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Psiquiatria política no Eixo do Mal

Pedro Marques Lopes - [sobre a acusação do MP a Rui Moreira com pedido de perda de mandato] Acho estranhíssimo que seja feito exactamente no ano eleitoral, acho muito estranho. E estas acusações que parecem fabricadas... Vou repetir, fabricadas... Que me dá a sensação que são feitas para dar uma espécie de... que há uma campanha contra os ricos e poderosos, é inacreditável [...]

Daniel Oliveira - Deixa-me só dizer uma frase sobre isto. Dizer que eu não sou fã de Rui Moreira, acredito na presunção de inocência do Ministério Público, o Ministério Público não é culpado até prova em contrário - este calendário é impensável... Isto começa a ficar demasiado repetitivo, começa a ficar demasiado repetitivo!... Começa a ser demais, começa a ser demais!

Luís Pedro Nunes - O Ministério Público parece que tem uma agendinha... Que é: agora este, check; agora este, check...


Eixo do Mal, a partir de 45:50

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Pedro Marques Lopes fez um pedido que qualquer cidadão lhe deve agradecer. Pediu para que, a propósito de um caso que o deixa indignado, partidos, Governo e Presidente da República investiguem, apurem, intuam se no Ministério Público há agendas políticas a condicionarem o nascimento, o conteúdo e/ou o calendário de certas acusações. É um pedido que vai ficar sem resposta porque a evidência recolhida desde, pelo menos, 2009 mostra que Presidentes da República, Governos e partidos com assento na Assembleia da República convivem adaptados com a realidade de existirem acusações cujos calendários, conteúdos e origens radicam ostensivamente nas agendas políticas dos procuradores responsáveis pelas mesmas – tudo legal, tudo dentro da sua críptica e inescrutável “autonomia”. A inimputabilidade é tal que quem quiser ver o Estado de direito democrático a ser respeitado na Procuradoria-Geral da República deve começar por fazer o testamento pois irá para uma batalha donde não regressará com futuro político viável. O poder das corporações da Justiça – e dos poderes políticos, económicos e fácticos que lucram com os crimes dos magistrados e dominam a paisagem mediática – de imediato esmagarão esses insanos atrevidos. Exagero? Não quando um fulano que promove as fugas ao segredo de justiça como necessária medida para atacar políticos cuja perseguição lhe enche os bolsos é coroado como símbolo vivo de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O Pedro tem a admirável vantagem nestas matérias de ser coerente e muito corajoso; ou seja, de parecer íntegro. Contra o ódio político dos seus pares de filiação partidária, contra o ódio ideológico da direita a que pertence nem que seja para se diferenciar do PS, e contra o ódio da turbamulta vítima do populismo do tempo e de todos os tempos, ele sempre conseguiu verbalizar no espaço público que o inimigo nº 1 do País, Sócrates, tinha direito a um julgamento justo. Daí, ao falar de Rui Moreira, e apesar de se anunciar seu amigo, a sua honestidade intelectual e autoridade cívica permanecem intactas.

Igual não se ouve nem se lê nos seus dois companheiros de programa, acima citados, que são pagos para dizerem que a culpabilidade de Sócrates não carece de tribunais para ser concretizada. Basta-lhes a sua deslumbrante cachimónia. Daí que as declarações destes dois melros em Dezembro de 2020, subitamente alvoraçados com o mesmo que têm visto ser feito ao PS há mais de 10 anos para seu próprio gáudio comentadeiro e produção neuronal de sentenças transitadas em emporcalhado, mereça registo. É especialmente engraçado ver o Daniel Oliveira a exclamar que agora, com o Rui Moreira, se chegou ao limite. Até aí, palavras dele, estava tudo bem. Porém, se a ideia é que o PS deixe de ter o exclusivo da atenção dos carrascos do Ministério Público, então alto e pára o baile. É que este Daniel, quando não está a ensinar ao BE como descer nas sondagens e a fazer coro com os direitolas para o abate de ministros socialistas, é um vero herói do Estado de direito. Nem dorme a pensar nele.

Dois pesos e duas medidas, relativismo moral, ambiguidades identitárias, vieses cognitivos os mais variados, pois claro. Tudo isto é ancestralmente humano, inevitável na política e na política-espectáculo onde estes artistas se divertem e ganham o seu. Mas há uma figura no elenco que arrasta o programa para o campo psiquiátrico, a Clara Ferreira Alves:

«O Sócrates pôs o País com uma mão à frente e outra atrás. Toda a gente sabe que o Sócrates tinha um lado profundamente lunático. Pronto, mas isso já está adquirido.»
[silêncio de todos os outros participantes] – Minuto 8:20

Ora, eis que aqui temos num simpático programa de cavaqueira desopilante a tese do ódio a Sócrates no seu grau mais alto de pulhice. Não só Sócrates surge como o actor individual que se pode singularmente destacar e acusar pela entrada da Troika em Portugal, sem que para tal seja preciso indicar um único facto explicativo, como a causa é atribuída a uma patologia, o lado “profundamente lunático“. Isto significa que o emissor da mensagem não reconhece no seu sujeito enunciado a capacidade para se responsabilizar pelos seus actos, merecendo ser afastado da convivência normal com os restantes cidadãos dado estar a carecer de tratamento médico sob pena de voltar a causar os males do passado, esse “isso” que “já está adquirido“. O silêncio do pessoal circundante face ao enésimo acto de contrição que a Pluma Caprichosa exibe na pantalha, seviciando-se com esgares de dor por causa de uma entrevista que a irá atormentar até ao fim dos seus dias e mais umas eternidades além, é um incontornável momento psiquiátrico para todos os responsáveis pela emissão. É que, caso não saibam, quem despacha diagnósticos de loucura contra terceiros via TV está a precisar – e com urgência – de marcar uma consultazinha da especialidade.

O que eu queria no sapatinho

Que as luminárias que festejaram o Trump, o Bolsonaro e o Brexit como triunfos magníficos contra a esquerdalha, contra os corruptos do sistema corrupto e contra o centro que não é carne nem peixe, viessem dizer se estão satisfeitos com os resultados obtidos até agora ou se o problema consiste em ainda não se ter chegado à solução final.

