Esquecer Cavaco com a intervenção de Alberto Costa

“A acção libertadora do 25 de Abril que hoje celebramos pôs termo a uma longa perversão constitucional.

A constituição do Estado Novo proclamava a liberdade de expressão – mas tínhamos a censura prévia.

Consagrava-se a independência dos Tribunais – mas os opositores eram presos e condenados em execução de instruções da polícia politica.

Era uma constituição que mentia. O 25 de Abril resgatou-nos dessa mentira.

Construímos uma democracia em que o Estado e as leis se subordinam á Constituição – uma genuína Constituição e não uma Constituição à disposição.

Uma Constituição que é em todos os momentos, no bom tempo e na tempestade, um teste à qualidade democrática da governação.

Por razões que são globais, europeias e nossas, conhecemos uma situação em que se pode dizer que o nível dos sacrifícios impostos atingiu o limite.

 

Mas o que qualifica uma forma de governar não é tanto o nível dos sacrifícios como o critério com que são repartidos.

Quando se privilegia o que é mais fácil, quando se constituem como alvos preferenciais os que não podem reagir, quando em primeiro lugar se atingem os mais débeis, os doentes, os desempregados, os pensionistas, os idosos – fere-se a dignidade e a coesão, e transmite-se uma mensagem perversa à sociedade.

Perversa não apenas porque não alcança o que anuncia, não apenas porque os efeitos pretendidos não passam a resultados.

Perversa, sobretudo, porque extermina expectativas, semeia a frustração, o cepticismo e a desconfiança, e compromete as próprias condições de uma governação democrática eficaz.

O princípio da igualdade é uma pedra de toque num Estado de Direito e um princípio estruturante do nosso sistema constitucional.

Na sua dimensão de igualdade na repartição dos encargos públicos está no cerne da exigência constitucional.

Em tempo de agravamento de sacrifícios, é ponto central do teste a quem governa.

Falhar o teste constitucional uma vez neste domínio não é preterir uma formalidade.

Falhá-lo duas vezes no teatro da crise é cometer suicídio de credibilidade.

 

É verdade que sob a Constituição do Estado Novo as leis podiam dispor diferente, e mesmo ao contrário, do que ela enunciava.

Mas essa Constituição já não vigora: foi varrida com o 25 de Abril.

Foi também o 25 de Abril que nos permitiu aceder à construção europeia, de que a ditadura e a sua constituição nos excluíam.

A nossa lei fundamental fixa um objetivo, e um critério de legitimação, para a transferência de competências para as instituições da União Europeia: a realização da coesão económica, social e territorial.

Há que agir, há agora que agir para que esse projecto europeu se não desfigure, a ponto de nos situarmos fora da nossa própria credencial.

Este é um desafio e uma responsabilidade que se coloca a todos os orgãos de soberania.

Se a Europa de que falamos é uma Europa de todos os europeus, se fazem sentido coesão, convergência e solidariedade, então não pode aceitar-se que resulte da crise atual uma espécie de “constituição perversa”, onde alguns se qualificam no exercício dos seus poderes e outros no cumprimento dos seus deveres.

Esta fractura significaria, à escala da União, a negação do princípio da igualdade: o regresso da Europa aos fantasmas do seu passado.

 

O estigma e a punição, a expiação e a recompensa, no limite o domínio e a obediência, teriam força normativa e a coesão e a solidariedade desceriam do programático ao nominal.

O domínio das ideias únicas, do pensamento sem alternativas autorizadas – essa forma mental de convocação da submissão – corre o risco de ser a reedição, em moderno, daquelas pretensões que juncam a história do continente.

Não vai ajudar.

Nas últimas páginas duma das suas obras maiores, Keynes alertava para o facto de os governantes, os homens da decisão, com frequência serem, mesmo sem o admitirem, verdadeiros “escravos de economistas mortos”.

Esta modalidade de “escravidão” não desapareceu e, seja qual for a escola, não pode continuar a onerar o futuro de portugueses e dos europeus.

É preciso reforçar drasticamente a capacidade portuguesa de negociação e de proposta no quadro europeu, e isso requer uma perceção aguda dos riscos e das oportunidades presentes no difícil momento europeu.

É preciso um novo curso político, um novo curso de esperança.

Um novo curso que se suceda a um tempo em que as pessoas, as famílias e as empresas foram fustigadas com desemprego, falências, cortes, empobrecimento, multiplicação da incerteza e dos riscos, perda de confiança, previsões falhadas, metas não alcançadas, argumentários de refúgio que não convencem, teatralizações que já não resultam.

 

Como em muitos momentos difíceis que o nosso país atravessou, a sociedade está pronta.

E por isso, nos dias que atravessamos, comemorar o 25 de Abril, releva da esperança.

É pois com esperança que, em nome do Partido Socialista, presto homenagem aos que lutaram para que o 25 de Abril acontecesse, aos que lutaram para que tivéssemos uma Constituição democrática e para que, acima das leis, lhe pertencesse a supremacia.

Quase quarenta anos depois recordo todos os companheiros que suportaram a prisão, o exílio, as expulsões das escolas e das profissões, os que foram perseguidos, os que se levantaram em tempo de servidão. Porque eles ergueram a nossa liberdade de escolher agora.

Saúdo, em especial, os militares do Movimento das Forças Armadas, que aqui simbolizo na memória, que a todos nos acompanha, de António Marques Júnior, capitão de Abril.

