Aquela máquina

A metáfora do Estado ser como uma casa de família no que diz respeito ao modelo de autoridade e à gestão das finanças já tem séculos de denúncia filosófica. Todavia, continua a manter a sua eficácia política na direita mais retrógrada e populista. Isto por duas razões principais: (i) transporta uma ideologia oligárquica e patriarcal, a qual instiga ao individualismo e ao abandono da política; (ii) é uma deturpação simplista de imediata identificação acrítica pelos simples. Ainda recentemente, Ferreira Leite montou esse burro para as eleições de Setembro de 2009. Ela não fazia ideia do que estava para acontecer à Grécia e na Europa no princípio de 2010, por isso nunca falou de uma crise das dívidas soberanas que não existia ao tempo, mas apelou a um entendimento doméstico, no seu duplo sentido, dos problemas económicos de Portugal. E tinha uma solução, e não mais do que essa, igualmente simplória para resolver a coisa: parar tudo – ou seja, suspender todos os investimentos, não gastar, não comprar, não sair à rua. A dona de casa para quem a maior crise económica mundial dos últimos 80 anos não passava de um “abalozinho” prometia ao eleitorado a cura dos males socialistas pela abstinência colectiva. Com base nesse programa anal, cuja parte largamente maioritária consistia tão-só nos caudalosos e conspirativos ataques caluniosos, o que a Manela explorava e promovia era a ideia de que a família – como entidade mítica – era a substancial fonte da lógica e da moralidade do Estado.

Já Vítor Gaspar nunca será apanhado a reproduzir a falácia de o Estado ser como uma família. Ele tem um prestígio científico a defender, não se pode dar ao luxo de usar de retórica tão básica e tão academicamente inaceitável. Só que o resultado é, no presente de Portugal e da Europa, devastadoramente pior. Porque faz uso de uma falácia muito mais sofisticada e quase imbatível: a concepção de que a economia é uma ciência matemática e não uma ciência humana. Nesse paradigma, a política torna-se numa engenharia financeira onde se acredita conseguir prever os acontecimentos com a segurança com que um físico faz cálculos a respeito de massas e velocidades no espaço. E tal como na física, o passado é visto como informação irrelevante para a descrição do presente e os condicionalismos são reduzidos à sua expressão mínima. Foi assim que vimos Gaspar em Julho de 2011, e ao arrepio de tudo o que tinha sido prometido na campanha eleitoral e nos programas do PSD e CDS, a anunciar a sua primeira intervenção na economia:

O Governo decidiu propor à Assembleia da República a aprovação de uma medida excecional em sede de IRS, a sobretaxa extraordinária. Esta medida é imprescindível para acelerar o esforço de consolidação orçamental e cumprir o objetivo decisivo de um défice orçamental de 5,9 por cento para este ano.

De acordo com os cenários que consideramos previsíveis, e dentro das margens de incerteza que consideramos normais, é nossa intenção firme que esta sobretaxa seja apenas sobre os rendimentos de 2011. Sinalizamos isso ao ter na própria lei uma cláusula que explicita que a sobretaxa incide sobre rendimentos de 2011 e não vigorará para rendimentos de anos futuros.

Temos aqui o microcosmo do que viria a ser a sua actuação até aos dias de hoje. Em vez de cortar despesas, procura aumentar receitas; justifica a medida através de contas erradas; mente a respeito do futuro. Será que Gaspar fez de propósito? Será que Gaspar é tontinho? Nada disso, ele está a dar o seu melhor e o empenho na função será homérico. Acontece-lhe é estar preso naquilo que Pascal chamou de esprit de géométrie, essa inteligência perfeitamente adequada para lidar com abstracções mas um desastre no convívio com os corpos imperfeitos da realidade. Para esta dimensão, Pascal recomenda o esprit de finesse, precisamente aquilo que distingue um grande político.