Ana Gomes só terá uma oportunidade

A entrevista de Ana Gomes na RTP, ontem, serviu para mostrar não só a inutilidade como o erro desta candidatura – dito de forma mais clara, não só o erro como a inutilidade da sua candidatura. Por mim, não faço a menor ideia do que a esteja a motivar que se possa relacionar com o bem comum e o interesse nacional. Nesse sentido, parece-me uma intervenção política análoga à de Soares em 2006 e à de Alegre em 2011, exemplos de desvarios estratégicos crassos da esquerda, absurdos eleitorais nascidos daquilo que na política é tão-só humano e demasiado humano.

Infelizmente ou felizmente, não vejo como é que a sua campanha se poderá salvar porque, nesta altura do campeonato, a sua marca deu um nó cego a si mesma. Ignora-se o que representa para além de uma postura relativista, publicitária e circense “contra a corrupção” donde apenas se consegue perceber que aprova crimes desde que sejam contra uns tipos que ela não grama, e também que a investigação a Sócrates serviu para descobrirmos que o dinheiro que “se dizia” que era da mãe afinal não era, pelo que já deviam ter prendido o homem por qualquer coisa faz tempo, sugere enfastiada. O cenário é tão confuso e inane que ela estaria agora em melhor posição caso tivesse mergulhado de cabeça no populismo mais sensacionalista em vez de, como ontem vimos, andar a exibir-se num fato que não lhe serve: a de estadista que está em condições de ir jurar defender o regular funcionamento das instituições democráticas – ou seja, defender o Estado de direito democrático como mais alta magistrada da Nação.

Pelo que só dispõe de uma oportunidade para sair do actual posicionamento irrelevante e passar para a frente da notoriedade e das escolhas de uma larga fatia de cidadãos, um eleitorado transversal aos diferentes quadrantes ideológicos que não tem quem o compreenda. Uma e só uma oportunidade. Aquela que irá ocorrer numa sexta-feira do próximo Janeiro, daqui por 16 dias. Ali chegada, Ana Gomes tem de se sacrificar pelos mais altos valores em que calhar acreditar e transformar-se num kamikaze apontado ao porta-pulhas que navega a cada vez maior velocidade nas águas da direita decadente.

Como? Provavelmente, não terá ninguém ao seu lado para a orientar. Antecipo até que os conselhos dos seus generais e tenentes sejam para ir na direcção oposta, recusando o choque. Fugindo do combate. Fingindo que não ouve as provocações sórdidas do novíssimo delfim de Cavaco e Passos. Só para tentar dizer uma ou duas coisas “de esquerda”, da tal “esquerda pura e verdadeira” ao gosto dos seus apoiantes mais mediáticos, uma esquerda que até neste PS sempre à direita da revolução é uma raridade (é assim que ela pensa mas tudo aguentou, inclusive no tenebroso período socrático, em nome do heróico trabalho que deixou feito em Estrasburgo). Se for este o plano, Ventura sairá vencedor. Porque Ventura vai entrar vencedor, e vencedor estará ao longo de todo o debate. A menos que…

A menos que Ana Gomes decida fazer da aniquilação política, em duelo, desse seu adversário o singular objectivo da sua participação nestas presidenciais. Se entrar atingindo-o nos centros vitais da sua retórica fascistóide e desumana logo a partir da sua primeira intervenção, fazendo da humilhação moral de quem explora as fraquezas dos mais fracos o assumido propósito do confronto, e só se calando quando apagarem as luzes do estúdio e os seguranças a retirarem à força em braços, então algo decisivo para a defesa da cidade terá sido alcançado. E o debate com Marcelo, no dia seguinte, será um desfile triunfal.

Marcelo supera Cavaco

Marcelo não irá superar Mário Soares em resultados eleitorais mas, a partir da entrevista de ontem, é com vexame nacional que se tem de admitir que Marcelo superou Cavaco – em sonsaria.

Um feito que muitos, e bem sábios, garantiam ser absolutamente impossível dada a gramagem de sonsice do criador da Inventona de Belém.

Revolution through evolution

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Ficamos a ganhar se pagarmos a quem lhe pagou

[…]

Talvez seja aqui que Eduardo Lourenço foi mais profundamente incompreendido, só por ter tido a bondade e a delicadeza de não nos desmentir quando lhe oferecemos o papel de intérprete da nossa portugalidade. E logo a ele, que sobretudo quisera abalar a insegurança da nossa identidade mítica. Com aquele sorriso de quem viveu muito e atravessou com o seu pensamento "selvas, mares, areias do deserto" (como dizia o seu querido Antero), Eduardo Lourenço deixou-se levar para essa imagem de áugure nacional, com a ironia de quem sabe até ao fim a funda irrisão de todas as imagens que deixamos.


Eduardo Lourenço, o ausente de si mesmo

Um “Communication Specialist” a precisar de ajuda

João Adelino Faria está a fazer um péssimo trabalho na série de entrevistas da RTP aos candidatos presidenciais. Não só as suas perguntas são destituídas de relevância, sequer de interesse avulso, como a sua atitude acaba por afundar no esquecimento o eventual valor das declarações dos candidatos por causa do frenesim com que pressiona os entrevistados para que eles lhe dêem as respostas que gostava de ouvir. Quando isso não acontece, e não acontece logo a partir da primeira, entra em modo de roer a canela e insiste, insiste e insiste como se existisse alguma alma na assistência com a sobre-humana capacidade de perceber aonde pretende chegar. Não existe, sendo penoso o espectáculo produzido por um jornalista que se auto-intitula “Communication Specialist” no LinkedIn. Em sua justiça, diga-se que não estamos perante uma novidade. Quem vê o “O Outro Lado”, na RTP3, tem de levar semanalmente com a sua bicefalia de moderador e opositor aos comentadores, particularmente ao Pedro Adão e Silva (porque será? será do Guaraná?).

