Aquele momento em que

Aquele momento em que estou a ouvir Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, despejar a mais funda indignação contra quem trouxe a doença de Laura Ferreira para o combate político a propósito da viagem a Cabo Verde, sem nunca nomear o alvo ou alvos do seu nojo, e depois a ouvi-la recusar-se comentar o tratamento da mesma situação de doença na biografia de Passos Coelho lançada em período eleitoral, por fim a ouvi-la passados minutos a dizer que Passos é um político que cultiva a imagem de português de classe média para obter ganhos eleitorais, é um momento de iluminação sobre a dinâmica das emoções na deformação cognitiva.

Não só o que está em causa não remete para a decisão pessoal de aparecer em público com sinais visíveis do tratamento oncológico, como o que está em causa ficou ainda mais reforçado com a exploração hipócrita que os direitolas fizeram da denúncia de objectiva manipulação política. Porque se fez, faz e fará aproveitamento político da doença do cônjuge do primeiro-ministro. Quem trouxe a doença para a esfera mediática, logo política pelo contexto das suas responsabilidades, foi Passos Coelho. E quem decide fazer uma parangona com a sua mulher rodeada de três ministros não está a dar uma informação acerca da pessoa Laura e do modo como lida com a sua doença. Há nisto uma outra doença, moral, que torna o espaço público infecto e que atinge até aqueles que pareciam imunes.

Maria de Belém, não em Belém

Em 2010 manifestei a minha convicção de ser Maria de Belém uma candidata presidencial muito melhor do que Alegre para tentar derrotar Cavaco. Muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito melhor. E só parei de repetir “muito” na frase anterior por cansaço, não por ter chegado ao fim dessa ideia. Melhor do que Alegre porque qualquer cidadão maior de 35 anos, sem cadastro criminal ou até com ele, o seria. E melhor do que qualquer outro candidato na área socialista porque não havia mais nenhum candidato na área socialista. Assim, teria bastado a Maria de Belém ter aparecido, dizer o óbvio e, com isso, talvez garantisse uma segunda volta pois iria buscar votos ao centro e às mulheres. Se lá chegasse, logo se veria como terminar a faena.

Agora, em 2015, temos o 2014 entalado entre a senhora e uma candidatura ao palácio que ostenta no apelido. É que lhe aconteceu o Seguro. Ao não ter compreendido o momento do partido quando Costa avançou a seguir às europeias, Maria de Belém revelou não possuir profundidade política suficiente para a Presidência da República que Portugal precisa de ter para resgatar essa instituição à degradação provocada por Cavaco.

Se avançar, assim dando a Seguro o gozo dessa vingançazinha, terá apenas um ponto a seu favor: não sofre da mania de grandeza que Sampaio da Nóvoa, com as melhores das intenções, cultiva de cada vez que abre a boca para se ouvir a si próprio.

Tudo à batatada

Seguem-se notícias dos últimos dias sobre o que se vai passando na Justiça. No pior dos casos todas as acusações serão verdadeiras:

Governante chama mentirosos aos dirigentes sindicais dos juízes e dos magistrados do MP

O secretário de Estado da Justiça, Costa Moura, diz que “há uma tendência para a mentira” por parte da Associação Sindical dos Juízes e do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. “Não podemos deixar de estranhar o tom destes recém-empossados dirigentes.” 2015.07.15

(Nota: os actuais dirigentes sindicais dos juízes e dos magistrados do MP foram ambos eleitos com o apoio das direcções cessantes.)

Dirigente da Associação Sindical dos Juízes chama mentirosa à ministra

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses, liderada por Maria José Costeira desde Março, acusou a ministra da Justiça de ter feito afirmações falsas no Parlamento. 2015.07.15

Sindicato dos Magistrados do Ministério Público acusa governo de querer “controlar politicamente” o MP

