Ana Gomes só terá uma oportunidade

A entrevista de Ana Gomes na RTP, ontem, serviu para mostrar não só a inutilidade como o erro desta candidatura – dito de forma mais clara, não só o erro como a inutilidade da sua candidatura. Por mim, não faço a menor ideia do que a esteja a motivar que se possa relacionar com o bem comum e o interesse nacional. Nesse sentido, parece-me uma intervenção política análoga à de Soares em 2006 e à de Alegre em 2011, exemplos de desvarios estratégicos crassos da esquerda, absurdos eleitorais nascidos daquilo que na política é tão-só humano e demasiado humano.

Infelizmente ou felizmente, não vejo como é que a sua campanha se poderá salvar porque, nesta altura do campeonato, a sua marca deu um nó cego a si mesma. Ignora-se o que representa para além de uma postura relativista, publicitária e circense “contra a corrupção” donde apenas se consegue perceber que aprova crimes desde que sejam contra uns tipos que ela não grama, e também que a investigação a Sócrates serviu para descobrirmos que o dinheiro que “se dizia” que era da mãe afinal não era, pelo que já deviam ter prendido o homem por qualquer coisa faz tempo, sugere enfastiada. O cenário é tão confuso e inane que ela estaria agora em melhor posição caso tivesse mergulhado de cabeça no populismo mais sensacionalista em vez de, como ontem vimos, andar a exibir-se num fato que não lhe serve: a de estadista que está em condições de ir jurar defender o regular funcionamento das instituições democráticas – ou seja, defender o Estado de direito democrático como mais alta magistrada da Nação.

Pelo que só dispõe de uma oportunidade para sair do actual posicionamento irrelevante e passar para a frente da notoriedade e das escolhas de uma larga fatia de cidadãos, um eleitorado transversal aos diferentes quadrantes ideológicos que não tem quem o compreenda. Uma e só uma oportunidade. Aquela que irá ocorrer numa sexta-feira do próximo Janeiro, daqui por 16 dias. Ali chegada, Ana Gomes tem de se sacrificar pelos mais altos valores em que calhar acreditar e transformar-se num kamikaze apontado ao porta-pulhas que navega a cada vez maior velocidade nas águas da direita decadente.

Como? Provavelmente, não terá ninguém ao seu lado para a orientar. Antecipo até que os conselhos dos seus generais e tenentes sejam para ir na direcção oposta, recusando o choque. Fugindo do combate. Fingindo que não ouve as provocações sórdidas do novíssimo delfim de Cavaco e Passos. Só para tentar dizer uma ou duas coisas “de esquerda”, da tal “esquerda pura e verdadeira” ao gosto dos seus apoiantes mais mediáticos, uma esquerda que até neste PS sempre à direita da revolução é uma raridade (é assim que ela pensa mas tudo aguentou, inclusive no tenebroso período socrático, em nome do heróico trabalho que deixou feito em Estrasburgo). Se for este o plano, Ventura sairá vencedor. Porque Ventura vai entrar vencedor, e vencedor estará ao longo de todo o debate. A menos que…

A menos que Ana Gomes decida fazer da aniquilação política, em duelo, desse seu adversário o singular objectivo da sua participação nestas presidenciais. Se entrar atingindo-o nos centros vitais da sua retórica fascistóide e desumana logo a partir da sua primeira intervenção, fazendo da humilhação moral de quem explora as fraquezas dos mais fracos o assumido propósito do confronto, e só se calando quando apagarem as luzes do estúdio e os seguranças a retirarem à força em braços, então algo decisivo para a defesa da cidade terá sido alcançado. E o debate com Marcelo, no dia seguinte, será um desfile triunfal.

11 thoughts on “Ana Gomes só terá uma oportunidade”

  1. A Esquerda desunida vai mais uma vez ser vencida…
    É assim desde o fim da guerra mundial do século 20… por isso a direita e o fascismo espreita, com um sorriso confiante nos lábios…

