Marcelo também é do PSD

«Nós respeitamos muito o PSD. Eu próprio fui do PSD. Aliás, a maior parte dos dirigentes do Chega foram do PSD.»


André Ventura

🍊

Ventura é uma invenção de Passos Coelho. O Chega é um braço armado do PSD. Visão excessiva, deturpada? São os próprios, os do Chega e os do PSD, que o assumem, que o gravam na pedra. A rapidez com que Rui Rio se abraçou a Ventura estilhaçou as mais pessimistas previsões dos mais pessimistas acerca desse cenário degradante. O facto de Morais Sarmento, Manuela Ferreira Leite e a totalidade dos dirigentes locais do partido terem declarado o seu apoio, com palavras ou silêncios, à aliança com um partido que agrega e entusiasma inimigos da democracia e dos direitos humanos deixou em estado de choque quem à direita ainda se respeita a si próprio como cidadão de um Estado de direito democrático pertencente à União Europeia.

Contudo, nada há de ilógico no aparecimento de Ventura quando se constata que o seu caminho foi aberto pela elite do PSD e do CDS desde 2004, e a outrance desde 2008. No balanço desses 12 a 16 anos, e mais se poderiam acrescentar, ninguém é capaz de indicar uma singular figura da direita partidária portuguesa que tenha ganhado a mínima notoriedade como paladino das causas dos direitos humanos e do Estado de direito. Se ela existe, rogo penhorado que me corrijam com urgência. E ao apostar que não existe ninguém com esses predicados, com esse currículo, estou a incluir a mole de jornalistas que servem a direita portuguesa, do Grupo Impresa à Cofina, passando pela Grupo Renascença, pela Público, pelo Observador, pela TVI do casal Moniz, pelo DN de outros tempos, pelos cromos direitolas da RTP, e por tantos exemplos ao sabor das mudanças de poder nas administrações e redacções dos órgãos de comunicação social. Ricardo Costa, Manuel Carvalho, José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira, para dar exemplos cabeçudos, revelam nas suas caudalosas opiniões estarem preocupados com o Estado de direito e os direitos humanos? A gargalhada é homérica.

A direita portuguesa é populista desde que Durão Barroso, o homem que jurou em campanha eleitoral ter nascido para ser primeiro-ministro, fugiu para um cargo delirantemente mais apetitoso do que o seu propalado destino de servidor da Pátria. O populismo do tempo e neste nosso lugar, com o seu cortejo de afrontas contra a classe política e contra grupos de humanos tomados como inimigos, não passa de um maníaco processo de diabolização que visa envenenar o espaço público, boicotar a discussão política racional, reduzir a política à moral e com esta criminalizar os adversários. É por isso que Passos é o herói mítico que vai voltar numa manhã de nevoeiro, porque só ele conseguiu aprisionar o dragão que ameaçava o povo. É por isso que Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal são vedetas com romarias e serviços de relações públicas em permanente funcionamento. A corrupção dos malvados socialistas que lhes ganham as eleições, e que tiveram artes para lhes ganharem o parlamento com a medalha de prata, tem consumido a duvidosa inteligência e a abundante pulhice da direita partidária portuguesa.

Marcelo Rebelo de Sousa, em cinco anos de exibicionismo presidencial, igualmente não se mostrou campeão do Estado de direito e dos direitos humanos. Preferiu brincar aos palácios e a um populismo de brandos costumes para a fotografia. Daí ter dado a uma figura sórdida como João Miguel Tavares, alguém que despreza e ofende a República, honras de Estado exclusivíssimas. Daí ter esperado nove meses para falar da morte de um ser humano num aeroporto português por obra e desgraça de representantes do Estado português. Aquele que é, actualmente, o político mais prestigiado da direita portuguesa aparenta ter gozo em ser um estadista com um dos pés no chinelo da indecência.

Donde, Ventura talvez não tenha culpa do que anda para aí a dizer e a prometer. Aconteceu-lhe foi ter entrado para o PSD, num dia de funesta memória. Coitado.