A sua falta de profissionalismo e módico tino com André Ventura merece destaque, em duas dimensões: o que tal episódio revela acerca do jornalismo português, e o que nos permite pensar acerca do Ventura como desafio a esse mesmo jornalismo. Na primeira, o jornalismo português, aqui representado por um profissional maturo e prestigiado com o privilégio e a honra de servir o canal público de televisão, mostra-se dominado por indivíduos que se concebem como vedetas que só têm de prestar contas ao seu círculo de relações. Foi assim que o Faria apareceu em frente do Ventura, com o fácies moldado por um sentimento de intensa antipatia que se manteve e agravou ao longo da entrevista em que assediou às escâncaras o candidato presidencial. Do outro lado, esteve um entrevistado intuitivo que aproveitou para se vitimizar e passar as mensagens que quis e lhe apeteceu. Na segunda dimensão, e juntando-se aos conhecimentos adquiridos com Miguel Sousa Tavares nas duas ocasiões em que entrevistou Ventura e se mostrou escandalosamente inepto para a função, ficou evidente que é estulto pretender vencer um aldrabão recorrendo a aldrabices. A conduta do jornalista da RTP que entrevistou um perigoso inimigo da democracia e dos direitos humanos foi uma farsa do ponto de vista deontológico, o que teve como consequência branquear e blindar a sua degradante retórica num bastião de ressentimento e irracionalidade que atrai alienados, iletrados e néscios.

Paulo Moura, a respeito do mesmo, fez um sugestivo exercício reflexivo que merece leitura – Por que razão Ventura desarma os jornalistas – onde aponta para a necessidade de se ter de evitar ser Ventura com o Ventura caso a intenção seja fazer jornalismo ou política decente. No fundo, o mesmo arcano princípio, fonte da civilização em que queremos viver, que nos manda não usarmos o mal para combater o mal. Este princípio, contudo, não tem muita popularidade entre a direita partidária e os jornalistas portugueses (salvo as devidas excepções). As nossas vedetas da imprensa escrita e televisiva violam com indiferença calejada o Código Deontológico do Jornalista e o próprio Estado de direito, valendo-se da sua teia de cumplicidades políticas e sociais, e da incontornável ambiguidade dos textos normativos, para usufruírem de um estatuto de impunidade. Lembre-se, para dar só um exemplo que ilustra na plenitude o que está em causa, como o irmão do actual primeiro-ministro justificou a emissão de interrogatórios da Operação Marquês, no que ficou como uma exploração voyeurística bestial (pun intended). Esses conteúdos não tinham qualquer novidade informativa mas foram para o ar em nome do “interesse público” – leia-se, o interesse do público, que é afinal tão-só o das audiências para o negócio gerido pelo mano Costa. Tal qual como a Cofina justifica todas as suas cumplicidades criminosas com agentes da Justiça que geram a caudalosa violação de direitos dos alvos. Agarram-se ao bom povo que precisa com urgência de pão, circo e corruptos a serem apertados pelos nossos heróis no Ministério Público.

Ventura também fala em nome do povo, como tantos em todos os tempos e lugares. Segundo tem partilhado connosco, parece que o povo detesta ciganos, não-caucasianos e estrangeiros. O povo também não vai muito à bola com o Serviço Nacional de Saúde, a Constituição, os pedófilos e os ovários, e talvez tenha uma assolapada paixoneta por nazis infiltrados nas polícias e por empresários no ramo do armamento, vai-nos contando sempre que pode. Às tantas, o Adelino Faria terá ficado naturalmente zangado por ter de partilhar um estúdio de televisão com uma personagem muito mais sabedora do que ele a respeito do que o povo pensa e quer, e daí não ter resistido a mostrar-se agastado, mauzão. Acontece que tamanho descontrolo obteve precisamente o efeito contrário ao que (supomos) pretendia obter. Alguém, na RTP ou fora dela, tem de explicar a este “especialista em comunicação” que para lidar com o Ventura a partir de uma posição de superioridade interrogativa não há instrumento mais eficiente do que esta singular pergunta: “Como sabe?”. É que não adianta fantasiar que se vai convencer um único apoiante do Ventura recorrendo a argumentos racionais ou exibindo como troféus as suas contradições, aberrações e promessas de violência. Essa fatia da sociedade está perdida, é inútil querer dialogar com ela a partir do jornalismo (mas não o será a partir da política, outros os processos mentais à disposição).

O que precisamos que o jornalismo faça na cara dos populistas é que se cumpra como jornalismo – isto é, que seja metodologicamente empático, profundamente analítico e implacavelmente curioso.

O estúpido não tem tempo para a inteligência

É lamentável que a ARTV não permita saber quantas visualizações têm os seus vídeos. Por exemplo, quantos mamíferos já viram a Audição do Ministro da Administração Interna do dia 15 do corrente? E dos que viram, quantos foram até ao fim, quantos até ao meio e quantos não passaram dos 5 minutos iniciais? Não faço, portanto, a mínima ideia mas arrisco os 10 euros que tenho no bolso em como o número dos que assistiram na integralidade a essa audição é inferior em 10 ordens de grandeza ao número dos que já foram para a janela pedir a demissão do ministro ou que desenvolveram sólidas convicções a partir de resumos de 30 segundos sobre uma conferência de imprensa onde o mesmo ministro disse coisas mesmo fixes para um gajo gozar, pá. Agora, estar duas horas a ouvir pessoas com tempo para falarem sem serem interrompidas, algo que torna muito mais provável conseguirem transmitir informações e raciocínios, isso já não dá, pá. A inteligência é demasiado secante, temos é de abandalhar e pichar a cidade.

Para além de podermos constatar como a escolha de Joacine Katar Moreira foi um erro também por causa da sua aflitiva gaguez (a causa da integração de pessoas com deficiência não colhe e fica mal servida porque tal patologia, naquele grau, compromete a plena realização da sua função como oradora e introduz sofrimento inútil na assistência), para além de vermos como a retórica da direita é igual à daquela esquerda que imita a direita decadente na exploração do caso só para tentar atingir o ministro e o Governo, para além de assistirmos ao nó cego que António Filipe (PCP) deu a José Magalhães (PS) quando lembrou que não havia lugar para choradinhos de arrependimento posto que aquela comissão parlamentar tinha cumprido o seu dever com rigor democrático ao longo dos meses e em coordenação com o ministro da Administração Interna, quem continuar na ignorância do que ali foi dito – e que esta entrevista complementa e detalha – vai continuar a preferir a estupidez à inteligência.

