Começa a semana com isto

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Conta-se que Platão tinha à entrada da Academia o seguinte repto: “Não entre ninguém sem saber geometria.” Aristóteles, o seu melhor aluno, até para a ética utilizou a geometria (a justiça é geométrica ou não é justa, intemporal noção). E é por causa da geometria que me parece o centro a melhor posição política no espectro ideológico tradicional. É ao centro que se é mais atacado, pois se leva porrada por igual dos sectários, dos fanáticos e dos maniqueístas da direita e da esquerda. E é ao centro que a complexidade da análise e da decisão é maior, posto que não existe nenhum radicalismo a servir de encosto moral, nem existe nenhum viés de confirmação a servir de palas à inteligência.

Jonathan Haidt é um psicólogo social que se tem ocupado de questões morais e políticas. Um tema que poderá resumir o cerne da sua investigação, e que está directamente ligado com as convulsões identitárias ocorridas nas universidades norte-americanas nos últimos anos, é o da polarização. Nos seus estudos, obras publicadas e intervenções, este cientista ajuda-nos a decifrar o que vemos nas arenas sociais – aplicando-se os seus ensinamentos na perfeição ao que aconteceu, e está a acontecer, em Portugal a propósito da problemática do racismo.

Nesta palestra há um bónus final, o de vermos e ouvirmos Van Jones a defender o direito ao crescimento intelectual, e do carácter, sem limitações à liberdade de dissensão.

20 thoughts on “Começa a semana com isto”

  1. Eu comecei a semana com um vídeo do primeiro-ministro a elogiar os médicos.

    Peço desculpa. Não invocar o nome do Querido Líder em vão

  2. “a justiça é geométrica ou não é justa, intemporal noção”

    O’ caramelo, para Aristoteles, a justiça ou é geométrica (distributiva), ou é aritmética (comutativa). Mas enfim, o que conta é encheres a boca com citações, o que elas possam significar, é de somenos…

    Boas

  3. É a minha sugestão video como se deve começar a semana, algum problema?
    A analise de Haidt não tem nada de novo, a polarização nas Universidades também não, basta olhar para 1968 nos EUA, em Franca e até por cá mais tarde em 70. As lutas sociais passam sempre pelas universidades. Os protestos estudantis foram responsáveis e percursores de muitas reformas sociais, de genero, sexuais, anti-guerra etc… Onde estavam os moderados nessa altura, a apoiar o Status Quo (ou os Deep Purple já não me lembro bem, o ácido era mau) claro. Muito do que damos hoje por quase adquirido surgiu de vários radicalismos. Os moderados nunca mudam nada, o centro não tem ideologia, só pragmatismo. Definir a polarização como a luta entre dois radicalismos é uma falsa equivalência. Se o racismo é uma coisa má lutar contra ele só pode ser uma coisa boa não há equivalência nenhuma nem nenhum radicalismo na luta anti-racista ou anti-fascista.

  4. De facto, se não és capaz de entender um comentario tão simples, é natural que não consigas perceber Aristoteles…

    Boas

  5. Joe Strummer, agradeço a explicação.

    Acho que tens razão mas não creio que tenhas a razão toda. Tens razão quando lembras a evidência de terem vindo de variegados “radicalismos” os mais díspares benefícios para o que hoje cultivamos como a “civilização”, e tens razão ao reclamar como evidente que lutar contra o racismo não é em caso algum equivalente à prática do racismo no plano das intenções.

    Porém, e começando pelo fim, estou certo de que tu igualmente não aceitarias que a luta contra o racismo passasse por linchamentos, ou julgamentos sumários, ou ostracismo completo, e um longo etc. de violações do que consideramos “direitos humanos” e do que consagramos na constituição de um Estado de direito democrático. A acertar nesta fezada a teu respeito, tal implica que estarás disponível para considerar certas práticas “antiracistas” como perniciosas, por isto ou por aquilo, sem que fiquemos bloqueados pelo receio das falsas equivalências. É precisamente o âmbito dos estudos do Jonathan Haidt.

