Pelo que lemos, os alemães gostariam de ver a Grécia fora do euro. Não têm, porém, coragem para assumirem a responsabilidade de tal decisão, nem sequer frontalidade suficiente para a verbalizarem. Outra coisa que gostariam ainda mais e que consideram estar talvez ao seu alcance é de afastar este governo do Syrisa. Entraram assim no jogo das exigências crescentes e da humilhação. Aproveitando as cedências clamorosas de Tsipras após o referendo e, portanto, a sua fraqueza, exigem que a Grécia vá ainda mais longe nas medidas de austeridade – não só mais longe do que as que constavam da proposta dos credores chumbada pelos votantes gregos, como mais longe do que a proposta agora apresentada com a ajuda dos franceses – e que as aplique já, de preferência ontem, dando como garantia uma parte do seu território. Regressam à punição, agora sem entraves. Neste jogo, obviamente, os alemães já perceberam que Tsipras, também ele, não quer assumir a responsabilidade (perante o seu país) pelo abandono do euro. E assim se arrasta esta pseudo-negociação que dá asco. Nem a Grécia morre, nem tenta outra vida, nem a gente almoça.
Os alemães, já sabemos, defendem os seus interesses e não perdem uma oportunidade para humilhar e abusar do seu poder (embora normalmente, como a História demonstra, sejam tão cegos na sua soberba que não percebam para onde estão a arrastar o seu próprio povo). Além disso, o governo em funções quer manter as boas graças do seu eleitorado, que em devido tempo soube condicionar. Tem aliados externos, como a extrema-direita finlandesa e todos os que (e são muitos), por razões eleitorais, pretendem imolar a Grécia. Mas Tsipras está a revelar-se um misto de choninhas e de calculista. Não quer perder o poder e claramente não sabe o que fazer se o país voltar ao dracma. Para quem estava convicto do que apregoava, está a conciliar demais. Ou assim parece. Tendo tomado os franceses agora como padrinhos, não lhe auguro grande sucesso nas negociações. Os franceses podem ter querido assumir a defesa do euro, ou, vá lá, a razoabilidade em todo este processo, ou então ressuscitar a rivalidade perdida com a Alemanha, ou eventualmente podem ter percebido o amadorismo dos syrisianos e ter-se condoído, vá-se lá saber, mas o facto é que normalmente capitulam, não sendo grandes aliados.
Visto daqui, o que Tsipras deveria fazer neste momento parece-me claro: mostrar coerência e dizer, alto e bom som, respaldado no voto popular, que triplicar a austeridade equivale a liquidar de vez o país (como aliás sempre disse, tendo sido nessa base que ganhou as eleições) ou a vendê-lo literalmente a estrangeiros; que não aceita mais jogos sujos e exige à Alemanha que diga claramente o que quer. Se for a austeridade brutal que lemos nos jornais, acompanhada de um endividamento ainda mais brutal e a hipoteca de território como condições para a permanência no euro, deveria convocar novo referendo, desta vez com as alternativas bem definidas na pergunta – 1. saída do euro ou 2. aceitação das novas condições brutais dos credores -, demitindo-se se os gregos optassem pela cedência total (e incoerência) representada pela segunda opção.
O facto de, neste momento, não haver grandes alternativas de governo na Grécia não impede que olhemos para o Syrisa, na sua atual pose passiva e rendida, e vejamos nele um grande «flop». Não nos chega pelos jornais qualquer defesa de linhas vermelhas pelo ministro das Finanças. Nenhuma invocação do «não» obtido no referendo. O que nos chega são cedências em toda a linha, pedidos de verbas astronómicas, relatos de discussões entre (sintetizando) finlandeses e franceses e entre Mario Draghi e Schäuble, notícias de fraturas na zona euro, inclusivamente entre instituições. Os gregos assistem. Estão a entregar a sua sorte aos outros, com grande cobardia. O acordo, porém, se chegar a acontecer, nos moldes em que os alemães e outros o querem, em nada vai beneficiar o país a médio e a longo prazos. Muito pelo contrário. Apenas o salvará no imediato para continuar a afundá-lo logo depois. A incoerência do Syrisa é de bradar aos céus. De tal maneira que a dúvida seguinte é legítima. Será que já perceberam que o que os alemães querem é que saiam do governo, tudo estando a fazer para que tal aconteça? E será que, neste caso, para os contrariar, Tsipras decidiu aceitar tudo, mesmo humilhações, o que permite que toda a gente desconfie, e com razão, do cumprimento do acordo que venha a ser firmado? Ou será que não perceberam nada, que andam às aranhas e que acabaram por se colocar nas mãos dos franceses, não indo a lado nenhum?