Tudo isto é propositado e muito errado

Esqueçamos o ar pesado com que Passos Coelho se apresentou ao país. Um ator domina a técnica. Como o próprio já nos confessou, não considera uma cruz a aplicação do programa da Troika. E o programa é o que está à vista. Nele estão inclusivamente previstas comunicações ao país com ar compungido. Passos, pois, não só concorda com o programa, esperava até por ele, como o aplica com a máxima convicção, coisa que tem afirmado e continua a afirmar. Dispensamos, portanto, os ares de chefe de governo responsável (até porque Relvas continua lá) e as suas declarações de pesar no Facebook pela ingratidão do papel que lhe cabe. É tudo farsa. O programa da Troika, e assumidamente do governo, consiste exclusivamente no empobrecimento da grande maioria da população, alegadamente para tornar o país competitivo. Competitivo em relação a quem, não nos é dito e era importante sabermos para podermos avaliar e discutir a lógica desta ideia. Ora, este objetivo parece tanto mais exclusivo quanto não se ouve nem da parte do governo nem da Comissão nem dos restantes credores qualquer palavra de frustração ou de censura quanto ao incumprimento das metas acordadas para o défice. Isto pode ter duas explicações: (1) não é importante, pois o objetivo principal é outro, ou (2) a receita falhou (e não era suposto falhar), mas Portugal tem de ser à viva força um caso de sucesso, logo monta-se o circo de que tudo está a correr bem e que o país está no bom caminho, abafando-se o mais possível a derrapagem orçamental e, embora mais difícil, o aumento do desemprego. Duvido desta segunda explicação. Impossível que esta gente não saiba o que está a fazer e o que quer.

Portugal falha como falha a Grécia e como vai falhar a Espanha. Por absurdo que pareça, a receita não está concebida para ajudar os países a reduzirem a dívida nem a dinamizarem a economia para que a possam pagar. O que se constata é que a dívida aumenta e que a recessão se instala, num círculo vicioso que torna impossível a recuperação económica. O que se pretende é apenas o empobrecimento ou, na linguagem desta gente, uma “desvalorização interna”.

E onde é que isto nos leva? Os alemães iniciaram há vários anos uma política de contenção salarial. Com a grande afluência de emigrantes turcos e da Europa de Leste, onde se ganhava 1/20 do que ganhavam os alemães, era praticamente impossível os salários não baixarem, para grande benefício das empresas e da economia. Mas uma coisa é ganhar 2000 euros e deixar de ter aumentos salariais num país grande e central da Europa (que aboliu o salário mínimo), outra bem diferente é, dentro de uma mesma zona monetária em que a moeda tem igual valor, ganhar 500 euros e passar a ganhar 380 ou menos num país distante do chamado “motor” económico da Europa. Não tenhamos ilusões: nem os alemães, nem os restantes países do Norte vêm investir em Portugal devido à mão de obra barata. Na Polónia, na Rep. Checa, na Eslováquia, na Bulgária, etc., os salários são ainda mais baixos e a proximidade geográfica (e cada vez mais as qualificações) não tem comparação. Mais: não precisam sequer de ir para o estrangeiro. No próprio país já pagam salários baixíssimos aos emigrantes. Os baixos custos salariais também não serão, por razões óbvias, motivo para que chineses ou indianos ou brasileiros aqui venham investir. Somos, por conseguinte, periféricos em relação à Europa e caros (e insignificantes) para os países emergentes. Continuar a lerTudo isto é propositado e muito errado

A realidade, realmente

Um dos efeitos da crise global, que acabou por condicionar todo este ano de 2010, foi a séria crise de confiança que se abateu nos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas dos países do Euro. Esta situação, sem precedentes na União Europeia, levou à subida injustificada dos juros, e afectou todas as economias europeias. Basta, aliás, ver o que passa lá fora para se compreender a dimensão europeia desta crise que a todos afecta embora a alguns países de forma mais intensa.

A verdade é que todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices como forma de contribuir para a recuperação da confiança nos mercados financeiros.

