
‘I was found as a baby wrapped in my mum’s coat – but who am I?’
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Arquivo da Categoria: Valupi
Revolution through evolution
Life in lockdown: health-wise, it’s not as bad as you think
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Pets linked to maintaining better mental health and reducing loneliness during lockdown, new research shows
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Feeding indoor cats just once a day could improve health
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Physical and cognitive function have improved meaningfully in 30 years
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A computer predicts your thoughts, creating images based on them
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“Digital fatigue is painfully real and growing, and the effects of conducting our business lives in two dimensions — when we relied on three in the past — are palpable,” says U of R Professor Allison Fraiberg
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New study finds Biden, Trump both likely to be ‘Super-Agers’
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Aprender a ser humilde com Paulo Pedroso
Ana Gomes convidou Paulo Pedroso para fazer parte da sua campanha presidencial e ele aceitou. Entendo as razões do convite, e aplaudo-o, não entendo as da ligação do Paulo a uma candidata que representa as piores pulsões justiceiras de que o próprio é uma vítima já inscrita na História.
A minha mãe, a poucos meses dos 86 invernos, disse-me “Já tinha decidido que nunca mais iria votar, fosse para o que fosse, mas agora com a Ana Gomes a concorrer quero ir votar nela.” Esta cidadã, com a 4ª classe tirada numa aldeia durante o salazarismo e uma vida de serviço à família, não adquiriu competências e conhecimentos para teorizar a sua motivação. Mas ela, sem carência de inteligir a afectividade motora, está a reagir à marca da personalidade pública. Ana Gomes encena ter pureza moral, integridade inviolável, coragem heróica, fervor anticorrupção. As suas prestações mediáticas são invariavelmente exercícios de pathos em que repete os clichés dos populistas que vingaram como artistas da política-espectáculo num longo processo que remonta aos anos 80 e explodiu com a crise de 2008 e suas devastadoras consequências económicas. Basta um exemplo entre, literalmente, milhares: Ana Gomes diz que se candidata às presidenciais para limpar o país
O País está sujo, emporcalhado, fede, pois anda tudo a roubar menos a Ana Gomes, claro. E não só anda tudo a roubar como apenas se rouba porque eles, os políticos, deixam que se roube. Donde, basta colocar no lugar dos políticos quem odeie os políticos-ladrões para acabar a roubalheira; exactamente como promete, garante e afiança esta garbosa senhora disponível para passar com a esfregona nas fuças dos corruptos, esses porcalhões. É a mesma cassete do esgoto a céu aberto, do Pacheco, do presidente do 10 de Junho de 2019, da claque da Joana e do Calex, da comissão para o regresso do Passos, e ainda do tal Ventura que apenas tem de acelerar na autoestrada da pulhice que a indústria da calúnia foi construindo desde 2004 por causa de um certo Sócrates.
Não há quem se lembre de algo aproveitável acerca da corrupção saído da boca ou do teclado de Ana Gomes por uma simples e incontornável evidência: ela não tem dessa fruta para vender. Tal como os seus restantes colegas caluniadores profissionais, não estudou o assunto e tem alergia aos números. Aliás, quem pretenda singrar nesta carreira tão bem remunerada tem de ter o maior cuidado com as fontes e dados objectivos acerca da corrupção em Portugal. Há que fugir disso como o Diabo da cruz, a realidade só atrapalha e confunde o público. O que se pretende são títulos garrafais, escutas escolhidas a dedo e montadas à maneira, fotografias vexantes e a beleza daqueles videozinhos em que vemos a bandidagem a gaguejar ou a exaltar-se com os santos dos procuradores e suas convicções graníticas. A energia que Ana Gomes gasta a insinuar, ou declarar sem rebuço, que fulano não presta e beltrano é ladrão flui sem obstáculos e vai sempre em crescendo porque ela também tratou há muito de varrer os princípios da presunção de inocência e do direito a um processo justo para debaixo do tapete. Um outro tipo de limpeza, agora dessa tralha toda pela qual tantos deram a vida ao longo de séculos e séculos, portanto.
Nos últimos anos, no quase anonimato dos seus blogues, Pedroso tem sido capaz de fazer o que não vi ser feito por mais ninguém com a sua acutilância e autoridade – a denúncia da sistémica disfunção das magistraturas do Ministério Público e judicial de que resulta a violação do Estado de direito democrático pelo pilar do regime a quem é dado o poder de fazer justiça. Tópico que suscita indiferença a Ana Gomes, ocupada como está com os malvados socráticos e contas desse rosário. Os jornalistas censuram passivamente as palavras de Pedroso porque o sistema partidário, os Presidentes da República e os poderes fácticos censuram activamente o seu pensamento. O regime convive bem, e até mais do que bem, com o festival de se acusar um ex-primeiro-ministro de corrupção. Já não convive tão bem com o aborrecimento de se acusar um superbanqueiro de corrupção porque, lá está, o coitado nem sequer é político e foi generoso com tanta gente. Agora, pensar em questionar o mandato da Santa Joana ou em beliscar os superpoderes do superjuiz e seus clones, isso jamais. O episódio em que Costa chumbou a candidatura de Pedroso para o reingresso activo nas fileiras socialistas é uma lição paradigmática em que o cinismo de um bom líder convencional espezinha sem hesitar a lhaneza e parrésia de quem sofreu a desgraça da perda do bom nome. Razões de Estado, obviamente; estado da razão, consequentemente.