Neste Bloco Central, podemos ouvir um homem que nos descreve a economia a partir de outro paradigma, o da biologia. E tal como na biologia, nas suas palavras, expressão da sua experiência, a economia é composta por tecidos, trocas químicas, organismos vivos. A inteligência biológica procura simbioses, harmonias, adaptações – isto é: compromissos para se conseguir sobreviver em sistemas e ambientes com diferentes factores de instabilidade. Esse homem é Silva Peneda, um dos poucos políticos do cavaquismo que resistiu à decadência da direita. Com ele à frente do Governo teríamos agora um primeiro-ministro tarimbado em concertação social, o qual recolhe o respeito e a confiança de todas as forças vivas da economia portuguesa. Em vez disso, continuaremos com um primeiro-ministro que existe apenas como figurante de uma experiência onde um país é governado por uma máquina de calcular. Marada.

17 thoughts on “Aquela máquina”

  1. este texto, mais do que um texto, é uma aproximação à luz. e digo aproximação porque a biologia não chega, per si, para o ser-se humano. à biologia tem de acrescentar-se, aquela que é a narrativa do corpo, alma.

  2. Val

    A Economia é explicada através de modelos matemáticos. Claro que é uma ciência social, por isso há desvios entre o que se projeta, planeia, orçamenta e depois a realidade. Interessa estudar o porquê dos desvios, para corrigir o modelo aplicado. É aquilo que está a ser feito.

    abraço

  3. cada vez que se “corrige”, mais merda sai, mas de proposito! para satisfaçao dos patroes de gaspar, e com a anuência ideologica do imbecil de massamá.

  4. “Interessa estudar o porquê dos desvios, para corrigir o modelo aplicado.”

    era mais barato, mais rápido e menos doloroso substituir o modelo “avestruz” sem pés e com cabeça enfiada no buraco. já agora podiam pedir à troika a suspensão dos juros enquanto não acertam com o modelo que os gajos impuseram.

  5. Ignatz

    Já tive oportunidade de escrever sobre esse assunto. Acho que os juros que Portugal está obrigado a pagar, é que nos irão empobrecer. O máximo que deveríamos pagar seria 2,25%.
    Hoje o serviço da dívida, representa 60% do IRS arrecadado pelo Estado. Para compensar os juros altos que estamos a pagar aos especuladores e agiotas, o dinheiro emprestado pela Troika, deveria ser mais barato. De outra forma não sairemos da cepa torta. Iremos trabalhar para os outros, por uma geração. A potencial riqueza criada pelo país, será entregue aos nossos credores, em forma de juros.
    O Sócrates tem, também, muito responsabilidade nesta situação. Se tivesse tido um ministro das finanças que o tivesse alertado em 2009, para a verdadeira dimensão da crise internacional, teria reagido atempadamente, recorrendo à Troika, mas com outra posição negocial.

  6. Val:

    Em defesa da ciência e do método científico, devo acrescentar o seguinte. Há uma anedota sobre um pai — que, quando aluno, decorava tudo sem tentar entender — que responde à curiosidade do seu filho desta forma:

    — Pai, por que é que o Sol sobe no céu, de manhã?

    — É porque o ar quente sobe — respondeu o pai.

    — E, pai, por que é que o Sol se desloca no céu, durante o dia?

    — É devido ao vento solar.

    O problema de Vítor Gaspar não é o de usar ou não matemática, física, etc, mas sim o de não usar o método científico. Não respeitar o método científico resulta em pseudo-ciência.

    A matemática funciona como linguagem a partir do qual paradigmas, conceitos e teorias científicas são enunciados e formuladas. Nas aplicações, seja elas às ciências físicas, biológicas ou humanas, os objectos matemáticos ganham significados semânticos que não têm na matemática pura. Tal interacção entre as ideias matemáticas e as ciências é um processo dialéctico, de contínua evolução e refinamento de ambas as partes, e às vezes de revolução científica.

    Os erros de Vítor Gaspar são devidos aos paradigmas da sua teoria e outros pressupostos teóricos, que a evidência empírica mostrou estarem errados. E é o próprio tratamento teórico que refuta esses paradigmas, ao produzir previsões que não estão de acordo com a evidência empírica.