O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) acusou hoje sexta-feira o governo de querer “controlar politicamente” o MP. Em conferência de imprensa, o presidente do SMMP desde Março, António Ventinhas, considerou que a versão do estatuto do MP elaborado pelo MJ “tem soluções inconstitucionais, ataca frontalmente a autonomia do Ministério Público e visa o controlo deste pelo poder executivo”. O MJ “passaria a ter o poder de aprovar os regulamentos que disciplinam a actividade do MP, inclusivamente os regulamentos internos da PGR e do DCIAP, com competência para investigar a criminalidade económico-financeira mais complexa”, afirmou Ventinhas. 2015.07.17

PGR acusa governo de querer controlar investigação criminal  

O Conselho Superior do Ministério Público, liderado por Joana Marques Vidal, emitiu um comunicado que fala de “ostensiva falta de rigor técnico” nas alterações aos estatutos dos juízes e dos magistrados do MP. O diploma prevê que o governo passe a aprovar os regulamentos internos de funcionamento do MP, ameaçando frontalmente a autonomia do mesmo. 2014.07.15

Agora entendo

Janus BifronsA nova moeda de 1 Euro da Grécia, que o governo de Tsipras está a estudar para substituir a do mocho

Eu não entendia (pretérito imperfeito) nada do governo de Tsipras, da sua política e da sua estratégia. Se possível, entendia ainda menos da racionalidade daquele célebre referendo.

Tomei umas pílulas de glicose para espevitar o caco e deixei passar uns dias sobre aquele rotundo Não dos gregos, que muito me surpreendeu. Continuaram as negociações interrompidas e chegou-se na 25.ª hora, graças também a uma genial sugestão “por acaso”, a um texto que mereceu o acordo das partes. Corrijo: um texto que se chama “acordo” e foi aceite, embora o governo grego não o quisesse e os alemães ainda menos. Parece que só Obama, a NATO e a CIA gostaram dele.

Tsipras declarou “não acreditar” no acordo que concluiu e a estimável Zoé, presidente do parlamento grego, depois de este mesmo parlamento ter aprovado o acordo, considerou-o um “genocídio social” que, segundo ela, ficará para a história como “um dia muito negro da democracia”. Mas esqueçam-se estes e outros paradoxos (palavra de origem grega) que só perturbam a compreensão do que realmente se passou.

Vejamos. Com o acordo, conseguiu-se, além de algum dinheiro fresco para reabrir os bancos, um terceiro resgate financeiro da Grécia, coisa que o Syriza declarava absolutamente não querer; mais e maior austeridade, mais impostos, mais cortes na despesa pública, nos ordenados e nas pensões, tudo quanto o Syriza recusava; mais privatizações, cujo impedimento era um grito de guerra do Syriza. Não se conseguiu nem um perdão nem uma restruturação da dívida, mas apenas a promessa de mais negociações, que serão iguaizinhas às anteriores.

Varufakis, que disse que se demitia se o Sim vencesse no referendo, demitiu-se logo depois da vitória do Não e agora está na oposição (votou contra o acordo).

Tsipras, por sua vez, assumiu o papel inédito do primeiro-ministro que está de acordo com as oposições. Com a oposição à sua direita, que aprovou o acordo que ele concluiu. Com a oposição à sua esquerda, incluindo a esquerda do Syriza, que está contra o acordo. Tsipras é o novo Jano Bifronte, que, apesar de romano, vai certamente inspirar a nova moeda grega de 1 Euro.

A conclusão disto tudo é muito esclarecedora. Foi preciso que uma aguerrida coligação anti-austeridade chegasse ao poder e que o povo se manifestasse de forma inequívoca num referendo contra a austeridade para que a austeridade seja hoje uma realidade com um longo futuro à sua frente na Grécia. Agora entendo.

