Para o meu pai, que se chama Adriano Moreira

“Não envelhece quem envelhece ao nosso lado”
Adriano Moreira
“Pois não.
Sugeriram-me que escrevesse um texto sobre o Adriano Moreira, que completa agora 90 anos, sem que olhando os seus olhos jamais tivesse dito esse nome, porque o meu Adriano Moreira chama-se pai.
Difícil, por isso, escrever sobre quem é de certa forma de todos, mas é, em tantas coisas, só meu; difícil não abrir as portas de uma intimidade que me salva todos os dias, difícil agradecer, também aqui, para além da gratidão que expresso a um trasmontano que ecoa nas minhas escolhas, nas minhas alegrias, nas minhas dores, nas minhas palavras e nos meus silêncios.
Somos civilizacionalmente dados a datas, a marcos no tempo que passa, como que para o parar por uns instantes: os números redondos de aniversários são caso disso – 90 anos. O meu pai era igual aos 89 e será igual aos 110, mas faz 90 anos e por isso paramos um instante, como que para fazer uma inscrição da pessoa, do menino que veio da aldeia para estudar, filho de pais heróis e que teve a vida esplendorosa que não me cabe contar.
Posso dar o testemunho do que o meu pai fez à minha vida, posso explicar melhor por que razão escrevi numa dedicatória que o meu pai é o homem da minha vida, posso explicar melhor como os princípios essenciais que norteiam a minha vida pública e privada foram bebidos daquele trasmontano, que é ansioso como eu, mas mais contido: limita-se a enrolar os polegares um no outro que subitamente são os do seu pai, o meu avô.
Se é verdade que a política rouba muito tempo à família, aconteceu-me interessar-me pelo fenómeno muito cedo e seguir o meu pai em comícios e iniciativas afins pelo país fora na campanha de 1987. Eu tinha 11 anos e queria saber tudo, o que tinha sido aquilo da moção de censura do PRD, por que é que era mau as eleições europeias e as nacionais serem no mesmo dia (voto útil), queria fazer sondagens pessoais, mas queria, sobretudo, ouvir. Durante essas eleições, e mais tarde, ouvi o meu pai defender o privilégio dos pobres, por exemplo.
Com 11 anos não entendia o significado total da reclamação, mas fui compreendendo que o combate à pobreza teria de estar sempre no topo da lista das obrigações da governação. Por isso percebi também o que era aquilo da esperança concreta – que de resto influenciou a minha tese de mestrado -, a exigência de direitos sociais concretizados: eis a habitação; eis a escola pública; eis os cuidados de saúde, etc.
Outro princípio que ficou gravado na minha carne foi o de que o voto útil só é útil para quem o recebe.
Esta moldura social e política era e é concretizada na forma como o meu pai vive a sua vida, o que me traçou – até com alguma violência – a certeza de que tudo o que somos e fazemos é ideológico.
Não se pode pregar contra o capitalismo selvagem e ter por moral uma vida de luxos exuberantes que nos diferenciem do outro. Daí a frase do meu pai, que penso ter aprendido do seu avô Valentim: – o que nos define é a maneira como vivemos a vida e não a maneira como ganhamos a vida.
Vendo o que o meu pai fez, faz e vai continuar a fazer com a sua vida pública e privada, recordando os princípios que enunciei e tantos outros, dou por mais simples concluir que o meu pai, essa palavra que persigo, norteou e norteia tudo o que toca de acordo com um princípio elementar de justiça.
Se isso faz dele uma espécie de oleiro do que procuro ser, há razões muito mais profundas para eu estar a escrever sobre o homem da minha vida. Elas estão espalhadas pelos livros que escrevi, as personagens estão sempre à procura do pai, e a mim aconteceu-me a circunstância de a referência masculina estável da minha vida que nunca quebrou uma palavra, que sempre me apoiou, não apesar de eu ser assim, mas sobretudo porque eu sou assim (chama-se amor, filha – diz-me), numa relação recíproca de reconhecimento da autenticidade da ideia que saia da boca do outro foi o meu pai, que se chama Adriano Moreira.
A meu respeito escreve-se quase sempre a deputada independente do PS Isabel Moreira, filha do Professor Adriano Moreira. Às vezes com segundas intenções, mas não faz mal. A frase é, sem que o saiba quem a escreve, violentamente identitária.
Agora em discurso direto, obrigada, meu amor, parabéns, prometo plantar macieiras no dia seguinte ao dia pior da minha vida e não te esqueças disto, que um dia escrevi num sítio esquecido:
“Aprendi a sabedoria de dizer esta sou eu, sem medo, e queria que soubesses e sentisses que sou tão feliz na nossa ansiedade partilhada como o era após o jantar sentada no teu colo com a tua gravata gravada na minha face. Não há tempos díspares, portanto, entre nós, como um dia escreveram; há antes uma intensa proximidade, calhando apenas que eu falo mais porque conto com a tua prudência e porque sinto que te faz bem o choque emocional feito em verbo.
Sempre que nos sentamos a almoçar, observo-te reclamando toda a tua vida. Pareces-me pronto a explodir, digo. Mas quero explicar que é esse teu estado limite que te torna um ser com o rosto de que não prescindo à minha secretária. Escreves sobre o humanismo e a esperança que é sempre uma criança que nasce, mas no concreto da tua pele não foges, porque não podes, ao pessimismo que te assombra a visão do que esteve para ser e o acaso não permitiu ou do que simplesmente surge preto por mais que um poeta clame por claridade. É essa contradição remoída nos teus dedos que amo. Que faz de ti uma pessoa muito antes de seres um intelectual. E sei que essa dor sangra de uma ferida que se chama exigência. Hoje gostava que soubesses que sofro dessa ferida, dessa exigência violenta.
Não trocava a minha ansiedade e a dor dela pela calma feliz que tem o preço da não-reflexão.
O mesmo é dizer que gosto de ti sempre pronto a explodir”.”