    Do ponto de vista lógico, uma teoria científica é uma afirmação (em rigor, uma proposição) do tipo «hipótese implica tese». A matemática:

    (a) Colabora na construção de objectos matemáticos que se possibilitem escrever a hipótese e a tese de forma rigorosa. (fase hipotética do método científico)

    (b) Colabora na demonstração da proposição «Hipótese implica Tese». (fase dedutiva do método científico)

    É no passo (a) que se correm todos os riscos, pois não há como escapar ao uso do senso comum. O investigador tem que fazer uso do livre arbítrio, nesta fase. Ao invés, o passo (b) não só não introduz problemas, como ajuda a resolver os que foram herdados de (a): pois se a hipótese for verdadeira, então a tese também o é certamente; mas se a evidência empírica refuta a tese, então a hipótese é forçosamente falsa.

  7. a ver se não demoram muito tempo a compreender o porquê dos desvios, que já vamos com um milhão de pessoas desviadas do seu emprego, fora as centenas de milhar desviadas do país.

  8. joaopft

    O problema não está no modelo teórico, pois esse já foi testado. A questão que se põe, é saber, se a ponderação dada a cada variável do modelo, será a mais correta. Por isso, já foram realizadas 7 avaliações à execução do programa e feitos ajustamentos em todas elas. Não é por acaso que, hoje, todos dizem que este programa, já não tem nada a ver com o que foi assinado pelo Sócrates.
    As sociedades são dinâmicas, logo a Economia tem de ser dinâmica, logo os modelos, também, têm de ser dinâmicos.

    abraço,

  9. “O problema não está no modelo teórico, pois esse já foi testado. A questão que se põe, é saber, se a ponderação dada a cada variável do modelo, será a mais correta. Por isso, já foram realizadas 7 avaliações à execução do programa e feitos ajustamentos em todas elas.”

    já foi testado e nunca funcionou, cada vez que é ajustado o resultado piora, portanto estamos no caminho certo. o próximo ajustamento são as dobradiças do caixão.

  10. joappft

    Por exemplo, uma das variáveis que a Troika não teve muito em conta, foi a importância das micro e pequenas empresas no tecido económico do país. Por isso, não previram, nem compreenderam porque é que a taxa de desemprego subiu desta forma.
    Outra variável que a Troika, também, não fez uma boa ponderação, é a contribuição para o IRC que as grandes empresas, como a EDP, as telecomunicações têm. O Estado faz vista grossa às tarifas praticadas, pois sabe que o IRC vem, na sua maioria, destas empresas. Por isso, a Troika, também, não compreendeu porque é que o preço da eletricidade e das comunicações não desceram, mesmo com a redução brutal do consumo.

  11. a variável que a troika não teve em conta chama-se país. um modelo que rasga, corta, congela, vende ao desbarato e fiquem-quietinhos-não-se-mexam-pode-ser-que-passe não tem afinação possível.

  12. Não é!!! é isso que tens a dizer? e como seria se o PEC IV não tivesse sido rejeitado? E mais cedo quando? à 1 da manhã? antes da Grécia? Antes da irlanda? diz lá o dia e a Hora?

  13. jrrc

    Ainda andas às voltas do PEC4? Acho que não deves sair daí. Se tivesses seguido o que eu escrevi no blogue, já sabias. Não sou como o sultão, como não tem muito para dizer, passa a vida a repetir-se.

  14. francisco:
    em verdade, não segui o que escreveste, até porque tenho mais que fazer! tenho a certeza que não levarás a mal se eu te disser que não perdi nada…nada mesmo…
    só uma coisa… Sócrates só recorreu ao resgaste por canalhice do PSD, CDS/PP e demais partidos da esquerda radical, que com a Merkel podia ele…se não percebes isso, nada sabes sobre Sócrates….

  15. outra explicação possível para a crise financeira: os responsáveis pela dita metem-se na droga. Fala um insider :)
    http://veja.abril.com.br/noticia/economia/uso-excessivo-de-cocaina-causou-a-crise-financeira-diz-ex-czar-da-droga

    (ó rodrigues agora que estás no ir, dizes tu, lembras-te de há umas largas semanas te ter diagosticado bronquite asnática crónica? Há quem diga que este produto alivia, ou então agrava. Mas de qualquer modo, não tens nada a perder).

    jrrc, lá está, se tivesses lido os “posts” do rodrigues, não dizias esses “disparates”. Ele até já disse que o mal do Sócrates é não ler os “posts” dele. Concluindo, se tivéssemos lid….etc.

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