O mentiroso de Massamá

O PSD é o tal partido que resolveu, a partir de 2008, ir a legislativas com uma estratégia que apostava tudo no ataque moral ao Governo e ao primeiro-ministro de então. Assim nasceu a “Política de Verdade”, em tandem com o cavacal “Falar verdade aos portugueses”; esta imperiosa necessidade presidencial entretanto desaparecida de cena a partir de 5 de Junho de 2011. Há alguma racionalidade nessas escolhas. Sócrates estava cercado de casos polémicos com dimensão judicial, a crise pré-dívidas soberanas estava a ser bem gerida e o PSD não tinha nenhuma ideia que valesse a pena discutir, a promoção de um sentimento de insegurança e ameaça primários favorecia um exercício opositor radicado na demagogia e no populismo, a calúnia é uma poderosa arma em democracia quando se controla a comunicação social. E a direita controla a comunicação social em Portugal. Pelo que seguiram por aí só para descobrirem que o eleitorado tinha outras preocupações. De 2010 a 2011, no contexto das dívidas soberanas e da ameaça de resgate, o ataque moral continuou em alta, mas a estratégia passou a ser outra: dizer em Portugal que as medidas de austeridade começadas em 2010 deviam acabar e ser substituídas por medidas contrárias, e dizer internacionalmente que essas mesmas medidas de austeridade não eram suficientes, que só com uma austeridade muito mais violenta o País se salvaria. Esta duplicidade está abundantemente documentada. E é a principal marca da cultura deste Governo, de Passos a Portas, de Maria Luís a Paula Teixeira da Cruz, até de Vítor Gaspar a Relvas.

As caudalosas mentiras geradas desde a campanha eleitoral, e a cada violação desse contrato no além-Troika, não provocam o mínimo protesto na base de apoio do PSD e CDS. Sim, são uns filhos-da-puta, mas são os filhos-da-puta deles, assim funciona desde sempre e para sempre a filiação tribal. Lobo Xavier, uma caixa de Petri do pensamento da oligarquia, é useiro e vezeiro a declarar que isto da política é mesmo assim, tem de se mentir. Se forem os outros a mentir, há que berrar e insultar o mais alto que se puder. Se forem os nossos, sorrimos satisfeitos. Esta concepção da política não tem nada de original ou endémico, ao contrário. É o que dá universal má fama aos políticos, a origem do “eles são todos iguais” e do “andam todos ao mesmo”. Mas serão? Por exemplo, as mentiras de Passos são comparáveis com as de Sócrates? Ou com as de outro político qualquer que a memória registe? É curioso constatar como aqueles que se entregaram, e entregam, à expressão do ódio como afirmação política não têm o menor interesse em listar as mentiras de Sócrates – sendo que algumas das mais famosas nem mentiras são, como a inevitável dos “150 mil empregos”. A verdade verdadinha é a de que Sócrates atravessou duas crises de uma magnitude histórica sem paralelo em 70 anos, e teve de ir tomando decisões impossíveis de prever em cada ciclo de campanha eleitoral, fosse o de 2005 ou de 2009. 2011 é uma outra história.

Em 2011, Sócrates sabia o que iria acontecer. E deixou para a posteridade, com rigor geométrico, as duas opções em compita. Ou era o PS a governar com o Memorando, fazendo os possíveis para desagravar as suas consequências negativas. Ou era a direita a governar com o Memorando, e este iria ser aproveitado para tentar uma revolução que desmantelasse o Estado social e alterasse profundamente as relações de poder entre o capital e os trabalhadores. Acontece que Passos e Portas também sabiam o que ia acontecer. Sabiam que não podia haver melhor escudo para a sua agenda secreta do que ter uma invasão estrangeira a servir de polícia mau – podendo ainda, caso as coisas corressem para o torto, deitar o odioso em cima dos socialistas, culpados a priori do que desse jeito. As mentiras que o PSD e o CDS debitaram na campanha, portanto, correspondem a um exercício de manipulação nunca antes visto em Portugal, à excepção do regime da ditadura. Recorde-se que Durão Barroso estava à frente da Comissão Europeia e António Borges estava à frente do FMI para a Europa. Barroso avisou Passos do desastre que seria chumbar o PEC IV e Borges apelou ao chumbo de forma fanática.

Assim que chegou ao Governo, Passos estava com tanta confiança na devastação que se preparava para lançar que até prometeu nunca precisar de falar no passado. Ele era a encarnação dos amanhãs que cantam num musical do La Féria. Dizia à boca cheia que entre o Memorando e o programa do PSD não havia diferenças praticamente nenhumas e que, a haver, eram relativas à suavidade, à timidez, à falta de ambição da Troika. Este estado apaixonado durou só até ao começo de 2012, quando as contas mostraram que o País não ia lá com alucinados a tomarem conta dele. A partir daí, a cassete do PS culpado pelo Memorando que a direita, coitadinha, não assinou nem queria pôr em prática não teve um único dia de descanso.

