4 anos é muito tempo

Vamos ter de levar com Cavaco, Passos, Portas e Seguro durante mais 4 anos, pelo menos. E talvez também com Jerónimo e Louçã, de quem não se antecipa qualquer sucessor tão cedo. Quer isso dizer que nada de novo há a esperar das lamentáveis personagens que ocupam o palco principal da política portuguesa.

Acho que o melhor é começarmos a pensar no que vamos fazer para não embrutecermos ou fliparmos.

Responsabilidade, um bicharoco em vias de extinção

Questionado sobre a atuação do atual Governo e à forma como Vítor Gaspar está a enfrentar a crise, Fernando Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças, afirmou: “Tenho de estar solidário com aqueles que pretendem cumprir este caderno de encargos”.

Numa conferência que decorreu no Porto, o ex-ministro das Finanças acrescentou que Portugal está a cumprir os compromissos que assinou com a troika e que as coisas “não seriam muito diferentes se ainda estivesse a governar”.

“Fiz a negociação com a troika e pus a minha assinatura num conjunto de medidas que acordei e que este Governo está a procurar implementar. Temos um caderno de encargos para o país e está a ser cumprido.”

Fonte

Fartos de frases como esta

Portugal tem que ser um dos países mais baratos”, declara Daniel Bessa.

Esta gente que usufrui de um belíssimo salário e/ou dispõe de avultados rendimentos e que, baseando-se em meros cálculos economicistas, que, aliás, qualquer um de nós saberia fazer se o objetivo for o exclusivo desafogo financeiro dos empresários, vem dizer que o melhor é os trabalhadores ganharem o menos possível, revolve-me as tripas, confesso. A “mão-de-obra barata” é constituída por pessoas, com necessidades, com expectativas, com famílias ou com ambição a constituírem uma, pessoas potencialmente com capacidades. Pessoas que, com tiradas como esta, só podem é decidir fugir daqui e sem demora.
Daniel Bessa, que, por vezes, parece ter lucidez suficiente para desejar que a Europa reveja a austeridade, pretende agora, como muita gente insensível, reduzir o país a pessoas analfabetas (ah, pois, a educação e a formação custam dinheiro), desqualificadas e mal pagas que “alimentem” (também literalmente) e perpetuem o nosso incompetente tecido empresarial. Esta é a via para o subdesenvolvimento, caro senhor. Só que não para o seu nem o dos seus filhos, claro.

Vinte Linhas 718

Leonardo Coimbra – as palavras e o mundo

Em momentos de confusão como os actuais, gosto de ler textos fortes, palavras com âncoras no meio da tempestade. Leonardo Coimbra (1883-1936) foi o fundador da Universidade Popular depois de ter sido anarquista e foi por duas vezes ministro da Instrução em 1917 e 1923. Criou a Faculdade de Letras do Porto e as Escolas Primárias Superiores e escreveu vários livros dos quais destacamos «A alegria, a dor e a graça». Segundo Sant´Anna Dionísio «uma das ideias nucleares do seu pensamento é a de que toda a existência é social». Vi morrer António José Saraiva na Associação Portuguesa de Escritores depois de se ter emocionado a falar de seu pai e de Leonardo Coimbra, visita de casa. José Hermano Saraiva confirmou-me na circunstância: «Falou no pai e em Leonardo Coimbra, foi isso, foi a comoção».

Do livro acima referido Leonardo Coimbra vale a pena citar um excerto: «O homem carece de palavras que, do Universo, respondam às fraquezas da sua vida, de amistosas mãos que o levantem e amparem, de alguém que do invisível centro da Vida, seja presente ao esforço do trabalho quotidiano. É-lhe preciso um amor claramente significado, uma transfusão de vida que dê à sua existência o apoio de outras existências. Atingiu a palavra e a sua solidão será maior que nunca, se essa palavra morre sem eco, de encontro à cerração dos outros seres. E como é difícil que a palavra substância, a palavra elemento cósmico, penetre e viva na intimidade hostil das outras criaturas! (…) Há tanta gente que, para conhecer a vida e entender os homens, compra um dicionário!»