20 thoughts on “Marcelo também é do PSD”

  1. Ventura faz o serviço que muitos outros fazem por toda a parte, no Brasil, nos EUA, na Europa, etc. : trabalhar nas margens para credibilizar as ideias, a ética e os valores da direita pura : individualismo, liberalismo mesquinho ao serviço duma economia onde não se fazem omeletes sem partir pretos, um aparelho estatal reduzido à função de guardar os bens dos mais ricos e malhar em tudo o que possa questionar o sistema, que pretensamente distribui de forma igualitaria entre todos os cidadãos as possibilidades de criar riqueza suficiente para comprar uma moradia no restelo.

    Tem sucesso, não porque preste para alguma coisa, ou porque os tais valores da direita estejam em fase com a época, mas apenas por falta de comparência da esquerda, incapacidade de contrapor de forma exequivel um modelo de sociedade que faça com que as pessoas voltem a acreditar nas virtudes, nomeadamente economicas, da igualdade e da justiça social. E este blogue, inicialmente criado por pessoas de esquerda, é uma muito boa ilustração dessa falta de comparência.

    Boas

  2. assim no bla bla bla bater no peito em público, e a dar espectáculo como o guterres de calça arreada , não me lembro , realmente , de ninguém com essas características , mas conheço muita gente de direita , tipo a sanhora jonet , que se dedicam a ajudar e melhorar a vida das pessoas no real. e de esquerda não conheço ninguém assim , conheço é alguns que vivem à grande e à francesa à conta dos remediados , como o senhor zé socras , enquanto estudam cenas de “direitos humanos”.

  3. “Tem sucesso, não porque preste para alguma coisa, ou porque os tais valores da direita estejam em fase com a época, mas apenas por falta de comparência da esquerda, incapacidade de contrapor de forma exequivel um modelo de sociedade que faça com que as pessoas voltem a acreditar nas virtudes, nomeadamente economicas, da igualdade e da justiça social.”

    tem sucesso porque a esquerda cumpre as regras da democracia e a constituição, se cagassem na liberdade na liberdade de expressão, direitos humanos e constitucionais, como os cheganos fazem, já tinham ilegalizado o chega mais os ranchos folclóricos das verdades dos fachos anti-tudo, processado 1/2 por abuso de liberdade de expressão e a outra 1/2 estava presa por assassínio, roubo, extorsão, lenocínio, tráfico, vigarice e demais modalidades. era mais fácil e saída mais barato ao país que as sucessivas operações alexandrinas de tentar arranjar provas para incriminar o sócras, mas na realidade isso seria impossível por outro motivo de que ninguém quer falar: a captura da justiça, forças de segurança e militares pela extrema-direita. a democracia nunca entrou nos palácios da justiça ou nos quartéis, é ouvi-los a botar faladura, aquilo é deles e não dão satisfações a ninguém, direitos humanos e constituição é coisa que não assiste aos interrogatórios que esta maltósia faz todos os dias. quando são apanhados em falso, andamos semanas a comer discursos reivindicativos, ameaças de rebelião e greve dos dirigentes sindicais das corporações que a comunicação social de direita nos vai servindo. a coisa não é fácil e só lá vai com um pacto de regime para erradicação do grunhismo, mas nisso a direita não alinha porque tem receio de perder a clientela.

  4. O yo, tem o intestino a desaguar no sitio errado! É que dizer, que a Jonet, que se dedica a ajuda as pessoas a viver melhor, é muita merda a sair por essa boca, talvez por não conhecer as origens dessa desprezível figura, da qual, nem sequer sabe, qual o seu rendimento anual, pago pelos contribuintes e sem contar com outros interesses.

  5. Inacio Jonet,

    Não estas a sugerir que acabemos com a liberdade de expressão e com a liberdade politica para combater o Chega, pois não ? So para me tirar aqui uma duvida…

    Boas

  6. “Não estas a sugerir que acabemos com a liberdade de expressão e com a liberdade politica para combater o Chega, pois não ? ”

    Se me permites, ó Viegas: o problema da tua questão é a noção de “liberdade” que encerra: pode-se considerar o recurso sistemático a falácias e a estratégias de desinformação como exercicios legitimos de liberdade ? E não percas tempo a responder-me que isso não é um exclusivo do chega.