Passos a mentir como nunca se viu a mais ninguém na política portuguesa a este nível, quiçá em todos, não será propriamente o mais grave. O mais grave é ver uma oposição que, por diferentes razões, não incomoda o senhor por causa disso. Malhas que a decadência tece.

Pacheco, mais uma vítima dos diabólicos socráticos

Pacheco Pereira apresentou ontem o livro “40 Anos de Políticas de Ciência e de Ensino Superior”, o qual tem Maria de Lurdes Rodrigues como um dos dois autores.

Se o apresentou foi porque alguém o convidou. Mas se aceitou apresentá-lo, então não erraremos por muito se admitirmos que tal decisão veio da sua cabeça.

A mesma cabeça que, há uns aninhos, repetiu furiosamente, ganhando do belo para o efeito, que Maria de Lurdes Rodrigues era cúmplice num Governo de criminosos. Criminosos que um dia iriam ser apanhados e expostos nas monstruosidades que andavam a fazer.

Pelos vistos, o Pacheco tinha razão. Sócrates está preso por suspeitas de corrupção, lançando o opróbrio sobre todos os membros dos Governos que chefiou, e a própria Maria de Lurdes foi condenada a a três anos e seis meses de prisão com pena suspensa, por prevaricação de titular de cargo político. Provavelmente, outros socráticos criminosos ainda serão apanhados, agora que a impunidade acabou. Temos o processo das PPP a correr à espera de oportunidade, temos os cartões de crédito dos governantes xuxas cheios de informações saborosas, há muita lenha para queimar no auto-de-fé que nos vai livrar do mal.

Como explicar o convívio e exposição pública do Pacheco com esta gente ou gente desta? Só vejo uma hipótese: está a ser chantageado por causa de alguma literatura mais lúbrica que guarda numa das suas centenas de prateleiras na Marmeleira.

Esta entrevista de Varoufakis é um documento a reter

Últimos parágrafos (clicar para ler a entrevista completa):

HL: Would you be shocked if Tsipras resigned?

YV: Nothing shocks me these days – our Eurozone is a very inhospitable place for decent people. It wouldn’t shock me either to stay on and accepts a very bad deal. Because I can understand he feels he has an obligation to the people that support him, support us, not to let this country become a failed state.

But I’m not going to betray my own view, that I honed back in 2010, that this country must stop extending and pretending, we must stop taking on new loans pretending that we’ve solved the problem, when we haven’t; when we have made our debt even less sustainable on condition of further austerity that even further shrinks the economy; and shifts the burden further onto the have nots, creating a humanitarian crisis. It’s something I’m not going to accept. I’m not going to be party to.

HL: Final question – will you stay close with anyone who you had to negotiate with?

YV: Um, I’m not sure. I’m not going to mention any names now just in case I destroy their careers! [Laughing.]

 

Não (,) foi em vão

Continuamos envolvidos pelo nevoeiro da guerra. Não sabemos explicar as acções de Tsipras, nem nos dias antes do referendo nem depois. Não fazemos a menor ideia do que seja estar no seu lugar. Das pressões. Da complexidade. Dos riscos. Não sabemos o que vai acontecer. Não sabíamos que isto podia acontecer. Mas algo ficou iluminado, claro, transparente. A Europa de Schäuble e Merkel é a Europa do medo, da desigualdade e da irracionalidade. Contra ela levantou-se um povo soberano, democrata e corajoso. Essa triunfal manifestação de liberdade não será perdida, fica como exemplo. Horizonte de uma outra Europa que, paradoxalmente, também se constrói com estas crises, estes desesperos, este fracasso de tudo e de todos. Porque nos sentimos a participar em algo que é nosso. O que se passa na Grécia, em Bruxelas, na Alemanha, passa-se connosco. Estamos juntos. No começo de algo grandioso, magnífico, nunca antes tentado na História do Mundo. A Europa unida pela democracia para a liberdade.