Conclusão: vale a pena ler de novo Leonardo Coimbra, um homem que escreveu tão velozmente como morreu, numa curva sinuosa dos pinhais de Baltar.

A pátria da cidadania

É preciso evitar que o Partido Socialista siga o exemplo dos partidos da direita relativamente ao período anterior. Eu acho fundamental que haja, na estabilização da vida democrática, respeito pelos adversários. Porque eu penso que um dos erros que nós cometemos no passado foi justamente haver uma oposição que deixou de ser uma oposição política para ser uma oposição pessoal, muitas vezes com ataques de carácter, porque isso retira condições de governabilidade. Eu acho muito importante que o actual Governo, Primeiro-Ministro e os seus Ministros, sejam respeitados pela oposição e que não se entre por ataques desse tipo. Eu acho que foi um exemplo mau no passado, que era bom evitar, e espero bem que o Partido Socialista mostre essa responsabilidade de, não digo, obviamente, de colaborar com o Governo – pode fazer oposição política, e é natural que o faça, e fatalmente tem que o fazer, e é bom que o faça – mas não esquecer que quem governa é o Governo, que tem de ter condições de governabilidade, e que se abstenha de uma oposição caótica, descoordenada, nomeadamente no plano da descredibilização da própria política. Nós estamos a pagar um preço caro, porque hoje bem vemos que os portugueses têm pouca fé nos políticos, houve aqui uma descredibilização geral da classe política, e penso que é muito importante que os políticos tenham credibilidade, e tenham autoridade, e possam governar, porque sem isso não podemos sair da situação em que estamos.

Daniel Proença de Carvalho

*

Daniel Proença de Carvalho é de direita. É verdadeiramente de direita, por isso é alguém cuja intervenção pública promove a decência como condição sine qua non do bem comum e da realização plena da liberdade cívica. Alguém verdadeiramente de esquerda fará exactamente o mesmo, vote em que partido votar e defenda que tipo de regime defender. Porque a única política de verdade que deve ser admitida numa democracia é esta: quem usa o moralismo para atacar governantes e opositores está a imitar a essência das tiranias – devendo nós correr para as muralhas da cidade e defendê-la implacavelmente contra tamanha perversão.

A dimensão, nunca antes vista em Portugal, dos assassinatos de carácter a que Sócrates foi sujeito, e que prosseguem, nasceu da conjugação de dois moralismos entranhados profundamente nos tecidos psicossociológicos ainda estruturantes da sociedade: o moralismo da esquerda sectária e fanática, onde o PS é um alvo mais desejado do que a direita e onde se cultiva um racismo ideológico que impede qualquer acordo com a alteridade; o moralismo da direita pançuda, a tal gente séria que se serve do rótulo “direita” para reunir interesses que não ultrapassam os apetites pecuniários dos envolvidos. Dada a decadência intelectual do PSD e do CDS, incapazes de apresentarem projectos políticos que vingassem – ou pelo menos se afirmassem – pelo seu mérito, restou a ambição furiosa que não conheceria limites. O sucesso, a mera continuidade, das ininterruptas golpadas muito deve ao que BE e PCP igualmente fizeram e deixaram fazer, nuns casos alistando-se nas campanhas de difamação e calúnia, noutros assistindo calados e risonhos à putrefacção da vida pública. Até que se chegou ao ódio, e o ódio invadiu o ambiente político e social de forma estratégica.

Proença de Carvalho, mais à frente no programa, nomeará o ódio com sentido asco e pesar. Um ódio que teve no Presidente da República o seu principal mentor. E que gerou casos de desvario patético, para sempre cobrindo essas personalidades de ridículo, como aconteceu com Pacheco Pereira, Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, Ferreira Leite, José Manuel Fernandes, Eduardo Cintra Torres, Henrique Neto, Manuel Maria Carrilho e tantos outros exemplos de psiquiatria política. Cairá o PS em igual degradação? O repto do Daniel, embora legítimo e oportuno enquanto balanço do passado, parece desfocado. Não se vê quem no PS pudesse seguir por essa via sem com isso comprometer o apoio da maioria da sua base eleitoral, o tal milhão e meio que sobreviveu a todas as atoardas. Para estes militantes e simpatizantes, a experiência de verem o nome do seu partido, dos governantes socialistas e de todos os funcionários administrativos ligados ao Estado em permanente fogaréu de suspeições na comunicação social – dominada na sua quase totalidade pelos conspiradores – foi tanto um teste radical à sua resistência afectiva como à confiança na inteligência própria. Para estes cidadãos, só pode haver tolerância zero na eventualidade de semelhantes condutas por parte de dirigentes e representantes do PS.

