No princípio era o Logos não o povo

A democracia precisa da persuasão e suas técnicas. Nas monarquias, timocracias, oligarquias, tiranias e aristocracias a persuasão é secundária ou complementar. Nas democracias a persuasão é central para o seu pleno cumprimento como sistema político onde se pode escolher livremente entre diferentes candidatos com igual legitimidade política. Mas a persuasão continua a ser essencial depois de se conquistar o poder pois, se a democracia se continuar a cumprir como liberdade, as possibilidades políticas da comunidade vão sempre depender do diálogo entre os eleitos e os eleitores, entre os governantes e os cidadãos, entre os representantes do soberano e a comunidade soberana – ou seja, não vem da filosofia ou da ideologia mas da persuasão a relação entre os agentes políticos e a audiência, assim se estabelecendo retoricamente o que fica como a própria realidade política e seus possíveis tipos e modos de concretização.

Que vemos nos debates televisivos presidenciais? O mesmo que Aristóteles viu e tematizou dois mil e trezentos anos antes da invenção da televisão. Que no discurso persuasivo há três dimensões de eficácia: Logos, Ethos e Pathos – os argumentos, a personalidade do orador e as emoções da assistência. Qualquer das dimensões pode gerar um efeito de persuasão na audiência ou públicos-alvo. As incontáveis e aleatórias circunstâncias levam, ao longo da História das democracias, a que as fórmulas usadas pelos agentes políticos sejam ilimitadas misturas das três facetas do poder retórico ao dispor dos políticos. O que não muda, sequer numa civilização mediática e digitalizada como a nossa, é a evidência de que uma comunidade política se fundamenta na opinião. E em mais nada.

As nossas opiniões formam-se por mecanismos automáticos que não controlamos a não ser retrospectivamente. Podemos gostar de um político porque os nossos pais também gostam, porque parece mandão ou simpático, porque é da nossa idade ou género, porque é giro ou carismático, porque defende ideias que nos são queridas, porque é o mal menor, porque sim. Há políticos que nos tentam comunicar raciocínios a que dão muita importância, outros esforçam-se por mostrar que são mais sérios ou mais puros do que a concorrência, outros apenas querem ver a cidade a arder na fogueira dos afectos mesmo que estes sejam irracionalizantes, animalescos, fanáticos.

Embora estas três dimensões da persuasão pareçam equivalentes nisso de se poder atrair ou convencer alguém a partir de cada uma tomada na sua singularidade, há uma estrutura interna que se organiza hierarquicamente na tríade. A democracia é uma ideia altamente sofisticada que exige complexas abstracções prévias à sua aceitação política e social. O conceito decisivo na arquitectura do sistema democrático é o de “lei”, ao contrário do que os demagogos e populistas apregoam na sua retórica. Para as tiranias e oligarquias o poder vem da força, e a força fica como a “lei do mais forte”. A democracia nasce na Grécia quando o confronto entre os grupos sociais detentores da terra e os que ocupavam as cidades levou os legisladores a começarem o longo e sempre incompleto processo de colocar num exercício meramente intelectual toda a força política que estava nos braços e nas armas. É deste movimento tectónico que surge um modelo de convivência entre desiguais que reduz a potencial violência destruidora da comunidade ao instituir uma igualdade: a democracia, garante de que a lei passa a ser mais forte do que os mais fortes. Logo, primeiro é o Logos; também para os democratas de todos os cantos e calendários. A democracia estabelece na “polis” que o “povo” tem o poder mas não para que aqueles que calhem ocupar esse poder o usem para se considerarem superiores à lei. Isso tem outro nome, chama-se oclocracia.

Ontem vimos um debate com um candidato presidencial para quem primeiro é o Pathos. Toda a sua técnica retórica, copiada ao nanómetro de Trump, consiste em boicotar a racionalidade dos adversários recorrendo ao abuso das regras combinadas e à violação dos princípios do respeito pelos adversários e pela comunidade. Para os seus apoiantes, esse candidato venceu o debate com facilidade. Esses apoiantes estão igualmente blindados para ignorarem qualquer demonstração das incoerências, falhas morais e mesmo eventuais crimes do seu ídolo. Trump resumiu brilhantemente este efeito quando verbalizou na campanha de 2016 “I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody and I wouldn’t lose voters“, pelo que a dimensão do Ethos não lhe fará perder qualquer apoio, digam e mostrem os adversários o que quiserem. Como debater com ele, então?