Por tudo isto, não entendo Paulo Pedroso. Mas compreendo-o quando se quer cumprir na sua liberdade. E então, para sempre agradecido e finalmente humilde, desejo-lhe boa sorte no combate implacável contra o absurdo.
“Isto também tem de ter um pouco de boa disposição”
Claro que o RAP não me quer convidar, sabe que levava a maior coça da vida dele. No dia a seguir ou aderia ao CHEGA ou desaparecia para sempre dos ecrãs. Nada de novo!https://t.co/Wzt9yBJNsK
— André Ventura (@AndreCVentura) September 22, 2020
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O Sr. Araújo tem nojo ou medo do Sr. Ventura? É o dilema com que ficamos depois desta entrevista: Por que é que Ricardo Araújo Pereira não convida André Ventura? No segmento disponível, o famoso humorista nada explica, preferindo voltar a chamar maricas ao deputado. Na resposta deste, acima em exposição, testemunhamos a regressão do igualmente famoso líder do movimento anti-anti-racismo para os 10 anos de idade; o que corresponde, com rigor estatístico, à média da idade mental da audiência e eleitorado que persegue.
Ventura tem tentado com insistência aparecer na pantalha ao lado do RAP, por motivos que não gastaria meia caloria a elencar e que são exactamente os mesmos que levam João Miguel Tavares a publicitar os almoços e visitas caseiras com a estrela fedorenta cobiçada. Acontece que a razão está do seu lado: o RAP tem, realmente, medo de levar a maior coça da vida dele. Porque estamos perante dois grandes cómicos, dois monstros da bazófia, e o espoliado do BES pressente que a força está com o rival.
Vejamos, o nosso Ricardo faz humor a partir de crimes de violação do segredo de justiça, aproveitando para os legitimar e expandir no dano potencial ao celebrar a exploração mediática da privacidade, e até da intimidade fragilizada, e espalhando e reforçando calúnias sobre os alvos. Esta é uma actividade a que se entrega na imprensa escrita e na TV com afinco e proveitos invejáveis. E o nosso André faz humor a partir da violação dos direitos humanos, permitindo-se gozar com qualquer valor e instituição que tenha relação com o cânon da tradição greco-romana, cristã, iluminista e liberal que sustenta aquilo a que chamamos civilização ideal ou ideal cívico. Esta é uma actividade a que se entrega com entusiasmo no Parlamento e na inerente projecção pública. Pois bem, qual deles tem maior probabilidade de receber umas festinhas no lombo dadas pelo líder da única superpotência mundial?… Estas merdas pesam na cachimónia do Pereira que ainda não tem dinheiro para comprar um porta-aviões.
Que RAP e André Ventura são competidores no mesmo campeonato foi atestado recentemente por outra grande figura da comédia, de seu nome Rui Rio. Ele actua em vários palcos, com um reportório por vezes original e, noutras vezes, originalíssimo. No final de Julho, realizou o seu mais hilariante espectáculo até à data, ao declarar numa entrevista que admite alianças com o Chega caso essa agremiação de mutiladores “evolua para uma posição mais moderada“. A gargalhada foi geral, foi homérica, e continua. Desde aí, o Ventura nunca mais deixou de agradecer a Rio o estatuto de parceiro desejado recorrendo a um estilo chunga de fazer corar pedreiros e estivadores. Ora, o actual presidente do PSD, indiferente aos piropos do seu futuro ministro da ciganada corrupta e mostrando que já é um especialista em humor twitteiro de qualidade mundial, ofereceu-nos o seu entendimento do que foi a convenção do Chega em Évora:
Pelos vistos, parece que a coisa esteve animada em Évora. Ainda bem. Isto também tem de ter um pouco de boa disposição, senão é uma chatice. 😺 https://t.co/P168cVbvAs
— Rui Rio (@RuiRioPSD) September 20, 2020
Castração química e física, prisão perpétua, pena de morte, ilegalização de partidos marxistas, limitação de cargos governativos a quem tiver nacionalidade portuguesa originária, desprezo pelas minorias, abolição de direitos individuais, imposição de um estado securitário e destruição de ovários, eis alguns dos tópicos que fizeram parte substantiva das conversas dos delegados e dirigentes presentes na convenção do Chega em 2020. Rio acompanhou os trabalhos à distância como bravo líder da oposição e fatal próximo primeiro-ministro que é. Dessa torre de vigia da República, do regime e da comunidade, analisou, interpretou, antecipou, ponderou, considerou, matutou e, no momento exacto, conseguiu decidir-se: ia mesmo terminar o tweet com o emoji, giríssimo, de um gatinho a rir.