O que nos leva para uma constatação terrível e esperançosa. Terrível, porque ilumina uma esfera de representação política onde 3/4 dos deputados são afectos a partidos que actualmente, de uma forma ou de outra, não cultivam a decência como valor fundante do regime democrático. Esperançosa, porque a maior parte dos portugueses, incluindo muitos que nunca votaram e muitos que deixaram de votar, encontrarão no ideal da decência a pátria da cidadania.

Good food for good thought

4. Use failure as motivation.

Things aren’t always going to go your way, no matter how well you and your teams properly align with your goals. Sometimes we need a good kick to get us going. Sometimes we need the pain of failure to reset, revise, and reassess. Are you taking risks? Are you failing? If so, good going.

Winston Churchill failed grandly more than once, and was famously cast to the political “wilderness” and then came roaring back to lead the British resistance. Steve Jobs was fired from the company he founded but through persistence ultimately came back to save it from extinction. Hillary Clinton failed to win the presidency but then became a powerful and respected Secretary of State. Each of them, in their own way, failed, learned from their mistakes, and most importantly, persisted in the face of failure. Phoenix rising is the way of the world today and we are in the midst of its widespread occurrence.

5 Ways To Discover And Develop Your Unique Strengths

Vinte Linhas 717

Símbolos maçónicos presentes na capa da primeira revista brasileira

Agora que tanto se fala em Maçonaria e símbolos maçónicos, virá a propósito lembrar a revista «As variedades ou Ensaios de Literatura» que foi publicada na Baía (Brasil) em 1812 e 1814 nas oficinas de Manuel António da Silva Serva.

A revista integrava os seguintes materiais: «reflexões, algumas novelas, extractos de viagens, resumo da história antiga, pedaços de autores clássicos quer em prosa quer em verso, anedotas curiosas – tudo, em uma palavra, que pode compreender-se na expressão geral de Literatura». Além de Manuel António da Silva Serva (chegou de Portugal em 1797 e fez da sua tipografia a primeira escola de artes gráficas da Baía) era redactor desta revista pioneira, outro português – Diogo Soares da Silva Bivar.

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Impressionar com pastéis de nata, brilhar na EDP, seduzir na Águas de Portugal

Seven Factors Reveal Why Women Don’t Run for Office
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Your Bullying Boss May Be Slowly Killing You
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Heart Attack Risk Rises after Loss of Loved One
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Dark chocolate and red wine are heart-healthy foods of love, dietitians say
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Newly Discovered Hormone Boosts Effects of Exercise, Could Help Fend Off Diabetes
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Mindfulness Key to Losing Weight While Eating Out
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The Advantages of the Middle-Aged Brain
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Men Spend The Big Bucks When Women Are Scarce
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Couples’ Friendships Make for Happier Marriages, Relationships
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Infants Possess Intermingled Senses
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You Say You Don’t Care About Dating A Hottie?

Leonel Moura – Arte Robótica, 2004

Os robôs pintores produzem autonomamente pinturas e desenhos baseados na aleatoriedade e na stigmergia (comunicação indirecta). Cada robô possui uma ou mais canetas com as quais responde à sua própria interpretação sensorial do ambiente. No início (com a tela ou papel em branco) a tinta é distribuída lenta e aleatoriamente. Mas a partir do momento em que se produzem pequenas manchas de cor, o factor aleatório gradualmente vai desaparecendo, e os robôs tendem a concentrar-se nas áreas coloridas criando assim uma composição formal. Então do aleatório emerge o estruturado. Para a ciência estes robôs constituem, em espaço e tempo real, uma demonstração das teorias do caos e da complexidade. Para a arte trata-se de uma verdadeira revolução estética, não só pelo declínio da centralidade do humano, dando lugar a uma arte humana na origem mas não-humana no processo, como pelo facto de sermos confrontados com uma forma de vida artificial capaz de produzir a sua própria expressão pictórica.

