevista) dá para dizer das quentes e boas; (ii) que um candidato a primeiro-ministro, a atravessar um período que ficará na História mundial e que a vai alterar, terá algo de muito importante para dizer, seja contra ou a favor, seja por isto ou por aquilo, seja lá o que for. O que nos saiu na rifa foi do reino do burlesco, os 4 minutos consistem num inacreditável festival de inanidades em que Rio conseguiu trocar os olhinhos a um jornalista que, não sendo a mais luminosa cabeça na profissão, esforçou-se realmente na procura de algo parecido com uma resposta, nem que fosse uma migalha qualquer mas concreta saída da boca do entrevistado a respeito da sua avaliação do Governo. O que mais se aproximou dessa meta está aqui, precisamente as suas últimas palavras acerca da ponderosa questão:

Uma coisa é o início… e outra coisa é depois a consolidação… são coisas diferentes…

Eruditos e clientes de táxis de imediato reconhecerão estarmos perante um naco de sapiência popular, o famoso axioma “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” que já permitiu a conclusão pacífica de milhentas discussões. Pelo que vou aproveitar o balanço e fazer uma pequena adaptação ao poderoso argumento – uma coisa é um líder à altura da responsabilidade de ser candidato a primeiro-ministro, outra coisa é o Rui Rio.

A ministra é uma bruxa, quer o mal dos velhinhos, noticiou um jornal de referência

Para que serve o pseudo-jornalismo? Sabemos para que serve o jornalismo: para cumprir este ideal. Quando tal acontece, quando a imprensa assume princípios éticos, a democracia fica reforçada porque aumenta o conhecimento sobre a comunidade, melhora a inteligência colectiva, cresce a liberdade de cada um. Quando não acontece, os órgãos de comunicação social dedicam-se à procura do lucro através do sensacionalismo e/ou pelo serviço às agendas políticas e sociais dos accionistas ou tutela. O modelo de negócio continua a depender da deontologia mas agora para a perverter e explorar. A ética passa a ser usada como capa manipuladora e covil inexpugnável. A liberdade da imprensa transforma-se na carta branca para violentar o contrato de confiança entre quem ostenta a carteira de jornalista e quem consome os produtos do jornalismo. Há ganhos para alguns nesta deturpação que expulsa a isenção, só que passam a ser proveitos sectários numa lógica de terra queimada. Quanto pior o dano à comunidade, melhor para o pseudo-jornalismo.

Imaginemos a seguinte experiência mental. Um instituto universitário, ou um milionário patusco, mandava uma equipa para as ruas de Portugal a propor um desafio aos incautos que apanhassem pela frente: se conseguissem responder espontaneamente – fundamentando a resposta – à pergunta “Quem é o melhor jornalista em Portugal, na actualidade?” habilitavam-se a ganhar 1 milhão de euros após avaliação das respostas por um júri de autoridades na matéria. Mesmo que esta experiência nunca venha a ser feita, e não vai, é fácil calcular o grau de dificuldade, primeiro, e o nível de ignorância, depois, nas respostas recolhidas. Pura e simplesmente, ninguém perde uma caloria com essa questão, não saberíamos sequer que critérios usar para começo da avaliação. Ora, tal indiferença é não só significativa como está prenhe de consequências. Significa que a crise do jornalismo é económica, pela redução drástica das receitas, por um lado, e diminuição das audiências pela fragmentação mediática, pelo outro, mas que é igualmente uma crise política. O papel de “quarto poder”, pese toda a fragilidade conceptual desta fórmula, não passa agora de um ópio para os egos hipertrofiados dos que ainda continuam a flanar no topo da pirâmide editorial com os bolsos cheios. Quanto às consequências, é um caso onde elas são tantas quantas aquelas que a vista alcançar. Pelo que os interessados no assunto devem começar por abrir a pestana.

A problemática adquire a sua desvairada ambiguidade logo a partir do nº 1 do código deontológico do jornalista, onde se escreve “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.“. Os sublinhados são meus, precisamente para se focar a atenção no que é fonte inesgotável de polémica. Quem afere da “honestidade” do trabalho jornalístico? Ou de acordo com que metodologia? Como distinguir entre o que é “notícia” e o que é “opinião” se até o mais objectivo retrato por palavras, ou em captação mecânica da luz, corresponde sempre a um inevitável e incontornável ponto de vista, um entre ilimitados? Por exemplo, numa entrevista só se fazem as perguntas que se querem fazer, e como se querem fazer – acaso tais opções estão imunes à “opinião” do jornalista? O mesmo para qualquer decisão editorial que dê destaque a certas notícias levando outras a não o ter ou ter menos – acaso tais opções estão imunes à “opinião” do editor? Idem para a construção dos títulos e chamadas, para o perfil político dos profissionais na redacção e para a tipologia política dos colaboradores na secção de opinião, para tudo e mais alguma coisa que crie a paisagem ideológica e programática do meio de comunicação social em causa. Pelo que o mais avisado será recorrer à sabedoria de Potter Stewart, o tal juiz americano que em 1964 definiu assim a pornografia: “I know it when I see it

É exactamente o que se passa nesta coisa – Expresso repudia a acusação de “descontextualização”. Oiça aqui o áudio da entrevista à ministra Ana Mendes Godinho – onde a desonestidade intelectual deste “jornal de referência” (ahahaha, minha nossa senhora do Caravaggio) é tanta que nos permite abdicar do esforço para chegar a uma sua definição. Basta começar a ler e de imediato damos por nós num tugúrio do mais antigo militante do PSD a assistir a uma rábula de pornojornalismo que, reconheço e agradeço, tem o involuntário mérito de chegar a ser hilariante tamanha a confiança que exibem de só estarem a lidar com cidadãos acéfalos.