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Notícias do fim da impunidade
Nas muralhas da cidade
Magistrados, esses tontos fofinhos
Terça-feira, 22 de Setembro, final de tarde. Olho à volta e a cidade parece-me igual, inteira. Ninguém diria que, na semana passada, o comentariado decretou o estado de calamidade na Grei porque Costa e o Benfica, o Benfica e Costa. Fico sempre desasado quando vejo figuras que admiro pelas melhores razões a deixarem-se cair nas piores emoções. Fernanda Câncio e Pedro Marques Lopes alinharam no coro da chachada, tendo assinado exercícios retóricos sem qualquer utilidade, no caso do Pedro, e a divergir para outras problemáticas relevantes mas sem relação com o episódio, no caso da Fernanda – algo raríssimo neles. Vou atribuir à pulsão catártica que o tempo alimenta a opção pelo teatro das ofensas à honra (conceito convenientemente subjectivista e inescrutável) e a imitação em manada do espancamento do primeiro-ministro (em grande parte gerado pela rivalidade clubística de apoiantes do FCP e por apoiantes da impoluta Ana Gomes, os quais aproveitaram para juntar o inútil ao desagradável).
Entre os profissionais da indústria da calúnia que molharam a sopa, e depois do Pacheco já por cá ilustrado, trago agora Paulo Baldaia e o seu Enxotado como cão com pulgas. No último parágrafo, esta inteligência deixa o seguinte:
«Aliás, por perceber está igualmente a convicção que o primeiro-ministro tem da total inocência de Filipe Vieira em todos os processos em que está envolvido. Que é feito do despacho "à justiça o que é da justiça"? Não chega a presunção de inocência que é devida a toda a gente que não tenha sentenças transitadas em julgado. Ao encabeçar a comissão de honra, António Costa está a dizer-nos a todos que confia inteiramente na inocência do presidente do seu clube e, desta forma, pressiona a justiça para ilibar Filipe Vieira. [...]»
Obviamente, não há nada de errado em considerar um erro a participação do chefe do Governo na comissão de honra de Vieira em 2020. Nem errado me parece cobrir esse erro com uma montanha de adjectivos castigadores. É lá com eles e com quem lhes paga. O que assinalo são apenas dois pormenores que expõem a decadência da classe jornalística, uma decadência concomitante e congénere da decadência da direita portuguesa – a qual tem dominado a comunicação social portuguesa nos últimos 35 anos: a obsessão báquica com Sócrates e a promoção da anomia.
Comparar a situação de Vieira com a de Sócrates, papagueando sem parar o “à justiça o que é da justiça” como se aqui tivesse sentido equivalente, não é apenas ser estúpido, é ainda querer ser calhorda. Quando Sócrates foi detido e imediatamente preso, acção planeada para coincidir com a consagração de Costa como novo secretário-geral do PS e o início de um ano eleitoral de legislativas, Costa foi colocado numa situação inaudita na história da democracia portuguesa – e em quase todas as outras, trata-se de um acontecimento excepcional em qualquer parte do Mundo. Por um lado, não podia saber o que a investigação a Sócrates iria revelar nem por quanto tempo o processo estaria em aberto a servir de arma de arremesso. Por outro lado, não podia cair na armadilha de se deixar afundar na judicialização da política e politização da Justiça, precisamente o terreno donde os adversários lançavam os seus devastadores ataques. O caminho seguido de equilíbrio entre a mínima lealdade partidária (recorde-se, no contexto, a entrega de Soares àquela que foi a sua última causa política, a denúncia da Operação Marquês) e o escrupuloso – e repetido à exaustão – respeito pela separação de poderes talvez fosse o único possível tendo como critério o interesse nacional. Precisamos da passagem de muitos anos e de memórias ainda por escrever para ter alguma ideia mais sólida do que apenas um palpite absolutamente ignorante (que é só o que tenho).
Quanto à promoção da anomia, ela está no desplante com que se admite a volubilidade – portanto, corrupção – dos procuradores e juízes. Se a Justiça se deixa pressionar por uma comissão de honra de um clube de futebol, como declara Paulo Baldaia escrevendo num “jornal de referência”, a pergunta seguinte é: haverá alguém em Portugal que ainda não tenha pressionado a Justiça, escapando impune e obtendo o que pretendia? A única forma de introduzir responsabilização nesta dissoluta forma de intervenção no espaço público seria agora obrigar o fulano a demonstrar a tese. Como é que, exactamente, a notícia de um primeiro-ministro ser apoiante de um candidato numas eleições para um clube desportivo vai inibir os magistrados de cumprirem a lei? Eu pagava, e talvez mais do que os 10 euros que tenho no bolso, para assistir ao chorrilho de disparates que o espectáculo iria proporcionar.