Aqueles que fazem coro pela demissão de Eduardo Cabrita não têm nenhuma razão para o fazer, posto que o ministro cumpriu com os deveres que lhe foram confiados pelo Estado e obteve resultados meritórios no que ao episódio da morte de Ihor Homeniuk diz respeito. Como não têm razão, ou porque essa razão nasce apenas da motivação antagonista e não da honestidade intelectual, os que berram contra o homem têm de aparecer muito zangados no palco e a misturar assuntos demagogicamente, têm de fazer teatro. Isso é transparente nas actividades diárias de todos os parlamentos em qualquer parte do Mundo onde existam democracias, é inerente ao folclore de ser oposição. Só que ser oposição não obriga ninguém a ser estúpido, tal como ser comentador profissional com a ambição de vir a ser alguém num partido a definhar ou continuar a influenciar o antigo partido por quem o coração ainda bate não é uma condenação à estupidez. Estes amigos estão a ser estúpidos só porque acham que há algo a ganhar nisso – e porque a soberba irresponsável é embriagante.

A ideia de que se deve castigar um ministro com a demissão para dar um exemplo é o sonho molhado dos Marques Mendes que, se pudessem, demitiam definitivamente o PS da política nacional. Compreende-se a agonia. Mas há algo também de estupidamente português em não permitir que se aprenda com o erro. Em castigar e ostracizar quem errou, condenando-o à vergonha. Isto, que talvez tenha raiz católica no célebre páreo com a ética protestante, é especialmente imbecil neste caso do escândalo no SEF quando nos chega ao conhecimento o filme dos acontecimentos e a complexidade política e administrativa do que está em causa. Neste sentido, até o facto de a directora do SEF não se ter demitido nem ter sido demitida precisa de ser ponderado à luz dos detalhes de todo o processo, começando logo (como lembra Cabrita na entrevista ao Público e Renascença) por se registar que o SEF colaborou com a Judiciária assim que a suspeita de crime foi estabelecida por elementos do próprio SEF. O mesmo para os tempos da decisão sobre a indemnização, recordando a demora no caso dos militares mortos no Curso de Comandos há quatro anos e como tal é conforme ao próprio Estado de direito.

O ministro da Administração Interna poderá ter vários erros no bornal, por actos, palavras e/ou omissões. Nesta e noutras matérias. É até possível que estejamos perante um ser humano. Apesar disso, e para quem o considera um “cadáver político” e um “zombie político” (les beaux esprits se rencontrent), vai sair reforçado desta crise. Porque fez bem o que tinha para fazer com o seu poder. E porque o que está estruturalmente em causa no SEF, pese estar relacionado com o trágico e inumano fim de vida de um cidadão ucraniano, não se resolve com a irresponsabilidade dos comentadores profissionais nem com os oportunistas partidários. Vai é ser preciso recorrer à inteligência para o admitir.

Quando o Zé entrevistou o Pedro

A entrevista feita na SIC a Pedro Nuno Santos foi mais um prego no caixão daquela direita que passa as horas a congeminar campanhas negras e golpadas por se saber fatalmente inferior na comparação com o PS. Sabem que se as eleições fossem um puro confronto de ideias para governar a coisa pública jamais chegariam ao poder pois acontece-lhes terem alergia à actividade intelectual e nojo da decência. Pelo que recorrem ao ancestral e vastíssimo arsenal de cavilações e chicana já com gasto desde o nascimento da democracia na Grécia clássica.

Existe algum José Gomes Ferreira mediático que se possa associar ao PS, ou a algum tipo de esquerda? Não existe. Tal como não existe nenhuma SIC a trabalhar para o PS. Não existe nenhum Correio da Manhã simpatizante do Largo do Rato. Não existe um único órgão de comunicação social que possamos posicionar como próximo de políticas ditas socialistas ou que seja visto como apoiante de decisões ao actual Governo, quanto mais um “grupo de comunicação” pintado de rosa. Melhor, porque mais de acordo com o método: não existe um único órgão de comunicação social cuja sistémica estratégia editorial seja o ataque ao PSD e suas figuras dirigentes ou mais populares. Mas existe um Zé pago pelo Balsemão para, fingindo ser jornalista, combater ideologicamente e com fanatismo o PS e o ideário de esquerda. Um sectário deslumbrado consigo próprio que chegou ao desplante de publicar um livro intitulado “O Meu Programa de Governo”. E um pulha retinto que no passado mês de Outubro usou a SIC para espalhar a calúnia de estarem António Costa e Francisca Van Dunem a manipularem a Judiciária “para que depois, quem controla os negócios de Estado, dar aos amigos, como já vimos.” Como acharam que era pouco, foram buscar outro fanático do ódio ao PS chamado João Vieira Pereira. Este infeliz, quando termina de escrever os panfletos semanais no Expresso, tem de ir logo a correr enfiar a cabeça num balde de bicarbonato de sódio tamanha a indisposição que sente por causa dos malvados socialistas e suas socialistas maldades.

A entrevista impressionou especialmente os direitolas por causa dos minutos iniciais. E o que mais importa aconteceu entre o minuto 3 e o 5. O que se vê é o Zé a interromper o entrevistado com provocações e, na resposta, o entrevistado a desmontar o artifício e a ganhar moralmente o confronto, ficando a partir daí com uma autoridade sobre o provocador que não voltou a perder (veja-se, como ilustração do que é passar a ter um Zé amestrado, o minuto 40); inclusive tendo-lhe dado presença de espírito para ser acintoso sem perder a razão ou a estética (minuto 11). Foi uma exibição de genuína virilidade que tocou no goto do povo de direita que sonha com líderes fortes e carismáticos e, em vez dessa fruta, o que lhes sai na rifa é o Rio, o Chicão e o Ventura. Percebe-se o temor, entende-se o tremor desta gente abandonada por uma elite que não tem nível para competir com o escol. No PS está esse escol, como mostrou Pedro Nuno Santos ao ter deixado uma exuberante candidatura a secretário-geral do PS a partir de atributos positivos e eleitoralmente relevantes. Mas o PS, dado o seu tamanho e a longa experiência de governação, tem outros candidatos igualmente viáveis para vencer eleições – de que Medina é apenas o mais falado – enquanto no PSD e no CDS a paisagem é desoladora e, para qualquer democrata, mesmo assustadora. O único líder com algum potencial eleitoral que a direita conseguiu criar depois de Passos Coelho é o miserável fascistóide que anda a debochar com a República. Chamar decadente a esta situação passa por usar um eufemismo.

