Era isto que eu queria ter escrito: “É a procura, estúpido!”, por Pedro Nuno Santos

No passado sábado, o primeiro-ministro português lembrou-se de ensaiar um discurso esquizofrénico e ignorante sobre o financiamento da nossa economia. Passos Coelho referiu que “O Estado não deixará de activamente, junto dessas instituições (bancos auxiliados), garantir que tudo o que elas podem fazer para reanimar o crédito à economia seja feito”. Esquizofrénico, porque se queria garantir que as instituições financeiras concedessem mais crédito como contrapartida do auxílio do Estado, deveria ter exigido isso mesmo nos acordos de recapitalização. A lei que regula o reforço da solidez das instituições de crédito dá as ferramentas legais necessárias para que sejam impostas aos bancos, no âmbito dos processos de recapitalização, condições ao nível do financiamento das empresas. No entanto, quando analisamos os despachos que autorizaram a recapitalização do BCP e do BPI, encontramos apenas referências genéricas à necessidade de apoiarem a economia e uma exigência concreta: a criação de um fundo de capitalização das pme’s no valor de 30 milhões de euros. Quando estamos na presença de injeções de milhares de milhões de euros, a exigência da criação de um fundo de 30 milhões de euros é bem elucidativa do empenho do Governo em querer obrigar os bancos auxiliados a  conceder crédito. Mas as declarações de Passos Coelho revelam sobretudo o seu nível de ignorância. Se não percebe as razões da retração no crédito concedido como é que vai conseguir conduzir Portugal para fora da crise? Em primeiro lugar, é importante que ninguém se esqueça que o negócio dos bancos é emprestar dinheiro. Se emprestam menos é porque se calhar o investimento privado também está a cair e, como tal, as empresas precisam de menos dinheiro emprestado. Dito isto, alguns precipitados responderão que o investimento cai porque os bancos emprestam menos e não o contrário. Mas se tiverem mais calma e forem primeiro analisar os inquéritos que o INE e o BCE fizeram às empresas portuguesas e europeias, perceberão que a razão principal para a quebra do investimento é a falta de encomendas e de clientes. Portanto, se o Estado português está tão interessado na reanimação do crédito à economia, então tem de primeiro reanimar a economia.

Bagão tem a solução

Há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia “provocative”. Não estou a dizer que pode vir a acontecer, mas nós precisamos de abanar a cabeça senão morremos atrofiados. É quase impossível chegar a acordo com o PCP, mas, se alguma vez se chegar a acordo, este será cumprido. O PCP é muito respeitador, institucionalista. Não é a fantasia do Bloco de Esquerda.

Bagão Félix em 5 de Março de 2011

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No começo de Março de 2011, quando Portugal poderia ainda escolher soberanamente o destino a seguir apesar dos pesares, este passarão do Bagão até com os comunistas iria para a cama caso isso lhe garantisse ver o seu querido CDS e o estupendo PSD a salvarem o País das garras dos tenebrosos socialistas e seus viciosos esquemas de promoção dos cuidados de saúde, dos apoios sociais, da educação, da geração de energias alternativas, do investimento na qualificação, na promoção da ciência e da tecnologia, da construção de vias rodoviárias no Interior, da dinâmica e ousadia nas exportações, na reforma do Estado e uma quantidade imensa de outras falhas que andavam a deixar a população em péssimas condições morais. Como ele mesmo nos diz, os direitolas corriam o risco de morrerem atrofiados, e o caso não era para menos.

Ora, se em 2011 se justificava o acarinhamento deste sonho lindo acima pendurado, quão mais em 2013, altura em que a devastação passista causada nesta desgraçada terra ultrapassou até o próprio fundamentalismo da Troika. Como Seguro não pode mostrar a mínima vacilação sob pena de perder o lugar, só resta ao Governo, e de facto, o PCP como aliado. Imagine-se o que não seria para Merkel e Barroso poderem dizer que em Portugal o consenso ia desde o CDS ao PCP. O Mundo quedaria boquiaberto e o papa Francisco seria de imediato aclamado como o inspirador do milagre. Pelo que só resta transformar o impossível em possível. E isso consegue-se oferecendo ao PCP os seguintes ministérios:

– Ministério dos Sindicatos
– Ministério das Manifestações
– Ministério da Constituição
– Ministério da Festa do Avante

E chega. Quanto ao resto, não faltam afinidades. Basta fazer um levantamento das votações entre 2009 e 2011. E se mais nada houver a ligar este terno, recorde-se com Bagão que o PCP é muito respeitador, institucionalista. Quer-se dizer, o PCP é tão inútil para o desenvolvimento do País que até dá gosto.