  7. MRocha,

    Espera ai, estas a dizer que as estratégias e as falacias não são um exercicio legitimo da liberdade, ou que deveriam ser proibidas por lei ? Os erros combatem-se com argumentos que eu saiba, nunca com proibições ou com censura. Tenho pena mas estar errado e ser idiota são liberdades fundamentais inerentes à liberdade de pensamento… Quem pode defender, sem cair numa obvia contradição, que deveria ser proibido dizer que 2 + 2 = 5 ?

    Ja agora, podemos saber onde esta ao certo a diferença entre o que defende o chega e esse tipo discurso ?

    Boas

  8. E, por favor, poupem-me as objecções do tipo “é legitimo proibir a liberdade de expressão quando ela degenera em apelos a actos criminosos”. Esse ponto não é duvidoso, mas como é obvio que não é disso que estou a falar. Se o chega comete esse tipo de excessos, que seja processado…

    Boas

  9. Viegas,

    A tua visão “libertária” da politica é muito atraente, sem dúvida. O que ela não esclarece é a medida em que contribui para a boa saúde da democracia. Com efeito é muito fácil assumir, como tu fazes, que todos e cada um estariamos equipados com a informação e o conhecimento necessários para o exercicio da critica e a desmontagem da desinformação. Como infelizmente isso não é assim, o resultado prático está à vista: a democracia minada pelas visões exacerbadas dos seus valores. Se eu não tiver informação/capacidade para desmontar e (in)validar os discursos que circulam no espaço público, como caralho é que exerço livremente a minha cidadania e o meu direito de voto ? Dizes-me ? E a quem cabe em primeira linha a obrigação de os salvaguardar senão aos eleitos e aos mediadores certificados ( lei-se jornalistas )?
    Até Solzhenitsyn dizia que não há liberdade sem auto-limitação. E isto depois de “estagiar”no Goulag.

  10. não disse nada disso, mas se quiseres ir por aí o rocha já respondeu e eu acrescento: as leis da república são para cumprir por todos e não há isenções políticas nem descontos para fachos baseados em malabarismos malabarismos semânticos redutores do espírito das leis.
    percebo que o faças como modo de vida de advogado manhoso, mas quem instrui e julga os processos não deveria alinhar nessas cantigas. exemplo: uma caixa de robalos é corrupção e dá 5 anos de cadeia vs legalizar um partido fascista com assinaturas falsas ou inválidas é um acto cívico e dá arquivamento + legalização duma vigarice política.
    podes espernear à vontade as tuas convicções e princípios democráticos que não passas dum defensor de fachos que usam as “liberdades e verdades” para acabar com elas.

  11. Ainda a propósito, um exemplo.

    Boa parte dos concelhos do Alto Alentejo foi recentemente colocado na lista de risco máximo para covid. Pode-se discutir o critério, mas não é esse o ponto. O caso é este: a justificação divulgada ( o racio / 100.000 habitantes ) é publicitado em parangonas sem se dar o devido realce ao facto de se tratar de um rácio e não de um valor absoluto. Como a malta não é ( nem tem de ser…) versada em rácios nem em estatisticas, o resultado está à vista: os meus conterrâneos andam estarrecidos! E falam dos números de Marvão ou do Crato, por exemplo, sem repararem que seriam mais os covidosos que os habitantes !

  12. Portanto, trocado por miudos, v. estão mesmo a dizer que a liberdade de expressão deve ser limitada para impedir a propagação de ideias como as do chega e que isto da lei é muito bonito, mas não deve poder aproveitar aos pulhas nem aos idiotas e aos manipuladores. Existe um unico exemplo de democracia, mesmo extendendo o conceito até muito longe, que acolha esse tipo de ideias ? Devem ser todos estupidos, então, e não perceber que é indispensavel impor limites para impedir os adversarios da nação de atentar à ordem do Estado No…, quero dizer, da Républica.