O Zé não entrevista, faz debates. E leva na cabeça com regularidade quando resolve marrar com socialistas que saibam para o que vão. Como foi agora o caso, como já foi com António Costa, como foi inesquecivelmente com o Paulo Campos. Não se trata de uma actividade ilegal, ele apenas tenta servir o melhor possível o seu patrão. O sucesso do seu trabalho mede-se pela capacidade de boicotar e denegrir os alvos a coberto da assimetria de poder que o estúdio de televisão lhe dá. Não há qualquer intenção de servir um interesse público a partir das mensagens dos entrevistados, tão-só o de repetir as suas próprias mensagens e fazê-lo de um modo que simule ter os argumentos vencedores. Daí ser tão eficaz, para este efeito, poder interromper os entrevistados assim que eles começam a transmitir argumentação contrária à sua agenda e de imediato despejar munição emocional ou desviar a conversa para outro assunto que conceba como mais favorável. A noção cultivada como mandamento sagrado é a de que as entrevistas servem para tudo menos para deixar os convidados exporem o seu pensamento. Quando isso acontece, o Zé, o seu chefe e os amanuenses na redação da SIC sabem que foi um mau dia. Que o militante nº 1 do PSD não merecia tal desfeita depois de tanto dinheiro investido. O dia 11 de Dezembro de 2020, portanto, foi um péssimo dia para esta rapaziada.

Podiam ter perguntado, né?

Presidente da República - E mais, digo-lho: o mais espantoso é que falei da matéria numa primeira saída ainda vigorava o estado de emergência, em Maio, e depois, sucessivamente, nunca nenhum jornalista me perguntou sobre a matéria. Podiam ter perguntado. Em Junho, em Julho, em Agosto, em Setembro, em Outubro, até Novembro...

Director-geral de informação do Grupo Impresa + palhaço que saltou de andar de microfone na mão a tentar entalar o Sócrates com inanidades para especialista em política - Ai, ai, ai... Blá, blá, blá... Então a culpa é dos jornais!... Ó Senhor Presidente, eu mostro-lhe aqui vários artigos...

Presidente da República - Não, a culpa não é dos jornais...

Director-geral de Informação do Grupo Impresa - O Público e o Diário de Notícias estiveram sempre em cima deste caso, sempre.

Presidente da República - Eu sei, o Público e o Diário de Notícias foram a excepção.

Director-geral de informação do Grupo Impresa - Pronto! Não são pequenas excepções, não são...


Entrevista

🙈🙉🙊

Impresa é o maior grupo de comunicação social português, atuando em três áreas de negócio — edição impressa, digital e televisão“, assim abre o artigo na Wikipédia a respeito do império criado pelo militante nº 1 do PSD. Curiosamente, e seguramente devido ao tempo diário que gasta a mandar “gifs” animados para o Bernardo Ferrão a insistência deste, o mano Costa ainda não teve oportunidade para ir à Wiki descobrir o que é, realmente, isso da IMPRESA e não sei quê. Pelo que foi para uma entrevista a uma pessoa muito conhecida da televisão, a qual acumula com um cargo qualquer no Estado e não sei quê, e deu por si a ter de defender a imprensa – isto é, aquela que realmente dá notícias e tenta formar opiniões. Ihor Homenyuk, um ucraniano que parece que morreu no aeroporto e não sei quê, teve sempre dois jornais a falarem dele, exclamou indignado o director-geral do grupo Impresa para a vedeta televisiva a fazer-se de parva à sua frente. É que se há assunto que o mano Costa domina é esse mesmo da comunicação social e não sei quê, tenham juizinho, pelo que não ia aceitar que lhe dissessem na cara que o não sei quantos de não sei donde foi esquecido pelos jornais, pelas televisões, pelas rádios e pelo digital. Não, isso é coisa para deixar o mano Costa à beira de um ataque de jornalismo.

Este diálogo é inacreditável, em sentido literal. Vemos, ouvimos, podemos ler a transcrição e continuamos a não acreditar no que os nossos neurónios repetidamente garantem ter sido dito. Ninguém nos preparou para termos um Presidente da República que regride moralmente para a idade dos 7 anos. Um Chefe de Estado que mente à descarada e justifica a sua antinomia culpando a assistência, dizendo que a culpa de não ter mostrado em público mais preocupação com o homicídio às mãos do SEF ou sequer enviado as condolências para a família de um ser humano cuja morte ocorre sob a responsabilidade do Estado português é, afinal, da comunidade que não lhe perguntou nada. Eis a doutrina marcelista da lógica da batota. E por mais que nos preparássemos, continuaria a ser impossível resistir a ficar banzo quando um bacano que tem centenas de jornalistas sob a sua alçada editorial, alguns com a responsabilidade agravada de serem pagos para preencher os conteúdos de um semanário outrora famoso por influenciar a sociedade, tem de dar exemplos da concorrência para salvar a honra dos titulares da carteira profissional disso do “relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade“. Contudo, talvez a origem da derrelicção exibida pelo brilhante director-geral da cena seja prosaica: ninguém ainda ter ido oferecer ao mano Costa vídeos fixes de interrogatórios à malandragem com o selo Ministério Publico TV ou lhe ter enviado relatórios das secretas inventados à maluca com avisos sobre a Turquia e a Ucrânia. E não sei quê.

Fernanda Câncio, Valentina Marcelino e Joana Gorjão Henriques foram justamente reconhecidas como jornalistas que, através dos seus artigos, elevaram a sua profissão ao estatuto de missão ao relatarem, destacarem e questionarem as autoridades, especialmente o Governo, sobre todas as questões policiais, humanas e políticas relativas ao que se ia conhecendo dos factos desde o final de Março. O silêncio que constatavam à sua volta, porém, não pode ser dissociado da circunstância de estar a decorrer uma investigação do Ministério Público e um inquérito do IGAI. Foram estes dois processos que acabaram por moldar o calendário da indignação e da exploração política, à medida que se iam consolidando e divulgando os resultados e demais parafernália de acções e reacções dos envolvidos – Isabel Moreira também poderá ter sido gatilho da explosão emocional de Dezembro ao sintetizar de forma lapidar o que estava em causa: “É o mais grave atentado ao Estado de direito no pós-25 de Abril.

As declarações de má consciência de tanta gente respeitável e admirável com tribuna na comunicação social ficaram embrulhadas com exemplos de cínicos e sonsos acabados, como os três pavões citados acima, para mal dos nossos pecados. Pecados esses que não colocaria no plano do rasgar das vestes ou da ocupação das ruas, muito menos nos badalhocos pedidos de demissão do ministro que levou um soco no estômago, antes na constatação vexante de que a Assembleia da República não quer saber do que se passa nas cabeças dos agentes policiais e elementos militares que nos fazem mal.

