Do uso magistral de 49 minutos

Este discurso, proferido ontem na convenção do Democratas, tem 49 minutos. Mais de três quartos de hora a falar, o que seria suficiente para testar a paciência de qualquer espectador. E a razão porque é tão longo, o mais longo que Bill Clinton já deu (descontando uns 10 minutos dedicados aos salamaleques e elogios obrigatórios), é porque foi o tempo necessário para explicar o que se passa com uma economia ainda muito fraca, o que se passa com um país ainda a recuperar da beira do abismo onde esteve, e a desconstruir as sucessivas mentiras, distorções, ódios e toda uma narrativa alternativa que o Partido Republicano meticulosamente construiu ao longo dos últimos quatro anos perante um país onde a incerteza e o desespero foram mato para demagogos e vendedores da banha da cobra.
Este é então um discurso sobretudo dedicado a uma das coisas mais chatas que existem em política: falar de política. Explicar as políticas seguidas e as politicas a seguir. Em detalhe. Uma por uma. Expô-las, justificá-las e defendê-las dos ataques e propaganda de que são alvo.
E isso deu 49 minutos de discurso, porque os temas são muitos e complexos. Normalmente, seria uma seca insuportável a que apenas os jornalistas e os delegados assistiriam em pleno, em ambos os casos por obrigação. Acontece que Clinton não é um politico qualquer, e pegou nos temas considerados chatos e deu-nos 49 minutos de um dos melhores discursos que já vi em toda a minha vida, Obama incluído. Simples mas denso. Baseados em factos e números sem ser professoral. Falando de temas sérios com graça. Trabalhando a multidão como um mestre. Aliás, adorando a multidão que por sua vez o adora de volta. É a oratória, em resumo, de um mestre feliz por o ser.
Este discurso devia ser de visionamento obrigatório para todo o político que alguma vez chegue ao pé de um pódio e de um microfone com a intenção de abrir a boca. E creio que, daqui em diante, o será. Mais de que politica americana, mais do que politica espectáculo, isto é sobretudo política no seu melhor.  Na palavra.

14 thoughts on “Do uso magistral de 49 minutos”

  1. «Política no seu melhor, na palavra»?

    De como o rabo abana o cão:
    http://www.youtube.com/watch?v=pKaXqoC4DjE#t=2m00s
    http://www.huffingtonpost.com/2012/09/05/dnc-god-jerusalem-platform_n_1859200.html

    Do outro lado o mesmo, pelas mesmas razões:
    http://www.youtube.com/watch?v=ifJG_oFFDK0

    Refinado senso de humor do actual assassino-em-chefe:
    https://www.youtube.com/watch?v=WWKG6ZmgAX4
    http://www.newyorker.com/online/blogs/comment/2012/05/the-presidents-kill-list.html

    Particularmente divertido, para além dos vários silenciamentos, o cuidado de misturar a menção a Deus e a questão de Jerusalém, para que a malta que quiser votar contra o seu reconhecimento como capital do estado judeu moderno tenha de votar contra a própria divindade, muito apreciada e confiada em todos os contextos, como se sabe, pela polis oficial americana.

    Pobres “founding fathers”. Se voltassem lançavam outra porque a de 76 já foi.

  2. [As minhas desculpas por ter trocado os videos. Se puder, elimine o comentário s.f.f.. Os links correctos são os que seguem. Vale a pena ver com atenção.]

    «Política no seu melhor, na palavra»?

    De como o rabo abana o cão:
    http://electronicintifada.net/blogs/ali-abunimah/did-democratic-delegates-just-vote-down-obama-bid-pander-aipac-jerusalem
    http://www.huffingtonpost.com/2012/09/05/dnc-god-jerusalem-platform_n_1859200.html

    Comentários aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=cncbOEoQbOg

    *********
    “Way to go Democrats. Only the Democratic party would do such a bone headed thing in full view of the entire PLANET!!! Exactly how did you think this would go? Dumb asses.”
    — hughman55

    “The GOP did the same exact thing in their convention..”—-
    — moneebagz721 in reply to hughman55

    “When?”
    — hughman55 in reply to moneebagz721

    “watch?v=pKaXqoC4DjE”
    — moneebagz721 in reply to hughman55

    “And they did that for the sole purpose to keep Ron Paul from making a speech. It makes me sick. Ron Paul write in 2012.”
    — ltinius1988 in reply to moneebagz721
    *********

    De facto, do outro lado o mesmo, pelas mesmas razões:
    http://www.youtube.com/watch?v=pKaXqoC4DjE#t=2m00s

    Refinado senso de humor do actual assassino-em-chefe:
    https://www.youtube.com/watch?v=WWKG6ZmgAX4
    http://www.newyorker.com/online/blogs/comment/2012/05/the-presidents-kill-list.html

    Particularmente divertido, para além dos vários silenciamentos, o cuidado de misturar a menção a Deus e a questão de Jerusalém, para que a malta que quiser votar contra o seu reconhecimento como capital do estado judeu moderno tenha de votar contra a própria divindade, muito apreciada e confiada em todos os contextos, como se sabe, pela polis oficial americana.

    Pobres “founding fathers”. Se voltassem lançavam outra porque a de 76 já foi.

  3. Pois Vega9000, mas este tipo de presenças só muito poucos as conseguem fazer e Clinton é um deles, do mesmo modo que John Kennedy, Martin Luther King Jr, Churchill, De Gaulle, António Vieira – para não citar os clássicos – e alguns mais (poucos) o conseguiram fazer.
    Política é também isto.

  4. Entre os muitos aspectos admiráveis no espectáculo que Clinton ofereceu ao mundo, houve um momento em que pensei estarmos perante o discurso do século (também ajuda ter o século apenas 12 anos). Foi quando se referiu a uma qualquer ameaça dos Republicanos e saiu-se com um “we can’t”. Nesses segundos, em que a multidão aplaudia, esperei temeroso que Clinton repetisse em estribilho: “Yes, we can’t!”

  5. O Clinton seria mais “yes, we cunt”, mas concordo que ao menos não punha os sapatos na secretária como o actual assassino-em-chefe.

    E a propósito de assassinatos, uma boa pergunta a fazer ao candidato republicano é se estará apto a seguir as inovações no direito internacional introduzidas pelo estado judeu do Médio Oriente e seguidas com entusiasmo pelos assassinos seus predecessores: Is Romney Ready for the Kill List?

    Cá por mim, penso que estará. Só que irá receber a lista directamente do céu, em tábuas de ouro que depois desaparecerão sem deixar sinais, como é habitual nas encomendas celestiais. É um bocado como a fita magnética dos episódios da «Missão Impossível». Já em Fátima foi a mesma coisa com a chuva de pétalas. No problem: os olhos da fé sabem ver sem óculos.

    Pior ainda, em caso de eleição, a hipótese de as ceroulas mágicas do presidente acabarem nalgum federal enshrinment de natureza laica (ou talvez no Smithsonian?)…

  6. Mais:

    http://www.latimes.com/news/politics/la-pn-antonio-villaraigosa-god-jerusalem-20120907,0,3647028.story

    “It’s more a media concern than a delegate concern. I can tell you this
    — the president of the United States said, ‘Wow.’ The president said,
    ‘You showed why you were speaker of the California Assembly,’ Villaraigosa said. ‘The president, the vice president, Mrs. Obama, all
    of them acknowledged the decisive way I handled that.”

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