O exemplo que nos legaram, de risco e de coragem em tempo de obediência e submissão, integra a nossa herança cívica maior.

Na promessa constitucional de igual dignidade para todos os cidadãos viverão connosco as palavras da Grândola: “em

cada rosto igualdade“. “

Não há pachorra para estes alemães

Segundo a famosa revista Der Spiegel, o pressuposto de que os funcionários das instituições europeias esquecem as suas identidades nacionais e só trabalham para o interesse geral e a unidade da Europa não passa de um mito. Mas atenção, segundo se deduz desta leitura, são só representantes do sul que transformam esse princípio num mito. O artigo dá como exemplo um português e um italiano e fica-se por aí.
O “deslize” de Barroso sobre os limites da austeridade terá sido, segundo o articulista, um grito de alma de um homem que, quer se tenha dado por ela quer não, tem uma nacionalidade. Neste caso, portuguesa. E Portugal não está bem. Teria sido levado àquele desabafo por pressão das perguntas de uma jornalista da Dow Jones e do Wall Street Journal, por sua vez uma mulher de nacionalidade … grega. Paternalismo do autor do artigo, gente? Não sei que mais lhe chame. Mas dispensava-se esta compreensão.

In Monday’s conversation, it is likely that not only Barroso’s nationality played a role in the discussion, but also that of Stevis, a Greek national who is a journalist with Dow Jones and the Wall Street Journal. After a prominent Greek blogger began tweeting about her plea on behalf of Greeks, journalist Stevis proudly tweeted back, “Hey! That was me!”

(Clicar para ler o artigo completo)

Aproveita o articulista para lembrar que também Mario Draghi se teve de esforçar para provar aos nórdicos que não estava ali para defender os interesses da Itália ou restaurar velhos hábitos do país, como o da inflação elevada (“estamos de olho m ti, ó Draghi!”).

Mas o que é extraordinário neste tipo de artigos é que nunca por nunca ser se aponta o dedo a alemães que, em lugares de topo em instituições financeiras (o Bundesbank) ou políticas alemãs e europeias, ou através de manobras de bastidores e interpostas pessoas (Monti, Gaspar, Barroso e outros), nada mais fazem senão defender os interesses atuais da Alemanha, a sua pátria.

A Europa toda está submetida às ordens germânicas, incluindo o BCE, e estes idiotas ainda temem que alguém ouse pô-las em causa em favor de qualquer outro país, por mais tímida, murmurada e desmentida que seja a maneira como o faz. E depois vêm com paternalismos desculpá-los.
Neste momento, ai de quem contrarie ou irrite a Alemanha, mas são os alemães, que orientam toda a ação das instituições europeias neste crise, os campeões da neutralidade. Extraordinário.

Viva o 25 de Abril!

Celebraram um pacto

Nuno Crato tem-se revelado um mestre na ciência da aldrabice. Tudo começou com os números falsos que atirou para o ar na Assembleia da República com o maior dos desplantes a propósito da Parque Escolar (na altura, inseriam-se na linha dos “desvios colossais” do Gaspar). Estava dado o mote também na Educação, o que na altura chegou a surpreender, dada a auréola de credibilidade que acompanhava a cabeça de Crato. Não tardou a assistirmos às trapalhadas nas colocações de professores, aos avanços e recuos nos vínculos, nas contratações e nos agrupamentos de escolas, às promessas várias e vagas não cumpridas, percebendo-se cada vez mais a ideia de escola que lhe vai na mente – um modelo Estado Novo, segregador, impositivo, a que só faltarão, por enquanto, as reguadas e a Mocidade Portuguesa.

Ontem, quem teve oportunidade de o ouvir no Telejornal a propósito da alteração do programa de Matemática dos 1.º e 2.º ciclos não pôde deixar de confirmar o seu total alinhamento pela cartilha desta espécie de governo. Ao dizer que o conteúdo dos programas não muda, ou praticamente não muda, laborou de imediato em dois equívocos: afinal não muda em relação a quê? Por entre frases escorregadias, percebi (será que percebi mal?) que, desde o ano passado, está em teste um novo programa nalgumas escolas e que é em relação a esse que não há grandes mudanças. Mas e em relação ao que estava em vigor na esmagadora maioria das escolas? E qual a grande justificação? O que disse sobre isso foi muito pouco. Fiquei com a sensação de que, quando muda, é só para se demarcar da “peçonha socialista” anterior, cujas vitórias menospreza, e em nome da tal ideia mítica da escola antiga. Depois, a questão dos manuais: é ou não é necessário adquirir novos manuais? Atendendo ao que acabo de dizer, não se percebeu. Que manuais têm os miúdos neste momento? Crato disse que os poucos ajustamentos que haviam sido introduzidos seriam facilmente acrescentados pelos professores nas aulas, pelo que não seriam necessários novos manuais. Mas, da forma como eu entendi, só pode haver dúvidas. Mais uma vez, o tom com que tal foi dito não transmitiu muita certeza.

Na questão da forma de ensinar a disciplina, disse que, anteriormente, era dado demasiado ênfase a esse tipo de instruções nos programas, mas que agora seria dada total liberdade pedagógica aos professores, pois o que interessava eram os conteúdos e as metas de aprendizagem. Mas onde é que isto é novidade? Não percebi onde queria chegar. Os professores são obrigados atualmente a dar as aulas de uma só maneira? E o que estaria tão mal nos conteúdos anteriores?
Também ontem se soube da mentira sobre o uso das calculadoras nestas idades. Não são usadas.