(No Público de ontem)

26 thoughts on “Para o meu pai, que se chama Adriano Moreira”

  1. O seu pai é das poucas pessoas do Portugal recente que ainda nos faz acreditar tratar-se de um país habitável, com identidade e futuro, Isabel. Mais três ou quatro com a sua integridade, decência, desprendimento, mundividência, rigor, erudição e sentir-se português, e talvez nem tivessemos caído no buraco em que estamos.

  2. Parabens a seu pai.
    Ontem cheguei a emocionar-me com algumas das suas considerações.
    Afinal o que ele pede à vida – ser lembrado pelos filhos, com o amor com que ele se lembra dos pais – cumpre-se no testemunho de Isabel.
    Obrigado por públicá-lo
    Jnascimento

  3. Parabens a adriano moreira pela sua inteligência e vitalidade aos 90 anos.à isabel, o meu obrigado pelo belo texto que escreveu.O professor tambem o mereceu.

  4. “A meu respeito escreve-se quase sempre a deputada independente do PS Isabel Moreira, filha do Professor Adriano Moreira. Às vezes com segundas intenções, mas não faz mal. A frase é, sem que o saiba quem a escreve, violentamente identitária.”

    as primeiras e as segundas intenções não têm importância, mas as terceiras revelam promoção à sombra e depois deste anúncio de página inteira o país fica esclarecido.

  5. Isabel,

    Parabéns para seu pai, três vezes: pela pessoa que é, pelo seu aniversário e pela filha que tem!!!!!!!!!!!!

    Respeitosamente

  6. Ignatz, tu partilhas o problema da minha vizinha da barraca ao lado: enviuvou, ficou encurralada na falta de homem e agora só faz figuras de mal fodida, coitada.

  7. parabens ao prof.adriano moreira,pela sua inteligencia e vitalidade aos 90 anos.à filha os parabens pelos pai que tem, e pelas causas que defende.

  8. Tive o privilégio de assistir a muitas aulas do Prof. Adriano Moreira no ISCSP e admiro-lhe a inteligência, a classe e a forma como se fez respeitar por gente de qualquer quadrante político.
    Parabéns ao aniversariante e à filha.

  9. oh shark el-sheikh! já tinha reparado que eras especialista em vizinhas de barraca, mas podes ficar descansado que eu navego noutras águas.

  10. Parabéns para o seu pai. Queremos que ainda conte muitos anos, porque nos faz falta uma voz lúcida e sábia. Só quem é ou tem sangue transmontano percebe qual a verdade e o amor que põe nas suas palavras e o amor que tem pelo seu pai, por isso perdoe esses comentaristas mal intencionados e como dizia o meu avô Transmontano “vozes de burro não chegam ao céu”
    Novamente parabéns para si e seu pai
    Atília Lopes
    Transmontana

  11. As convicções, a sensatez e a seriedade fazem muita falta em qualquer quadrante político. Mas quando desaparecer, Adriano Moreira deixará um vazio sensível não só na direita, como no panorama político português em geral, caso raro, senão único, em tantos anos. Entre as carradas de políticos rafeiros, nulidades, cobardolas e oportunistas que Salazar produziu em meio século, quem deixou saudades? E depois do 25A, alguma figura da direita consegue ombrear com Adriano Moreira? Dirão os cépticos que não teve responsabilidades governativas suficientes para se queimar. Nunca o saberemos, mas admiro precisamente a distância sanitária que manteve em relação às lutas pelo poder.