Começa a semana com isto

Robert Sutton on Good Leaders vs. Bad Leaders

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– É pacóvio achar que só em Portugal há maus patrões, chefes incompetentes. Eles estão distribuídos por todo o Planeta. Mas é estúpido, e perigoso, ignorar que há razões endémicas, seculares, para o tecido empresarial português gerar tantos patrões broncos e tantos chefes canalhas.

– Robert Sutton é um divertido, animado e muito nosso amigo especialista em lidar com as disfunções relacionais que existem em todas as organizações. Todas. Porque sim. Porque humanos.

– Talvez o mais valioso conselho que ele deixa, muito pouco atraente para a dificuldade de ser português num país igual a Portugal, seja o de irmos embora de uma empresa quando nos estão a fazer mal. Esta sabedoria não se aplicará necessariamente a quem tenha protecção de um sindicato, regra geral, sendo mais apropriada para os outros tantos e tantos não sindicalizados que, de repente, se podem ver isolados a lidar com chefias e colegas em quem não podem confiar e que estão organizados para prejudicar e expulsar os alvos. Isto chama-se assédio moral e, depois do triunfo do movimento contra o assédio sexual, devia merecer a atenção das forças políticas pois há muitos votos para ganhar neste território de ubíqua e diária violência – cuja dinâmica tem várias relações com a violência doméstica. É também um fenómeno que está ligado à baixa produtividade ao castigar o mérito e premiar a cumplicidade na discriminação e seus graves danos para as vítimas.

– O nosso Bob usa com mestria os clichés, pois eles transmitem experiência prática e científica acumulada, de que deixo dois exemplos iluminativos: “My shit is stuff, your stuff is shit” + “That was great until it wasn’t” – o primeiro descreve o egocentrismo fatal que boicota a colaboração num grupo e destrói a geração da inteligência colectiva; o segundo aponta à cristalização das fórmulas e soluções, impedindo a adaptação a novos problemas (que são na maior parte dos casos os antigos mas numa versão alterada).

– Finalmente, o seu convite para deixarmos de nos avaliar como estando a fracassar ou a ter sucesso, a errar ou a acertar, e antes começarmos a procurar o que estaremos a aprender numa dada situação, concebendo-nos em permanente crescimento, é uma verdadeira – e tão salubre, alegre – filosofia de vida.

Revolution through evolution

Children who experienced compassionate parenting were more generous than peers
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Diet modifications – including more wine and cheese – may help reduce cognitive decline, study suggests
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Test your heart health by climbing stairs
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A study predicts smooth interaction between humans and robots
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What makes hard workouts so effective
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The Smellicopter is an obstacle-avoiding drone that uses a live moth antenna to seek out smells
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Undocumented immigrants far less likely to commit crimes in U.S. than citizens
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Continuar a lerRevolution through evolution

Coisas do Carvalho

«A responsabilização política exige mais. Garante-se com demissões. A nossa vergonha colectiva, como aqui a descrevemos, não se repara com estados de alma.

Dizer que falou e fez antes de todos neste caso do SEF, lembrar feitos nos incêndios ou na criminalidade para cimentar a sua glória não ilude a situação frágil em que Eduardo Cabrita se encontra. Boa parte do que fez, fê-lo a reboque dos acontecimentos ou através de cortinas de fumo com botões de pânico. Só agiu quando percebeu que não podia continuar a varrer o lixo para debaixo do tapete. Só deixou cair a ex-directora do SEF quando sentiu o fogo aproximar-se da pele.»


Manuel Carvalho

«Falei com o primeiro-ministro inúmeras vezes disso. Não trago a público as conversas com o primeiro-ministro. Posso lembrar que havia um problema pendente que era a reforma global do SEF. Vinha de trás mas era uma ideia do Governo.»


Presidente da República

🗯️

Fazer editoriais a pedir a cabeça de ministros tem de ser um dos mais viciantes prazeres do pessoal que é – supostamente – pago (e muito bem pago) para fazer jornalismo (ou deixar que se faça). Não há mistério nem enigma na coisa, quem está de fora a assistir precisa de assobiar, apupar, urrar. É um atestado de importância, uma prova de vida, que oferecem a si mesmos. E ainda recolhem a aprovação das tribos que calharem estar na oposição e dos taralhoucos do bota-abaixo. O que leva a perguntar: o pior para um ministro, ou qualquer outro responsável público no centro de escândalos ou polémicas, é ser demitido na primeira oportunidade ou quando os decibéis da algazarra à sua volta ultrapassam certos níveis?

Só para os burros do Carvalho como este Manuel acima citado. A ideia de que a “responsabilização política” se garante com demissões é asinina e exactamente contrária aos interesses da República. Quase sempre, as demissões de ministros são arbitrárias, fortuitas e meramente catárticas, uma disfunção que tende a criar bodes expiatórios para não ter de resolver questões demasiado complexas ou com altos custos eleitorais – quando o oposto, mantendo os visados em condições de prestar contas adentro da sua autoridade institucional e se poder aferir as responsabilidades de todos e de tudo o que relevasse, é que serviria o interesse nacional. Por exemplo, as demissões de Jorge Coelho, António Vitorino e Manuel Pinho não se traduziram em qualquer ganho fosse de que ordem fosse. Não estabeleceram exemplo, não fizeram escola, não se relacionam com algum benefício tangível. Foram meramente contextuais e, ao limite, causadas por lógicas subjectivas. Isto é, poderiam não ter acontecido; e, se tal veio a ocorrer num universo paralelo, a única diferença foi apenas o prolongamento do gozo e da raiva dos que viam nesses alvos brechas na muralha que queriam derrubar.

Quanto à demissão de Constança Urbano de Sousa, forçada por Marcelo numa chantagem pública comicieira, a ter tido alguma consequência desejada por quem a forçou, então terá sido o inevitavelmente excelente trabalho de Eduardo Cabrita dadas as premissas e as juras marcelistas. Daí ter toda a legitimidade e oportunidade para o lembrar o actual ministro da Administração Interna, de repente vendo-se na mira de Marcelo cujo instinto de caçador é mais forte do que o sentido de Estado e a defesa do bem comum. Porém, contudo, todavia, dita o módico realismo que caso Urbano de Sousa tivesse permanecido no cargo fosse altamente provável que os resultados da prevenção e combate aos incêndios florestais nos anos seguintes acabassem por ser precisamente os mesmos que registamos com Cabrita.