Em que momento da sua entrada em funções se reuniram estes farsantes à volta de uma mesa e, de punhos unidos, juraram usar a falsidade com toda a arte e engenho de que fossem capazes?

Pensar direito por linhas tortas

A principal razão para o crescente fracasso de A Opinião de José Sócrates (RTP) nas audiências é a mais simples de explicar: um comentário não é uma entrevista, e José Sócrates está há um mês a dar uma entrevista contínua. Mesmo quando o tema é externo a Portugal, à sua própria ação como primeiro-ministro ou à corrida presidencial no horizonte, Sócrates sente o impulso da autolegitimação ou – pior ainda – da agenda. Ora, para um programa de comentário bem sucedido, é preciso pelo menos algum sentido de humor, idealmente até uma dose q.b. de diletantismo. O comentário político da televisão é primeiramente lúdico, tanto quanto o é a maior parte das crónicas de jornal. Eis aquilo que Sócrates precisa de perceber rapidamente, caso contrário não será nunca um opinion maker: será sempre apenas um político entre cargos.

Joel Neto

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O Joel acerta em cheio: Sócrates não dá o espectáculo de Marcelo, o qual é um trapaceiro e um bufão, para além de andar a virar frangos na pantalha há muitos e muitos anos e de ter uma TVI popular a puxar por ele e a protegê-lo. Mas, e sem qualquer dúvida, de Sócrates não se espera diletantismo, enquanto de Marcelo só diletantismo se espera. Mas será essa a razão para as audiências estarem a baixar? Se sim, se Sócrates estiver a perder as audiências que apenas procuram a peixeirada da política-espectáculo, então a sua presença na RTP, tenha lá os espectadores que tiver, será um contínuo e tremendo sucesso.

Qualquer comparação com Marcelo, porém, é espúria. Marcelo não foi alvo de campanhas de ódio sem paralelo na democracia portuguesa. Marcelo não foi perseguido pela imprensa como se fez ao anterior primeiro-ministro ainda antes de ir a votos em 2005. Marcelo não ameaça a direita e a esquerda por igual, não passando de um produto televisivo que já não se imagina a conseguir sobreviver noutro ambiente. De Sócrates, pelo contrário, espera-se a qualquer momento a palavra decisiva, o gesto fundador. Marcelo é o bobo da corte, Sócrates o príncipe que assusta o rei. Só se estivessem no mesmo canal, falando à mesmo hora algures no meio da semana, é que o páreo faria algum sentido.

Há algo de extraordinário que o questionável regresso de Sócrates já alcançou: a sua diabolização evaporou-se no acto mesmo de se expor ao confronto. Não existe ninguém na direita que pretenda discutir com Sócrates face a face, apenas se espumam de valentia a caluniá-lo quando o sabem longe ou inibido por responsabilidades estatais. Pois ele aí está expondo-se aos ataques mais vis. Os pulhas não se chegam à frente porquê? Acham que as televisões não teriam gosto em realizar esses programas? Ou o problema será outro, com outro nome?

Portanto, Joel, espero bem que Sócrates não ligue pevide à tua recomendação. Já quanto ao teu argumento, é isso tal e qual.

Fantoches

Now, having said this, I know this will also not respond to the concerns of the unemployed citizen in Greece or Portugal or many other countries we could quote. That is why I also think that we are reaching the limits of the current policies. The current policies are of course appropriate in terms of reducing the biggest challenge that we have today which is the challenge of unsustainable debt, public and private, the need to deleverage, the need to put Europe on a sound footing so that Europe can be more competitive and can have growth again, but growth that is sustainable, because what we have learned, and this is for me the biggest lesson of the crisis, and I think a lesson that we have not yet all completely drawn, is that growth based on debt is not sustainable. Growth based on unsustainable public or private debt is artificial growth and what we need is to have growth that is sustainable, namely based on increased competitiveness in Europe. This is what we need. This is the greatest lesson to draw from the crisis.

Durão Barroso está especializado em discursos e declarações que dizem tudo e o seu contrário, mas mais importante ainda, discursos que não colam minimamente com a prática da instituição a que preside (basta lembrarmo-nos do Olli Rehn ou do Simon O’Connor, das suas comunicações regulares e de tudo o que têm feito ou mandado fazer para nos pôr no “bom caminho”).

Podem ler na íntegra as declarações do Barroso aqui. Verão as sucessivas pérolas do dizer e não dizer.
As políticas estão corretas, diz ele, mas é difícil para os cidadãos compreendê-las e aceitá-las e para os politicos explicá-las (logo, o também por cá conhecido problema de comunicação – vamos rir?). A austeridade chegou aos limites, mas as políticas são apropriadas porque são a única maneira de reduzir as dívidas acumuladas (apesar de as agravarem). Só assim os países poderão partir para o crescimento (só que não partem, antes regridem décadas). Há desemprego e miséria em muitos países, e isso é preocupante, mas as medidas estruturais foram muito importantes (apesar de não terem criado um único posto de trabalho e terem contribuído para destruir milhares, não terem reduzido os défices, terem destruído as economias e apagado o futuro do mapa). E por aí fora.
Como ousa este homem falar na competitividade da Europa, quando, a nível interno, as instituições europeias (através do não papel do BCE) impõem uma brutal perda de competitividade às empresas do Sul face às do Norte devido aos diferentes custos de financiamento? E como pode haver crescimento sem dívida?

