Arquivo mensal: Julho 2015
Quando, visto da Grande Ilha, Tsipras é Thatcher
Nada como a simplicidade nestes tempos complexos. No Daily Mail, um jornal britânico mais conhecido pelo destaque dado a cenas escabrosas do quotidiano, ao esplendor e declínio dos corpos dos «A-listers» e à decadência dos trabalhistas (que o jornal odeia), a opinião de um tal senhor Peter Oborne sobre a crise grega é a de que Margaret é que tinha razão. A criação do euro foi um erro de que ela se demarcou com teimosia, mas visão e heroismo. Fazem os gregos muito bem em ir embora. Passado o caos, serão muito mais felizes… e livres.
“[…]The British politicians who encouraged this demented project — including Heseltine, Howe, Blair and Kinnock — should hang their heads in shame.
Bullies
They, too, bear their full share of responsibility for an economic and political experiment which has driven tens of millions of people out of work, and destroyed the economies of not just regions, but of entire countries.
The critics of Alexis Tsipras say that he is a deranged Marxist academic. Perhaps. Compared to Juncker or his predecessor Jacques Delors, or even President Mitterrand and Merkel with their obsessive attachment to the euro, he is a model of common sense and sanity.
Marxist or not, his courage stands in a direct line of succession to that of Margaret Thatcher 25 years ago. Like Thatcher, Tsipras has been patriotic and bloody-minded enough to stand up for his own people against the bullies of the European Union.
Terrible risks lie ahead, but he has already achieved something extraordinary. The idea of democracy was invented in Greece 2,500 years ago. Thanks to him, democracy inside the eurozone, snuffed out by the single currency, was reborn in Greece on Sunday.
We in Britain must give Mr Tsipras all the help and support we can as he sculpts a fresh future for his famous and wonderful country — and, let us all hope and pray, saves the continent of Europe in the process.»
Não é que Tsipras tenha até agora defendido em público a saída do euro e muito menos proposto tal saída no referendo. É que também ele anda às apalpadelas. Essa é uma responsabilidade que ninguém quer assumir. Nem ele, nem Merkel nem Hollande, nem os espanhóis num futuro próximo. Se houvesse a certeza de que tudo se passaria bem («bem», como quem diz, do ponto de vista do «diktat») para os restantes países membros caso a Grécia regressasse ao dracma, os gregos teriam já sido empurrados para a porta com ainda mais arrogância e também com força e alegria. Assim, como não há quase certeza alguma e as que há não são tranquilizadoras, tudo é nebuloso e experimental. Não se sabe se os gregos estão a ser empurrados lentamente para a saída ou se se estão a deixar empurrar lentamente (e a gostar). O problema é que a zona euro corre o risco de implodir e a Alemanha ficará perdida sem o seu euro-marco. Perdida e furiosa. Não é alheio a essa fúria o facto de os imprevistos não se encaixarem nos seus raciocínios de esquadria. Só por isso, grande gozo cá para o sul. Neste momento, os gregos são talvez quem menos perde, a prazo, com o abandono do euro, pese embora o ostracismo a que iriam ser votados e o castigo eterno que lhes tentariam ministrar pela dinamite que colocaram nos débeis alicerces do empreendimento. Nada que não lhes enalteça o orgulho, se bem os conheço. Por isso, sim, o «beef» thatcherista e simplista que escreve no Daily Mail deve estar cheio de razão. Os gregos já saíram e “they’re loving it“.
Quem são os liberais nesta história?
Depois de Varoufakis, e bem, ter esticado a corda panfletária ao carimbar como terroristas os credores, seria da ordem do bom senso afastar-se das negociações pós-referendo. A sua linguagem foi a adequada à pressão esmagadora dos “parceiros” europeus e respectivas instituições “comunitárias”. Como se vê hoje, o discurso apocalíptico não passava da campanha pelo Sim.
Discurso esse que foi muito eficaz junto da opinião pública portuguesa. Ao ponto de termos visto vários prognósticos a favor da derrota do Não vindos do centro-esquerda. Tratava-se da projecção ambivalente de um desejo. O desejo de que os gregos cedessem para se acabar com o sofrimento de quem assistia à agonia. Era um pedido de rendição. Não é um acaso que a direita tenha uma ancestral tradição no culto do medo. Cá e lá. O chicote do medo, os assassinatos de carácter, a diabolização, eis uma cultura oligárquica cujas raízes são antropológicas.
