Psiquiatria política no Eixo do Mal

Pedro Marques Lopes - [sobre a acusação do MP a Rui Moreira com pedido de perda de mandato] Acho estranhíssimo que seja feito exactamente no ano eleitoral, acho muito estranho. E estas acusações que parecem fabricadas... Vou repetir, fabricadas... Que me dá a sensação que são feitas para dar uma espécie de... que há uma campanha contra os ricos e poderosos, é inacreditável [...]

Daniel Oliveira - Deixa-me só dizer uma frase sobre isto. Dizer que eu não sou fã de Rui Moreira, acredito na presunção de inocência do Ministério Público, o Ministério Público não é culpado até prova em contrário - este calendário é impensável... Isto começa a ficar demasiado repetitivo, começa a ficar demasiado repetitivo!... Começa a ser demais, começa a ser demais!

Luís Pedro Nunes - O Ministério Público parece que tem uma agendinha... Que é: agora este, check; agora este, check...


Eixo do Mal, a partir de 45:50

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Pedro Marques Lopes fez um pedido que qualquer cidadão lhe deve agradecer. Pediu para que, a propósito de um caso que o deixa indignado, partidos, Governo e Presidente da República investiguem, apurem, intuam se no Ministério Público há agendas políticas a condicionarem o nascimento, o conteúdo e/ou o calendário de certas acusações. É um pedido que vai ficar sem resposta porque a evidência recolhida desde, pelo menos, 2009 mostra que Presidentes da República, Governos e partidos com assento na Assembleia da República convivem adaptados com a realidade de existirem acusações cujos calendários, conteúdos e origens radicam ostensivamente nas agendas políticas dos procuradores responsáveis pelas mesmas – tudo legal, tudo dentro da sua críptica e inescrutável “autonomia”. A inimputabilidade é tal que quem quiser ver o Estado de direito democrático a ser respeitado na Procuradoria-Geral da República deve começar por fazer o testamento pois irá para uma batalha donde não regressará com futuro político viável. O poder das corporações da Justiça – e dos poderes políticos, económicos e fácticos que lucram com os crimes dos magistrados e dominam a paisagem mediática – de imediato esmagarão esses insanos atrevidos. Exagero? Não quando um fulano que promove as fugas ao segredo de justiça como necessária medida para atacar políticos cuja perseguição lhe enche os bolsos é coroado como símbolo vivo de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O Pedro tem a admirável vantagem nestas matérias de ser coerente e muito corajoso; ou seja, de parecer íntegro. Contra o ódio político dos seus pares de filiação partidária, contra o ódio ideológico da direita a que pertence nem que seja para se diferenciar do PS, e contra o ódio da turbamulta vítima do populismo do tempo e de todos os tempos, ele sempre conseguiu verbalizar no espaço público que o inimigo nº 1 do País, Sócrates, tinha direito a um julgamento justo. Daí, ao falar de Rui Moreira, e apesar de se anunciar seu amigo, a sua honestidade intelectual e autoridade cívica permanecem intactas.

Igual não se ouve nem se lê nos seus dois companheiros de programa, acima citados, que são pagos para dizerem que a culpabilidade de Sócrates não carece de tribunais para ser concretizada. Basta-lhes a sua deslumbrante cachimónia. Daí que as declarações destes dois melros em Dezembro de 2020, subitamente alvoraçados com o mesmo que têm visto ser feito ao PS há mais de 10 anos para seu próprio gáudio comentadeiro e produção neuronal de sentenças transitadas em emporcalhado, mereça registo. É especialmente engraçado ver o Daniel Oliveira a exclamar que agora, com o Rui Moreira, se chegou ao limite. Até aí, palavras dele, estava tudo bem. Porém, se a ideia é que o PS deixe de ter o exclusivo da atenção dos carrascos do Ministério Público, então alto e pára o baile. É que este Daniel, quando não está a ensinar ao BE como descer nas sondagens e a fazer coro com os direitolas para o abate de ministros socialistas, é um vero herói do Estado de direito. Nem dorme a pensar nele.

Dois pesos e duas medidas, relativismo moral, ambiguidades identitárias, vieses cognitivos os mais variados, pois claro. Tudo isto é ancestralmente humano, inevitável na política e na política-espectáculo onde estes artistas se divertem e ganham o seu. Mas há uma figura no elenco que arrasta o programa para o campo psiquiátrico, a Clara Ferreira Alves:

«O Sócrates pôs o País com uma mão à frente e outra atrás. Toda a gente sabe que o Sócrates tinha um lado profundamente lunático. Pronto, mas isso já está adquirido.»
[silêncio de todos os outros participantes] – Minuto 8:20

Ora, eis que aqui temos num simpático programa de cavaqueira desopilante a tese do ódio a Sócrates no seu grau mais alto de pulhice. Não só Sócrates surge como o actor individual que se pode singularmente destacar e acusar pela entrada da Troika em Portugal, sem que para tal seja preciso indicar um único facto explicativo, como a causa é atribuída a uma patologia, o lado “profundamente lunático“. Isto significa que o emissor da mensagem não reconhece no seu sujeito enunciado a capacidade para se responsabilizar pelos seus actos, merecendo ser afastado da convivência normal com os restantes cidadãos dado estar a carecer de tratamento médico sob pena de voltar a causar os males do passado, esse “isso” que “já está adquirido“. O silêncio do pessoal circundante face ao enésimo acto de contrição que a Pluma Caprichosa exibe na pantalha, seviciando-se com esgares de dor por causa de uma entrevista que a irá atormentar até ao fim dos seus dias e mais umas eternidades além, é um incontornável momento psiquiátrico para todos os responsáveis pela emissão. É que, caso não saibam, quem despacha diagnósticos de loucura contra terceiros via TV está a precisar – e com urgência – de marcar uma consultazinha da especialidade.

2 thoughts on “Psiquiatria política no Eixo do Mal”

  1. Eles, coitados são tão engraçados, mas claro, só dizem baboseiras, pois no reino real, reinam os vilões sem diploma que um dia serão todos levados, para o tal sitio que todos sabem, pois. :P:D

  2. Tudo indica que estes tretas brincalhões com coisas sérias, possuidores não de dúvida céptica ou metódica mas, sobretudo e à grande, de “duvida política” afinal também têm amigos.
    E não amigos familiares de infância e escola primária, ao invés, têm amigos de oportunidade; têm sobretudo ‘amigos da onça’.
    É vê-los defenderem agora o cacique nortento como já antes defenderam os patrões da EDP em defesa do cabeçudo Pedro Nunes. Quanto à clarinha, essa geringonça destrambelhada sem tino, ela sim, é um caso desesperado de tratamento por colocação de freios para cataventos.
    Tanta confiança e certezas que dedicaram sempre e deram mostras acerca da bondade e justeza do MP quanto a determinado caso e, de repente, abrem-se buracos pretos em suas inabaláveis certezas.
    De repente descobre-se que afinal também se socorrem de amigos e, no seu caso, de amigos de ocasião; afinal pior que o juiz Alexandre que escolheu um amigo de trabalho.

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