O Governo português tomou as medidas necessárias para enfrentar esta situação. Com confiança, com sentido de responsabilidade e com determinação. Definiu metas ambiciosas para 2010 e 2011 que vamos cumprir. O que está em causa é da maior importância. O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português, e o próprio modelo social em que queremos viver.

Sócrates, nas vésperas de começar a ser aplicado o Orçamento para 2011, negociado com o PSD

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Reacções da oposição:

Bernardino Soares

Foi uma mensagem de propaganda do Governo na qual o primeiro-ministro tentou alijar as suas responsabilidade e as do Governo na situação que o país vive, procurando enviá-las para outras instâncias, como a crise internacional.

José Manuel Pureza

A realidade é uma coisa e o discurso do primeiro-ministro é outra completamente diferente.

Nuno Melo

O primeiro-ministro aproveitou o Natal para um exercício muito infeliz de auto-elogio, que esta realidade não consente, e para propaganda, que é exactamente o que Portugal não precisa. Portugal vive uma realidade e há uma outra em que este primeiro-ministro gravita. O que ele vê não é seguramente o que todos sentimos.

Relvas

O primeiro-ministro voltou a omitir a realidade de Portugal para fugir às suas próprias responsabilidades na situação presente. Assistimos a mais um exercício de retórica e a mais um discurso sem novidades do primeiro-ministro. Não há nada de novo a acrescentar, além do habitual irrealismo do primeiro-ministro.

Dúvida metódica

Sendo que o PSD não mente aos portugueses, e tendo este partido garantido que o agravamento da já agravada austeridade é culpa do Tribunal Constitucional, não estará na altura de fazer um jantar de desagravo ao Seguro, agradecendo-lhe por ter tentado com todas as suas forças que a Justiça não se intrometesse no Processo da Roubalheira Em Curso?

Podemos espreitar o resto da bandeja?

Estas medidas de austeridade não são, em princípio, tudo o que há na bandeja*. Estas são as que repõem nos cofres do Estado as verbas ameaçadas pela decisão do Tribunal Constitucional, mais uns pozinhos de 400 milhões de euros correspondentes à diferença entre a descida da TSU para os patrões e o aumento da contribuição para os trabalhadores. Ora, função pública à parte, sabemos que o buraco orçamental deste ano se cifra em cerca de 3000 milhões de euros. Nada nos foi dito sobre a obrigatoriedade e o modo de o tapar.

Logo, será de esperar que tal seja anunciado depois de terminada a avaliação da Troika. Se assim for, e não se conhecendo cortes em “gorduras do Estado”, estaremos a assistir ao anúncio em duas etapas de mais medidas de austeridade, o que parece estranho para um governo que elegeu como princípio a concentração e rapidez dos sacrifícios, logo, por maioria de razão, o seu anúncio.

No entanto, pode dar-se o caso de a Troika já ter concordado em flexibilizar as metas do défice para este ano e para o próximo (afinal, a Irlanda atingirá um défice de 8,3% este ano e apenas está obrigada a atingir a meta de 1% em 2015). Nesse caso, este primeiro anúncio de medidas seriam as más notícias que se dão em primeiro lugar (miseravelmente justificadas por mentiras sobre a decisão do TC), e imediatamente antes de um jogo de futebol da seleção nacional, para daqui a uns dias ou semanas se anunciarem as boas – que não nos é exigido o cumprimento dos 4,5% para este ano, nem os 3% para o ano que vem. Será? Pelo que têm dito algumas das luminárias laranjas mais radicais, com Passos à cabeça, esse seria um facilitismo totalmente de rejeitar. Mas dificilmente se compreende que se divida o anúncio de mais medidas de austeridade em duas partes, uma má e a outra… péssima. Seria mais uma originalidade, mas do género que não incorpora inovação, pois o “mercado” não vai “comprar”. Também é certo que a inteligência e o planeamento não abundam hoje em dia para os lados de São Bento.

*O PS, com aquele discurso solene de Zorrinho, deu ar de querer gastar precipitadamente todos os cartuchos. Porque não insistiu mais na “tresleitura” da decisão do TC?

