A pior austeridade imaginável

Não existe nenhum romance, nenhum filme, nenhuma canção que capte a experiência por que passa Portugal às mãos do passadismo ou, para o vexame ser ainda maior, do longo ciclo das crises iniciado em 2008. O hino dos Diolinda “Parva que sou” foi aproveitado para o marketing do 12 de Março de 2011 com sucesso, mas essa obra não apresentava qualquer visão sobre a comunidade ou a sociedade ao tempo, apenas explorava de forma lírica o crescimento do desemprego jovem. Os nossos artistas imitam o grosso dos académicos e primam pelo absentismo face aos sucessivos choques que empobrecem e desvitalizam o País. Os políticos rendem-se à sua impotência.

Não há pior austeridade imaginável do que a morte da imaginação.

12 thoughts on “A pior austeridade imaginável”

  1. de facto, porca miséria, ainda só ouvi cantarem que é sexta-feira e suei a semana inteira e não tenho um tostão, alguém m’arranje um emprego bom, bom, bom, bom, já, já, já, já. mas rai’s que ma parta se não vou escrevinhar uma letra para acabar de vez com a apatia. :-)

  2. “O hino dos Diolinda “Parva que sou” foi aproveitado para o marketing do 12 de Março de 2011 com sucesso,…”

    foi negócio que deu para os dois lados, uns conseguiram ser governo e os outros entraram no mercado da animação cultural autárquica.
    http://www.deolinda.com.pt/

    depois temos o roll on da olinda, que se oferece para tudo, mas ninguém quer para deodorizante

  3. Val disse:

    «Os nossos artistas imitam o grosso dos académicos e primam pelo absentismo face aos sucessivos choques que empobrecem e desvitalizam o País.»

    Isso é uma grande injustiça, Val. As instituições académicas fazem o que devem. São os políticos que falham, como se pode ver aqui:

    http://ucv.uc.pt/ucv/podcasts/universo-uc/dia-da-universidade-discurso-do-reitor

    (É uma voz independente, pode-se não concordar com tudo o que foi dito pelo reitor da UC, mas não se pode afirmar que «os académicos primam pelo absentismo», pois é mentira. Os menos pacientes podem ver o discurso a partir do fim da saudação inicial (saltar os primeiros 3 min)).

  4. Muito bem. Bom senso. Houvesse mais desse por aqui, e por todo o lado (ou pelo menos por toda a esquerda), e teriamos todos mais razões para estar optimistas.

    Boas

  5. os académicos são uns lambe-botas e uma cambada de chulos que só se indigna quando lhes bate à porta e mesmo assim vão batendo a bola baixinho não vá o lugar ser posto em causa.

  6. “Isso é uma grande injustiça, Val. As instituições académicas fazem o que devem. São os políticos que falham, como se pode ver aqui:”

    Exacto, ainda me lembro da academia portuguesa em peso ser contra a entrada no euro, a austeridade expansionista e outros quejandos. Apenas afirmam aquilo que quem é poder quer ouvir. Há, claro, excepções, mas apenas confirmam a regra.

  7. Os “artistas” até a Grândola aproveitaram.

    Ninguem aproveitou o António Variações: A cabeça não tem juízo!!!o corpo é que se lixa!!!

  8. é para ser cantada em jeito calmo e triste, não de revolta, de canção. e imagino-a pela boca de um homem com veludo e fazenda na voz.

    prevaricação

    nossa passagem estreita
    nossa paisagem borrada
    nosso sonho esmagado
    a nossa casa perdida
    a nossa fé esmurrada
    nosso sangue roubado

    e agora, e agora, onde vamos respirar?
    (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

    dias a passos, viver de frete
    contas a monte
    jornal na retrete
    passagem desfeita
    paisagem perdida
    sonho roubado

    e agora, e agora, onde está a vida?
    (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

    amoras na mira
    ossos mirrados
    a coragem suspira
    abismo à espreita
    sol roubado
    ventos de direita

    e agora, e agora, quem refaz a cama onde o povo se deita?
    (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

    fel no sono
    azedo acordar
    andarilhos, socalcos
    um pesar o deitar
    andaimes travados
    altura qu’encurta
    sobressalto qu’enfeita
    queda que perdura

    e agora, e agora, onde pára a fartura?
    (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

  9. morrendo a minha imaginação , só me resta juntar-me ao sistema e encontrar uma solução que me facilite a vida : votai pcp !!!!! é tudo do estado. deixamos de pagar iva , imi , irc , irs , e ninguém dos mercados emprestará a um país assim , os políticos que vivem dos impostos e do emprestado começaram logo a desaparecer e com sorte os nossos netos encontram um terreno amanhado onde plantar sem ervas ( relvas , socrasalvias ?) daninhas a empestar.
    estou mesmo cansada. a solução é sermos todos comunistas no voto e o estado que trate de tudo. e vá chular , sei lá , os marcianos ?

