Coisas do Carvalho

«A responsabilização política exige mais. Garante-se com demissões. A nossa vergonha colectiva, como aqui a descrevemos, não se repara com estados de alma.

Dizer que falou e fez antes de todos neste caso do SEF, lembrar feitos nos incêndios ou na criminalidade para cimentar a sua glória não ilude a situação frágil em que Eduardo Cabrita se encontra. Boa parte do que fez, fê-lo a reboque dos acontecimentos ou através de cortinas de fumo com botões de pânico. Só agiu quando percebeu que não podia continuar a varrer o lixo para debaixo do tapete. Só deixou cair a ex-directora do SEF quando sentiu o fogo aproximar-se da pele.»


Manuel Carvalho

«Falei com o primeiro-ministro inúmeras vezes disso. Não trago a público as conversas com o primeiro-ministro. Posso lembrar que havia um problema pendente que era a reforma global do SEF. Vinha de trás mas era uma ideia do Governo.»


Presidente da República

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Fazer editoriais a pedir a cabeça de ministros tem de ser um dos mais viciantes prazeres do pessoal que é – supostamente – pago (e muito bem pago) para fazer jornalismo (ou deixar que se faça). Não há mistério nem enigma na coisa, quem está de fora a assistir precisa de assobiar, apupar, urrar. É um atestado de importância, uma prova de vida, que oferecem a si mesmos. E ainda recolhem a aprovação das tribos que calharem estar na oposição e dos taralhoucos do bota-abaixo. O que leva a perguntar: o pior para um ministro, ou qualquer outro responsável público no centro de escândalos ou polémicas, é ser demitido na primeira oportunidade ou quando os decibéis da algazarra à sua volta ultrapassam certos níveis?

Só para os burros do Carvalho como este Manuel acima citado. A ideia de que a “responsabilização política” se garante com demissões é asinina e exactamente contrária aos interesses da República. Quase sempre, as demissões de ministros são arbitrárias, fortuitas e meramente catárticas, uma disfunção que tende a criar bodes expiatórios para não ter de resolver questões demasiado complexas ou com altos custos eleitorais – quando o oposto, mantendo os visados em condições de prestar contas adentro da sua autoridade institucional e se poder aferir as responsabilidades de todos e de tudo o que relevasse, é que serviria o interesse nacional. Por exemplo, as demissões de Jorge Coelho, António Vitorino e Manuel Pinho não se traduziram em qualquer ganho fosse de que ordem fosse. Não estabeleceram exemplo, não fizeram escola, não se relacionam com algum benefício tangível. Foram meramente contextuais e, ao limite, causadas por lógicas subjectivas. Isto é, poderiam não ter acontecido; e, se tal veio a ocorrer num universo paralelo, a única diferença foi apenas o prolongamento do gozo e da raiva dos que viam nesses alvos brechas na muralha que queriam derrubar.

Quanto à demissão de Constança Urbano de Sousa, forçada por Marcelo numa chantagem pública comicieira, a ter tido alguma consequência desejada por quem a forçou, então terá sido o inevitavelmente excelente trabalho de Eduardo Cabrita dadas as premissas e as juras marcelistas. Daí ter toda a legitimidade e oportunidade para o lembrar o actual ministro da Administração Interna, de repente vendo-se na mira de Marcelo cujo instinto de caçador é mais forte do que o sentido de Estado e a defesa do bem comum. Porém, contudo, todavia, dita o módico realismo que caso Urbano de Sousa tivesse permanecido no cargo fosse altamente provável que os resultados da prevenção e combate aos incêndios florestais nos anos seguintes acabassem por ser precisamente os mesmos que registamos com Cabrita.

Manuel Carvalho faz fogo de barragem sobre um gajo do PS e protege um gajo do PSD. É disto que a casa gasta. Felizmente para ele, nunca ninguém lhe irá pedir para comentar a passagem da entrevista onde o actual Presidente da República explica aos jornalistas que ocupar as posições cimeiras do Estado é assim uma beca diferente de já só ter de escolher onde se vai comer o bife depois de fechar a edição no pasquim.

7 thoughts on “Coisas do Carvalho”

  1. Ora aí está:
    A direita É DECADENTE, ponto!
    Eu voto frequentemente no PS, mas não voto Marcelo nem Ana Gomes. A vaidosa do Bloco não me seduz (farto do bloco e farto de gajas na política).
    Pela primeira vez, vou votar num candidato do PCP. Pelo que tenho acompanhado, é o mais sério de todos.

  2. …Ah, a propósito do Carvalho:
    Acho que valia a pena questionar esta pescadinha de rabo na boca de comentadores jornaleiros, sempre os mesmos, a circular pelos orgãos de comunicação social.
    Pelo menos a RTP- QUE É PÚBLICA E PAGA POR TODOS NÓS- devia puxar o autoclismo e evacuar estes “spin doctors” que vêm do privado. A função destes merdas é apenas higienizar a imagem dos direitolas, lançar intrigas e conspurcar tudo o que vem da esquerda (principalmente PS), enquanto vão denegrindo a imagem do serviço público sistematicamente (dãã!)
    Pior ainda são os funcionários públicos, como por ex. o professor da Universidade do Minho Fernando Alexandre, comentador no programa “Tudo é Economia”. Este básico vive para nos vender “as virtudes das empresas privadas versus o despesismo incompetente do serviço público”.
    E nós temos que pagar ordenados a estes merdas?
    Porque é que o Fernando Alexandre e outros como ele não vão trabalhar pr’ó Carvalho?
    …por exemplo.