O redobrado dever de Cavaco (em todo o caso, estamos cá nós)

Cavaco entendeu não submeter o último OE, com claras inconstitucionalidades, a fiscalização preventiva. Só ele o poderia fazer.
Depois de promulgado o OE que eliminava remunerações (subsídios) e pensões a funcionários públicos, um grupo de 17 Deputados do PS e o GP do BE suscitaram a fiscalização sucessiva do diploma.
O conhecido Acórdão, por 9/3, deu-nos razão: os cortes referidos são inconstitucionais.
Esta decisão tem força obrigatória geral, nos termos da CRP.
Vem agora o PM, numa engenharia infantil, na prática, manter suprimidos os subsídios da FP e retirar um salário aos privados.
Para além dos efeitos doentios na economia destas medidas, a serem inseridas no próximo OE, violam a recente decisão do TC.
São o que se chama uma fraude à decisão.
Cavaco, num mundo moral, terá, se for o caso, de suscitar a fiscalização preventiva do OE para 2013.
Se a amoralidade que ouvimos hoje passar em Belém, é obrigação dos Deputados acima referidos, e começo por mim, de suscitar novo processo.
Temos esse poder. Que é um dever.

Sim, merecemos que nos achincalhem com este à-vontade

Hoje, é fácil contrastar o profundo ceticismo de que Portugal era alvo na comunidade internacional com o voto diário de confiança que depositam em nós. Somos agora vistos pelos nossos parceiros internacionais e pelos agentes da economia global como um País confiável e merecedor de apoio, e a nossa reputação no exterior é incomparável com a que gozávamos há cerca de ano e meio. Este ativo tem consequências diretas na vida dos Portugueses, como nos demos conta quando no passado o delapidámos, quer mais recentemente quando efetuámos vários leilões de dívida pública a juros mais baixos aliviando os encargos de todos os contribuintes no financiamento do Estado.

Tudo isto é uma obra coletiva que mobilizou e mobiliza todos e cada um de nós. Uma obra de uma comunidade nacional que tem razões para deixar de duvidar de si mesma. Estou certo que neste ponto até os mais céticos concordarão.

Indivíduo que saltou de proscrito nas listas do PSD para Primeiro-Ministro por acção de Cavaco, Portas, Louçã e Jerónimo

Notícias de Karlsruhe (via Le Monde)

(Baseado numa notícia do Le Monde)

Segunda-feira, 10 de setembro, o Tribunal Constitucional alemão vai finalmente apresentar o seu veredicto sobre o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), que substituirá o FEEF e será dotado de muito maior poder de fogo em defesa dos países em dificuldades (€ 700 000 milhões contra os míseros € 150 000 do FEEF) .

Caso o TC declare o mecanismo inconstitucional, será o pânico nos mercados e na zona euro e a consumação do mal-estar em grande parte da UE com a predominância dos interesses e da democracia alemães sobre todos os outros. Será a guerra política, sobretudo depois das decisões ontem anunciadas pelo BCE. Mas, dizem os especialistas, tal veredicto é pouco provável.

O mais provável é que seja favorável, mas venha acompanhado de uma série de condições, nomeadamente a consulta das instituições eleitas, como a Câmara Alta do Parlamento (“Bundesrat”), o que atrasaria todo o processo de ajuda a Espanha, ou ainda a exigência de que Berlim contribua com menos fundos para o mecanismo e que o limite fique inscrito na Constituição. Apesar de a Constituição não autorizar referendos nacionais, outra hipótese ainda será o TC exigir que, no contexto da maior integração europeia, qualquer nova transferência de soberania seja sujeita a referendo, o que implicaria alterar a Constituição. Ora, além do tempo que tal demoraria, os eleitores alemães estão cada vez mais eurocéticos…

Suspense, pois, até segunda-feira. Se o MEE não for aprovado, volta tudo à estaca zero. Não haverá dinheiro para a Espanha nem para a Itália, que, por isso mesmo, não poderão pedir um resgate, condição indispensável para beneficiarem da disponibilidade do BCE para comprar a respetiva dívida. Depois das palavras de Mario Draghi, o Tribunal Constitucional com sede em Karlsruhe não se atreveria, dizemos nós. Mas se há coisa que não falta aos seus juízes são peneiras.