E se a sua defesa se limitasse ao “trata-se de uma opinião, não tenha de justificá-la, viva a liberdade” não daria o meu tempo por mal empregue. É que a decadência do jornalismo também mora aí, na hipocrisia e ocultação do que motiva os jornalistas no seu papel de editorialistas – função que muitos confundem com uma câmara baixíssima onde se imaginam membros de um órgão soberano. Este Baldaia foi o co-autor (primeira responsabilidade para Anselmo Crespo e Paulo Tavares, última para o então director do jornal) de um título para uma entrevista a Azeredo Lopes que é uma invenção, para começo da história, e que intencionava ser uma incendiária deturpação das afirmações do entrevistado, como alcançou ser. A fazermos fé nos seus apregoados dotes telepáticos e proféticos, então, é impossível não ir dar ao corolário: Carlos Alexandre no processo de Tancos deixou-se pressionar pela pulhice que o Baldaia mandou publicar com a finalidade de pressionar a Justiça. Vou até mais longe, pedindo licença ao preclaro autor do raciocínio para o levar às últimas consequências: quem não se deixa pressionar não vai para juiz.
Começa a semana com isto
[para ler melhor as legendas, ver o vídeo em ecrã inteiro ou na página do YouTube]
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Desconfio que Jeannie Suk Gersen é um nome em que não se tropeça com facilidade nos recantos de Portugal. Desconfio também que quem calhe assistir a este vídeo não faça a menor ideia da originalidade da sua biografia e percurso intelectual.
Nesta palestra, e daí a ter escolhido, fala de diversidade, racismo e feminismo de uma forma que não é feminina nem masculina, antes tradicionalmente académica – o que significa que é, simultaneamente, perfeitamente adequada ao tempo e ao espaço onde se efectiva. O espaço é uma sala de aula na prestigiadíssima Harvard Law School, o tempo algures no século XXI.
O tema principal do seu discurso e interacção com os alunos consiste na apologia do “método socrático”. Para quem goste de professores, e adore esses momentos em que são melhores do que eles próprios ao se apresentarem à nossa frente com os pés no chão e os olhos apontados ao mais alto, esta lição sobre uma prática de crescimento pessoal cada vez mais impopular é de uma convicção admirável.
E o que é o “método socrático”, afinal? É a coragem de pensar pela própria cabeça. E não ter vergonha que se oiça o resultado.
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New study explores if flirting is real and shows it can work
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The key to happiness: Friends or family?
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People react better to both negative and positive events with more sleep
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Epidemics and pandemics can exacerbate xenophobia, bigotry
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The unintended consequence of becoming empathetic
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Like humans, chimpanzees can suffer for life if orphaned before adulthood
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Governments must ‘change the way the economy works’ after Covid-19 pandemic, says OECD-commissioned report
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A velhice do caluniador eterno
O exercício que vou fazer requer, para a sua plena fruição, a leitura, nem que seja na diagonal, da entrada na Wikipédia intitulada José Pacheco Pereira.
Cá vai alho:
[em epígrafe, Na sombra do Pacheco]
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Sou eu, Pacheco, um representante e apaixonado colaborador do Cavaquistão, quem o garante. Mais do que nunca, agora que existem leis e instrumentos de fiscalização e investigação da corrupção que fazem com que os anos 80 e 90 pareçam a Idade de Ouro do saque público, temos de continuar a vender a banha da cobra de que a corrupção não pára de aumentar em ordem a manter esta mama que nos enche os bolsos, a mim e aos meus estimados colegas da indústria da calúnia.
«Já se vêem os bandos de pombos atrás do milho.»
Sou eu, Pacheco, o mais antigo e ubíquo passarão do comentariado, quem o garante. Vejo tudo lá do alto com o meu olhar aquilino. Pombos, ratos, porcos, serpentes, lacraus, ervas daninhas, minhocas. Tudo vejo e tudo calo. Não contem comigo para dar nome aos bois; à excepção do Sr. Engenheiro, Deus nos livre e guarde.
Sou eu, Pacheco, com 40 anos de esfreganço de costas e bacalhauzadas no “meio” dessa gente, quem o garante. É preciso frequentar o “meio” sem pertencer ao “meio” para conseguir o que eu consigo, isto de fingir que não sou do “meio” enquanto uso o “meio” como meio para os meus fins. Complicado? Só para quem não é conhecido no “meio”, seus tansos que nada pescam do estruturalismo do “meio”.
Sou eu, Pacheco, com o servicinho do dia ao dispor na “imprensa de referência”, quem o garante. Hoje, sim, hoje é que é. Hoje é dinamite, ontem foi pólvora seca, amanhã será bomba termonuclear. Quando se passava ao meu lado, com os meus colegas de partido, com os ministros e secretários de Estado que eu apoiava no Parlamento, com as centenas e milhares que se cruzavam comigo sem esconderem quem eram e o que faziam, estava tudo bem. Outros tempos, topas? Outros tempos, éramos jovens e amigos. Não há comparação com o horror que agora vejo à minha volta. Hoje. Dinamite. Bum!
Sou eu, Pacheco, um dos mais populares historiadores e sabichões do Reino, quem o garante. A gentalha dos cafés e das redes não presta, cospe-se ao falar, não tem bibliotecas em casa. A gentalha dos cafés e das redes vai à bola com os corruptos. Por isso é que coiso. Ando a dizer isto há décadas nos jornais, nas rádios e nas televisões. E não me posso queixar pois eles pagam bem e a horas. Mas a gentalha dos cafés e das redes, francamente, que piolheira.