  3. “responsabilização política” não se garante com demissões, porque demitir um ministro logo à primeira bronca só serve para esquecer muito depressa essa bronca…
    Lógica da batata…

  4. Valupi:
    «O populismo do tempo e neste nosso lugar, com o seu cortejo de afrontas contra a classe política e contra grupos de humanos tomados como inimigos, não passa de um maníaco processo de diabolização que visa envenenar o espaço público, boicotar a discussão política racional, reduzir a política à moral e com esta criminalizar os adversários.»

    Carvalho:
    «A responsabilização política exige mais.»

    Qual responsabilização política?
    Sob que forma um crime qualquer, por mais hediondo que seja, praticado de motu próprio e forma totalmente independente e contra as leis, regras e prática do Estado e das recomendações dos governantes por um subalterno agente de uma corporação, sob que ponto de vista político pode corresponsabilizar um governante totalmente alheio a tal crime?
    Volta-se sempre à história; qual foi o crime de Sócrates? Heresia e corrupção (mental) dos jovens; e foi condenado à morte.
    Qual é o crime de Eduardo Cabrita? Não ter adivinhado que tal crime ia acontecer?
    Pois, não perguntaram à Manuela F. Leite ou aos oráculos grunhos que pululam por aí e sabem sempre que “estava-se mesmo a ver que isto ia acontecer” ou “toda a gente sabia que, mais tarde ou mais cedo, isto ia acontecer” ou aos mais sofisticados tipo D. Oliveira que já sabem de antemão que o ministro pelo que “fez” já deu para ter a certeza que não é a pessoa capaz de mais nada fazer de competente.
    O Valupi toca no cerne do problema quando diz que o caso presente é a continuação do processo em curso para “reduzir a política à moral e com esta criminalizar os adversários.”
    Precisamente, trata-se de equiparar a moral à política e, de imediato, de tratar uma obrigação moral como se fora um dever político; e deste modo, por meio de pressupostos falsos, falácias e jogos de linguagem, entram no jogo da política suja, disfarçadamente, com o objectivo predeterminado de defesa do seu ideal político; a frase do Carvalho nem disfarça, vai logo à responsabilização política; dirige-se directamente a correligionários e apanhados do juízo pelo arcaico moralismo que matou Sócrates.
    O sistema de moralidade, preocupado com uma situação particular surgida inesperada e imprevisivelmente na sociedade, não exige qualquer obrigatoriedade de responsabilidade política mas da ética e a ética republicana é o respeito e o dever à lei da répública e não a mandamentos ou credos.
    A obrigação moral resultante de um facto alheio que simplesmente aconteceu não pode corresponder a uma obrigação de justiça política numa ética republicana.
    No caso presente o facto em questão, pela sua barbaridade medieval, concita uma geral repulsa de consciência moral e deve levar o Estado a uma reparação. Contudo tal reparação deve ser efectuada sob condição de justiça provados todos os factos e seus aspectos particulares e não sob uma chuva diluviana de carpideiras quase a exigirem, por um lado a restituição da vida ao morto, por outro a morte do ministro.

  5. “Qual responsabilização política?
    Sob que forma um crime qualquer, por mais hediondo que seja, praticado de motu próprio e forma totalmente independente e contra as leis, regras e prática do Estado e das recomendações dos governantes por um subalterno agente de uma corporação, sob que ponto de vista político pode corresponsabilizar um governante totalmente alheio a tal crime?”

    Pergunte ao Putin . É com essa maneira de pensar e agir que o poder que Putin, o borgia moderno, o envenador se vai safando, kadirov nem precisa de ordens, por exemplo, o assassinato da jornalista Ana Polytovskaya ocorreu no dia de aniversário do czar, dizem que foi prenda de aniversário do regente da Chechenia, outros dissidentes e corajosos resistentes têm sido envenenados . Putin não precisa de dar ordens, a corte que o rodeia sabe o que o chefe quer . Como é que sabe ?
    Claro que no caso concreto, tem que se fazer uma distinção, de modo algum o ministro mandou maltratar, muito menos matar, porém, não é do meu agrado esta maneira simplista de reduzir as coisas e fazer separação, a partir da desculpabilização/desresponsabilização . Mas também pode suceder que eu esteja errado, afinal, existem treinadores de futebol, que quando as coisas correm mal e a equipa perde, assumem a totalidade da culpa . E quiça, a táctica era a correcta, a equipa bem escolhida, as substituições bem operadas, e claro, o treinador não mandou os jogadores perderem o jogo .

    Portanto teríamos várias éticas, a ética, a ética dita republicana, reduzida ao perímetro da lei da República . Nada mais nada menos do que dizia o Pina Moura .
    E teríamos uma ética monárquica, submetida à ética da monarquia, e porventura uma ética anárquica, reduzida à lei da anarquia, e por aí adiante .
    Eu não me atrevo a opinar sobre matéria tão sensível como a questão da ética, muito menos a defenir com carácter geral e de obrigatoriedade colectiva, uma coisa que é eminentemente da esfera individual de cada um .

    Mas há quem até misture ética com lei, e até adicione política, para fazer uma trilogia de asneiras.

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