Sr. Araújo – minuto 3
«É um prazer recebê-la [a Maria José Morgado] e queria aproveitar a oportunidade para me solidarizar com o seu drama pessoal. Ou seja, uma pessoa que resolveu dedicar grande parte da sua vida ao combate à corrupção logo por azar num país em que não há corrupção. É como querer ser marinheiro na Suíça.»
😂
Sr. Araújo – minuto 27
«Eu queria-lhe perguntar, a propósito daquilo que eu disse logo no início, é se a sotôra [Maria José Morgado] acha que há um determinado quadra... ou alguns quadrantes ideológicos que acham, bizarramente para mim, que falar da corrupção é nocivo. E que por isso deixam o tema da corrupção para outros quadrantes ideológicos que se servem dela com fins populistas...»
🤣
Ricardo Araújo Pereira sabe muito sobre a corrupção em Portugal. Não precisamos de saber como é que ficou a saber tanto sobre a matéria, basta que se mostre confiante a respeito. Daí, por saber tanto, não quis perder a oportunidade para dizer na TV umas verdades acerca disso, aproveitando a presença de uma outra concidadã que rivaliza com ele em conhecimento sobre a corrupção em Portugal.
E que ficámos nós a saber graças à sua sabedoria? Que o RAP identificou “quadrantes ideológicos” que “deixam” o tema da “corrupção” para “outros quadrantes ideológicos”. Infelizmente, não teve tempo para dar nome aos bois, o que se entende por estarmos em televisão e cada segundo ser muito caro. O RAP evita dar despesa à SIC, por ser um excelente rapaz, o que o leva a mostrar-se poupadinho nas explicações e a optar pelas meias palavras e pelo registo aforístico, gnómico (que tanto sucesso teve em Delfos há uns tempos, por exemplo). Tal obriga-nos a um esforço hermenêutico sob pena de acabarmos carimbados pelo grande RAP como bizarros.
Vou propor uma linha interpretativa. Peço a vossa paciência para a desconstrução e sua reconstrução.
DESCODIFICAÇÃO
“quadrantes ideológicos” = PS corrupto
“acham que falar da corrupção é nocivo” = PS corrupto
“deixam o tema da corrupção” = PS corrupto
“outros quadrantes ideológicos” = Ventura
MENSAGEM
“Os corruptos do PS calam-se a respeito da corrupção porque o PS é corrupto. Por causa disso é que o pobre do Ventura anda para aí sozinho a ter de falar no assunto.“
Creio que o código utilizado não ambiciona maior sofisticação. Os risos gerados nos restantes artistas presentes em estúdio selam a exegese com o lacre da merecida alarvidade. Altura de saltar para Maria José Morgado (honit soit e tal), a qual tinha proposto, precisamente, a criação da “vacina contra a corrupção”. A ideia tem mérito, especialmente quando se constata que é facílimo identificar corruptos – os quais, afinal, se contaminam uns aos outros através do mais ancestral veículo da peste, o Rato. Acontece que a senhora igualmente partilhou connosco que não pretende vacinar-se contra o coronavírus, dispensando a vacina que lhe calhar. E elaborou sobre o assunto para a posteridade:
“Estou habituada aos riscos e aos perigos, e sei viver com eles. Toda a minha vida foi um risco. Aliás, a nossa vida é um risco, e somos todos cadáveres adiados, já dizia o outro.“
Temendo que as revelações não fossem ainda suficientes para dar o melhor exemplo de responsabilidade comunitária à audiência do programa, ela que nada teme, sentiu então o imperativo moral de deixar um contributo epistemológico:
“Eu não subestimo a ciência mas a ciência é muito mais complicada do que uma simples vacina, essa é que é a questão!“
Assim, o círculo fecha-se. Não há só uma questão, há duas. E ter um televisor em casa, devidamente ligado à corrente, permite aceder ao que as pessoas mais inteligentes, mais sérias e mais engraçadas pensam sobre essas duas questões. Quem é que iria imaginar, sejamos honestos por favor, que se passava tamanha bandalheira com os quadrantes ideológicos nacionais calhando ter perdido esta emissão do programa? E há quanto tempo andamos todos dominados pela cruel ilusão de se achar que a ciência não é assim tão mais complicada do que uma simples vacina, ou mesmo du… três, prontos, três vacinas… das simples?! Pois.