Sou eu, Pacheco, que em 1972 era maoísta e em 2009 era o mauísta de Ferreira Leite, quem o garante. Aproveitemos a data ao virar da esquina do calendário para fazer o que não foi feito em quase nove séculos de História. Bute “pensar de uma ponta a outra a administração, das autarquias aos ministérios” aproveitando as restrições da epidemia que nos obrigam a ficar em casa. É pura e simplesmente genial pois o falhanço é certo e certa é a culpa dos socialistas que não vão dar conta do recado.
Sou eu, Pacheco, um dos patrícios cavaquistas que contribuíram para ajudar ao nascimento do BPN, essa gesta heróica da gente séria, quem o garante. Ver o primeiro-ministro e o presidente da câmara numa comissão de honra – de honra, concidadãos! – do tal Vieira manda uma mensagem que chega imediatamente a todo o sistema de Justiça e interrompe o glorioso combate contra a corrupção. Como é que um procurador, um juiz, um agente da Judiciária ou mero polícia sinaleiro conseguirá encontrar coragem moral para enfrentar os diabólicos corruptos sabendo-se do benfiquismo de António Costa e Fernando Medina? É que a ligação é óbvia, “eleições no Benfica”=”plebiscito à corrupção”. Vergonha! Vergonha! Vergonha!
Adão Silva, o apogeu de um anjo
A notícia de Adão Silva ter ganhado as eleições para a bancada parlamentar do PSD encheu de júbilo o meu pobre coração amante da política. Porque estamos perante um cromo que é uma pratada de riso, o que irá aumentar a saúde mental de quem acompanhar a actividade parlamentar, e porque tal ocorrência permite-me republicar o vídeo com mais sucesso que este pardieiro alguma vez colocou no éter youtúbico:
A intervenção de Pedro Silva Pereira é de uma perfeição oratória sem rival na minha memória. Desde a estocada inicial, que deixou o adversário pelo chão em agonia, até à construção segura e implacável do argumento, o qual termina em evidência peremptória. À distância de oito anos, atendendo ao contexto de então e ao que sabemos agora, o seu discurso fica ainda mais relevante. E tudo isto de improviso, imediatamente a seguir a uma cena pífia de chicana. Não admira que se odeie tanto este PSP, o medo e a inveja explicam o fenómeno e deixam medalhas de mérito na lapela do alvo.
Chamo também a atenção para os números da eleição:
“De acordo com fonte do partido, votaram os 79 deputados da bancada do PSD, dos quais 64 votaram sim, seis em branco e registaram-se 9 votos nulos.“
Isto significa que Rui Rio, o Clausewitz ao contrário da estratégia política, tem neste momento um líder da bancada folião – o qual está rodeado por seis deputados que preferiam não ter de votar e mais nove que nem sequer conseguiram apenas fazer uma simples cruz num quadradinho, admitindo-se as mais estouvadas hipóteses sobre o que terão deixado escrito, ou desenhado (cuspido?), nos boletins considerados nulos.
Lapidar
«O que se perdeu com a estratégia narcísica que vai dar, mais cedo ou mais tarde, ao sentimento elegíaco da perda e por conseguinte a uma profunda infelicidade, foi a crítica, o espírito crítico. O jornalismo moderno, que nasceu do Iluminismo, colocou a crítica como projecto inalienável e como critério primeiro que justificava a sua existência. Mas a crítica não era apenas uma exigência na relação com o poder político e todos os outros poderes: o jornalismo crítico tinha também de ser capaz de ser crítico de si próprio. Sem essa dimensão, todo o projecto falharia. Ora, o que acontece hoje é que a capacidade de autocrítica, com todas as suas potencialidades, foi substituída pelo narcisismo que se compraz na autocelebração. Este fenómeno não é novo, mas instalou-se na nossa paisagem mediática com uma força enorme a partir do final do século passado. Recordar isso hoje é também uma homenagem a Vicente Jorge Silva, cujos projectos em que esteve envolvido, do Comércio do Funchal ao PÚBLICO, passando pela "Revista" do Expresso, foram espaços que estimulavam a razão crítica do jornalismo. Sem uma consciência teórica e crítica de si próprio, o jornalismo é cego.»
Costa e a habilidade
Cavaco gravou num livro, em 2018, que Costa é “um hábil profissional da política”. Foi a forma que ele encontrou para lhe chamar cabrão. Mas em 2018 essa fama de Costa ser habilidoso já era um estafado bordão na retórica da direita, o substituto do “mentiroso” urrado sem parar quando se cagavam todos de medo ao ver Sócrates pela frente. Muito provavelmente, foi o Marcelo comentador que inventou o carimbo após as peripécias da luta entre Costa e Seguro para a liderança do PS; antes, ninguém tinha reparado em especiais habilidades de Costa, limitava-se a parecer competente. Depois ficou como eufemismo de trafulha para gasto com um alvo que não podia ser engolido pela indústria da calúnia.