Este referendo, marcado à má-fila, com uma pergunta esquisita e absurda, estaria agora a ser apresentado como a prova provada de que os gregos recusavam os loucos do Syriza, e se entregavam nos braços da racionalidade da miséria, calhando o Sim ter ganhado – mesmo que fosse por um voto. Aconteceu o triunfo de uma outra racionalidade. A racionalidade própria de quem escolhe a liberdade.
Silêncio, que se vai fazer História
Com a vitória do Sim, as negociações teriam terminado. Ficasse ou partisse, Tsipras teria lançado a toalha ao chão. Com a vitória do Não, as negociações continuam. E estão exactamente no mesmo ponto em que estavam no início. Tudo o que aconteceu entretanto, incluindo as bocas de caserna e o agitar de braços, não passou do trânsito dos jogadores ao longo de uma circunferência. Depois do referendo, mantêm a mesma distância entre si – e estão ambos à mesma distância do centro, o raio do acordo.
O acordo vai acontecer nesta semana. Um de dois. Ou se acorda que esta Europa não quer esta Grécia, dando origem a uma nova situação política. Ou se acorda que esta Europa quer esta Grécia, o que implica criar uma nova situação política.
Assim, estamos tal qual como há seis meses. Aliás, estamos melhor, pois a solução está quase pronta. E vai consistir, seja ela qual for, num novo capítulo da História mundial.
Não, passarão
Tu, passarão, que apostaste as fichas todas na táctica do terror, estás agora com a pança cheia de bílis.
É justo. A justiça, no teu caso, consiste em te sentires apavorado na contemplação da coragem alheia.
Não, passarão, não tens de te preocupar. Por cá estamos protegidos contra esse “conto de crianças” chamado soberania democrática.
Revolution through evolution
What’s on terrorists’ minds? Research points to improved prediction models
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Feeling impulsive or frustrated? Take a nap
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Want to persuade? Talk about what you like, not what you actually do
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Longer acquaintance levels the romantic playing field
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Bad sleep habits linked to higher self-control risks
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‘Map Of Life’ predicts ET. (So where is he?)
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The Fear You Experience Playing Video Games Is Real, and You Enjoy It, IU Study Finds
Grécia na roleta
Como português, eu talvez preferisse a vitória do Não na Grécia. Mas os gregos é que votam a doer no referendo de domingo e o mais certo é que votem a pensar na segunda-feira, que vai amanhecer angustiante. Para já, os bancos estão fechados, os turistas estão a bazar e não há crédito para importar géneros de primeira necessidade. É o resultado da chantagem e do terrorismo ‒ dizem governantes gregos. Pois será, mas quem inventou o referendo foi esse mesmo governo.
Uma clarificação seria urgentemente necessária nesta guerra entre, por um lado, o governo de um país europeu e, por outro, as instituições europeias e a matilha dos credores. Mas será este referendo capaz de produzir a necessária clarificação? Duvido muito.
A pergunta inscrita no boletim de voto incide sobre uma proposta que já foi retirada pelas entidades que a propuseram. O que parece que manhosamente se quer decidir é se o governo eleito há meses deve ou não continuar a governar, embora não seja essa a pergunta inscrita no boletim. E se o governo é legítimo e está a cumprir a orientação que há meses anunciou ao eleitorado, para que é necessário um tal referendo?
A Europa e os credores, que não queriam o referendo, esperam agora que um Sim salvador enfraqueça ou derrube o governo grego ‒ um governo que à margem das negociações lhes tem chamado criminosos e terroristas. O governo de Tsipras, que inventou o referendo, julga que um Não o fortaleceria. Logo, se a maioria responder Sim, o referendo revelar-se-á um harakiri do governo; se a maioria responder Não, o governo sairá talvez provisoriamente fortalecido no plano interno, mas externamente ficará exactamente no ponto em que está e a situação financeira da Grécia não terá avançado um milímetro.
O governo grego diz que quer a todo o custo manter a Grécia no Euro e na União Europeia. Perguntaram ao menos isso aos gregos? Não. O governo grego gostaria que fosse perdoada parte da dívida do país e que a restante fosse paga mais suavemente. Perguntaram aos gregos se querem essa solução? Também não. Outras perguntas pertinentes, tempestivas e claras poderiam ser postas aos cidadãos gregos, mas o governo não as pôs. Terá medo das respostas? O que no domingo se vai perguntar ao povo grego é se a Grécia deve ou não aceitar uma proposta que o seu governo já rejeitou e que entretanto foi retirada por quem a fez. Além de extemporânea, é uma pergunta de combate: o governo apela ao Não sem submeter ao voto popular uma proposta alternativa. Por receio de não recolher apoio?