  2. Penso que tal candidatura é, sobretudo, motivada pelo ressentimento um pouco como a de Alegre mas não a de Soares que me pareceu uma candidatura, precisamente, mais como reconciliação da família PS.
    Mas Ana Gomes é o tipo de gente que tudo na política com o qual ela discorda acha que é o seu pensamento o único certo; daí decorre que se vê como a melhor para qualquer cargo e caso não lhe reconheçam essa capacidade superior única e lhe recusem o cargo que ambiciona o ressentimento fode-lhe o juízo.
    O Sócrates não a nomeou ministra do negócios estrangeiros e foi o que foi. O Costa também não reparou nas suas qualidades únicas e ainda por cima foi apoiar o marcelinho troca-tintas e é o que é.
    Apoia o pintainho assaltante digital de casas de outros, não obstante as provas concretas, enquanto acusa um seu correligionário eleito PM pelos portugueses sem ter provas algumas. E logo ela que em Bruxelas, paga pelo orçamento europeu, corria o mundo conhecido à procura de documentos comprovativos de casos de corrupção no caso do PM do seu partido nem precisa de provas nem sequer de procurá-las.
    Tal tipo de gente é perigosa e muito mais quando se trata de Chefe Supremo das Forças Armadas e da Nação; são possuídas de ressentimento pessoal por ninharias que as tornam duma casmurrice intragável e destrambelhamento intelectual que rapidamente podem conduzir o país à anarquia, a grande inimiga platónica da democracia.

  3. Deixo de lado a regateira, cuja sorte me é indeferente. Maldosos como PR ,já tivemos um e as saudades não abundam.
    Porque não leio em lado nenhum que foi em Torre Bela que se passou o último acto da Reforma Agrária ?
    Por respeitinho ao genial António Barreto?
    As privatizações têm sempre que acabar em mortandade ? Parece que sim,a avaliar pelos Bancos…

  4. Ana Gomes não é candidata a Presidente da República. Meteu os papéis porque precisa de visibilidade para os seus objectivos pessoais. Sabendo ela, de antemão, que o PS não a ia apoiar enquanto partido (oh Costa, põe-te a pau com a senhora) as suas hipóteses de ganhar ao Marcelo eram nulas.
    O que Ana Gomes pretende é tomar o PS para virar o seu partido à esquerda. É tal como disse um comentador atrás: o MRPP nunca saiu de Ana Gomes.
    Ana Gomes é o contraponto a Fernando Medina, eventual sucessor de António Costa. Pedro Nuno Santos perdeu terreno na sucessão.
    Alguns no PS tem consciência desta perspectiva. Daí a inquietação em alguns barões desse partido, quanto a decidirem se apoiam ou não Ana Gomes, sempre a título individual, mas arrastando algumas bases. Esta lutadora tem memória e caso tome conta do PS recordará quem a apoiou e que não apoiou. E não perdoará.

  5. Marcelo já tem o segundo mandato no papo, porém,

    Uma coisa é Marcelo ganhar à primeira com +50%
    Outra coisa é Marcelo ir à segunda volta com Ventura
    Outra coisa é Marcelo ir à segunda volta com Ana Gomes.

    É triste ver socialistas que aparecem por aqui desejando a primeira ou a segunda opção, que só podem encorajar a direita a apoiar o Chega nas próximas legislativas, o que significa mais uns pregos no caixão do CDS e do PSD… será que esses socialistas preferem o Chega ao PSD/CDS? Na República e Weimar foi o que aconteceu, e deu no que deu…

  6. A Ana Gomes de esquerda?
    Uma gaja que mediou um encontro entre o mordomo da cimeira das Lages- o seu amigo pessoal Durão Barroso, aka Cherne- e o, então, Sec. geral do PS Ferro Rodrigues, para manter o partido afastado das manifestações de repúdio à invasão do Iraque?
    Manifestações estas que estavam a ocorrer no próprio dia e contavam com a participação de milhares de pessoas, incluindo o próprio Mário Soares.
    Não me canso de lembrar este episódio. Desculpem, mas o pessoal sofre mesmo de amnésia.
    A mulher é uma nódoa.
    Salvo a justa “acusação” ao Portas no caso dos submarinos, ela tem uma sanha maior contra o PS.
    Lembram-se quando ela se uniu ao Coelho do PSD para acusar e tentar entalar o governo PS por causa dos voos da CIA que foram acordados pelo Cherne?
    Ah, já agora, também vou votar no João Ferreira e o idiota do Ventura é o que é graças aos mérdia que o promovem.

  7. Penso que a Ana Gomes, na entrevista à RTP, deu pela primeira vez a resposta certa, estilo “não contribuo para esse peditório”, quando J. Adelino Faria insistia na” magna questão” da diferença de votação com o Ventura. É que era (é) uma questão da agenda de propaganda lançada pelo Chega. E o que é incrível é que sejam os media a promover continuamente o Ventura, a propósito de tudo e de nada, como se ele fosse o alfa e o ómega da política.
    O erro fatal de Ana Gomes foi, desde sempre, ter como bandeira principal, quando não a única, o”combate à corrupção”, nos moldes de direitolas europeus e americanos, que chacinaram políticos eleitos, mas não os verdadeiramente senhores do dinheiro e as mafias.

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