Surpresas da jornada

João Ferreira bem concentrado no marketing. Continua é a falhar na parte do domínio emocional, o que lhe tira charme liberal. E o seu posicionamento mais favorável é esse, o de parecer não sectário – caso queira, como parece querer, ter votos de quem não é militante do PCP.

Ana Gomes a confirmar que a necessidade (de parecer apoiante do PS) lhe aguça o engenho (de parecer apoiante do actual Governo), quando na verdade o projecto de Ana Gomes é pessoal (ela apenas apoia a sua carreira). Fez o mesmo com Sócrates, mantendo um discurso que alimentava as campanhas negras contra o seu próprio partido para explorar o populismo do tempo e demais ressentimentos pessoais, e aparecendo no período eleitoral para o Parlamento Europeu com os clichés de apoio mínimo ao Governo e PS de então. Carece de um acto heróico para provar que defende a cidade décadas depois do triunfo na causa timorense.

Tiago Mayan transformado de domingo para terça-feira na revelação política do ano. De alguém que bolçou uma barbaridade, e que andou aos papéis com Marcelo, deu um salto quântico para ser o primeiro político português a dizer na cara do Ventura que ele é indecente, é mentiroso, é arrivista. E fê-lo com convicção e estilo – a semente do carisma. Claro, estamos todos a sobrevalorizar a sua prestação por causa da baixa expectativa a seu respeito e movidos pelo desejo de humilhação, castigo, contra Ventura. Mesmo assim, abre-se uma nova expectativa que os próximos debates irão clarificar se se confirma ou desvanece. A jura de nunca se aliar ao Chega é relevante o suficiente para lhe marcar o destino político, para o melhor ou o pior, pois de caminho está a recusar todo o cavaquismo e todo o passismo que ainda dominam a direita partidária, mediática e fáctica.

André Ventura a mostrar que os seus limites retóricos são tão-só os que aplica nos chiqueiros do futebol e os que aprendeu na Feira da Malveira e na taberna (nada contra as tabernas, pelo contrário). Ir com ele para esse terreno é perder credibilidade ou perder tempo. A técnica a aplicar para quem o pretenda afrontar e denunciar, expor, é antes a da clarividência implacável a seu respeito assim que ele se cala.

Marisa Matias a confirmar que se meteu nisto com a solitária intenção de prestar um serviço ao BE, não entusiasma porque não está entusiasmada. É pena porque se trata de uma excelente presença política que assim deixa murchar o seu apelo.

Tino de Rans a confundir o comentariado que o trata como populista-simplista. Acontece que lhe serve melhor a categoria de “ruralista” pois ao que assistimos é a uma genuína exibição da sofisticada cultura folclórica que ainda é laço social tanto no interior como em camadas e bolsas urbanas – até por estar ligada com a desigualdade e a pobreza remediada ou extrema. A sua prestação frente a Ventura foi de uma densidade alegórica e subtextual que não temos memória de ver em debates políticos. Caso ele conseguisse limar arestas na sua aparência e prosódia, que são fonte de distração e incómodo, um renascimento da sua popularidade seria mais do que justo, era benéfico para a comunidade.

11 thoughts on “Surpresas da jornada”

  1. “seria mais do justo, era útil à comunidade” (última linha)

    Queres dizer “mais do QUE justo”, penso eu de que.

  2. Esta Aspirina faz-me bem, areja-me logo que acordo. A propósito obrigada por me terem incluído nos endereços de pessoas interessadas em tomar o medicamento.

  3. Boa súmula, Valupi. Não tinha visto, mas fui ver o Ventura de ontem contra o Mayan. O Mayan ainda está muito verde e inseguro, apesar de ter irritado e atrapalhado o Ventura, que não conseguiu “cantar de galo” e foi obrigado a proclamar mais alto as alarvidades habituais, tornando-as ainda mais alarves.

  4. G_L+Lucas Galuxo, great minds e etc. Abraço
    __

    Mjp, cuidado com a sobremedicação.
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    Penélope, sem dúvida, está muito verde e não causaria qualquer surpresa que desaparecesse de cena depois das presidenciais, tamanhas as suas fragilidades. Mas veio precisamente dessa condição o espanto de o vermos subitamente, contra todas as expectativas, a lidar com o Ventura com uma força moral e uma inteligência dialógica que ainda não tínhamos visto aos jornalistas que com ele polemizaram nem vimos ao João Ferreira, estrela em ascensão, ou em confirmação, no PCP.

  5. o mayónaise não se irrita porque não tem por onde se irritar, é igual ao outro que fala por cima, caga nos insultos e passa à frente com argumentos de merda, tipo “benfica” como faz o outro que aparentemente o incomoda por ser racista. não se coliga com o chega, mas faz parte da coligação açores “em favor dos açorianos”. são da mesma raça, mas de matilhas diferentes na disputa do mesmo osso. mas enfim, há uns tótós que ficam empolgados quando ouvem um aldrabão seduzi-los com bandeiras de esquerda. o gajo deveria ter ficado grato ao ventolini por lhe chamar esquerdalho & comuna, pode ser que pinguem mais uns votos dos tótós instisfeitos com a esquerda.

  6. No outro campeonato, o dos jornalistas, Carlos Daniel vai muito à frente dos seus colegas. Seguro, bem preparado, bom verbo, equilibrado, educado, incisivo, sem manias, sabendo controlar o debate, neutro. Ainda há jornalistas a sério nesta praça.

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