Claro, poderá não acontecer. Esse é o desfecho mais provável dadas as incansáveis forças centrífugas e a entropia inerente à acção. Enquanto durar, porém, podemos contribuir. E podemos descobrir quem é que quer o quê. Em Portugal, aqueles que espumam da boca no culto do ódio contra os gregos querem o mesmo que Schäuble e Merkel. É simples. Vão a votos em breve. Em Portugal. É simples.

Ahahah!

"Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o ultimo problema que estava em aberto, que era justamente a solução quanto à utilização do fundo [de privatizações], partiu de uma ideia que eu próprio sugeri. Quer dizer que até tivemos, por acaso, uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema", disse Passos Coelho, numa conferência de imprensa no final da cimeira da zona euro.

"Foi justamente uma ideia que eu sugeri e que verifico que acabou por ser utilizada pelos negociadores com o primeiro-ministro grego", Alexis Tsipras, indicou.


Passos diz que foi ideia sua que desbloqueou negociações

Revolution through evolution

In Tight Money Times, Parents Favor Daughters Over Sons
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Disgust dampens women’s sexual arousal more than fear
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Fewer women than men are shown online ads related to high-paying jobs
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Significant reduction in serious crimes after juvenile offenders given emotional awareness training
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Everyday access to nature improves quality of life in older adults
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Study Estimates Number of Deaths Attributed to Low Levels of Education
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Doctors Mock Patient, Get Caught on Tape

Então, ó Tsipras? Perdido no labirinto?

Pelo que lemos, os alemães gostariam de ver a Grécia fora do euro. Não têm, porém, coragem para assumirem a responsabilidade de tal decisão, nem sequer frontalidade suficiente para a verbalizarem. Outra coisa que gostariam ainda mais e que consideram estar talvez ao seu alcance é de afastar este governo do Syrisa. Entraram assim no jogo das exigências crescentes e da humilhação. Aproveitando as cedências clamorosas de Tsipras após o referendo e, portanto, a sua fraqueza, exigem que a Grécia vá ainda mais longe nas medidas de austeridade – não só mais longe do que as que constavam da proposta dos credores chumbada pelos votantes gregos, como mais longe do que a proposta agora apresentada com a ajuda dos franceses – e que as aplique já, de preferência ontem, dando como garantia uma parte do seu território. Regressam à punição, agora sem entraves. Neste jogo, obviamente, os alemães já  perceberam que Tsipras, também ele, não quer assumir a responsabilidade (perante o seu país) pelo abandono do euro. E assim se arrasta esta pseudo-negociação que dá asco. Nem a Grécia morre, nem tenta outra vida, nem a gente almoça.

Os alemães, já sabemos, defendem os seus interesses e não perdem uma oportunidade para humilhar e abusar do seu poder (embora normalmente, como a História demonstra, sejam tão cegos na sua soberba que não percebam para onde estão a arrastar o seu próprio povo). Além disso, o governo em funções quer manter as boas graças do seu eleitorado, que em devido tempo soube condicionar. Tem aliados externos, como a extrema-direita finlandesa e todos os que (e são muitos), por razões eleitorais, pretendem imolar a Grécia. Mas Tsipras está a revelar-se um misto de choninhas e de calculista. Não quer perder o poder e claramente não sabe o que fazer se o país voltar ao dracma. Para quem estava convicto do que apregoava, está a conciliar demais. Ou assim parece. Tendo tomado os franceses agora como padrinhos, não lhe auguro grande sucesso nas negociações. Os franceses podem ter querido assumir a defesa do euro, ou, vá lá, a razoabilidade em todo este processo, ou então ressuscitar a rivalidade perdida com a Alemanha, ou eventualmente podem ter percebido o amadorismo dos syrisianos e ter-se condoído, vá-se lá saber, mas o facto é que normalmente capitulam, não sendo grandes aliados.