Janeiro e Fevereiro no Robotarium / LxFactory, Rua Rodrigues Faria, 103, H02 1300-501 Lisboa, T: +351 213625286

Talvez

Talvez o facto mais extraordinário a respeito do Governo, e da política de terra queimada que levou o PSD à conquista do poder contra os melhores interesses de Portugal, seja constatar a negação de tantos acerca desta evidência ofuscante: Passos e Relvas são a chave interpretativa um do outro.

Vinte Linhas 716

Viola Delta 48 – Edições Mic – poemas sobre Fernando Pessoa e outros textos

Este recente volume da colecção Viola Delta que é publicada sem interrupção desde 1977, integra 15 autores e tem por tema geral o poeta Fernando Pessoa. Abel Sabaoth refere-o num prosopoema: «O senhor Pessoa de Campo de Ourique, conquistador e bicho derrotado em milhentos quartos de bacio e lavatório, passou a vida a fugir das montanhas de terra e cardos, o seu único pico foi o Chiado onde as nuvens eram tecidas de borras de café».

Em paralelo, o volume faz homenagem ao poeta Mário Machado Fraião (1952-2010) que, por coincidência, viveu na Rua Fernando Pessoa em São João do Estoril. Estreou-se em 1980 com «Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer», publicou diversos livros de poemas e de crónicas, está representado nas antologias «Nove rumores do Mar (Eduardo Bettencourt Pinto) e «On a leaf of blue» (Dinis Borges) além de ter participado em 15 volumes colectivos das Edições Mic.

Homem bom de vida breve, 58 anos apenas vividos entre a Horta e Cascais, onde «os barcos levam nomes de mulheres» como no título de um dos seus livros, fica um excerto de um poema de Mário Machado Fraião: «Foi uma estrada longa / já nos limites do coração. / O que eu recordo era aquela pastelaria com cheiro bom / e os seus quadros / – um chapéu sobre o mar. / O resto era o cansaço dos dias / e os rostos passavam anónimos / dentro dos autocarros.»

Assim que tivermos um novo Governo, sobem-nos logo o rating, garante quem sabe disto

Carlos Moedas diz, em declarações à Lusa, que os mercados «olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia», porque «há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português».

«Assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal», assegura.

«Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o rating, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses, ainda não se sabe quando haverá um novo Governo», acrescentou.

Fonte

Um livro por semana 272

«Rio sem margem» de Zetho Cunha Gonçalves

Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) viveu a infância e a adolescência no Cutato (Kuando-Kubango) estudou no Huambo e em Santarém, tendo-se estreado em livro com «Exercício de Escrita» em 1979. Poeta, tradutor, autor da área infanto-juvenil, organizador de antologias e edições especiais (Fernando Pessoa, Mário Cesariny, António José Forte, Natália Correia), Zetho Cunha Gonçalves regressa neste livro à sua Angola a que chama «pátria inaugural da Poesia».

Partindo da poesia de tradição oral de Angola, Moçambique, Etiópia e México, o autor que dedica o livro a Óscar Ribas e Ruy Duarte de Carvalho, desenha uma gramática do Mundo nestes 27 poemas. Vejamos a geografia num poema Cabinda: «Tem uma mulher três filhos:/dois com o juízo perfeito, /o terceiro é demente/ – o Céu, a Terra / e o Mar». A vida e a morte surgem num poema Kwanyama: «Figueira-brava. / De um lado, /os ramos / carregados de frutos maduros. / Do outro /jovens folhas despontando. / Assim os homens:/ – uns a morrer, / outros a nascer.» O título do livro nasce de um poema Umbundu: «Aprende a andar /pequena gazela /aprende a andar: / -um dia, / encontrarás / rio sem margem!…» A busca de Deus na tradição Umbundu («Deus está tranquilo. /Deus é como o vento. / Deus é feiticeiro.») liga-se ao olhar sobre a morte da tradição Cabinda: «Uma criança / morreu / – é um morto. / Um velho, rico e poderoso, / morreu / – é um morto».