No mundo feérico e obsessivo do comentariado, o termo ganhou estatuto de categoria hermenêutica, passando a ser uma forma de despachar crónicas ao metro. Há sempre alguém que imagina que existe um outro alguém preocupado com o que o primeiro alguém pensa a respeito do estado da suposta habilidade de Costa. E rapidamente o fenómeno se torna mágico, atribuindo-se à sua habilidade tudo o que pareça correr-lhe bem e, simetricamente, abrindo-se uma crise cósmica quando os acontecimentos põem em causa a incensada predestinação. Governo minoritário com apoio do BE e PCP? Habilidoso. Elogios da Europa às contas certas? Habilidoso. Recuperação do poder económico dos portugueses, explosão do turismo, défice zero, domínio nas sondagens, campeões da Europa e da Eurovisão? Super-habilidoso. Participação numa conversa privada com jornalistas depois de dar uma entrevista, quando era suposto nada ficar gravado, e participação como cidadão na vida de um clube de futebol? Temor e tremor… Que é feito do Costa hábil?
O comentariado vive de simplismos, caricaturas, deturpações, berreiro. Não poderia ser de outra forma pois estamos perante um estilo de entretenimento. Escreve-se e palra-se para plateias que se divertem a aplaudir e apupar. Mas não convidem esses bufões para cuidar da cidade pois adormecem nas muralhas ou aproveitam para vender entradas aos bárbaros. Marcelo é o exemplo supremo. Enquanto astro da TV acertava em tudo, tudo parecia fácil e cristalino no seu teatro. Escurecia-se o currículo onde era apenas mais um professor de Direito, e um viciado e vicioso jornalista de opinião, e onde tinha sido o tal falhado dirigente partidário e o tal falhado candidato à câmara de Lisboa. Os holofotes iam todos para aquela parte do palco onde imitava, com paixão e donaire, os políticos que arriscam coiro e reputação. Só que imitar não é ser, como ensina Platão. Assim que o Marcelo outra vez político apanhou uma tempestade gigante pela frente, em Março de 2020, mostrou o que era realmente: um general em quem não se pode confiar.
Já Costa viu-se coroado nos meses de Março e Abril. A direita ficou apopléctica com a visão do primeiro-ministro budista, seráfico perante a notícia de o mundo estar a desabar à sua volta. Ainda por cima, os números das infecções, mortos, vagas em hospitais pareciam não só controlados como muito melhores do que se previu no pânico inicial. Que era feito daquele Pedrógão vezes mil que estava prometido, perguntavam os pulhas? Para quando a boa nova do colapso do Serviço Nacional de Saúde e do horror a sair à rua, mordiam-se os canalhas? Não foi nada fácil para a direita decadente atravessar esse confinamento do seu ódio. E lá no fundo, porque os neurónios (ou falta deles) não dão para mais, também atribuíam à sua habilidade a roleta da propagação da epidemia em Portugal e a imagem de segurança e confiança que transmitiu em período tão original, angustiante e perigoso para a comunidade. Mas será Costa realmente esse portento de habilidade que os seus adversários agitam vencidos?
Vicente Jorge Silva pode ajudar-nos a encontrar a resposta. Em Novembro de 2017 deixou no Público a tese de que Costa não só atravessava um período de inabilidade extrema como talvez nem tivesse vocação para o cargo. O texto chama-se Que aconteceu a António Costa?, sendo banal na forma e torpe no conteúdo – excepção para a partilha da anedota onde se relata uma suposta conversa tida entre os dois em 2004, a qual teria levado Costa a declarar-lhe que nunca seria líder do PS nem primeiro-ministro (por não ter vontade, fica implícito no relato). Ora, sou comprador da veracidade dessa memória. Costa não parece ter a gana de querer atingir o topo da pirâmide, realmente, antes aparecendo como um fortuito líder que, com algum manifesto contragosto, se vê obrigado a dirigir as tropas. Essa tipologia concorda com o que todos vimos aquando dos movimentos para derrubar Seguro, em que começou logo por meter os pés pelas mãos com uma falsa partida, e depois com a campanha de merda que fez para chegar a secretário-geral. O mesmo perfil para os excessos emocionais que parecem absolutamente amadores, podendo calhar com jornalistas ou políticos. É como se ele não se importasse de regressar à função de tenente e aí descansar para não ter grandes chatices. Como se sonhasse todos os dias com o remanso de um gabinete pintarolas mas discreto, perdendo-se secretamente na contemplação das futuras sopas e descanso, mas leal ao grupo que aceitou chefiar e vestindo a camisola do serviço público até ao fim da missão.
Não querer o poder é um arcano sinal de vocação para lhe dar o melhor uso. Se for o caso, é quase perfeito. E, ironia suprema, talvez esse desprendimento pachola nasça de uma certa falta de habilidade para fazer das pulsões tribais o centro da sua vida.
Vamos lá a saber
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Why Man Creates from Paracelso Zeppelin on Vimeo.