Dúvida que ficou por esclarecer na conferência de imprensa de Mario Draghi

Pode o BCE comprar dívida de um Estado-Membro contra a vontade deste?

Segundo se deduz do que afirmou não há muitos meses, Passos Coelho não concorda com o novo papel assumido agora pelo BCE. Presumimos que já lho terá feito saber a esta hora e que, se o banco se oferecer para comprar dívida portuguesa para o ano, Passos responda que não quer, que não precisa.

Para o meu pai, que se chama Adriano Moreira

“Não envelhece quem envelhece ao nosso lado”
Adriano Moreira
“Pois não.
Sugeriram-me que escrevesse um texto sobre o Adriano Moreira, que completa agora 90 anos, sem que olhando os seus olhos jamais tivesse dito esse nome, porque o meu Adriano Moreira chama-se pai.
Difícil, por isso, escrever sobre quem é de certa forma de todos, mas é, em tantas coisas, só meu; difícil não abrir as portas de uma intimidade que me salva todos os dias, difícil agradecer, também aqui, para além da gratidão que expresso a um trasmontano que ecoa nas minhas escolhas, nas minhas alegrias, nas minhas dores, nas minhas palavras e nos meus silêncios.
Somos civilizacionalmente dados a datas, a marcos no tempo que passa, como que para o parar por uns instantes: os números redondos de aniversários são caso disso – 90 anos. O meu pai era igual aos 89 e será igual aos 110, mas faz 90 anos e por isso paramos um instante, como que para fazer uma inscrição da pessoa, do menino que veio da aldeia para estudar, filho de pais heróis e que teve a vida esplendorosa que não me cabe contar.
Posso dar o testemunho do que o meu pai fez à minha vida, posso explicar melhor por que razão escrevi numa dedicatória que o meu pai é o homem da minha vida, posso explicar melhor como os princípios essenciais que norteiam a minha vida pública e privada foram bebidos daquele trasmontano, que é ansioso como eu, mas mais contido: limita-se a enrolar os polegares um no outro que subitamente são os do seu pai, o meu avô.
Se é verdade que a política rouba muito tempo à família, aconteceu-me interessar-me pelo fenómeno muito cedo e seguir o meu pai em comícios e iniciativas afins pelo país fora na campanha de 1987. Eu tinha 11 anos e queria saber tudo, o que tinha sido aquilo da moção de censura do PRD, por que é que era mau as eleições europeias e as nacionais serem no mesmo dia (voto útil), queria fazer sondagens pessoais, mas queria, sobretudo, ouvir. Durante essas eleições, e mais tarde, ouvi o meu pai defender o privilégio dos pobres, por exemplo.
Com 11 anos não entendia o significado total da reclamação, mas fui compreendendo que o combate à pobreza teria de estar sempre no topo da lista das obrigações da governação. Por isso percebi também o que era aquilo da esperança concreta – que de resto influenciou a minha tese de mestrado -, a exigência de direitos sociais concretizados: eis a habitação; eis a escola pública; eis os cuidados de saúde, etc.
Outro princípio que ficou gravado na minha carne foi o de que o voto útil só é útil para quem o recebe.
Esta moldura social e política era e é concretizada na forma como o meu pai vive a sua vida, o que me traçou – até com alguma violência – a certeza de que tudo o que somos e fazemos é ideológico.
Não se pode pregar contra o capitalismo selvagem e ter por moral uma vida de luxos exuberantes que nos diferenciem do outro. Daí a frase do meu pai, que penso ter aprendido do seu avô Valentim: – o que nos define é a maneira como vivemos a vida e não a maneira como ganhamos a vida.
Vendo o que o meu pai fez, faz e vai continuar a fazer com a sua vida pública e privada, recordando os princípios que enunciei e tantos outros, dou por mais simples concluir que o meu pai, essa palavra que persigo, norteou e norteia tudo o que toca de acordo com um princípio elementar de justiça.
Se isso faz dele uma espécie de oleiro do que procuro ser, há razões muito mais profundas para eu estar a escrever sobre o homem da minha vida. Elas estão espalhadas pelos livros que escrevi, as personagens estão sempre à procura do pai, e a mim aconteceu-me a circunstância de a referência masculina estável da minha vida que nunca quebrou uma palavra, que sempre me apoiou, não apesar de eu ser assim, mas sobretudo porque eu sou assim (chama-se amor, filha – diz-me), numa relação recíproca de reconhecimento da autenticidade da ideia que saia da boca do outro foi o meu pai, que se chama Adriano Moreira.
A meu respeito escreve-se quase sempre a deputada independente do PS Isabel Moreira, filha do Professor Adriano Moreira. Às vezes com segundas intenções, mas não faz mal. A frase é, sem que o saiba quem a escreve, violentamente identitária.
Agora em discurso direto, obrigada, meu amor, parabéns, prometo plantar macieiras no dia seguinte ao dia pior da minha vida e não te esqueças disto, que um dia escrevi num sítio esquecido:
“Aprendi a sabedoria de dizer esta sou eu, sem medo, e queria que soubesses e sentisses que sou tão feliz na nossa ansiedade partilhada como o era após o jantar sentada no teu colo com a tua gravata gravada na minha face. Não há tempos díspares, portanto, entre nós, como um dia escreveram; há antes uma intensa proximidade, calhando apenas que eu falo mais porque conto com a tua prudência e porque sinto que te faz bem o choque emocional feito em verbo.
Sempre que nos sentamos a almoçar, observo-te reclamando toda a tua vida. Pareces-me pronto a explodir, digo. Mas quero explicar que é esse teu estado limite que te torna um ser com o rosto de que não prescindo à minha secretária. Escreves sobre o humanismo e a esperança que é sempre uma criança que nasce, mas no concreto da tua pele não foges, porque não podes, ao pessimismo que te assombra a visão do que esteve para ser e o acaso não permitiu ou do que simplesmente surge preto por mais que um poeta clame por claridade. É essa contradição remoída nos teus dedos que amo. Que faz de ti uma pessoa muito antes de seres um intelectual. E sei que essa dor sangra de uma ferida que se chama exigência. Hoje gostava que soubesses que sofro dessa ferida, dessa exigência violenta.
Não trocava a minha ansiedade e a dor dela pela calma feliz que tem o preço da não-reflexão.
O mesmo é dizer que gosto de ti sempre pronto a explodir”.”