Visto daqui, o que Tsipras deveria fazer neste momento parece-me claro: mostrar coerência e dizer, alto e bom som, respaldado no voto popular, que triplicar a austeridade equivale a liquidar de vez o país (como aliás sempre disse, tendo sido nessa base que ganhou as eleições) ou a vendê-lo literalmente a estrangeiros; que não aceita mais jogos sujos e exige à Alemanha que diga claramente o que quer. Se for a austeridade brutal que lemos nos jornais, acompanhada de um endividamento ainda mais brutal e a hipoteca de território como condições para a permanência no euro, deveria convocar novo referendo, desta vez com as alternativas bem definidas na pergunta – 1. saída do euro ou 2. aceitação das novas condições brutais dos credores -, demitindo-se se os gregos optassem pela cedência total (e incoerência) representada pela segunda opção.

O facto de, neste momento, não haver grandes alternativas de governo na Grécia não impede que olhemos para o Syrisa, na sua atual pose passiva e rendida, e vejamos nele um grande «flop». Não nos chega pelos jornais qualquer defesa de linhas vermelhas pelo ministro das Finanças. Nenhuma invocação do «não» obtido no referendo. O que nos chega são cedências em toda a linha, pedidos de verbas astronómicas, relatos de discussões entre (sintetizando) finlandeses e franceses e entre Mario Draghi e Schäuble, notícias de fraturas na zona euro, inclusivamente entre instituições. Os gregos assistem. Estão a entregar a sua sorte aos outros, com grande cobardia. O acordo, porém, se chegar a acontecer, nos moldes em que os alemães e outros o querem, em nada vai beneficiar o país a médio e a longo prazos. Muito pelo contrário. Apenas o salvará no imediato para continuar a afundá-lo logo depois. A incoerência do Syrisa é de bradar aos céus. De tal maneira que a dúvida seguinte é legítima. Será que já perceberam que o que os alemães querem é que saiam do governo, tudo estando a fazer para que tal aconteça? E será que, neste caso, para os contrariar, Tsipras decidiu aceitar tudo, mesmo humilhações, o que permite que toda a gente desconfie, e com razão, do cumprimento do acordo que venha a ser firmado? Ou será que não perceberam nada, que andam às aranhas e que acabaram por se colocar nas mãos dos franceses, não indo a lado nenhum?

É o regime, estúpido

O “caso Sócrates” evoluiu para o “caso Regime”. Seja o que for que venha a acontecer, vai ser um terramoto. E neste momento está a ganhar a acusação.

No plano moral e político, Sócrates já está condenado. Seja porque a sua relação com o dinheiro de Santos Silva deixa uma imagem de pessoa sem perfil ético de estadista, tais as suspeições inerentes aos factos, seja porque as consequências do seu comportamento, ao permitir a situação em que se encontra, ficam como uma extraordinária e histórica manifestação de irresponsabilidade política e deslealdade cívica. Resta-lhe a batalha judicial.

No campo judicial, a acusação encontrou uma boa hipótese para explicar o enigma das transferências de dinheiro para a conta de Santos Silva. Ter conseguido meter Vara ao barulho é meio caminho andado para garantir que se vai chegar a tribunal e que as penas serão as mais altas possíveis. Se o sucateiro apanhou 17 anos, se o próprio Vara apanhou 5 anos de prisão efectiva e o tribunal não conseguiu provar que ele recebeu dinheiro do suposto corruptor, então para um imbróglio que mete um primeiro-ministro e a CGD, com conselhos de ministros pelo meio e centenas de milhões de euros enterrados nos Algarves, os 25 anos de pena máxima não chegarão e provavelmente teremos de dar essa alegria ao Pedro de mudar a Constituição para voltar a instituir a pena de morte ou, no mínimo, a prisão perpétua.

A hipótese é boa porque é simples, está ao nível das capacidades médias do leitor do Correio da Manhã. Vara é levado em 2006 para a CGD por Sócrates, facto. Lá dentro, começa logo a roubar. E cobra a percentagem usual da corrupção organizada, 7%. Como está ao serviço de Sócrates, não fica com o dinheiro. Ele apenas trata da papelada e vai sendo levado ao colo, acabando no BCP. É este o cenário posto em cima da mesa com a prisão preventiva de Vara. E o que ele configura é aquilo que Joana Marques Vidal cunhou cripticamente, em Fevereiro, como “rede que utiliza o aparelho de Estado para a corrupção”.