Esta poesia pode ser vista por muitos como primitiva mas para o autor é a «mais moderna, a mais viva e imperecível ou seja: a derradeira guardiã da memória da Humanidade».

(Editora: NÓSSOMOS, Capa: Gravura rupestre do Kaningiri – Angola)

Oposição precisa-se (em que número é que já vai esta rubrica?)

Pelo rumo que as coisas estão a tomar, o que está o PS à espera para se deixar de paninhos quentes em relação a Passos Coelho? (Ai este erro da escolha do Seguro vai-lhes sair caro). O homem, como político, é e sempre foi um aldrabão. Desde as técnicas de desgaste aplicadas na discussão do orçamento para 2011 e a cena do pedido de desculpas aos portugueses pela excessiva austeridade, passando pela reunião com Sócrates que declarou convictamente não ter existido até ser desmascarado sem que nem um traço se alterasse na sua expressão facial, pela campanha eleitoral despudoradamente enganadora, pela invenção de um desvio colossal a todos os títulos negado pelo INE, pela proteção e cobertura fraudulentas dadas a Alberto João até à sua eleição em Outubro, até à quantidade exata de nomeações partidárias e às respetivas justificações inverosímeis, o homem é uma fraude. Um barítono sinistro.

Compreende-se muito mal que haja gente com responsabilidades fora dos partidos do governo que ainda lhe dê crédito. Alguns exemplos lamentáveis:
– Mário Soares continua a dizer que o acha um cidadão com qualidades e bem intencionado. (Dada a diferença de idades, tipo um rapazinho asseado)
– Pedro Guerreiro, ontem na SICN, excluía a possibilidade de o homem ser sonso, considerando-o apenas um ingénuo. Eu, que acho que Pedro Guerreiro não é sonso, admiro-me que seja ingénuo.
– O vice-presidente da bancada parlamentar do PS, José Junqueiro, vem hoje afirmar (a propósito do número de nomeações partidárias) que “o primeiro-ministro está mal informado” (mal informado? O sócio de Relvas?). Que brandura! Mais um que aderiu à oposição “elegante” de Seguro.
– Zorrinho, que sempre vi como pessoa cheia de iniciativa, desde que se encostou a Seguro, parece um menino de sacristia. Os seus pruridos em fazer escarcéu perante os piores atropelos deste governo só para não amedrontar sabe-se lá quem são penosos.

Em surpreendente contraste, ainda ontem, Lobo Xavier, um seu acérrimo apoiante, mostrou-se o mais furioso dos três esgrimistas da Quadratura a propósito das nomeações para a EDP e a AdP.

É triste, toda a gente o diz, a democracia exige, é preciso oposição, mas assim o PS não vai a lado nenhum. Assistir impavidamente em nome do respeito pela alternância democrática à saída da toca de toda a rataria salazarenta, que já nem se ensaia para proferir as maiores barbaridades, e nada dizer (salvo honrosas exceções, mas a título pessoal – Assis, Silva Pereira, João Galamba, Isabel Moreira, Pedro Nuno e alguns mais, e felizmente a blogosfera de esquerda) com medo de uma troika que já não tem nada a ver com o que se está a passar não é postura que se aceite do maior partido da oposição. Sabemos que governar na atual conjuntura não é fácil, mas ninguém disse que a política era fácil. Há que ter coragem. Seguro não tem, não quer ter e deve ser corrido. Portugal está a regredir e este primeiro-ministro é apenas a voz que distrai, ou encanta, enquanto a vampiragem toma conta da cidade.