Como é de manual na persuasão, começa-se pelo produto. O produto, por si mesmo, impõe constrangimentos ao leque de estratégias e tácticas possíveis. Assim, o produto João Ferreira não pode defender o capitalismo, para dar um exemplo crasso. Todavia, esse candidato podia ter pensado na primeira pergunta inerente a um plano eficaz de persuasão: com quem quero falar? Fará sentido querer falar com os actuais apoiantes do coiso? Não será melhor falar para indecisos? Mas quem será essa gente que está indecisa face a quem se declara inimigo do 25 de Abril? Resolvida esta questão, vem de imediato a segunda: que quero dizer à audiência escolhida? A partir daqui, as estratégias e tácticas estão finalmente em condições de serem desenhadas. Ora, no seu debate com Ventura não foi possível descobrir uma coisa ou outra. A testosterona não foi devidamente canalizada para a prudência, resultando num favor a quem depende da política como patologia social. Esta é a mais valiosa lição do que se passou, podendo ser aplicada idiossincraticamente pelos restantes candidatos. Não está, pois, em causa encontrar uma panaceia universal para enfrentar a invenção de Passos Coelho e o mais recente amigalhaço de Rui Rio, este momento supremo da decadência da direita portuguesa. Há é que reler Aristóteles e agradecer ao destino ter a oportunidade de fazer algo verdadeiramente democrático: defender a liberdade e os direitos humanos contra um oclocrata.

15 thoughts on “No princípio era o Logos não o povo”

  1. a grande vantagem relativamente às armas e força beneficia em exclusivo a classe politica pq antigamente , no tempo dos homens de barba rija, a cena não se resolvia com caricaturas de revoluções , “populismos ” e falsos oclocratas ( o ventura já tirou alguma vantagem de algum negócio estatal ou parecido? , não pois não? ) era à chapada, o que trazia vantagens para o povo pq sempre limpavam o cebo a bastantes , o que não ocorre agora , em lugar disso ainda temos de lhes pagar pensões douradas.

  2. Não hà nada debater com semelhante sujeito ,o melhor a fazer é ignorar o sujeito que está a falar para as bases do CDS e PSD que estão viuvos do Passos ,porque o Rio não tem cabedal para os direitistas ,estão fartos dele e veremos nas votações para as presidenciais onde não penso votar.

  3. Há quem acredite na força das palavras; nos queda la palabra,dizia Rafael Alberty, após a entrada,sem oposição,das tropas franquistas em Madrid…
    É da História que quem conseguia mais conversões entre os indígenas no Brasil, era,de muito longe,o padre Manuel da Nóbrega, homem de tal maneira gago que nem os seus companheiros portugueses o percebiam.
    Não é a palavra que convence: cantas bem mas não me enlevas, é ditado velho e justo.
    O que convence é a vida de quem temos pela frente,o que ele fez,o que conseguiu,por quem se bateu,por quem sofreu e sofre!
    Tragam-me cá o mais melífluo e melodioso canário do FMI, só para ver se ele me põe a pensas como ele.
    Juízo !!!

  4. Magnífico texto.
    Por mim, a condução dos debates também tem muita influência. Ora vemos moderadores que propõem temas secundários só porque são “do que se fala” – e não as questões de fundo, cuja opção importa conhecer. E depois de se desperdiçar o tempo com lana caprina, o debate tem de andar a cem à hora, porque se esgotou o tempo. Noutros casos, como o de ontem, o moderador permite que um dos entrevistados interrompa constantemente o outro; falem os dois ao mesmo tempo, tudo se transforme em apenas barulheira. O moderador tem de impor alguma disciplina para impedir a algazarra. Nem que seja como no segundo Biden-Trump, em que houve o recurso de desligar os microfones.
    A extrema-direita vive de ideias feitas, simplistas, e há que, além ter uma boa técnica de combate verbal, obrigar os populistas a apresentar soluções. Ou então, como aqui é sugerido, ignorar as provocações e falar para os indecisos.

  5. Neste debate (que vi apenas nos excertos dos noticiários) de estilo algazarra entre dois oponentes faz-me pensar numa discussão entre dois irmãos acerca de uma herança.
    Ambos querem o mesmo mas sob modelo e forma diferente; ambos são radicais ideologicamente extremados que lutam e fazem propaganda por um movimento oclocrata que possam cavalgar, comandar, tomar o poder e dirigir posteriormente segundo um totalitarismo, mais ou menos primário e bárbaro.
    Ambos sonham com um levantamento de massas; um com as massas de trabalhadores alienados e explorados e outro com as massas de ressentidos, falhados políticos, falhados da vida corrente, aventureiros incompetentes, excluídos por incapacidades, lumpen, heróis de rua, etc.; um de forma orgânica sob uma ideologia centenária enraizada, experimentada e falida que se quer renovada para nova hipótese e outra de forma anárquica, de massas de rua avulso e inorgânicas sem conteúdo ideológico e sem sentido político definido além de serem “contra tudo” que facilmente serão tomadas de assalto pelos populistas oportunistas.
    Como ambos pensam segundo o mesmo sonho de tomada de poder não há diálogo possível de modo a haver espaço para actuar segundo a persuasão e apenas resta uma algazarra de acusações mútuas que tem como alvo a democracia que ambos detestam obstinadamente.