And here’s to you

“Here’s To Life”

No complaints and no regrets
I still believe in chasing dreams and placing bets
And I have learned that all you give is all you get
So give it all you’ve got

I had my share, I drank my fill
And even though I’m satisfied, I’m hungry still
To see what’s down another road, beyond a hill
And do it all again

So here’s to life
And every joy it brings
Here’s to life
To dreamers and their dreams

Funny how the time just flies
How love can go from warm hellos to sad goodbyes
And leave you with the memories you’ve memorized
To keep your winters warm

But there’s no yes in yesterday
And who knows what tomorrow brings, or takes away
As long as I’m still in the game, I want to play
For laughs, for life, for love

So here’s to life
And every joy it brings
Here’s to life
To dreamers and their dreams
May all your storms be weathered
And all that’s good get better

Here’s to life
Here’s to love
And here’s to you

Hello, Grécia!

Já está. A subserviência de Gaspar serviu-lhe de pouco, como se previa. De asneira em desnorte até à curva em que a Troika mostra as garras. Ou assim parece (admito que haja encenação ou combinações entre compinchas).

Segundo ouvi nas notícias, a conclusão da 7ª avaliação está dependente, além de um novo programa de cortes, também da existência de um “consenso” com a oposição e parceiros sociais. Já vimos este filme. Envolve chantagem e não é bonito de ver. Eventualmente, vai começar a ouvir-se falar em referendos sobre a permanência no euro e outras coisas já vistas, como direções de partidos pressionadas e em consequente conflito com militantes e eleitorado, partidos radicais excitados, etc. Será que não há ninguém que acabe com isto?

E mais um.. 13º país a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo

A Nova Zelândia tornou-se nesta quarta-feira o 13.º país no mundo – e o primeiro na região da Ásia-Pacífico – , a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

A lei que altera os textos que regem o casamento neste país desde 1955 foi votada favoravelmente por uma larga maioria dos deputados, um pouco mais de um quarto de século depois da despenalização da homossexualidade, em 1986. Desde 2005 que já eram autorizadas as uniões civis para casais homossexuais.

O novo texto qualifica o casamento como “a união entre duas pessoas, seja qual for o seu sexo, a sua orientação sexual ou a sua identidade de género”.

Esta reforma, defendida pelo primeiro-ministro de centro-direita, John Key, foi apresentada por Louisa Wall, deputada lésbica do partido trabalhista, principal formação da oposição. “A lei considerava os homossexuais neozelandeses como seres inferiores ao ser humano, aos outros cidadãos. Este texto permite garantir que o Estado não discrimina nenhuma categoria da população”, em função da sua orientação sexual, disse Louisa Wall à agência AFP.

A nova legislação enfrentou uma forte oposição de sectores mais conservadores da sociedade, nomeadamente o grupo Family First, que acusou os responsáveis políticos de minarem a instituição tradicional do casamento por pressão dos militantes homossexuais.

“Ainda há bem pouco tempo, nós lutávamos para não sermos considerados criminosos, mas o apoio que recebemos para o casamento homossexual aquece-nos o coração”, disse o activista Joseph Habgood. “O mundo está verdadeiramente a mudar.”

A Austrália, vizinha grande da Nova Zelândia, rejeitou a legalização do casamento gay em Setembro do ano passado.
 