Made in PSD

Numa conferência que se destinava a promover os produtos nacionais, o primeiro-ministro aproveitou para falar de um produto que tem tido muita saída e que conhece particularmente bem: os militantes do PSD. E fez muito bem em revelar a sua irritação perante as acusações de que tem sido alvo. Que culpa tem o PM que a fama deste produto tenha galgado as fronteiras e seja requisitado por tudo o que é accionista estrangeiro? É, obviamente, um produto que se vende a si próprio, sem necessidade de promoções, muito menos por parte do Governo. Quais renováveis qual quê, os chineses compraram a EDP porque viram nesse negócio uma oportunidade imperdível de realizarem o sonho de trabalhar com esses ases da gestão. Só não percebo por que razão os membros do Governo preferem andar com a bandeirinha portuguesa na lapela, sujeitos a serem confundidos com algum pastel daqueles que ninguém conhece lá fora, e não andam com o símbolo do partido, esse sim uma marca de qualidade inconfundível.

Procriação Medicamente Assistida Resistente

No próximo dia 19 serão discutidos vários projetos de lei que alteram, pela segunda vez, a lei nº 32/2006, de 26 de Junho. A história de cada projeto, de cada filosofia por trás de cada projeto, é longa ou, talvez, muito curta, porque sempre a mesma.

No PS, inicialmente, havia um conjunto de três projetos: o do PS; o da JS; e o meu. Foi possível, pela proximidade de pontos de vista e pela possibilidade de cedência mútua, trabalhando com seriedade e sob a capa de princípios comuns, a fusão dos dois últimos projetos. Temos assim, agora, um do PS e outro elaborado pelo Pedro Delgado Alves e por mim, com mais alguns signatários (desapareceu assim um projeto designado “JS”). Durante o processo de elaboração deste projeto de lei foi impossível não viver cada preceito sem a intensidade emocional de quem, como muitos, pura e simplesmente intui que certas questões não deviam gerar discussão.

Se a Lei n.º 32/2006, de 26 de Junho, aprovada na sequência de uma iniciativa legislativa promovida pelo Partido Socialista, representou um passo em frente determinante no domínio da procriação medicamente assistida em Portugal, custa entender que, cinco anos volvidos, num momento de revisitação da mesma, não salte aos olhos do comum dos mortais que falta cumprir a igualdade, a não discriminação, o direito ao livre desenvolvimento da personalidade, o direito a constituir família, o direito já de quarta geração à procriação e, enfim, um elementar princípio de justiça. Como é possível que quem não insista numa patente privativa de família “pai-mãe-filho”, se atreva a excluir da PMA as mulheres solteiras – “sós”, nos termos da lei”? Como é possível que quem reconheça que o arquétipo de família “pai-mãe-filho” não corresponde ao universo diversificado de realidades familiares já existentes na sociedade exclua a extensão da parentalidade à mulher que viva em união de facto ou esteja casada com a mulher que tem uma criança? E se um dia a mãe biológica morre? Como é que se atrevem a negar um vínculo jurídico à mãe sobrevivente?

Atrevem-se a isto tudo, em 2011, atrevem-se a olhar, a constatar e a assinar por baixo um sistema jurídico bipolar que dá, e bem, autonomia à mulher para decidir uma IVG até às dez semanas, mas que a obriga a “pertencer” a um homem” para procriar. Aqui, neste aspeto, está a insanidade: palmas a uma lei sexista e homofóbica. Não há extensão de beneficiários porque as mulheres têm de ser propriedade de um homem e porque se entende que as lésbicas, “por natureza” não procriam. Falam em egoísmo e em “natureza”. Ter um filho é “egoísmo”. Eles lá sabem. Eu, falo por mim, não pedi para nascer. Quem recorre à PMA tem um legítimo projeto de felicidade para si e para a criança que vier a nascer. Quanto a obedecer a uma “natureza” que não acolhe lésbicas e solteiras hétero, é melhor revogar a PMA para casais de sexo diferente que sejam inférteis. E de caminho convém revogar a adoção singular. É o argumento mais conhecido dos piores ditadores da história.

Estou cansada de ver cerimónias que aqui e ali evocam filosofias que mataram milhões de pessoas. Convém lembrar que é o caso do sexismo e da homofobia: mataram, matam e continuam a infligir sofrimentos indizíveis. Como é possível demorar mais do que 5 minutos a espatifar qualquer preceito legal que exprima qualquer tipo de conivência com uma história passada e presente de horror?