    Como não quero parecer que o estou a enterrar vivo, desejo-lhe que continue em forma para chegar aos 100.

  12. Cara Isabel,
    o Jnascimente já disse o essencial. Ser filha de tal pai será uma felicidade e uma responsabilidade, muito embora haja muita alma peregrina que só vê as vantagens mas nunca os inconvenientes.
    Habituei-me a admirar seu pai já há muitos anos, pois as suas intervenções sempre foram claras, decididas e orientadas por princípios que muita das vezes, infelizmente, andam afastados da política mesquinha do dia a dia.
    Hoje em dia, de vez em quando lembram-se dele. Ainda bem, pois é sinal de que nem toda a memória anda perdida, pena é que não o encontrem mais vezes.
    Parabéns ao seu pai, e a si também, por não ter medo de remar contra a maré, aceitando de bom grado as críticas dos homens perfeitos.

  13. Ao grande Homem, prof. Adriano Moreira, os meus sinceros parabéns pelo seu aniversário e, sobretudo, pelo seu exemplo de vida.

  14. Admiro o Prof. A. Moreira pelo fato de vindo da Direita se ter integrado sem azedume no regime democrático.
    Quanto à Isabel, partilhamos o socialismo democrático, mas não alguma da sua militância mais fraturante.Contudo, respeito a sua coragem de Pessoa Independente, que tem pensamento próprio e que não receia expôlo e expor-se!
    Pai e Filha, ambos estão de Parabéns!

    PS- Todos dispenávamos os anónimos que neste blog e na net – a coberto do anonimato – só sabem insultar e não sabem argumentar.

  15. Um HOMEM! Parabéns pelos seus 90 anos, pelo seu saber, pela sua clarividência, pelo seu bom senso, pelo seu exemplo de democrata. Bem haja.

  16. Parabéns Isabel por si e pelo seu pai. Sempre que vou à livraria / esplanada fico à espera de outro livro seu. Um abraço

  17. Isabel, o seu pai é uma das raríssimas pessoas de direita a quem eu, esquerdelho inveterado, era capaz de dar o meu voto numa eleição para a Presidência da República. Era a garantia de ter na chefia do Estado um homem e uma pessoa decente, em vez do invertebrado vaidoso que lá está agora, para nossa desgraça e vergonha. Há muitos anos que penso assim e que o digo, quando ainda não fazia a mínima ideia de que ele tem a filha que tem.

    Adriano Moreira levava o meu voto até contra Manuel Alegre, embora o perdesse contra Mário Soares, Jorge Sampaio ou José Sócrates, por exemplo. Mas aqui por razões puramente políticas, sem de modo nenhum afectar a consideração que me merece. Será de direita, sim senhor, mas da direita das ideias, não da direita dos interesses, da direita merceeira, jagunça e incompetente, ignorante e arrogante, que nos coube em sorte na governação.

  18. pois eu respeito o adriano moreira e não tenho respeito algum pelo manuel alegre, mas se tivesse de escolher um deles para presidente da república votaria sem dúvida no pateta alegre pelo seu passado anti-fascista, no entanto compreendo que haja idiotas úteis que por vedetismo, palermice ou ressabiamento preferissem eleger um gajo de direita, tivemos recentemente dois fenómenos colectivos do género, pcp e bloco ajudaram a direita a derrubar um governo legítimo.

  19. para quem não se lenbra ou ker esquecer a historia, e peço desculpa pela desilegancia á filha, o Sr Dr adriano moreira foi ministro do ultramar no tempo da ditadura, reabriu os campo de concentração de presos politicos do ultramar..logo..foi um ditadorsinho as ordens do ditador…digam coisas boas do homem ditador mas tambem as coisas mas ..e ser um ditador julgo não esta para o bem propriamente um bom exemplo.

    ditador?..se so foi ministro..pois ..os goering e himmels tambem eram ministro de hitler..os cerebros..para mim Adriano Moreira pode ter sido um exelente pai e ate quiça homem .mas na mimnha memoria foi e sera sempre um ditadorzeco…e não me merece aprezo em nome de vidas perdidas trucidadas de pessoas que viveram , morreram e lutarm neste pais pela liberdade…gostava de ver este senhor e outros como pinochet, husseins e afins julgado pelos seus crimes..e condenado..com 20 ou 99 anos..pelo mal que fez…ou pelo menos defender se se estiver eu e muitos enganados e equivocados.. se não prisão!

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