Este homem é um pateta, sem qualquer poder de afirmação. Pessoas como esta não percebem que são o principal motivo do descrédito da “Europa”. A Comissão Europeia é suposto ser uma instituição supranacional, não uma sucursal do Bundestag.

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O puxão de orelhas
Uma nota só para acrescentar que, embora o homem já tenha interiorizado o chicote alemão quando fala em público, daí resultando discursos mentirosos e contraditórios como o indicado acima, mesmo assim não escapou a um puxão de orelhas de um porta-voz de Angela Merkel pelo que disse sobre os limites da austeridade, tendo-se visto obrigado a “esclarecer” o deslize (isto é, pedir desculpas públicas através do seu porta-voz).

Não chega agradecer a democracia. Temos de fazer mais, não fechando os olhos aos sinais dos tempos.

Petição Mais participação, melhor PS (vê como podes assinar)

Para:Presidente do Partido Socialista, Secretário-Geral do Partido Socialista; Presidente da Comissão Organizadora do Congresso Nacional do Partido Socialista

MAIS PARTICIPAÇÃO, MELHOR PS

APROXIMAR OS CIDADÃOS DOS PARTIDOS, REFORÇAR A LIGAÇÃO ENTRE O PS E A SOCIEDADE

Carta aberta ao Secretário-Geral e ao Congresso Nacional do PS
(ver documento original em: http://issuu.com/mais.participacao.melhor.ps/docs/carta_aberta)

A política visa a definição e concretização das opções e medidas fundamentais para o País. É uma atividade que afeta e interessa a todos os cidadãos e para a qual todos devem ter a possibilidade de participar e contribuir. Mas, mais ainda, é uma atividade que implica um dever fundamental, que cabe quer aos partidos quer aos cidadãos: o envolvimento destes nas escolhas políticas e na atividade dos partidos, porque elas respeitam a toda a sociedade.
Os partidos são essenciais à democracia. Aliás, vivemos tempos em que as respostas políticas e os partidos são especialmente necessários, tendo em conta a deriva tecnocrática a que se assiste na Europa e que se revela incapaz de corresponder às ansiedades das pessoas e de combater efetivamente as crises sentidas na União Europeia.
Todavia, assiste-se, nos últimos anos, a um acentuar do divórcio entre os partidos, os políticos, a sociedade e os cidadãos. É cada vez menor a identificação dos cidadãos com os partidos políticos e cada vez mais baixos os níveis de confiança nas instituições democráticas. Trata-se de um fenómeno que é observado e discutido em vários países e que tem de ser encarado com coragem e frontalidade.
Em Portugal, o problema vem adquirindo dimensões muito preocupantes. A título de exemplo, um estudo recente publicado no “Wall Street Journal” sobre a confiança que os cidadãos de 19 países têm relativamente a diferentes profissões, revela que a classe política apresenta sempre o nível de desconfiança mais elevado. A isto acresce que os portugueses são os que menos confiam nos políticos que os governam, com um índice de confiança de apenas 17%. Estes dados são confirmados pelo Barómetro da Qualidade da Democracia, elaborado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, de acordo com o qual a falta de confiança nos políticos é um dos traços marcantes da democracia em Portugal, sendo que 47% dos inquiridos considera que a maneira como os partidos funcionam limita a participação dos cidadãos.
Além disso, a Europa vive hoje a maior crise económica desde a Grande Depressão.
É evidente que a política da União Europeia e dos Estados-membros da União Europeia não está a entregar resultados no combate à crise. Os egoísmos nacionais têm-se sobreposto ao interesse comum europeu e as soluções políticas têm cedido a visões tecnocráticas de austeridade que sistematicamente desvalorizam os problemas sociais que provocam e os efeitos negativos sobre o crescimento económico.
A Europa do Sul, onde se situa Portugal, está atualmente no centro dessa crise. Todos os países mais pressionados pela crise financeira têm visto o seu sistema político abalado. Na Grécia, os partidos que habitualmente assumiam responsabilidades governativas viram as suas votações muito reduzidas. Ao mesmo tempo, partidos xenófobos ganham espaço e votos. Em Espanha, o PSOE não parece estar a beneficiar com o descontentamento com o atual partido do governo, o PP. Em Itália, projetos populistas ganham a adesão dos mais novos e ameaçam a bipolaridade que vinha marcando o sistema partidário desde 1994. E mesmo em Portugal, de acordo com as intenções de voto expressas nas sondagens, PS e PSD, somados, estão longe dos 80 por cento dos anos 90. Em vários destes países, a insatisfação das pessoas é canalizada para movimentos inorgânicos, para as redes sociais e para a rua, muitas vezes sem influência nem tradução direta nos processos institucionais da democracia representativa, o que tende a limitar os efeitos das suas ações e a acentuar ciclos viciosos de distanciamento e desconfiança face ao sistema político.
Não são motivos para desistir, mas são sinais que não podem deixar-nos indiferentes. É em momentos de forte crise, quando a conjuntura económica gera forte insatisfação dos cidadãos face aos políticos e aos partidos, que as democracias mais precisam de partidos fortes, legitimados e bem enraizados na sociedade.
Este é, pois, o momento de agir. São necessárias medidas que reforcem a ligação entre os partido e a sociedade e entre os políticos e os cidadãos. Se não fizermos este esforço no PS, estaremos a contribuir, através de um comportamento passivo, para discursos demagógicos e populistas que podem até ser atrativos, mas que certamente prejudicam a democracia.
O PS é um grande partido da esquerda democrática, integrado numa família política Socialista, Social-Democrata e Trabalhista de grande dimensão e responsabilidade na Europa e no Mundo.
O PS tem tido um papel central no desenvolvimento e na modernização do País. Foi assim na luta pelas liberdades políticas, pelo Serviço Nacional de Saúde e pelos avanços nos Direitos Sociais, na adesão à Comunidade Económica Europeia, na defesa da descriminalização da interrupção voluntária da gravidez e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E tem sido o principal intérprete das reformas do sistema político nos últimos anos. Foi com maiorias do PS que se aprovou a lei da paridade, que se introduziu a limitação dos mandatos executivos autárquicos e que se aprovou uma nova reforma da Assembleia da República.
Se defendemos esta abertura para o País, temos de começar por dar o exemplo na nossa própria casa. Não podemos olhar passivamente para este fosso entre os partidos e os cidadãos. Pelo contrário, temos a obrigação de adotar iniciativas corajosas que ajudem a reconciliar a política e a sociedade. Entendemos, por isso, que em matéria de organização do partido, o PS deve ter a liderança das iniciativas que ajudem a restabelecer a confiança dos cidadãos nos partidos políticos e que promovam o seu interesse e a participação na política.
É certo que ao longo dos últimos dez anos os Estatutos do PS já deram passos interessantes no sentido da abertura do partido aos simpatizantes, da criação de novos espaços de participação, da limitação dos mandatos e da paridade.
Além disso, o PS foi pioneiro na abertura da reflexão política a não militantes em larga escala. É longa e positiva a participação de cidadãos independentes na construção das propostas do PS através de iniciativas como a Convenção da Esquerda Democrática, os Estados Gerais, as Novas Fronteiras, a Fundação Res Publica e, recentemente, o LIPP – Laboratório de Ideias e Propostas para Portugal.
Mas temos agora de ir mais longe. É preciso dar novos e firmes passos na abertura do PS à sociedade. Queremos evoluir para uma maior ligação entre os cidadãos e os partidos e propomos medidas concretas. Queremos cumprir três objetivos: abrir os órgãos do partido à sociedade, permitir que os cidadãos participem na construção das medidas políticas do PS e credibilizar as nossas propostas.