(No Público de ontem)

Freitas ganha pouco

Há muito tempo que não se falava de Freitas do Amaral, o que em ex-celebridades desse calibre costuma provocar engulhos e obstipação. Anteontem Freitas dormiu mal, sempre a ruminar no seu nulo protagonismo na era Coelho – uma injustiça que só vem confirmar a ingratidão congénita do partido laranja e do gajo de Belém. Freitas nunca esquecerá que, nos anos 80, o mangas de Boliqueime se baldou a participar nas despesas da campanha Prá frente Portugal e o obrigou a trabalhar à noite durante dez anos para pagar as dívidas. O fabricante dos chapelinhos de plástico também o vigarizou, mas isso são outros contos.

Ontem, entre o peido contrito do pequeno almoço e a água de Colónia, Freitas voltou a meditar em tudo isto três vezes, o que nele costuma preceder explosões de génio. Vai daí, nasceu-lhe uma ideia poderosa. Foi ao armário roupeiro e procurou nos cabides de trás aquela camisola proletária que já não vestia desde que o filho, o futuro escritor pimba, o tratou de burguês. Sacou do telefone, convocou a RTP e largou a bomba:

“Uma pessoa que ganha mais que 15 mil euros é privilegiada. Os que ganham 50 são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros mensais – porque os há – são os tubarões. Devia haver, por parte do Governo, um imposto, uma tributação especialmente pesada sobre essas pessoas”.

Que ninguém se engane. O que rigorosamente se pode inferir desta bocarra mediática do fundador da democracia cristã lusitana é isto, e só isto:

1. Que Freitas ganha actualmente menos de 15 mil por mês.

2. Que supostos amigos de Freitas, que ele secretamente despreza e inveja, ganham mais de 15 mil euros por mês.

3. Que alguns dos mais perniciosos inimigos de estimação de Freitas ganham todos, por um caprichoso acaso do destino cruel, mais do que 200.000 euros por mês. Por exemplo, o merdas do Pires de Lima quanto ganha?