Ventura e a inteligência
A seguir a ter sido criado por Passos Coelho, o mais curioso a respeito de André Ventura é tropeçarmos em declarações a respeito da sua apregoada grande inteligência. É o que diz Donizete Rodrigues, professor universitário de sociologia, por exemplo. Ou Carlos Abreu Amorim, um desbocado passista à espera de regressar à ribalta. A sua actividade académica e a subida do Chega nas sondagens compõem este ramalhete sobre os dotes cognitivos do fulano. Razão para nos perguntarmos: será?
Ventura escolheu uma retórica maximalista em que infantiliza o sistema partidário e as instituições como cenário da sua pose megalómana. É a estratégia anti-sistema copiada de outros países onde o populismo de uma direita inane triunfou eleitoralmente. Nela verbaliza expressões que pretendem ser explicitamente humilhantes para os alvos, apelando à percepção inequívoca e imediata de que está a ridicularizá-los. Nesses alvos inclui CDS, PSD e Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República. Inova em Portugal ao, já como deputado, hostilizar minorias e a cultura cívica que apela à sua integração e à defesa dos seus direitos. Ao mesmo tempo, cola-se à notoriedade de figuras como Trump, Bolsonaro, Salvini e Marine Le Pen, por um lado, e explora símbolos e locais religiosos para se promover como representante do voto evangélico e católico, por outro. Joana Marques Vidal é também usada como arma de propaganda, como o foi por Passos e Cavaco, ignorando-se qual o grau de adesão da própria ao papel que lhe está a ser dado. Segundo palavras de Ventura, ele acabará por ser primeiro-ministro, depois de destruir o CDS e subalternizar o PSD; donde, naturalmente, saltará para Presidente de uma República sem corrupção, sem racistas, sem ciganos, sem abusadores sexuais, sem protecção a minorias e sem esquerdalhos – e, parece, sem Serviço Nacional de Saúde e justiça fiscal, entre outras misérias herdadas do 25 de Abril.
É isto prova de inteligência? A seu favor, correm as evidências e os estudos. Trump ocupou a Casa Branca, inacreditavelmente para todos e para si, porque quem votou nele apenas valorizou a atitude provocatória e a promessa revolucionária, não avaliando o seu discurso racionalmente e aceitando acriticamente a superficialidade, simplismos, incoerências, mentiras e puros absurdos despejados em caudalosa verborreia. Vários estudos mostram que as dinâmicas da filiação identitária geram estes fenómenos, de há muito resumidos na fórmula “É um filho da puta mas é o nosso filho da puta.” Acresce que a direita portuguesa, seus partidos e Presidentes da República, se encontra num ciclo de profunda decadência; começado com a fuga de Barroso e consumado no impacto da superioridade eleitoral e executiva de Sócrates e sua equipa numa conjuntura de gravíssima crise económica e financeira na oligarquia, levando o combate político em Portugal a ficar afundado nas campanhas negras e no golpismo. A judicialização da política e a politização da Justiça, no fundo das quais esta direita se barricou, transformou-se num túmulo onde a sua decência jaz morta, e apodrece com pestilência. Daí valer tudo para os decadentes. Daí Ventura, como Passos intuiu, tentou e fez chegar até nós.
Ora, só há um desfecho para este cromo circense, o de ficar a falar sozinho para o grupo de borregos que agrega. É preciso ser-se muito estúpido, por condição ou opção, para suportar quem revela abertamente que nos quer enganar e prejudicar, como faz o leporidófilo. E o número desses infelizes não lhe permitirá ter mais do que um pequeno e efémero grupo de deputados, na melhor das possibilidades. Porém, outro galo cantaria se Ventura tivesse a estratégia de aparecer colado a Marcelo, CDS e PSD, mostrado-se um aliado especial – aquele aliado que consegue dizer e fazer abertamente o que os outros apenas conseguem dizer e simular que fazem implicitamente. Não foi esse o caminho que a sua gula pulsional seguiu, para sorte da qualidade da democracia e segurança do regime. E nem a inenarrável incompetência de Rui Rio o vai salvar da resposta que a comunidade lhe dará.
Vamos lá a saber
Exactissimamente
Vicente Jorge Silva, jornalista
Se Vicente Jorge Silva foi um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, como as eulogias publicadas consagram e a memória não tem pejo em aceitar, vale a pena tentar um exercício de celebração alternativo ao registo encomiástico. Ir por um caminho que faça justa – portanto, implacável – homenagem ao que parece ter definido existencialmente esse homem, o ter sido jornalista.
Um jornalista não existe sem uma era, um tempo histórico, um lugar político, uma estrutura económica, um processo social e uma corrente de circunstâncias colectivas e individuais. Acontece que os jornalistas sempre tiveram má fama por causa dos poderes fácticos que aceitam servir. Como lembrou Belmiro de Azevedo, isto de ter um jornal é muito giro mas é preciso que alguém pague as contas. E para quê estar com essa despesa se não vier daí algum proveito, alguma satisfação? Pelo que as agendas políticas, logo a partir de Gutenberg, fizeram dos órgãos de comunicação de massas imediatas arenas de combate ideológico e partidário. O ideal de um jornalismo puro, exemplar no cumprimento da deontologia que a si mesmo impõe, lembra a moral kantiana: é para anjos, não para seres humanos.