O primeiro objetivo que temos de alcançar é abrir os órgãos do PS à sociedade.
Um grande partido como o PS não pode fechar-se sobre si próprio. Tem de se abrir à sociedade e assumir que faz parte do património coletivo. O PS não pode agir como um clube fechado. A casa do PS deve ser a sociedade. Deve assumir que existem hoje várias formas de participação que não passam apenas pela militância e que contamos com todas para definir a nossa vontade coletiva. Por isso, propomos três medidas para o PS passar a contar mais com a sociedade e os cidadãos.
Em primeiro lugar,as eleições primárias abertas à sociedade. Defendemos a atribuição do direito de voto aos simpatizantes do PS na eleição para Secretário-Geral.Desde que haja mais do que um candidato, a eleição para este cargo deve passar a ser participada por qualquer cidadão que se reveja nos princípios do PS. Uma eleição alargada e participada reforça a cidadania dos portugueses e a legitimidade do Secretário-Geral do PS.
Em França, em 2011, o processo das primárias cidadãs para a escolha do candidato presidencial do PSF envolveu quase 10 mil secções de voto, dezenas de milhares de voluntários e 2,5 milhões de eleitores registados. O número de militantes e as intenções de voto do PSF aumentaram imediatamente a seguir às primárias. Vários observadores associam o sucesso eleitoral de Hollande às primárias que precederam a escolha de candidaturas, um pouco como já tinha acontecido com os democratas americanos, em 2008, após a disputa entre Obama e Hillary Clinton.
Defendemos, pois, a introdução de primárias cidadãs para a escolha do Secretário-Geral do PS que, à luz dos atuais estatutos, tem o mandato que durar o tempo da legislatura e que, como tal, é o candidato natural do partido a primeiro-ministro. A eleição para este cargo passa assim a ser participada por qualquer cidadão que se reveja nos princípios do PS, desde que assine uma declaração nesse sentido no momento do voto. Trata-se de um passo de grande abertura do PS e dos seus militantes à sociedade, que permite aos cidadãos não militantes influenciar na escolha para este importante cargo. Por um lado, porque se trata de um cargo fundamental na direção e nas escolhas políticas de um dos maiores partidos portugueses. Por outro lado, porque o Secretário-Geralé, habitualmente, o candidato a Primeiro-Ministro apresentado pelo PS em eleições legislativas. Para este efeito, o PS deve, antecipadamente, divulgar na comunicação social a eleição para o cargo de Secretário-Geral, bem como a possibilidade de cidadãos não militantes poderem votar se, no momento do voto, se registarem como simpatizantes.
Em segundo lugar, defendemos a possibilidade de convocação de referendos para decidir sobre as posições do PS onde possam votar militantes e cidadãos eleitores. A convocação de um referendo deve referir-se a uma questão programática ou de opção política de relevante interesse nacional, internacional ou de interesse para a orientação do PS. Esta questão deve, naturalmente, respeitar a sua Declaração de Princípios.
Uma vez realizado, o referendo deve tornar-se vinculativo para o PS.