  10. joaopft, não me referia às instituições académicas mas aos académicos. As instituições tratam de questões institucionais, não é suposto que façam oposição ao Governo. Já os académicos têm o direito – e o dever – de intervir no espaço público como cidadãos. Ora, e por maioria de razão, um académico está em melhores condições para analisar problemas e propor soluções.

  11. «Exacto, ainda me lembro da academia portuguesa em peso ser contra a entrada no euro» (aquaporina)

    De facto houve muitas advertências de académicos. Circulou também um abaixo-assinado que pretendia a submissão a referendo da adesão à moeda única, em 1997, e que recolheu 50 mil assinaturas, incluindo as de alguns académicos. Houve um debate público vivo; mas, do lado os políticos, o único partido que se opôs a essa adesão foi o PCP, como é bem sabido. O PS, na altura dirigido por Guterres, hesitou um pouco mas acabou por alinhar a sua posição com a de Cavaco Silva, julgando que as contrapartidas seriam suficientes. O BE ainda não existia.

    Alguns excertos da discussão que houve em 1997:

    “Precisamos urgentemente de uma “poção mágica” para as empresas e principalmente para o país, pois com a mania do pelotão da frente vamos deixando pelo caminho um rasto de desemprego e de exclusão, que mais tarde ou mais cedo se transformará em conflitos difíceis de resolver, porque vão atingir a alma das gentes.”
    (J. Vicente Ferreira, Consultor e docente universitário, Expresso, 5 de Abril de 1997)

    Em recente estudo “A rendibilidade das empresas na indústria portuguesa: 1986/94”, publicado no Boletim Trimestral do Banco de Portugal (Dez. 96), conclui-se que, a partir de 1989, com a alteração da política cambial e o reforço da apreciação real do escudo, há um reflexo mínimo na rentabilidade global das empresas, mas uma acentuada redução da rentabilidade no sector exportador.
    “Após a adopção da moeda única não é de esperar uma descida substancial das taxas de juro activas em Portugal, atendendo aos factores que as explicam.
    (José Martins Barata, professor no ISEG, 25 de Janeiro de 1997, Expresso)

    “DN — Mas fora da moeda única, as taxas de juro serão mais altas, devido a um aumento do prémio de risco para a economia portuguesa.
    JFA —Com o País no SME II serão, naturalmente, mais altas. Mas não é claro para mim que a entrada na moeda única resultará em grandes quebras nas taxas de juro para as empresas. Isto porque o grau de risco da economia também aumentará e, nos sectores pressionados, os bancos praticarão taxas de juro mais altas. Ou seja, os sectores que conseguirem absorver choques terão, certamente, taxas mais baixas. Mas, em termos médios, as taxas não descerão muito. Como conclusão, digo que a diferença não será tão grande que compense todos os outros efeitos negativos, como a concorrência de outros países exteriores à UE e até mesmo dentro da União, se países como a Espanha não entrarem.”
    (João Ferreira do Amaral, Professor Catedrático do ISEG. Diário de Notícias/Negócios, 27 de Maio de 1996)

    “(…) Dito de outro modo: as nossas taxas de juro têm de descer ainda mais. Só que, tanto quanto julgo saber, a generalidade dos bancos não aguenta novas descidas, por força dos seus encargos de estrutura. O problema desliza para outro plano: a descida das taxas de juro terá de ser acompanhada de um controlo muito apertado dos custos? Percebem o eufemismo? Maldita economia que sempre desemboca no despedimento de pessoas!”
    (Daniel Amaral, Visão, 23 de Janeiro de 1997)

    “Em segundo lugar, a moeda única pode contribuir para que as nossas PME, não tanto pela sua dimensão, mas sobretudo pelo factor risco que lhes está associado, possam ver agravadas a sua posição nas condições de acesso ao crédito, relativamente às empresas Europeias de maior dimensão, visibilidade e credibilidade.”
    (Vitor Santos, Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica, Ministério das Finanças, Semanário, 15 de Março de 1997)