Ora bem. Se esta suspeita for provada, a dimensão do crime é alucinante. O PS correria o risco de desaparecer. O populismo atingiria o grau máximo de intensidade, dando origem a fenómenos sociais e políticos imprevisíveis. Ficaríamos dilacerados na interrogação de como havia sido possível tamanha miséria moral ter-nos acontecido. E, para piorar a desgraça, ainda seríamos obrigados a suportar o triunfalismo decadente dos pulhas. Existir um primeiro-ministro que se permita o tipo de aviltamento das instituições da República como está inerente à tese da acusação levará a que não fique pedra sobre pedra no ecossistema político.

E se a suspeita não vier a ser provada? Se, por alguma razão, seja ela qual for, a acusação não conseguir demonstrar que Vara e Sócrates cometeram os ilícitos na berlinda, então este processo terá constituído uma operação conspirativa para usar a Justiça com fins de assassinato político e condicionamento de actos eleitorais. Igualmente, um crime de uma dimensão alucinante.

A acusação está a ganhar porque há mesmo indícios de irregularidades, inegável, e porque se dá como muito mais provável que Vara e Sócrates tenham cedido à tentação criminosa, e não Rosário Teixeira e Carlos Alexandre. Todavia, da acusação estão a chegar constantes crimes, através das violações do segredo de justiça. Esses abusos, aqui entre nós que ninguém nos lê, são igualmente um indício de que o desfecho está em aberto. A acusação poderá estar embriagada de impunidade e soberba. Só uma coisa é certa: não se farão prisioneiros, vai ser uma guerra de aniquilação.

O que parece, é

Laura Passos Coelho tem o direito a apresentar-se em público como bem entender. Sim, sim, sim. Se quer continuar a acompanhar o seu marido em eventos políticos, sejam governativos ou partidários, isso é absolutamente legítimo. Se quer exibir algumas das consequências de estar a receber tratamento oncológico, seja o não ter cabelo, não há nada de censurável nisso. Aliás, até pode ser visto como valioso e indicado. Acabar com os estigmas à volta do cancro, dar um testemunho de coragem e fazer os possíveis para manter um estado psicossomaticamente favorável à eficácia da terapia e à sua resposta imunológica, eis algo que fica como inquestionavelmente bondoso. Só que a questão não é essa.

O que está em causa aparece paradigmaticamente concretizado na capa do CM de quarta-feira. Nela vemos que a notícia da doença da Laura foi escolhida como principal por via do impacto fotográfico obtido. Isto, por si só, tem significado político dado o contexto daquele jornal. Depois, o que a fotografia retrata é uma situação onde Passos Coelho divide o protagonismo com a sua mulher. Este acrescento é igualmente intencionalmente político, posto que a notícia verbalizava que era Laura quem “assumia” a “luta contra o cancro”, não o casal. Por fim, a foto ainda consegue mostrar mais dois ministros, faltando pouco para conseguir vincular o Governo todo ao problema de saúde da mulher do primeiro-ministro.

Haveria, há, inúmeras formas de noticiar a presença de Laura Coelho em eventos onde o seu marido esteja a fazer política. Os jornalistas que quiserem captar esses momentos não terão qualquer dificuldade em separar as águas. Donde vem a conclusão: se preferem misturar as dimensões, então essa misturada obedece a uma agenda política. Agenda política óbvia, ainda por cima.

Por mim, acrescento uma outra possibilidade. A de Laura ter plenamente consciente o efeito que está a provocar ao se deixar tratar como um trunfo eleitoral. Tal seria condizente com as opções tomadas no passado pelo casal, expondo-se voluntária e garbosamente como espécimes da classe média em tudo iguais ao povinho. Peças estas com um subtexto obscenamente eleitoral. E não haveria qualquer estranheza no plano psicológico, pois tal seria uma manifestação sentimental lógica, a de dar todo o apoio ao marido numa situação tão importante como as eleições legislativas. Acreditarei nesta hipótese até tomar conhecimento do repúdio da Laura e/ou do Pedro face à exploração política da doença tal como foi feita pelo CM, por exemplo. Um exemplo que ameaça repetir-se.