Manuel Carvalho faz fogo de barragem sobre um gajo do PS e protege um gajo do PSD. É disto que a casa gasta. Felizmente para ele, nunca ninguém lhe irá pedir para comentar a passagem da entrevista onde o actual Presidente da República explica aos jornalistas que ocupar as posições cimeiras do Estado é assim uma beca diferente de já só ter de escolher onde se vai comer o bife depois de fechar a edição no pasquim.

Marcelo também é do PSD

«Nós respeitamos muito o PSD. Eu próprio fui do PSD. Aliás, a maior parte dos dirigentes do Chega foram do PSD.»


André Ventura

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Ventura é uma invenção de Passos Coelho. O Chega é um braço armado do PSD. Visão excessiva, deturpada? São os próprios, os do Chega e os do PSD, que o assumem, que o gravam na pedra. A rapidez com que Rui Rio se abraçou a Ventura estilhaçou as mais pessimistas previsões dos mais pessimistas acerca desse cenário degradante. O facto de Morais Sarmento, Manuela Ferreira Leite e a totalidade dos dirigentes locais do partido terem declarado o seu apoio, com palavras ou silêncios, à aliança com um partido que agrega e entusiasma inimigos da democracia e dos direitos humanos deixou em estado de choque quem à direita ainda se respeita a si próprio como cidadão de um Estado de direito democrático pertencente à União Europeia.

Contudo, nada há de ilógico no aparecimento de Ventura quando se constata que o seu caminho foi aberto pela elite do PSD e do CDS desde 2004, e a outrance desde 2008. No balanço desses 12 a 16 anos, e mais se poderiam acrescentar, ninguém é capaz de indicar uma singular figura da direita partidária portuguesa que tenha ganhado a mínima notoriedade como paladino das causas dos direitos humanos e do Estado de direito. Se ela existe, rogo penhorado que me corrijam com urgência. E ao apostar que não existe ninguém com esses predicados, com esse currículo, estou a incluir a mole de jornalistas que servem a direita portuguesa, do Grupo Impresa à Cofina, passando pela Grupo Renascença, pela Público, pelo Observador, pela TVI do casal Moniz, pelo DN de outros tempos, pelos cromos direitolas da RTP, e por tantos exemplos ao sabor das mudanças de poder nas administrações e redacções dos órgãos de comunicação social. Ricardo Costa, Manuel Carvalho, José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira, para dar exemplos cabeçudos, revelam nas suas caudalosas opiniões estarem preocupados com o Estado de direito e os direitos humanos? A gargalhada é homérica.

A direita portuguesa é populista desde que Durão Barroso, o homem que jurou em campanha eleitoral ter nascido para ser primeiro-ministro, fugiu para um cargo delirantemente mais apetitoso do que o seu propalado destino de servidor da Pátria. O populismo do tempo e neste nosso lugar, com o seu cortejo de afrontas contra a classe política e contra grupos de humanos tomados como inimigos, não passa de um maníaco processo de diabolização que visa envenenar o espaço público, boicotar a discussão política racional, reduzir a política à moral e com esta criminalizar os adversários. É por isso que Passos é o herói mítico que vai voltar numa manhã de nevoeiro, porque só ele conseguiu aprisionar o dragão que ameaçava o povo. É por isso que Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal são vedetas com romarias e serviços de relações públicas em permanente funcionamento. A corrupção dos malvados socialistas que lhes ganham as eleições, e que tiveram artes para lhes ganharem o parlamento com a medalha de prata, tem consumido a duvidosa inteligência e a abundante pulhice da direita partidária portuguesa.

Marcelo Rebelo de Sousa, em cinco anos de exibicionismo presidencial, igualmente não se mostrou campeão do Estado de direito e dos direitos humanos. Preferiu brincar aos palácios e a um populismo de brandos costumes para a fotografia. Daí ter dado a uma figura sórdida como João Miguel Tavares, alguém que despreza e ofende a República, honras de Estado exclusivíssimas. Daí ter esperado nove meses para falar da morte de um ser humano num aeroporto português por obra e desgraça de representantes do Estado português. Aquele que é, actualmente, o político mais prestigiado da direita portuguesa aparenta ter gozo em ser um estadista com um dos pés no chinelo da indecência.

Donde, Ventura talvez não tenha culpa do que anda para aí a dizer e a prometer. Aconteceu-lhe foi ter entrado para o PSD, num dia de funesta memória. Coitado.

Das coisas estranhas e das outras que não causam estranheza

Luís Pedro Nunes - Estive uma única vez com António Mexia para lançar um livro que consegui a custo que a EDP patrocinasse. Meia hora se tanto. Mas acho estranho que ninguém tenha achado estranho o que se passou esta semana. Eu estive a ler sobre isto antes de vir para aqui porque não é uma posição fácil. António Mexia foi constituído arguido em 2017, não está em fase de investigação, passou por três juízes que não acharam que fosse preciso medidas de coacção. Assim que caiu nas mãos de Carlos Alexandre, se disse logo imediatamente "Bom, este Mexia é o último dos poderosos e este juiz é o tomba-poderosos, portanto alguma coisa vai acontecer..." E assim aconteceu. Onde nenhum outro juiz tinha visto nada, Carlos Alexandre arranjou umas medidas de coacção, que toda a gente achou que eram absurdas, de António Mexia e Neto Manso não poderem entrar na empresa, nem falarem com o segurança, coisa que coincidiu com o fim de mandato, o que fez com que Mexia não se possa recandidatar a presidente da empresa. Sendo que não há uma acusação, é apenas arguido, não se sabe se vai a julgamento e, se for a julgamento, não sabe se vai ser condenado. As pessoas acham que a energia está cara em Portugal por causa dele, não é verdade. E quero dizer que já foi condenado, já teve uma pena [...]

Daniel Oliveira - Só quero dizer que eu tenho a pior opinião possível sobre António Mexia e concordo com tudo o que o Luís Pedro disse.


