Quando o Zé entrevistou o Pedro

A entrevista feita na SIC a Pedro Nuno Santos foi mais um prego no caixão daquela direita que passa as horas a congeminar campanhas negras e golpadas por se saber fatalmente inferior na comparação com o PS. Sabem que se as eleições fossem um puro confronto de ideias para governar a coisa pública jamais chegariam ao poder pois acontece-lhes terem alergia à actividade intelectual e nojo da decência. Pelo que recorrem ao ancestral e vastíssimo arsenal de cavilações e chicana já com gasto desde o nascimento da democracia na Grécia clássica.

Existe algum José Gomes Ferreira mediático que se possa associar ao PS, ou a algum tipo de esquerda? Não existe. Tal como não existe nenhuma SIC a trabalhar para o PS. Não existe nenhum Correio da Manhã simpatizante do Largo do Rato. Não existe um único órgão de comunicação social que possamos posicionar como próximo de políticas ditas socialistas ou que seja visto como apoiante de decisões ao actual Governo, quanto mais um “grupo de comunicação” pintado de rosa. Melhor, porque mais de acordo com o método: não existe um único órgão de comunicação social cuja sistémica estratégia editorial seja o ataque ao PSD e suas figuras dirigentes ou mais populares. Mas existe um Zé pago pelo Balsemão para, fingindo ser jornalista, combater ideologicamente e com fanatismo o PS e o ideário de esquerda. Um sectário deslumbrado consigo próprio que chegou ao desplante de publicar um livro intitulado “O Meu Programa de Governo”. E um pulha retinto que no passado mês de Outubro usou a SIC para espalhar a calúnia de estarem António Costa e Francisca Van Dunem a manipularem a Judiciária “para que depois, quem controla os negócios de Estado, dar aos amigos, como já vimos.” Como acharam que era pouco, foram buscar outro fanático do ódio ao PS chamado João Vieira Pereira. Este infeliz, quando termina de escrever os panfletos semanais no Expresso, tem de ir logo a correr enfiar a cabeça num balde de bicarbonato de sódio tamanha a indisposição que sente por causa dos malvados socialistas e suas socialistas maldades.

A entrevista impressionou especialmente os direitolas por causa dos minutos iniciais. E o que mais importa aconteceu entre o minuto 3 e o 5. O que se vê é o Zé a interromper o entrevistado com provocações e, na resposta, o entrevistado a desmontar o artifício e a ganhar moralmente o confronto, ficando a partir daí com uma autoridade sobre o provocador que não voltou a perder (veja-se, como ilustração do que é passar a ter um Zé amestrado, o minuto 40); inclusive tendo-lhe dado presença de espírito para ser acintoso sem perder a razão ou a estética (minuto 11). Foi uma exibição de genuína virilidade que tocou no goto do povo de direita que sonha com líderes fortes e carismáticos e, em vez dessa fruta, o que lhes sai na rifa é o Rio, o Chicão e o Ventura. Percebe-se o temor, entende-se o tremor desta gente abandonada por uma elite que não tem nível para competir com o escol. No PS está esse escol, como mostrou Pedro Nuno Santos ao ter deixado uma exuberante candidatura a secretário-geral do PS a partir de atributos positivos e eleitoralmente relevantes. Mas o PS, dado o seu tamanho e a longa experiência de governação, tem outros candidatos igualmente viáveis para vencer eleições – de que Medina é apenas o mais falado – enquanto no PSD e no CDS a paisagem é desoladora e, para qualquer democrata, mesmo assustadora. O único líder com algum potencial eleitoral que a direita conseguiu criar depois de Passos Coelho é o miserável fascistóide que anda a debochar com a República. Chamar decadente a esta situação passa por usar um eufemismo.

O Zé não entrevista, faz debates. E leva na cabeça com regularidade quando resolve marrar com socialistas que saibam para o que vão. Como foi agora o caso, como já foi com António Costa, como foi inesquecivelmente com o Paulo Campos. Não se trata de uma actividade ilegal, ele apenas tenta servir o melhor possível o seu patrão. O sucesso do seu trabalho mede-se pela capacidade de boicotar e denegrir os alvos a coberto da assimetria de poder que o estúdio de televisão lhe dá. Não há qualquer intenção de servir um interesse público a partir das mensagens dos entrevistados, tão-só o de repetir as suas próprias mensagens e fazê-lo de um modo que simule ter os argumentos vencedores. Daí ser tão eficaz, para este efeito, poder interromper os entrevistados assim que eles começam a transmitir argumentação contrária à sua agenda e de imediato despejar munição emocional ou desviar a conversa para outro assunto que conceba como mais favorável. A noção cultivada como mandamento sagrado é a de que as entrevistas servem para tudo menos para deixar os convidados exporem o seu pensamento. Quando isso acontece, o Zé, o seu chefe e os amanuenses na redação da SIC sabem que foi um mau dia. Que o militante nº 1 do PSD não merecia tal desfeita depois de tanto dinheiro investido. O dia 11 de Dezembro de 2020, portanto, foi um péssimo dia para esta rapaziada.

6 thoughts on “Quando o Zé entrevistou o Pedro”

  1. Um dia destes, quando o Zé começar(?) a perder credibilidade e audiência (de tão fução ou sectário), despacham-no para que fique a ideia de que foi por pressão dos Xuxas. Parece-me que foi o que aconteceu com o Crespo e com a “boca de botox”, por ex.
    É uma tática velha que é utilizada globalmente e tem como expressão máxima o assassinato de opositores políticos (que passam a valer mais mortos) cuja morte será imputada, através dos mérdia, àqueles governos, ou chefes de estado, que se pretende derrubar.
    Mas isto são teorias da constipação, claro.
    Aliás, algém me explica qual é a formação que este senhor tem em economia para andar por aí a mandar bitaites?

  2. Desde o colapso do BES que o Zé do BES fraqueja muito. O ar cabeçudo também não ajuda. O patrão tem que o substituir por outro que bata na esquerda com mais competência,

  3. Não é caso único. João Adelino Faria também rasgou as vestes de jornalista e pôs a mão à cinta para entrevistar André Ventura. De um modo geral, temos melhores políticos do que jornalistas.

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