Em terceiro lugar, propomos que a Comissão Nacional e a Comissão Política Nacional, que são órgãos centrais na vida do partido, passem a poder incluir 25 e 7 cidadãos independentes ou simpatizantes, respetivamente. Assim, permite-se que estes órgãos passem a integrar um número significativo de membros que não sejam militantes do PS.
Estes membros da Comissão Nacional e da Comissão Política Nacional serão designados pela Comissão Nacional, a qual deverá apreciar e votar uma proposta de lista de cidadãos que, pela sua prática, tenham revelado identificação com os princípios do Partido Socialista. Esta proposta será apresentada por uma comissão eventual presidida pelo Presidente do Partido Socialista e composta pelos ex-presidentes do Partido Socialista, pelos ex-secretários-gerais do Partido Socialista, pelos ex-secretários-gerais da Juventude Socialista e pelas ex-presidentes do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas.
Esta medida significa uma importante partilha de responsabilidades com a sociedade e um relevante ato de abertura do partido, tendo em conta as competências destes órgãos. Veja-se, por exemplo, que compete a estes órgãos eleger o Secretariado Nacional, aprovar os programas de ação política do Secretariado Nacional, aprovar o relatório e contas do partido, designar os candidatos do PS a Deputados à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu e definir linhas de orientação aos grupos parlamentares.

O nosso segundo objetivo é permitir que os cidadãos possam participar mais na construção das propostas políticas do PS.
Hoje é preciso ir mais longe. Os cidadãos exigem formas cada vez mais diretas de participação e esperam uma ligação direta entre as ideias que apresentam, e o seu resultado. Ao correspondermos a essa ambição estaremos a honrar a nossa tradição de forte ligação à sociedade. Por isso, defendemos duas medidas para uma participação mais direta dos cidadãos não militantes na definição das linhas e medidas do PS.
Em primeiro lugar, defendemos a criação de um direito de petição para os militantes do PS e cidadãos eleitores para poderem apresentar propostas ao Congresso Nacional na definição das linhas gerais da política nacional do Partido, mediante a assinatura de 1.000 militantes ou cidadãos eleitores.
Adicionalmente, defendemos a criação de um período ou espaço específico, no Congresso Nacional, para a apresentação e discussão das petições propostas, bem como da sua votação por meios eletrónicos.
Assim, tanto os militantes, como os cidadãos eleitores passam a beneficiar de um instrumento de participação que lhes permite intervir no debate sobre as linhas gerais de política nacional que cabe ao Congresso Nacional realizar.
Em segundo lugar, propomos a criação de um processo participativo aberto a todos os cidadãos para apresentação e votação de propostas de políticas através da Internet, com vista à sua integração nos programas eleitorais do PS, desde que, naturalmente, se conformem com os princípios do partido.
Visamos incentivar a ligação dos cidadãos à elaboração de propostas políticas e a sua responsabilização pelas mesmas, permitindo assim que aumente o grau de identificação da sociedade com as propostas do PS.
Aproveitam-se, desta forma, os processos bem sucedidos de orçamento participativo para apresentação e votação de propostas levados a cabo em várias autarquias socialistas, que pode ser adaptado para a elaboração do programa eleitoral do PS.

Finalmente, o nosso terceiro objetivo é credibilizar as propostas do PS.
A sociedade é hoje mais crítica e informada. Exige saber mais sobre as medidas que os partidos apresentam e não acredita em propostas sem um adequado grau de estudo, densificação e credibilidade. Queremos que os cidadãos acreditem e confiem nas propostas políticas do PS. Para isso é preciso que essas propostas sejam cada vez mais credíveis e devemos oferecer razões para os cidadãos poderem confiar nelas.
Assim, defendemos que as medidas concretas dos programas eleitorais do PS sejam apresentadas com um calendário e programação da sua execução, bem como com uma estimativa de impacto económico-financeiro e seu financiamento. Trata-se de credibilizar as propostas do PS junto da sociedade, fornecendo mais informação e elevando os graus de exigência e de transparência no que respeita à concretização das políticas e ao impacto destas na afetação dos recursos públicos, para proporcionar um melhor escrutínio e avaliação pela sociedade. Igualmente, esta medida significa um importante passo para que os cidadãos possam acreditar nas propostas eleitorais, pois a disponibilização da informação acima referida implica mais exigência, estudo e programação prévios.
A execução dessas mesmas medidas, caso o PS mereça a confiança dos portugueses, deve ser verificada de modo transparente e fundamentado, envolvendo para isso especialistas e cidadãos que tenham participado na elaboração das propostas.

Temos consciência de que este caminho não termina com esta iniciativa. Pelo contrário, é necessária uma ação quotidiana e permanente para abrir o PS à sociedade, para envolver os cidadãos nos processos de decisão e para promover a sua ligação à política e aos partidos. Por exemplo, defendemos:
• A agilização da constituição de seções de ação setorial, de modo a estimular a participação qualificada e especializada no PS;
• A criação de uma verdadeira militância digital, equiparando as estruturas de militância digital às estruturas territoriais do PS em ternos de competências e responsabilidades na estrutura interna do partido e permitindo a participação dos militantes destas estruturas no partido através do exercício dos seus direitos por via digital;
• A realização de um debate sobre a admissão da organização de tendências, por forma a incorporar no PS um espectro mais largo do centro-esquerda democrático;
• A formação em assuntos de relevância política e para o debate político e a realização de parcerias com outros partidos e com entidades externas aos partidos que possam contribuir para o lançamento de projetos que envolvam os mais jovens;
• A criação de estágios para militantes e não militantes nas estruturas do partido, proporcionando um período de acompanhamento da vida político-partidária em todas as dimensões da vida do partido;
• A afetação de uma parte das verbas do PS à realização de estudos relevantes no âmbito das políticas públicas com propósitos bem definidos; e
• A utilização das novas tecnologias, das redes sociais e de novas ferramentas de participação como o crowdsourcing para fins de recolha de opiniões, de consulta aos cidadãos e de construção de propostas políticas.