  6. Ò rico Neves, explica cá à malta como uma teoria científica pode ser destruída sem prova que efetivamente a invalide. Não caminhes para o grupo de cretinos que fazem condenações sem provas. Só fazem rir e cheiram ao que são. Seria uma pena vêr-te no grupo….

  7. Abraham Chevrolet, explica a que teoria científica te referes que eu não referi nem entendo a tua referência a tal.

  8. Morde aqui, ò Neves, a ver se eu deixo! Não vou chamar para aqui a prática do renegado Kautsky e a linha justa de Ulianov… Isso é o que a direita,o Ventura e todos os seus aliados quereriam ! Estamos em tempo de unidade,que até os burros percebem ! Não quero chamar burra à Catarina,o problema dela é pensar ser mais esperta que os outros!

  9. Abraham Chevrolet não tens necessidade de te defenderes com palavreado de putas e das redes sociais porque eu não te provoquei pessoalmente em nada.
    Só tens de explicar, ou ao menos denominar, a que “teoria científica” te referes que eu, francamente, desconheço e gostava de conhecer já que a referiste.
    E voltas a baralhar-me chamando ao caso, a despropósito, Kautsky, Ulianov (Lenine), a Catarina e o Ventura (este faz parte do caso em discussão mas é citado fora do assunto).
    Fala-me dessa “teoria científica” que citas e de caminho, já agora, do que entendes da minha pessoa para me aconselhares que “Não caminhes para o grupo de cretinos que fazem condenações sem provas.”
    Quais condenações?

  10. Há que mudar as regras destes debates das presidenciais, que são totalmente disfuncionais quando entra em cena um regateiro, um troglodita ou um provocador.
    1. Introduzir relógios semelhantes ao do xadrez, com mostrador grande e luminoso bem visível pelo público. Quando cada cada candidato acaba uma intervenção, pára o seu relógio e automaticamente activa o do oponente.
    2. Os candidatos só podem falar quando o seu relógio estiver activo, mostrando uma luz verde. Quando o seu relógio exibir uma luz vermelha, o candidato não pode falar e fica com o microfone desligado. Assim toda a gente fica a saber quem interrompe quem.
    3. Quem intervier, mesmo sem microfone, durante o tempo do oponente, à primeira sofre um castigo de 5 minutos do seu crédito de tempo, à segunda é desqualificado e convidado a sair da tribuna.
    4. Quando cada candidato esgotar o seu crédito de tempo, é convidado a sair da tribuna.
    5. Estas regras só serão utilizadas quando pelo menos um dos candidatos o pedir. Quando ninguém o pedir, segue-se o figurino civilizado tradicional.

  11. Para os debates em caixas de comentários terá de se inventar outra coisa. Talvez boa educação sirva.

  12. Neves: agora tem de ser! Dá lá dois ou três exemplos de palavreado de puta, só para ver se é o que estou a pensar…
    Há dias mais proveitosos que outros,mas pouco a pouco vamos combatendo a ignorância, coisa maldita, que não nos larga!

  13. Abraham Chevrolet, o que dizes ao iniciar o comentário das 18:21 considero-o conversa de bordel e não me recordo de outro.
    Penso que era perfeitamente dispensável para podermos dialogar serenamente.
    E se não queres explicar a “teoria científica” a que te referiste, compreendo.

  14. Chego um pouco tarde à posta, mas gostava de deixar o meu bitaite, independentemente de considerações académicas e filosóficas mais ou menos eruditas.
    Não gostei da moderação que foi propositadamente (tenho a certeza) benéfica para o vendedor de banha da cobra.
    O João Ferreira lançou as ideias que pôde e são as únicas que me interessam:
    O vigarista ex (?) PSD quer reduzir o estado e a representação parlamentar a algo muito residual e quer, básicamente, privatizar o que resta das instituições públicas, principalmente a joia da corôa que é o SNS.
    Como presidente, irá minar tudo o que forem iniciativas de manter o controle público a favor da venda aos tubarões do costume. Para além de ser contra uma constituição que iria ter que jurar defender (hã?)
    Não vejo distinção entre a matriz ideológica deste palhaço de direita em relação aos demais palhaços como Rio, Chiquinho, etc, etc.
    Os mérdia estão a promovê-lo para que seja o ventilador desta direita moribunda.
    Além disso, o João Ferreira aludiu ao obscuro financiamento desta fraude política. Alguém pegou na deixa?

  15. Vieira : seria saboroso ver o desdentado líder da extrema direita ficar em quarto ou quinto lugar na votação para PR. Ao lado de quem se alia ao inimigo em momentos decisivos !

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