 

Do uso magistral de 49 minutos

Este discurso, proferido ontem na convenção do Democratas, tem 49 minutos. Mais de três quartos de hora a falar, o que seria suficiente para testar a paciência de qualquer espectador. E a razão porque é tão longo, o mais longo que Bill Clinton já deu (descontando uns 10 minutos dedicados aos salamaleques e elogios obrigatórios), é porque foi o tempo necessário para explicar o que se passa com uma economia ainda muito fraca, o que se passa com um país ainda a recuperar da beira do abismo onde esteve, e a desconstruir as sucessivas mentiras, distorções, ódios e toda uma narrativa alternativa que o Partido Republicano meticulosamente construiu ao longo dos últimos quatro anos perante um país onde a incerteza e o desespero foram mato para demagogos e vendedores da banha da cobra.
Este é então um discurso sobretudo dedicado a uma das coisas mais chatas que existem em política: falar de política. Explicar as políticas seguidas e as politicas a seguir. Em detalhe. Uma por uma. Expô-las, justificá-las e defendê-las dos ataques e propaganda de que são alvo.
E isso deu 49 minutos de discurso, porque os temas são muitos e complexos. Normalmente, seria uma seca insuportável a que apenas os jornalistas e os delegados assistiriam em pleno, em ambos os casos por obrigação. Acontece que Clinton não é um politico qualquer, e pegou nos temas considerados chatos e deu-nos 49 minutos de um dos melhores discursos que já vi em toda a minha vida, Obama incluído. Simples mas denso. Baseados em factos e números sem ser professoral. Falando de temas sérios com graça. Trabalhando a multidão como um mestre. Aliás, adorando a multidão que por sua vez o adora de volta. É a oratória, em resumo, de um mestre feliz por o ser.
Este discurso devia ser de visionamento obrigatório para todo o político que alguma vez chegue ao pé de um pódio e de um microfone com a intenção de abrir a boca. E creio que, daqui em diante, o será. Mais de que politica americana, mais do que politica espectáculo, isto é sobretudo política no seu melhor.  Na palavra.

Take five – x2

Barroso diz que resgate não deve destruir Estado social

Então, ó Zé Manel, fazes o favor de dizer isso
1. Ao teu amigo Passos Coelho,
2. Ao teu para-colega Vitor Gaspar,
3. Ao teu ex-chefe Aníbal Cavaco e Silva,
4. Ao presidente da Comissão Europeia (sabes quem é, não?),
5. E aos caras de pau que andam agora em Lisboa a dizer que temos de cortar isto e mais aquilo e mais aqueloutro na proteção aos pobres, aos desempregados, às famílias numerosas e no serviço aos doentes, às crianças, aos deficientes, aos idosos (os da troika, já ouviste falar?)

*

Comissão insta Estados-Membros a reconhecer competências adquiridas fora do meio escolar e universitário

Recomendo a leitura desta comunicação da Comissão Europeia:
1. Ao Primeiro-ministro português, que achava que o programa Novas Oportunidades era a certificação da ignorância e o liquidou,
2. Ao ministro Miguel Relvas, que sabemos que achava o mesmo que o anteriormente citado pela simples razão de que o Novas Oportunidades exigia muito mais dos candidatos à certificação do que a Universidade Lusófona lhe exigiu a ele,
3. Ao ministro Nuno Crato, executor material, às ordens dos precedentes, da liquidação do Programa,
4. A todos os imbecis que, com mais ou menos galhofa, vomitaram anos a fio as maiores alarvidades sobre o método de reconhecimento, validação e certificação de competências, sem nada perceberem dele, e assim foram criando o ambiente necessário para a extinção do Novas Oportunidades,
5. E aos imbecis ao quadrado que, tendo dito o mesmo, nos irão dizer um destes dias que, em cumprimento das instruções de Bruxelas, o país se dotará de um programa de reconhecimento de competências adquiridas fora do meio escolar.