Além disso, as mudanças não passam apenas pelo funcionamento interno dos partidos nem pela sua relação com a sociedade civil.
Por um lado, há importantes mudanças adiadas que precisam de ser encaradas, como, por exemplo, a reforma do sistema eleitoral e dos seus círculos. Esta é, aliás, uma mudança fundamental no sentido de permitir que exista uma maior proximidade entre os eleitos e os eleitores e que estes se revejam nos seus representantes, o que é indispensável para que confiem no sistema político.
Por outro lado, é preciso encontrar propostas políticas que correspondam às ansiedades das pessoas e da sociedade, como no combate ao desemprego e na manutenção de um elevado nível de proteção social sem colocar em risco as necessidades de financiamento dos Estados.

O PS tem de fazer este debate e de ter a liderança na abertura dos partidos à sociedade. O divórcio entre partidos, política e cidadãos não tem culpados, mas tem responsabilidades. E, os partidos, tal como outras entidades, devem assumir a sua quota de responsabilidade e fazer a sua parte. Por isso lançamos um debate que deve agora realizar-se no PS para ter resultados efetivos no próximo Congresso a seguir às próximas eleições legislativas. Não tem ligações ou implicações nas escolhas imediatas do PS para cargos ou candidaturas. Tem o objetivo de ajudar a recuperar a ligação entre os partidos e as pessoas.
É para aproximar os cidadãos dos partidos e reforçar a ligação entre o PS e a sociedade que queremos contribuir.
Por isso, solicitamos ao Secretário-Geral do PS que agende a realização deste debate no próximo Congresso Nacional através da inscrição de um ponto específico para o efeito na ordem de trabalhos.

Lisboa, 19 de Abril de 2013

ANEXO

Textos para debate e discussão

Anteprojeto de alteração aos Estatutos do PS para aproximar os cidadãos do Partido Socialista e reforçar a ligação entre o PS e a sociedade

Subscritores iniciais:

João Tiago Silveira
Ana Catarina Mendes
Ana Sofia Castro
André Teixeira Figueiredo
André Fonseca Ferreira
Ângela Ferreira
António Fantasia
António Mendes
Bruno Sá
Catarina Marcelino
Catarina Ribeiro
Cláudia Horta Ferreira
Diana Ettner
Domingos Farinho
Duarte Cordeiro
Fernando Medina
Fernando Rocha Andrade
Filipa Marques Júnior
Filipe Nunes
Florbela Fernandes
Francisco César
Graça Fonseca
Hernâni Loureiro
Hugo Mendes
Hugo Pires
Isabel Moreira
João Constâncio
João Galamba
João Miranda
João Stoffel
Juliana Martins
Luís Goes Pinheiro
Mariana Vieira da Silva
Mariana Trigo Pereira
Mark Kirkby
Miguel Alves
Miguel Filipe Cabrita
Miguel Rodrigues Cabrita
Miguel Romão
Nuno Oliveira Garcia
Pedro de Almeida Cabral
Pedro Cegonho
Pedro Delgado Alves
Pedro Marques
Pedro Nuno Santos
Pedro Pinto
Pedro Vaz
Sérgio Cintra
Sónia Fertuzinhos
Stephanie Sá Silva
Teresa Fragoso
Tiago Antunes
Tiago Pascoal

O discurso do filho da puta

“Politica e socialmente, uma política que é apenas vista como austeridade é claro que não é sustentável”, afirmou o presidente da Comissão Europeia esta manhã, em Bruxelas, numa conferência sobre “Federalismo ou Fragmentação”.

Barroso defende por isso que a política de correcção dos défice e da dívida, que sublinhou ser “indispensável”, deve ser combinada com “um ênfase mais forte no crescimento e medidas de crescimento a curto prazo”: “Temos dito isto, mas temos que dizê-lo de forma ainda mais clara senão, mesmo que as políticas de correcção do défice sejam correctas, (…) não serão sustentáveis politica e socialmente”.

“Sei que há conselheiros tecnocratas que nos dizem qual o melhor modelo, mas que quando perguntamos como o implementar, dizem que isso já não é com eles. E isto não pode acontecer ao nível europeu”, diz o presidente da Comissão Europeia, que acrescenta que, além de precisar de uma política económica “correcta”, a Europa precisa garantir “os meios para a sua implementação e (…) aceitação política e social”: “Foi aqui que penso que não fizemos tudo bem”.