Para já, guerra de estudos

Num oportuno contraponto (dir-se-ia) a quem contesta o estudo de dois economistas de Harvard sobre a relação da dívida com o crescimento dos países, que esteve na base das políticas de austeridade, estudo com erros fundamentais que foram agora denunciados pondo toda uma estratégia em causa, um estudo recente do BCE vem dizer-nos que a média de ativos das famílias portuguesas, gregas, espanholas, italianas ou cipriotas é bastante superior à das alemãs. Ou seja, os países em dificuldades financeiras serão mais ricos do que a Alemanha. Esta conclusão é escarrapachada em capas de jornais e revistas do eixo norte da Europa, para grande gáudio dos leitores/eleitores e dos contribuintes para a nossa “salvação”, em tudo muito mais parecida com desgraça, mas enfim. O artigo da Spiegel tem até um subtítulo de choque – “Como os países europeus em crise escondem a riqueza”.
Conclui o estudo do BCE que, sendo assim, havendo tanto dinheiro nos países em dificuldades, esteja ele onde estiver, e beneficiando eles de empréstimos generosos de países dadores como a Alemanha, a ajuda não se justifica e os próprios países devem encontrar internamente meios para ultrapassar as dificuldades financeiras. Terá sido talvez já com base neste maravilhoso estudo que as contas bancárias dos cipriotas foram sugadas e, pior ainda, se anunciou que a solução poderia ser futuramente adotada noutros países?

In light of the new ECB study, a new discussion of the Euro Group’s bailout strategy is indeed necessary. So far taxpayers have born the risks of this strategy, by guaranteeing all loans the ESM has paid out to needy countries. Greece, Ireland, Portugal and Spain are already part of this group, and now Cyprus has been added to the mix.
Germany is already guaranteeing about €100 billion in loans. If even more countries request aid and can then no longer serve as donors, the amount of money guaranteed by the Germans could rise to €509 billion, according to an estimate by the German Taxpayers’ Association. This figure doesn’t even include the latent risks in the balance sheet of the European Central Bank (ECB).

[…]In other words, taxpayers and ordinary savers are paying for the euro rescue efforts, which are primarily benefiting the rich in Europe’s most troubled economies. Their assets remain largely untouched, while the assets of their rescuers are melting away.

Não sei se o Excel do BCE também tem erros ou se há ali uma manipulação de dados em favor de um certo objetivo. Convém ler o artigo da Spiegel, que, apesar do título, mostra as várias perspetivas do problema e tem o cuidado de referir algumas das deficiências deste estudo, nomeadamente a desconsideração de dados como a percentagem de proprietários de habitações nos países do sul em comparação com a Alemanha – 80% para 44%-, o número de filhos por família, os anos a que se referem os dados, as razões para o acumular de poupanças nalguns países, o facto de se tratar de valores médios ou, enfim, a triste realidade nos países do sul que choca os olhos de qualquer um que os visite.

Como é óbvio, estudos destes, tanto um como outro, não contribuem o que quer que seja para acalmar as hostes nem para resolver sensatamente os problemas. Duvido que sejam os estudos económicos a causa direta de uma guerra, mas podem ser uma munição importante. Parece-me que começa a estar declarada.

Fenómenos do entroncamento

Desde 5 de Junho de 2011 que o Presidente da República deixou de considerar urgente, sequer necessário, aquilo do falar verdade aos portugueses. Não lhe voltámos a ouvir tais pedidos lancinantes, o que causa naturais interrogações. Será esse silêncio o resultado de mais um daqueles cortes no serviço público despesista impostos pela tal austeridade laranja que nos está a salvar dos anos em que consumimos irresponsavelmente verdades luxuosas que não trabalhávamos o suficiente para conseguir pagar?

Consenso, querem eles

Não há consenso possível (porque se trataria de um pacto eleitoral suicidário) enquanto o programa for o agravamento da recessão económica e dos números do desemprego através da continuação dos cortes (o “escavar o buraco”) nem enquanto o ministro das Finanças for o Vítor Gaspar nem enquanto for esta a orientação política do Governo nem enquanto for este o Governo.
Seguro tem hoje duas reuniões para o afirmar.