Ninguém pode assegurar o que se vai passar a seguir ao referendo, quer vença o sim quer vença o não. Há apenas especulações políticas, financeiras e bolsísticas sobre o que vai suceder a partir de segunda-feira. São demasiados os factores envolvidos e demasiado incertos para que alguém possa garantir o que vai acontecer. Apenas se sabe que Varufakis se vai embora se o Sim vencer. O referendo apresenta-se, pois, como uma aposta desesperada na roleta.
Por tudo isto estou convencido que Tsipras vai perder. Porque a sua vitória não resolveria nenhum problema da Grécia e mergulharia o país em maior incerteza. Porque ninguém perguntou aos gregos o que é que eles realmente querem e apoiariam. Porque a pergunta é redutiva, manhosa e extemporânea. Porque o referendo apenas busca o reforço interno do governo e uma subida de votos em relação às legislativas. Porque o referendo é inútil e o Sim penaliza quem o inventou. Porque, enfim, a vitória do Sim nem sequer vincularia a Grécia a uma proposta que já não está em cima da mesa.
Da cobardia e da coragem (texto escrito em 2010)
Nos murmúrios das mesas de café, dezenas de afirmações categóricas, dedos em riste, tanta gente afirmativa, tanta gente de peito aberto às balas, mas, depois, as faces desses murmúrios dão a sua fotografia aos textos que as desmentem, às intervenções que as integram no sistema dos bons costumes, faces sorridentes em apertos de mãos aos inimigos dos murmúrios das vésperas secretas, tudo assegurado, os amigos oportunos, os convívios para o que possa ser, os empregos de amanhã.
Há quem não tenha medo de uma máquina que não perdoa essa falta de medo passem os anos que passarem. Em bom rigor, há quem viva, mesmo, sem uma película de plástico transparente, porque genuinamente pensa, diz, escreve e fala sem a percepção de um sistema que regista, que pune, que cobra e que demite.
Os loucos, livres, ingénuos, na verdade, corajosos na vida pública porque o são numa mesa de café como o são na defesa de um amigo que leva uma facada numa esquina, são gente pouco atenta à manipulação dos cobardes com vestes de gente brava. São como as crianças recrutadas para os exércitos. Motivam-nos para darem a cara, para escreverem, para dizerem, para gritarem, aplaudem-nos em telefonemas privados, dão sugestões, dizem do que diriam no seu lugar, mas reservam esse lugar para os tais loucos, loucos de tão livres, que se esquecem, ou não sabem sequer pensar sobre isso, que cada palavra tem um preço, que cada intervenção assertiva cria um inimigo, que cada luta desinteressada interessa a alguém e é sempre olhada como interessada por tantos outros.
Os loucos de tão loucos pela liberdade caracterizam-se pela generosidade. Não sabem dizer não a qualquer pedido no qual vejam justiça. Emagrecem até ao limiar dos ossos pelos outros, se for necessário, e um dia, às vezes, acordam no espantoso acontecimento de um pedido deles não ser atendido pelo camarada, descobrem com a mesma perplexidade de um navegador que a bitola ética do outro não é a sua, verificam que há vinte portas fechadas por causa de uma denúncia justa, ligam para quarenta caixas de mensagens, encontram, enfim, um outro silêncio, o seu preço, e esse dá pelo nome de solidão.
É aí, nesse lugar, nesse lugar que é uma doença, a doença que predomina todas as doenças, a solidão, que o louco pela liberdade faz uma escolha: descobre o polvo que o rodeia e avança com os passos de sempre ou adere à poluição dos silêncios e junta-se em mesas de cafés, com a sua acutilância, de dedo em riste, denunciando as injustiças, as corrupções, as mentiras, murmurando-as, portanto, mas escorrendo-as no dia seguinte subordinado à gramática do compromisso, a ver se assegura portas abertas, chamadas atendidas, convívios sociais, amigos que dão jeito, trabalhos futuros.
Quando, nesse lugar, nesse lugar doloroso, mas de amadurecimento, o louco pela liberdade, o anterior ingénuo que tinha por normal não sofrer por carregar apenas a sua consciência, escolhe subordinar a gramática e não se subordinar a ela, escolhe riscar a palavra consequências do seu dicionário de convicções, temos um corajoso.
Em seu redor, um degelo. Ficarão poucos; os que contam. Mas, recordando Shakespeare, ele experimentará a morte apenas uma vez na vida. Já os cobardes, esses morrem várias vezes antes da sua morte.
Todos os dias, algures, a civilização avança ou recua
Pelo Não
O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para a soberania democrática como pilar da comunidade europeia. Por aqui, a vitória do Não é a que melhor defende a liberdade na Europa.