Eixo do Mal – minuto 44:30

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Não é a primeira vez, embora seja um espectáculo recente, que Luís Pedro Nunes faz críticas à Justiça portuguesa, particularmente ao juiz Carlos Alexandre, que posso assinar por baixo. Neste caso, e para alguém que declarou ter estado a ler sobre o assunto, só é pena que não tenha dado mais atenção ao que o próprio António Mexia escreveu na sua carta de despedida. Nesta, o autor alerta para a curiosidade de o processo dos CMECs ser uma “investigação artificialmente arrastada“. Já conta com 8 anos de existência, tendo nascido em 2012 a partir de “insinuações e especulações” com base em recortes de jornais, e a recente alteração das medidas de coacção para alguns arguidos não resultou da descoberta de qualquer facto novo, tão-só da chegada de Carlos Alexandre ao palco – o que levou o Ministério Público a finalmente interrogar os arguidos há três anos à espera de serem ouvidos. Trata-se de um arbítrio, portanto, que obriga a concluir que a Justiça é uma roleta russa. Outro aspecto do caso que podia ter ocupado parte dos neurónios do Luís Pedro, dada a sua altíssima relevância, diz respeito ao facto de António Mexia e João Manso Neto serem gestores de uma empresa privada.

Que outros processos foram, e continuam a ser, “artificialmente arrastados”? Em que outros processos a distinção entre esfera pública e privada foi anulada pelos procuradores e juízes para se conseguirem ou tentarem condenações de corrupção e prisão efectiva nunca antes vistas, exorbitantes face à jurisprudência respectiva, e publicitadas como exemplares? Porquê e para quê? E como se permite tal? Responder a estas questões parece muitíssimo menos importante do que pedir a cabeça de ministros quando morrem pessoas em incêndios, se furta armamento ao Exército ou se tortura um homem sob a responsabilidade do Estado português causando a sua morte. No entanto, e para aumentar a ironia do espanto acima confessado pelo artista do Eixo do Mal, igualmente ninguém parece achar estranho que a Justiça, tanto na área da investigação como do julgamento, se comporte como se fosse tacitamente consensual no regime e na sociedade considerar que todos os actos governativos dos Executivos socialistas entre 2005 e 2011 são suspeitos de ilegalidade até prova em contrário. Daí vindo uma permissão, mesmo uma missão ou cruzada, para abrir processos a partir de qualquer pretexto – podem ser parcerias público-privadas, cartões de crédito oficiais, compra de livros, escrever em blogues – e passar a gerir de acordo com esconsas motivações e crípticas agendas os calendários dos actos processuais, a recolha de informação sobre a privacidade dos suspeitos e arguidos, e a sua divulgação oficial ou criminosa ao público.

Felizmente, podemos recorrer ao bom do Luís Pedro para termos umas luzes sobre tamanho fenómeno do Entroncamento. É que este bravo, capaz de se chegar à frente para resgatar a honra de um antigo patrono, move-se pela simpatia e não pela capacidade de abstracção. Assim, ele simpatiza com o Mexia. Porque o Mexia começou por simpatizar com ele ao lhe passar um cheque, vamos arriscar. Estas circunstâncias financeiras favoráveis terão então criado as também favoráveis condições cognitivas para que o co-autor da obra A Energia da Amazónia ficasse disponível para avaliar os imbróglios judiciais do ilustre cidadão na berlinda. Excelente casamento de interesses, digo-o sem bosão de cinismo, pois todos não seremos de mais para denunciar a menor violação do Estado de direito (seguindo o perspicaz remoque de Lucas 16:10). E calhando estar em causa as decisões de um juiz que já cagou d’alto na presunção de inocência de um cidadão sob a sua responsabilidade constitucional e deontológica, assim contribuindo de forma supinamente caluniosa para a sua condenação pública e quiçá condenação institucional, o mesmo juiz que lançou em público ameaças contra outros juízes e que em público lançou a suspeita de que todo o aparelho de Justiça conspirou para o privar de continuar a perseguir um ex-primeiro-ministro cuja culpabilidade não lhe oferece a menor dúvida, diria que não é concebível maior dano aos pilares civilizacionais em que queremos viver do que não poder confiar na Justiça. Todas as suspeitas e todas as condenações transitadas em julgado de corrupção que envolvam políticos, banqueiros e empresários, a soma das que a cornadura se consiga lembrar, não passam de uma suave brisa primaveril comparadas com o terramoto comunitário de termos um juiz justiceiro que se sabe inimputável e impunível. Porque se assim é – e é – resulta que a perversão constitucional está entranhada da cúpula à base.

O acrescento do Daniel Oliveira acaba por ser a metade da senha secreta que nos faltava para entrar nos meandros desta diversidade radicalmente assimétrica de pesos e medidas que as estrelas mediáticas, políticos e comentadores, nos servem desvairadamente. Porque é regular e começou muito antes de haver acusação, tanto no Eixo do Mal como noutros poisos onde deixa o seu dinâmico pensamento, a cena em que o Sr. Oliveira declara a sua convicção a respeito de termos um super-corrupto à espera de condenação que dá pelo nome de José Sócrates. Pedindo ajuda às citáveis palavras do Luís Pedro Nunes, eis que Sócrates mereceu e merece arder em auto-de-fé opinativo “sendo que não há uma acusação, é apenas arguido, não se sabe se vai a julgamento e, se for a julgamento, não sabe se vai ser condenado.” Podemos fantasiar que ambos, o Nunes e o Oliveira, simpatizam com o Mexia e não gramam o Sócrates? Óbvia e obviamente. Mas será por causa do reles dinheiro, que um deu e o outro não? Que nada, pá. Foda-se, pá. O que se passa é que não existem militantes do PS, ou que fossem amigos do tal super-corrupto, com jornais e estações de televisão. Não há, azarex, o que depois leva quem queira trabalhar honestamente na indústria da calúnia a ter de usar com muita parcimónia a sua decência. Pois esta, como qualquer outro recurso precioso, não dá para tudo. Há que fazer escolhas quando se têm bocas em casa para alimentar ou programas de férias para realizar. É a vida, mano, o romantismo não puxa carroça.

Mexia ou Sócrates, qual deles merece ser tratado como se ainda tivéssemos de esperar pela chatice dos julgamentos e por aquela chachada toda dos advogados e suas tangas? Daniel Oliveira e Luís Pedro Nunes, sem qualquer estranheza, já escolheram faz tempo.