Aquela máquina

A metáfora do Estado ser como uma casa de família no que diz respeito ao modelo de autoridade e à gestão das finanças já tem séculos de denúncia filosófica. Todavia, continua a manter a sua eficácia política na direita mais retrógrada e populista. Isto por duas razões principais: (i) transporta uma ideologia oligárquica e patriarcal, a qual instiga ao individualismo e ao abandono da política; (ii) é uma deturpação simplista de imediata identificação acrítica pelos simples. Ainda recentemente, Ferreira Leite montou esse burro para as eleições de Setembro de 2009. Ela não fazia ideia do que estava para acontecer à Grécia e na Europa no princípio de 2010, por isso nunca falou de uma crise das dívidas soberanas que não existia ao tempo, mas apelou a um entendimento doméstico, no seu duplo sentido, dos problemas económicos de Portugal. E tinha uma solução, e não mais do que essa, igualmente simplória para resolver a coisa: parar tudo – ou seja, suspender todos os investimentos, não gastar, não comprar, não sair à rua. A dona de casa para quem a maior crise económica mundial dos últimos 80 anos não passava de um “abalozinho” prometia ao eleitorado a cura dos males socialistas pela abstinência colectiva. Com base nesse programa anal, cuja parte largamente maioritária consistia tão-só nos caudalosos e conspirativos ataques caluniosos, o que a Manela explorava e promovia era a ideia de que a família – como entidade mítica – era a substancial fonte da lógica e da moralidade do Estado.

Já Vítor Gaspar nunca será apanhado a reproduzir a falácia de o Estado ser como uma família. Ele tem um prestígio científico a defender, não se pode dar ao luxo de usar de retórica tão básica e tão academicamente inaceitável. Só que o resultado é, no presente de Portugal e da Europa, devastadoramente pior. Porque faz uso de uma falácia muito mais sofisticada e quase imbatível: a concepção de que a economia é uma ciência matemática e não uma ciência humana. Nesse paradigma, a política torna-se numa engenharia financeira onde se acredita conseguir prever os acontecimentos com a segurança com que um físico faz cálculos a respeito de massas e velocidades no espaço. E tal como na física, o passado é visto como informação irrelevante para a descrição do presente e os condicionalismos são reduzidos à sua expressão mínima. Foi assim que vimos Gaspar em Julho de 2011, e ao arrepio de tudo o que tinha sido prometido na campanha eleitoral e nos programas do PSD e CDS, a anunciar a sua primeira intervenção na economia:

O Governo decidiu propor à Assembleia da República a aprovação de uma medida excecional em sede de IRS, a sobretaxa extraordinária. Esta medida é imprescindível para acelerar o esforço de consolidação orçamental e cumprir o objetivo decisivo de um défice orçamental de 5,9 por cento para este ano.

De acordo com os cenários que consideramos previsíveis, e dentro das margens de incerteza que consideramos normais, é nossa intenção firme que esta sobretaxa seja apenas sobre os rendimentos de 2011. Sinalizamos isso ao ter na própria lei uma cláusula que explicita que a sobretaxa incide sobre rendimentos de 2011 e não vigorará para rendimentos de anos futuros.

Temos aqui o microcosmo do que viria a ser a sua actuação até aos dias de hoje. Em vez de cortar despesas, procura aumentar receitas; justifica a medida através de contas erradas; mente a respeito do futuro. Será que Gaspar fez de propósito? Será que Gaspar é tontinho? Nada disso, ele está a dar o seu melhor e o empenho na função será homérico. Acontece-lhe é estar preso naquilo que Pascal chamou de esprit de géométrie, essa inteligência perfeitamente adequada para lidar com abstracções mas um desastre no convívio com os corpos imperfeitos da realidade. Para esta dimensão, Pascal recomenda o esprit de finesse, precisamente aquilo que distingue um grande político.

Neste Bloco Central, podemos ouvir um homem que nos descreve a economia a partir de outro paradigma, o da biologia. E tal como na biologia, nas suas palavras, expressão da sua experiência, a economia é composta por tecidos, trocas químicas, organismos vivos. A inteligência biológica procura simbioses, harmonias, adaptações – isto é: compromissos para se conseguir sobreviver em sistemas e ambientes com diferentes factores de instabilidade. Esse homem é Silva Peneda, um dos poucos políticos do cavaquismo que resistiu à decadência da direita. Com ele à frente do Governo teríamos agora um primeiro-ministro tarimbado em concertação social, o qual recolhe o respeito e a confiança de todas as forças vivas da economia portuguesa. Em vez disso, continuaremos com um primeiro-ministro que existe apenas como figurante de uma experiência onde um país é governado por uma máquina de calcular. Marada.