    Safa !

    Boas

  13. Não, Viegas, ninguém defendeu nenhuma forma de censura. O que se defende é uma cultura de exigência republicana que não manipule factos para produzir percepções deturpadas que depois resultam em votos. Algo que deveria fazer parte das preocupações diárias das redações e de quem regula o exercicio do jornalismo. Bem como das comissões de ética, do TC, enfim, de quem regula a politica, de quem tem obrigação de separar o trigo do joio, para que os paposecos que te chegam a casa não provenham de farinha adulterada, uma vez que, como consumidor, não tens obrigação de perceber de panificação. Capicci?

  14. Se quisesses ter retirado ilacções do exemplo que deixei lá mais acima, Viegas, poderias ter-te perguntado em que tipo de medidas de controlo sanitário votariam os portalegrenses se chamados a decidir a sua relação com Marvão. Em face duma (des)informação que transforma um quarteirão de infectados num lar num rácio por cem mil habitantes ( praticamente toda a população do Alto Alentejo ), que todos os dias acrescenta infectados aos infectados ( esquecendo-se sempre de subtrair os que debelaram a infecção) , que assume como “doentes” todos os positivos (como se a maioria não fosse assintomática e por conseguinte nem doente se pode considerar) , que atribui ao covid o estatuto de “causa” de morte de nonagenários ( como se a velhice já não fosse causa de morte ) , etc, etc, tens a certeza que o povo não votaria pela “cerca sanitária” a Marvão , quiçá pelo abate dos contaminados e coabitantes como se fossem ” vacas loucas” ?
    As instituições duma Republica têm responsabilidades pedagógicas que manifestamente não se cumprem pelo exercicio do laissez-faire que promoves.

  15. MRocha,

    “Não, Viegas, ninguém defendeu nenhuma forma de censura. O que se defende é uma cultura de exigência republicana que não manipule factos para produzir percepções deturpadas que depois resultam em votos”.

    Concordo plenamente com isso.

    Mas o que digo, e que me parece importante, é que a cultura de exigência passa necessariamente pelo livre exercicio do sentido critico de cada um. Por definição. Aceitando que as falacias podem ter um certo poder de sedução, sobre os néscios e não so (e poderia dar muitos exemplos disso em comentarios publicados neste mesmo blogue), a proibição, a restrição ou a desvalorização com argumentos de autoridade é totalmente contraproducente. Não so é uma forma ilegitima de as desqualificar, como acaba por torna-las mais sedutoras ainda. Eu sei que é dificil e que às vezes apetece baixar os braços, mas o que faz a diferença, é mesmo a massa critica. Foi precisamente o que eu quis dizer no meu primeiro comentario. Não vale a pena tapar o sol com a peneira. Se o chega tem popularidade, so pode ser por incompetência, ou inapetência, daqueles a quem cabe combater as falacias perigosas que ele veicula. E repara que me incluo clara e inequivocamente nestes ultimos.

    Boas

  16. “…é que a cultura de exigência passa necessariamente pelo livre exercicio do sentido critico de cada um.”

    E achas mesmo, Veigas, que todos e cada um temos bagagem ( informação,literacia, mundividencia, o que queiras …) para o livre exercicio do sentido critico ?!

    Colocada esta questão, devo também dizer que subscrevo sem reservas a tua conclusão. Porém, contudo, no entanto, não aceito equiparar a minha ( ou a tua) responsabilidade a outras, como seja o Conselho de Redacção da RTP ( só para dar um exemplo…).

    Salut !

  17. OK. Uma pequena discrepânia ainda : Se calhar, não temos todos a mesma bagagem mas, se não quisermos imaginar um sistema de menorização duma parte da população, que francamente não vejo como poderia ser aceitavel, teremos de assumir que cabe a todos nos, e especialmente aos que se consideram mais dotados, velar pela boa e completa informação da massa critica. Volto a frisar que é exactamente este o proposito do meu primeiro comentario.

    Quanto ao resto e à responsabilidade especial dos orgãos de informação, e dos jornalistas, OK.

    Boas

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