Antecipando o CM de amanhã

Vara tinha de ser detido nesta noite, em cima da entrevista ao mais forte candidato a primeiro-ministro, porque foi visto com o Google Maps aberto. A fuga estava iminente.

Adenda

Vara foi detido durante a tarde, mas a informação só foi divulgada após Costa ter saído dos estúdios da TVI. Desta forma, qualquer resultado positivo da sua prestação foi imediatamente diluído, abafado e esquecido. Bastaria que a notícia tivesse saído antes da sua entrevista para que este efeito de contaminação tivesse sido reduzido ao mínimo.

Homo homini lupus

O caso Sócrates, na sua dimensão judicial, acaba de nos oferecer mais uma originalidade. A sessão de esclarecimento organizada pelos advogados de defesa na passada segunda-feira, e contando com personalidades diversas com responsabilidades técnicas e políticas nas temáticas em causa, centrou-se na suspeita de corrupção relativa a Vale do Lobo e ao PROT. O contexto desta iniciativa remete para a divulgação em Junho de um interrogatório a Sócrates onde este é confrontado por Rosário Teixeira com tal suspeita, e ainda com as buscas pelo Ministério Público na Câmara de Loulé a 2 deste mês.

Na prática, esta situação não irá afectar em nada o processo nem um eventual julgamento. Se existirem provas de crime, elas serão exibidas pela acusação, nada valendo o que os advogados de Sócrates digam ou deixem de dizer. Porém, o que a defesa está a fazer equivale a desafiar a acusação antes da investigação estar concluída. E isso só tem sentido quando se possui uma absoluta convicção de não haver ponta por onde pegar na matéria. A ser verdade, o corolário será o de termos uma acusação que anda a disparar para o ar enquanto mantém preso e destrói publicamente um ex-primeiro-ministro, e ex-secretário-geral do PS, em cima das legislativas e com directa influência no seu resultado. A ser mentira, a punição de Sócrates será ainda maior, seja a legal ou a moral.

Alguém acredita, neste ambiente de impune actividade criminosa no MP, que existindo alguma prova de corrupção ela ainda se mantivesse afastada dos cabeçalhos da indústria da calúnia? Nada na sucessão de violações do segredo de justiça leva a tomar como provável tal cenário, é precisamente ao contrário. Por outro lado, a atitude de crescente afrontamento de Sócrates contra Rosário&Carlos, desembocando na ofensa máxima de se declarar preso por razões estritamente políticas, também só se explica por desarranjo mental ou por desespero de um inocente. Sim, Sócrates pode ter enlouquecido, arrastando os seus advogados com ele, mais qualquer um que se junte à procissão. Mas será essa a explicação mais provável para o seu comportamento desde que está preso?

É curial recordar o exemplo e declarações de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento. Quando tiveram de decidir – em nome do Estado, da comunidade e da sua honra – sobre suspeitas de ilícitos contra Sócrates adentro do processo “Face Oculta”, eles ativeram-se às provas recolhidas e concluíram pela inocência do primeiro-ministro de então. Sabemos que as decisões foram correctas porque ninguém demonstrou o contrário apesar de as escutas terem sido multiplicadas à revelia da Lei e circulado sabe-se lá por onde. Mas sabemos algo mais, e algo tremendo: sabemos que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento desafiaram os pulhas a exibirem a matéria de facto, e ainda que os dois denunciaram como uma tentativa de judicialização da política aquilo que se tinha passado à volta do alegado “atentado ao Estado de direito” cozinhado em Aveiro. Consequências das suas denúncias? Nenhuma de nenhuma, em lado algum.

Quem organizou a golpada de 2009 esperava que algo exactamente igual ao que está a acontecer na “Operação Marquês” ficasse a marcar a política nacional em cima de umas eleições e durante vários anos. Não o conseguiram à primeira, há crescentes razões para acreditar que estão a consegui-lo à segunda.