Ainda sobre as audiências de Marcelo vs. Sócrates

(pedindo desculpas à Guida pela repetição do tema)

Pensar que as audiências de Sócrates poderiam rivalizar com as de Marcelo (estou a excluir a novidade da estreia) é ignorar as diferentes personalidades de cada um, o respetivo historial televisivo, a substância dos respetivos programas, o seu motivo e as preferências dos espectadores. Marcelo é basicamente um “entertainer”, aparentemente, mas só aparentemente, objetivo e imparcial. É capaz, sim, de criticar o seu próprio partido e os governantes do momento, e daí o picante das suas palavras, e até de elogiar adversários. Mas com grande à-vontade distorce os factos, sempre benévolo para a direita, e lança interpretações maquiavélicas das atuações dos agentes políticos. Depois, traz uns livros, fala de instituições de solidariedade, chegou a trazer tortas do Algarve, fala amiúde da amizade com a ex-colónia de Moçambique, tudo coisas populares e simpáticas, e, pelo meio, usa a verrina que mais se adequa à intriga da semana, pouco importando que minta ou que diga a verdade. O brilhozinho nos olhos dá-lhe um ar traquinas e espertalhão. Estes são os ingredientes do sucesso, numa televisão que bate as audiências e as receitas de publicidade com telenovelas de enredos idiotas ou tenebrosos mas brilhante guarda-roupa, concursos ruidosos e “reality shows” degradantes. Assim como assim, os telespetadores já estão sintonizados no canal.

Acresce ainda que o “entertainer” Marcelo não quer exercer nem nunca exerceu qualquer função política de/com responsabilidade, para bem dele e de todos nós, exceto uma passagem pela direção do partido, de pouca dura e má memória, pelo que a descontração é grande. Marcelo faz, no fundo, o que mais gosta (fica carente quando não) e é bem pago por isso. Duvido é que quem o ouve o quisesse ver a presidir ao país e muito menos a governá-lo.

Sócrates é outro género, sendo a única semelhança o facto de protagonizarem agora um programa de comentário político. Sócrates pensa e pondera o que diz, leva aquela coisa a sério, manifestamente ainda lhe é difícil abandonar totalmente a atitude contida e responsável que foi obrigado a manter num cargo de seis anos como primeiro-ministro, exceto na primeira entrevista; mas não admira: acabou de chegar às lides televisivas ressuscitado de uma crucificação pública movida pela inveja e promovida por gente de um extremo baixo nível que continua por aí. Além disso, não está ali para divertir ninguém ao serão de domingo, aliás, nem a situação portuguesa se compadece com tal. É corajoso.

Insistir em comparar a clientela dos dois comentadores é, pois, um exercício inútil ou, de outro ponto de vista, talvez não, já que se sabe bem o que se pretende com ele, e não é por acaso que o Correio da Manhã repete os números da GfK a cada coluna. A TVI foi ainda assim simpática ao antecipar o tempo de Marcelo. Não precisava.

Mas compare-se, por favor, o que é comparável. Acho que Sócrates fez muito bem e não posso deixar de considerar bom sinal o facto de ter uma “clientela” selecionada.

Com que então Sócrates está a perder audiência

“A Opinião de José Sócrates” é um sucesso estrondoso, e há provas disso espalhadas por essa Internet fora. Incapazes de atacar o conteúdo, roídos até ao osso com as críticas certeiras à escumalha do Governo, ao PR e aos políticos europeus, os adversários de Sócrates, agarram-se desesperadamente a uma suposta queda de audiências. E têm tudo contadinho, até aqueles que, como eu, aproveitam a tecnologia disponível e vêem o programa umas horas depois de ter ido para o ar. Estão histéricos e deliram com o facto de Marcelo continuar a ter não sei quantos milhões a ouvi-lo, o que, aliás, não admira pois a coscuvilhice sempre teve muita audiência. Anseiam pelo domingo à noite em que não reste uma alma ligada à RTP. E podem continuar a rezar, mas mesmo que o deus das audiências lhes faça a vontade, aposto que continuam a não conseguir atacar o que interessa.

Uma maioria, um Governo, um Presidente, uma Procuradora-Geral e até um líder da oposição

Que lhes estará ainda a faltar para começarem a meter xuxas no chilindró? Se a Associação Sindical dos Juízes, o Correio da Manhã, o Carlos Barbosa e o Duarte Marques conseguiram sem qualquer dificuldade reunir provas dos crimes socialistas, andará a Judiciária a engonhar? Será que os socráticos têm procuradores comprados com os milhões que sacaram à doida? Ou o plano é mesmo o de esperar pelas eleições legislativas para os processos de repente ganharem uma animação justicialista extraordinária?