    “Não estamos em condições de competir numa zona de moeda forte. A nossa estrutura produtiva não aguenta uma moeda forte”. “Não digo que a estratégia (do caminho para a moeda única) seja suicida. Mas é muito perigosa. Pode agravar a situação de perifericidade do país. Não é por adiarmos, em cinco ou dez anos, a adesão à moeda única que nos vamos tornar mais periféricos. Tornamo-nos mais periféricos se não tivermos uma estrutura produtiva que possa competir dentro do espaço Europeu. Não foi pelo facto de ter a mesma moeda de Lisboa que o nordeste transmontano se tornou menos periférico”.
    (João Ferreira do Amaral, Professor do ISEG, Público, Economia, 11 de Dezembro de 1995)

    “Portugal não se pode isolar da Europa. O que temos é de reconhecer que nem o nosso aparelho produtivo nem a nossa mão-de-obra estão à altura de poder competir num mercado totalmente liberalizado, pelo que se terão de pensar formas de proteger esse aparelho produtivo até que a nossa produtividade tenha atingido os níveis médios Europeus.”
    (Nuno Cardoso da Silva, Professor da ULHT, Expresso, 21 de Dezembro de 1996)

    “Esta pressa de construção Europeia, feita apenas por interesses económicos, custa a entender. A Europa é cada vez menos uma construção de povos e cada vez mais uma construção dum outro mundo de negócios.”
    (J. Vicente Ferreira, Consultor e docente universitário, Expresso, 5 de Abril de 1997)

    “Os custos do cumprimento dos critérios de convergência serão elevados.”
    (Daniel Bessa, ex-ministro da Economia, Público, 4 de Julho de 1996)

    “(…) Diz-se também que o facto de estarmos dentro da zona da moeda única nos permitirá exigir uma política mais intensa de apoio às regiões periféricas. Doce ilusão! Se nem sequer num país de forte coesão nacional como é o nosso se tem conseguido levar à prática uma política de desenvolvimento regional digna desse nome, como poderemos admitir que isso possa ser realizado num espaço sem governo (ou pior, desgovernado por bancos centrais que não respondem perante ninguém) e sem qualquer coesão nacional?
    Num espaço que, além disso, não tem um verdadeiro orçamento, uma vez que o que se chama o orçamento comunitário pouco mais representa que 1% do PIB, contra os cerca de 20% do orçamento federal de um país como os E.U.A..”
    (João Ferreira do Amaral, Professor Catedrático do ISEG, Boletim do Grupo BFE, Março de 1996)

    “A probabilidade de da UEM resultarem consequências sociais nefastas é maior na Grécia, Itália, Espanha e Portugal, países que iniciam o processo com dificuldades variáveis no capítulo da inflação, do défice público e do desemprego. Significa isto que as piores consequências da convergência para a UEM se farão sentir nas regiões menos favorecidas da União Europeia. Caso não sejam adoptadas novas medidas que permitam contrabalançar esses efeitos nefastos, a falta de coesão social já existente dever-se-á agravar.”
    “Não deixa de ser pertinente referir que a UEM virá afectar ela própria a repartição do rendimento a nível das regiões e das famílias. Mesmo tendo em conta a abertura de melhores perspectivas para a economia Europeia e, logo, uma maior coesão social e um melhor desempenho das regiões menos favorecidas, é pouco provável que a redução das disparidades seja suficiente para permitir a convergência de todos os Estados-membros ou a adequada coesão social revelada pelo processo político. Acresce que a UEM vai tornar mais necessário que sejam adoptadas medidas de igualização dado que implica a eliminação de muitos dos mecanismos alternativos de ajustamento.”
    “Em relação ao segundo objectivo a conclusão fundamental deste estudo é esta: os benefícios da UEM não são automaticamente repartidos de forma equitativa.”
    (As consequências sociais da União Económica e Monetária Estudo elaborado para o Parlamento Europeu pelo departamento de Economia da Universidade de Cambridge)

    “É sem dúvida difícil defender uma qualquer forma de redistribuição entre os Estados-membros. A primeira dificuldade reside no facto de a relativa falta de solidariedade tornar pouco plausível do ponto de vista político que os contribuintes das zonas prósperas estejam na disposição de suportar certas despesas sociais nos pontos menos favorecidos da União.”
    (As consequências sociais da União Económica e Monetária Estudo elaborado para o Parlamento Europeu pelo departamento de economia da Universidade de Cambridge)

    Também o facto de o PCP ter sido o único partido que era contrário à adesão ao euro foi aproveitado para descredibilizar a oposição à adesão por justaposição da oposição com propaganda anti-comunista. Os resultados dessa diatribe estão à vista de todos…

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