O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para a unidade europeia construída solidariamente. Por aqui, a vitória do Não é a que obriga a Europa a unir-se na sua diversidade para encontrar uma solução para a crise na Grécia.
O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para o futuro político da União Europeia. Por aqui, a vitória do Não é a que permite acelerar esse futuro impondo um obstáculo que só se ultrapassa através de uma mudança de paradigma.
Por aqui ou por ali, o melhor para os europeus é o Não grego a esta Europa que tem falhado na sua missão.
Exactissimamente
Se um só dirigente europeu fosse capaz de recitar, numa cimeira, a “Ode à Alegria”, Schiller erguia-se do túmulo e toda a Europa, de Weimar para leste e para Oeste, retomava a sua “tarefa infinita”.
O melhor amigo dos jornais
No dia a seguir à publicação da entrevista em que Sócrates volta a reclamar a sua inocência e em que volta a repetir que o Ministério Público ainda não lhe apresentou qualquer prova de corrupção, o Correio da Manhã publicou uma notícia onde se alega que Joaquim Barroca disse ao juiz Carlos Alexandre que tinha sido ele a enviar 12 milhões de euros para uma conta de Santos Silva a pedido de Hélder Bataglia. O registo de escrita designa esse dinheiro como sendo de Sócrates, o que faz com que no texto se assuma como lógica a ideia de que Barroca tenha verbalizado ao juiz o mesmo que a notícia verbaliza para o leitor, isso de ele saber que o dinheiro em causa era para usufruto de Sócrates como recompensa pela sua corrupção a favor do Hélder e/ou do Grupo Lena. A situação de prisão domiciliária é também apresentada como prémio (??) pela “confissão”.
Barroca poderá, ou não, ter dito o que a notícia relata. Ou poderá ter dito parte, e o jornal ter encaixado o resto de forma a parecer que tudo vem da mesma fonte. O ponto principal não é esse mas o de a notícia não ter causado qualquer protesto no espaço público. Os cúmplices do costume deram-lhe destaque na indústria da calúnia e à volta fez-se silêncio. Que significa esse silêncio? Que a manobra foi eficaz, que a percepção de culpa de Sócrates se adensa a cada golpe construído em nome do Ministério Público e do juiz de instrução. E que a comunidade se conforma com a violação sistemática, obscena, inimputável do Estado de direito. Com crimes cujos primeiros suspeitos são agentes da Justiça e magistrados.
Há uma outra possibilidade, porém. A de ter sido o nosso querido João Araújo a entregar as informações ao pasquim. Isso explicaria o bocejo com que elas são recebidas. Todo este carnaval onde há jornais que são megafones da acusação pode estar a ser orquestrado pelo Araújo a troco de uns euros; ou mesmo à borla, só pelo gozo de abandalhar e “descredibilizar” a investigação, para ir buscar a maravilhosa tese do Rui Cardoso. É sabido que Sócrates, e qualquer um do seu bando de facínoras, é capaz disso e de muito pior. Aprende-se nos meios de comunicação social.
Não há dúvida, isto do segredo de justiça é o melhor amigo dos jornais. De alguns.
se assim fôr, que sêja
Miguel Esteves Cardoso, em Uma vez de cada vez, texto que se recomenda por mais do que uma razão, saiu-se com a surpreendente calinada do “fôr“. Sabemos que os jornais já não têm ninguém para corrigir os textos antes de serem publicados, e, pelos vistos, quem os escreve poderá estar a abdicar do corrector ortográfico por hábito ou circunstância. Mas a pilhéria do episódio vem de o Miguel ser um dos mais notáveis escritores portugueses do pós-25 de Abril, alguém que não associamos a dislexias ortográficas deste calibre tão básico – ou a qualquer outras, sendo ele erudito e estilista. Obviamente, deixou-se levar pela fonética num automatismo gráfico, e não reviu o texto.
Lição? Quando se cai em graça é tudo engraçado.
Grécia, não te metas com um país governado por gente pequenina
Consta que os pequenos países estão a ser verdadeiros gigantes do castigo a aplicar à Grécia por esta pretender usar a sua soberania para acabar com a loucura. Uma loucura que um certo desses pequenos países ainda conseguiu aumentar para além do exigido por sua alta recriação.
Isto é como diz o outro: 19-1=18. Ou seja, é matemático. Puta que os pariu. Olhem, saiam da zona de conforto. Ide trabalhar para o Norte da Europa. Raios parta os gregos. Cambada de socialistas. Piegas do caralho.