Durão Barroso

Querido tontinho

Cenas pouco edificantes

I – Não é bonito de observar um ministro das Finanças a apresentar junto dos nossos credores, em dois continentes, em vez de argumentos fortes para obter melhores condições para o seu país, nada mais que as suas credenciais de obediência, para que o premeiem flexibilizando-lhe as metas do défice e concedendo-lhe prazos mais alargados para o pagamento da dívida. Se não incomodar muito. Ah, e por favor, deixem-no regressar aos mercados. Por favor. Ele queria tanto! E que se mostra eternamente agradecido quando o consegue, apesar de levar atrás de si uma obra desastrosa. É triste, é humilhante e fá-lo passar por burro. Faz lembrar um aluno a quem recomendaram que estudasse 5 horas por dia e tivesse decidido, para demonstrar diligência e aplicação, estudar 10, tendo com isso emagrecido, apanhado um esgotamento e ficado na iminência de chumbar. Nem vos digo nem vos conto de que maneira se olha para uma pessoa destas. E para o país que representa.

II- A pessoa atrás mencionada anda, entretanto, também a dar conferências enaltecendo as vantagens de reduzir a dívida dos países para menos de 90%, condição sem a qual supostamente não haverá crescimento. Nessas ocasiões cita, com ares de estudioso e conhecedor, um estudo de dois economistas de Harvard. Acontece que não só se demonstrou que o estudo contém erros crassos e não tem credibilidade, como o conferencista é a mesma pessoa que conseguiu a proeza de, à frente de um governo há 2 anos, aumentar em 25% a dívida do país em vez de a diminuir. Esta ave rara mantém-se no governo, sendo o principal, ou melhor, o único trunfo de um primeiro-ministro iletrado. O que diz isto dos governantes de um país, e do próprio país?

Revolution through evolution

Patients With Surgical Complications Provide Greater Hospital Profit-Margins
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How Sexual Frequency Corresponds With Happiness
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Famous Performers and Sportsmen Tend to Have Shorter Lives
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Language Instruction Improved With Fun and Games
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Acute Stress Primes Brain for Better Cognitive and Mental Performance
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Training the Brain to Improve On New Tasks
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Mental exercises may prevent mental decline in seniors

Continuar a lerRevolution through evolution

Treme governo, vem aí a Alternativa

“Quero, com os portugueses, fazer uma nova aliança”, promovendo “a construção de uma alternativa” ao actual governo, afirmou ontem António José Seguro. Essa alternativa, explicou, deverá congregar “progressistas, humanistas, democratas-cristãos, social-democratas e socialistas”. Aparentemente, só ficam de fora os vegetarianos, as testemunhas de Jeová e os tipos da revolução branca.

Trocado por miúdos, Seguro quer congregar marxistas e eco-marxistas (não confundir com o PCP e o Bloco), filantropos sem rótulo, democratas-cristãos (não confundir com o CDS), sociais-democratas (não confundir com o PSD) e, para rematar com chave d’ouro, socialistas (não confundir com o PS).

A Alternativa será uma coligação apartidária ou um movimento ecuménico contra os partidos? Ó António José, o que é que tu queres, homem? Queres uma União Nacional de todas as pessoas de boa vontade? Estarás bem da pinha?

Parece que os comunistas e os bloquistas enfiaram o barrete de “progressistas”, mas ambos apareceram a dar para trás na Alternativa do Seguro.

O genial Semedo, cujas medidas cefálicas dificilmente suportam qualquer carapuça existente no mercado, veio dizer que mais importante do que “com quem se governa”, é existir um “programa comum”. Primeiro, tem que haver um programa comum (comum de quem, carago?), depois logo se vê. E insistiu, para não haver dúvidas:

“Com quem se governa, resolve-se depois de haver um programa comum, uma base de entendimento muito amplo, que, provavelmente, ultrapassará as fronteiras partidárias. Nós não defendemos um governo em que estejam apenas os partidos representados, tem de ser um governo assente num programa”.

Explica lá como é isso, camarada Semedo. Esgalha-se um “programa comum”, talvez cozinhado entre anónimos na internet, e depois adere-se a ele no facebook? Em que nuvem moras, ó Semedo?

O Jerónimo da cassete referiu-se hoje tacitamente à Alternativa do Seguro considerando-a um fingimento, uma encenação. Para ele, o PS encena ser uma força da oposição para assim “manter vivo um Governo que politicamente está moribundo”. Para ele, o PS está a pensar apenas “como pode capitalizar o mal e o sofrimento que está a ser imposto ao país”. No melhor estilo estalinista, Jerónimo pretende que quem não é comunista está feito com o governo e quer viver à pala do sofrimento do povo. Camarada Jerónimo, mais valia estares calado. Não dás uma prá caixa.

Com estes Seguros, estes Semedos e estes Jerónimos, o governo do Coelho pode dormir descansado. Já se percebeu que nunca existirá Alternativa, nem sequer alternativa.

A pior austeridade imaginável

Não existe nenhum romance, nenhum filme, nenhuma canção que capte a experiência por que passa Portugal às mãos do passadismo ou, para o vexame ser ainda maior, do longo ciclo das crises iniciado em 2008. O hino dos Diolinda “Parva que sou” foi aproveitado para o marketing do 12 de Março de 2011 com sucesso, mas essa obra não apresentava qualquer visão sobre a comunidade ou a sociedade ao tempo, apenas explorava de forma lírica o crescimento do desemprego jovem. Os nossos artistas imitam o grosso dos académicos e primam pelo absentismo face aos sucessivos choques que empobrecem e desvitalizam o País. Os políticos rendem-se à sua impotência.

Não há pior austeridade imaginável do que a morte da imaginação.