Augusto Santos Silva

Good food for good thought

Jason Fried is a founder and CEO of 37signals, a software company based in Chicago. Fried also treats 37signals as something of a laboratory for innovative workplace practices – such as a recent experiment in shortening the summer workweek to just four days. We caught up with Fried to learn how employees are like fossil fuels, how a business can be like a cancer, and how one of the entrepreneurs he admires most is his cleaning lady.

FAST COMPANY: You have your employees only work four-day weeks in the summer.

JASON FRIED: Sometimes people are not really used to working just four days and actually want to stay to get more work done.

You’re saying you have people who actually want to stay the fifth day?

When we first started this a few years ago, there was a small sense of guilt in a few corners. People were like, “I have stuff to get done, it’s Thursday, so I’m gonna work Friday and just get it done. But we actually preferred that they didn’t. There are very few things that can’t wait till Monday.

How many employees would stay to work Fridays?

I don’t know.

Because you weren’t there!

We don’t track things in that way. I don’t look at that. I don’t want to encourage that kind of work. I want to encourage quality work.

As CEO, wouldn’t it simply be rational to let people work the fifth day for you if they wanted?

If you’re a short-term thinker you’d think so, but we’re long-term thinkers. We’re about being in business for the long haul and keeping the team together over the long haul. I would never trade a short-term burst for a long-term decline in morale. That happens a lot in the tech business: They burn people out and get someone else. I like the people who work here too much. I don’t want them to burn out. Lots of startups burn people out with 60, 70, 80 hours of work per week. They know that both the people or the company will flame out or be bought or whatever, and they don’t care, they just burn their resources. It’s like drilling for as much oil as you possibly can. You can look at people the same way.

[…]

37signals Earns Millions Each Year. Its CEO’s Model? His Cleaning Lady

A relatividade

No Público de hoje: «O levantamento da imunidade parlamentar da deputada do PS Ana Paula Vitorino, para ser constituída arguida num processo por difamação interposto pelo ex-ministro Mário Lino, está a gerar controvérsia. Em causa estão as declarações de Vitorino no processo Face Oculta em que a ex-secretária de Estado dos Transportes reafirmou ao tribunal que o antigo ministro das Obras Públicas lhe disse que as empresas de Manuel Godinho, principal arguido no processo, eram “amigas do PS”. (…) A posição do não levantamento da imunidade tinha o apoio do BE e do PCP, apesar de a própria Ana Paula Vitorino ter dado a indicação de que a sua imunidade poderia ser retirada. Ontem, o PSD surpreendeu a sala e defendeu o levantamento da imunidade, o que levou o CDS a pedir um adiamento da votação.(…)»

Que pequenino e imberbe tudo isto me parece hoje! A história de Ana Paula Vitorino ter dito que ouviu Mário Lino dizer que as empresas de Manuel Godinho eram «amigas do PS», motivo que levou o ex-ministro a mover-lhe um processo por difamação, terá hoje alguma importância perante as autênticas negociatas, compadrios, contratações e pagamento de favores que este governo faz às escâncaras?

Cara Cândida Almeida

Excelentíssima Senhora Procuradora-Geral Adjunta:

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, que destino foi dado aos 30 milhões de Euros que o GSC – German Submarine Consortium pagou à ESCOM, do grupo Espírito Santo, a empresa que fez “assessoria” (lindo nome) na negociação das contrapartidas e que até criou uma empresa offshore para receber as massas.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se alguns militares, políticos e partidos portugueses abifaram parte ou a totalidade desses 30 milhões – em suma, quem, quais e quanto.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se o então presidente da ESCOM, Luís Horta e Costa, o “Luís das Amoreiras”, já respondeu a estas perguntas e, se sim, como respondeu. Já agora, Luís Horta e Costa ainda está em liberdade e, se sim, porquê?

Continuamos também sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se Paulo Portas não terá fotocópias – ou porventura os originais – dos tais documentos relacionados com os contratos dos submarinos que, segundo o DCIAP, desapareceram do Ministério da Defesa.

Alguém da escolinha da JSD se lembrou de lhe fazer perguntas sobre estas matérias, cara Senhora Dona Cândida Almeida? E se não, porque não?