    Também não te dou razão nesse enfastiado resumo que ignora do que o Haidt está a falar e onde cais na esparrela de dares mais atenção ao que eu escrevi do que ao senhor em causa. Se perderes uns minutos com este vídeo acima (há muitos outros dele, já para não falar do resto que tecla), verás que a temática da polarização neste autor está muito circunscrita à realidade norte-americana, e que ele investigou a polarização no Congresso ao longo do século XX. Sim, óbvio, as convulsões sociais dos anos 60 implicaram “radicalismos” mas se fores por aí nesse caminho de generalizações rapidamente darás por ti mergulhado nos conflitos do começo do século XX e e todo o século XIX, e daí saltas para os radicalismos do século XVII e XVIII que nos deram tão boas e farfalhudas revoluções, e logo depois chegas a Roma por não quereres perder tempo com radicais medievos, donde passarás para Atenas, e continuarás alegremente a percorrer a História Universal até onde possas encontrar documentos que provem ter existido um qualquer conflito entre duas ou mais partes.

    O que nos leva para os moderados. Afirmas que os “moderados”, nos idos de 60 , estavam a apoiar o poder do dia. Será? Se sim, como foi que o apoiaram? O mais provável é estares em modo “radical”, situação em que os mornos são vomitados pela ideologia. Em modo “radical” é tudo muito mais fixe, vai sem discussão, porque a “trip” utópica é eterna enquanto dura. Não existem moderados para o vero radical, só os “nossos” contra o resto do mundo. Contudo, no entretanto, o tal mundo vai mudando, e inté parece que o pragmatismo acaba por ter/ser uma indelével ideologia.

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    joão viegas, fico com a impressão de que te baldaste a algumas aulas do mestre Aristóteles.

  6. Exactamente o teu problema, contentares-te com impressões apenas, e achares que basta ler pela rama, “não sei nada mas desconfio de muitas coisas”. E olha que ler Aristoteles até te fazia bem, não so as éticas, mas os tratados que versam sobre logica. Devias experimentar.

    Boas

  7. “Porém, e começando pelo fim, estou certo de que tu igualmente não aceitarias que a luta contra o racismo passasse por linchamentos, ou julgamentos sumários, ou ostracismo completo, e um longo etc. de violações do que consideramos “direitos humanos” e do que consagramos na constituição de um Estado de direito democrático.”
    Mas o problema é esse ou o contrário? o abuso e morte de pessoas por parte das forças policiais e do estado. O que fazes é equivaler uma realidade com uma eventualidade? sério? Um ataque descarado a inocentes com uma provável defesa musculada mas nunca proporcional, dos seus direitos?

    Mas claro, a porosidade entre Instituições é um facto. A apresentação de certas polaridades como um fenómeno tem que se ver bem as causas, relações e correlações. Não conheço Haider, não posso ignorar o que não conheço, mas não vou perder muito tempo com ele, não por sobranceria mas por prioridades de leitura.

    É fixe ser radical por ser anti-racista. No 25 de Abril era mainstream, bah! Fuck the revolution!

  8. …. Desta vossa discussão, J. S. e V….tudo ficou resumido e bem esclarecido – para mim – nesta frase que repito por me parecer o que está em causa:
    – “…. o abuso e morte de pessoas por parte das forças policiais e do estado. O que fazes é equivaler uma realidade com uma eventualidade? sério? Um ataque descarado a inocentes com uma provável defesa musculada mas nunca proporcional, dos seus direitos?”
    …Com excessos destes, como é que a população negra se relaciona com as forças policiais que são supostas defender todos os cidadãos…??

  9. M:G:P:MENDES, junto-me a ti nesse sentimento que realças.
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    Joe Strummer, o Haidt é um psicólogo social. Se bem me lembro, a tua formação é em sociologia (corrige-me se estiver enganado). Ignoro se tens ou tiveste actividade docente, ou se fizeste ou fazes investigação, e tudo o mais a teu respeito. Isto para admitir que, apesar da eventual proximidade disciplinar, poderás não ter interesse em gastar o teu rico tempo nessas águas. Seja como for, já que frequentas as catacumbas de um blogue irrelevante perdido no cu da Internet, diria que não será grande o dano se perderes 15 minutos com o vídeo acima só para descobrires se o fulano diz alguma coisa de jeito ou se, como antecipas, ofende a tua inteligência.