O Vicente, diz quem com ele conviveu e trabalhou, nem era um anjo nem um anjinho, antes parecendo ter acessos demoníacos conformes ao folclore de uma profissão de egos hipertrofiados e tóxicos. Apesar disso, ou por causa disso, o seu nome aparece como responsável principal por duas publicações que marcaram gerações de leitores no tempo em que os jornais em papel ainda moldavam o espaço intersubjectivo: a “Revista” do Expresso e o Público. Sobre esses dois feitos que inovaram a imprensa portuguesa nos anos 80 e 90 as homenagens são consensuais. Pois este meu exercício minúsculo começa a partir daí, da saída do jornal de que foi o primeiro director. Que aconteceu depois de 1996 a esse extraordinário jornalista então livre para fazer e ser o que quisesse ainda com uns saborosos 51 anos de idade no corpinho?
Nada. Nada que tenha relevância para o jornalismo, sua história ou mera reflexão a respeito de qualquer uma das suas dimensões ou facetas. Ficou na bancada a assistir à degradação completa do Público sob a direcção do José Manuel Fernandes, ignoro o que pensava de Ricardo Costa como czar de Balsemão, desconheço qualquer posição sua a respeito do poder persecutório e criminoso da Cofina ao longo dos anos, e quando voltou para o jornal da Sonae foi chocante vê-lo neste papel. Até no Sol aceitou deixar o seu nome como colaborador.
O Vicente sem papas na língua e mandão poderia responder que não lhe competia ser um provedor oficioso das lides jornalísticas e respectivas responsabilidades na qualidade da democracia e na coesão da comunidade, que tinha bem mais e melhor para fazer com a sua pessoa, que estava farto do meio ou que não queria chatices. Pois sim, teríamos de concordar porque primeiro está o mistério da liberdade de cada qual. Mas a sua ausência no combate contra a pasquinagem ilumina uma paisagem onde não se vê uma única referência de ética e coragem para acudir à derrelicção dos raros que ainda conseguem fazer miraculosamente peças de jornalismo exemplares de honestidade intelectual e serviço público. Se nem este excelso madeirense nos valeu, e se ele foi mesmo um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, então emerge o corolário: os nomes mais importantes do jornalismo em Portugal são muito pouco importantes para o que mais importa.
Filipe Santos Costa, jornalista
Uma das razões da minha frustração nos últimos anos com o jornalismo que fazia no Expresso era a noção de q o jornal só esperava de mim q fizesse + do mesmo. Q alimentasse o folhetim político do momento, por estéril q fosse, com notícias, ou aparência disso, ou especulação 1/8
— Filipe Santos Costa (@FilipeSCosta) September 7, 2020
Assim começa uma inaudita confissão a lembrar os tempos heróicos dos dissidentes soviéticos. Não é que faça revelações incríveis, sequer provoque desmaiada surpresa, pois a cultura do Expresso está à vista, bastando ver a montra para adivinhar as misérias no armazém. O que causa espanto é o acto de fala onde Filipe Santos Costa parte a loiça toda com precisão cirúrgica. Neste momento, e até à eventualidade de o mano Costa lançar como resposta e vingança um qualquer assassinato de carácter contra o ex-empregado do Grupo Impresa, a credibilidade jornalística e deontológica do Expresso, mais a dos seus directores passados e presentes, não existe.
Repare-se: não estamos perante uma situação em que temos de escolher entre duas versões concorrentes e contraditórias – dado que o seu discurso é assumido como um testemunho pessoal complemento da realidade objectiva, material, incontornável de ser o Expresso aquilo que nós registamos que é – ficamos é na posse da novidade de se poder confirmar através de uma visão interna, vinda de um ex-operacional da casa, a encardida decadência deste tipo de pseudojornalismo agora denunciado com uma frontalidade absolutamente sem antecedentes a este nível de notoriedade, para mais envolvendo uma vaca sagrada cheia de vedetas assanhadíssimas.
Não se trata de um ataque ressentido ao jornal e seus responsáveis, contudo. Provavelmente, este mesmo jornalista não se envergonha do que fez no Expresso, onde vestiu a camisola e tentou ser um bom soldado. E, às tantas, poderá ter alimentado a ambição de chegar a director para, vamos acreditar optimistas e ingénuos, alterar a cultura editorial no sentido que agora anuncia querer seguir profissionalmente. As suas declarações parecem circunscrever aos dois últimos anos, que coincidem com a queda do Pedro Santos Guerreiro e a entrada do David Dinis e subida do João Vieira Pereira, o crescimento da sua insatisfação, por um lado, e servem também para promover a sua marca e oferecer-se ao mercado, pelo outro. Tenho a vantagem de nada de nadinha de nada saber a seu respeito para além da embirração que lhe tinha quando era um serviçal do sectarismo mediático, daí poder especular sem travão.
Seja lá qual for a história secreta do episódio, que até pode não haver alguma e ser só tal como anunciado, era lindo que desta coragem inspiradora viesse a nascer jornalismo jornalismo.
Votos de felicidades e boa sorte