Gaspar by Comenius

Seria fascinante – ou, às tantas, de um aborrecimento invencível – poder observar o que atravessou a cabeça de Vítor Gaspar nesse qualquer tempo que mediou entre ter recebido o convite para ser o procônsul da Troika para a região de Portugal e o momento em que se decidiu a aceitar o fardo, mesmo que isso o obrigasse a ter como secretário um tal de Passos Coelho. Em que terá pensado? E, talvez ainda melhor pergunta, quanto tempo demorou a reflectir? Semanas? Naaaaa… Dias? Se sim, muito poucos. Horas? Não seria nada que espantasse. Minutos? É possível, especialmente quando nos recordamos que uma hora costuma ter sessenta deles. Segundos? Esta seria a minha aposta, pelas razões que se seguem.

Como o vídeo que a Penélope trouxe mostra, Gaspar é capaz de falar com a fluência de uma pessoa normal. Para tanto, basta que lhe indiquem estar perante estrangeiros. Aí, começa logo a descontrair pois sabe que poderá palrar em inglês, a língua do seu coração. Ora, essa normalidade contrasta enigmaticamente com o que lhe acontece ao ter de falar português e para portugueses. Tal como as suas conferências de imprensa lusitanas exibem, e logo desde a primeira, a prosódia gasparina é feita de um ritmo que só conhece dois andamentos: devagar e devagarinho. Como se temesse ainda assim ir rápido de mais para as capacidades de assimilação da audiência, quase todas as palavras lhe saem antecedidas e procedidas de uma pausa. Essa apneia não se deve a eventuais problemas graves do foro cardíaco ou asmático, antes a uma intenção. O que ele intenta filia-se na tradição iniciada por Comenius em 1649, ano em que publicou a Didactica Magna – cujo subtítulo não pode ser mais optimista ou desvairado, é escolher: “ensinar tudo a todos“. Nesta obra se encontram os princípios da pedagogia como ciência e do ensino como arte. Em particular para o assunto, nela se encontra uma imagem que explica o espectáculo que tem deixado intrigados jornalistas e vulgo por igual:

Não há no mundo um penhasco ou uma torre tão alta que não possa ser escalada por quem quer que tenha pés, desde que a ela se encostem as escadas necessárias, ou então, talhando as rochas no lugar e com a ordem apropriada, nela se façam degraus, e, do lado dos precipícios perigosos, se ponham defesas.

Numa torre alta, daquelas que rasgam o céu, é onde Gaspar se sabe a morar. Ele chegou a partilhar o segredo para se subir a patamares tão estratosféricos: foi graças a uma educação “extraordinariamente cara”, a qual durou algumas décadas, e a qual o motiva para estar agora entre nós a vocalizar a conta-gotas – porque, e lá está, o que ele nos diz é para o nosso bem, trata-se de um verdadeiro fármaco. É o remédio contra a nossa ignorância, nós os desgraçados que tivemos educações apenas caras; ou nem isso, talvez só daquelas que se pagam com os impostos dos outros. Maneiras que ele aí está disposto a ensinar-nos tudo o que sabe e de uma forma adaptada às nossas limitantes dificuldades.

Este o quadro no qual se funda a minha crença de ter demorado breves segundos a sua resposta ao convite para vir tomar conta disto. É que uma vocação pedagógica desta grandeza e altruísmo não aparece de repente. Isto é tarefa de uma vida. Uma vida fechado em gabinetes a olhar para números, vida que era interrompida a intervalos regulares para se fechar em salas de reunião com outros colegas que também passavam a vida fechados em gabinetes a olhar para os mesmos números. Como é óbvio, essas são as condições ideais para desenvolver ideias superiores, ideias que jamais poderiam ser desenvolvidas por aqueles que passam as suas inúteis vidas fora dos gabinetes onde se olha para os números. Perante a oportunidade de poder ensinar um povo tão carente de elevação e conhecimento, Gaspar não terá hesitado mais do que o tempo que gasta nas suas pausas misericordiosas.