    Quanto à temática das falsas equivalências, a que estás agarrado por túnel cognitivo, já me pronunciei de forma clara nesta conversa. Passo então para o desenho. Imaginemos dois grupos de manifestantes no Terreiro do Paço. Um grita “Viva o racismo” e o outro “Morte ao racismo”. Há equivalência? Só no que não for significativo para as distinções a fazer, tal como dizer que o carvão e o diamante são ambos compostos por átomos de carbono não é só por si significativo para explicarmos as suas diferenças. O grupo apoiante do racismo está a defender a violação dos direitos humanos com base em aberrações morais, cognitivas ou intelectuais, ou tudo ao mesmo tempo. O grupo que protesta contra o racismo está a defender os direitos humanos e um modelo de vida em sociedade onde os actos de cariz racista são interditos pela moral, pelos valores constitucionais e pelos códigos legais. Como é que pode haver equivalência?

    A permaneceres nesse viés, impossibilitas que se discuta o fenómeno do aproveitamento e manipulação do inevitável racismo antropológico e o erro de se querer dialogar com esses manipuladores e suas vítimas a partir das concepções do racismo sistémico e derivados.

  10. Valupi, a equivalência é a propria comparação que fazes, que só faz sentido num terreno deslizante . O “centro” é, na realidade, defendido pelos manifestantes anti racistas porque é o que está constituído, no fundo substituem-se ao estado.

    Quanto ao resto, o assunto está mais que discutido e mais que estudado, não vais persuadir ninguém e a clarificação tem que se dar, a necessária sintese. Bye.

  11. Joe Strummer, não entendi o que disseste. Não sei a que comparação te referes, nem qual é o deslize em causa, nem qual a relação entre o centro e os manifestantes (quais? onde? quando?).

    Mas se é como dizes, que o assunto está mais que discutido e mais que estudado, ’tá-se bem, então.

  12. Quando se elogia por estar ao “centro”, Valupi confunde equanimidade com equidistância. Acho impossível alguém afirmar que “é tão de esquerda como é de direita” sem parecer um bife de tofu: sabe a peixe ou carne, dependendo do molho em que o mergulharem.

  13. e tofu s/ molho, sabe a quê?
    só malta dependente de molhos.
    ainda vamos ter andré bechamel em cama de facho caramelizado com puré d’algas e bivalves.

  14. Francisco, explica-me melhor essa minha confusão entre equanimidade e equidistância, please.

    Quanto à suposta afirmação de se ser tão de esquerda como de direita, diria que és tu quem parece confundido.

  15. A comparação e/ou equivalência começa com a tua cenarização do conflito: dois grupos a vender o seu peixe, tendo em vista uma eventual redenção, a conversão de um deles.
    Como o que é bom ou mau é um julgamento feito à posteriori por quem vê, o que fazes é equivaler os dois grupos, com a óbvia naturalização dos argumentos racistas.
    O terreno é onde se dá o conflito, neste caso a Constituição. A Constituição é que é o centro no ordenamento jurídico português, e só uma suposta neutralidade da Constituição nesse aspecto poderia dar sentido a esse simulacro, que não passa afinal de um sucedâneo do debate polarizador dos mass media ou do guião do folhetim popular das séries: um exercício imaginario de puro entretenimento.
    Quem passa a maior parte do tempo a zurzir nos media e mergulhado nos comentaristas é inevitável que por osmose absorva a sua análise deformativa ou como dizia o grande alemão Friederich N. “Quem enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti.” ou adaptando Camões ” transforma-se o “odiador” na coisa “odiada””. Bye, bye.

  16. Joe Strummer, está melhor mas continua curto. No teu comentário do dia 26, 15:13 , escreveste “Definir a polarização como a luta entre dois radicalismos é uma falsa equivalência.” A partir deste axioma, da tua lavra, passaste apenas a defender o viés inicial. É que definir a polarização como a luta entre dois radicalismos pode, ou não, ser uma falsa equivalência. Depende, né?

    Se estivermos num Sporting-Benfica não é falsa a equivalência, é verdadinha da Silva. Dois grupos de adeptos equivalem-se na perfeição no fanatismo radical e antagónico com que defendem o seu clube. Mas se estivermos perante um grupo que promove, ou mesmo comete, crimes, e outro que surge como seu antagonista sem promover nem cometer crimes, não há equivalência por causa do critério fundador, a Constituição ou o contrato social. O exemplo pode ser esticado para a ambiguidade máxima, aquela onde o mesmo grupo, por causa das mesmas práticas, pode ser carimbado como terrorismo ou resistência.

    Se tiveres pachorra, desenvolve esta passagem cujo sentido me está a escapar:

    “Como o que é bom ou mau é um julgamento feito à posteriori por quem vê, o que fazes é equivaler os dois grupos, com a óbvia naturalização dos argumentos racistas.”

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