Vinte Linhas 718

Leonardo Coimbra – as palavras e o mundo

Em momentos de confusão como os actuais, gosto de ler textos fortes, palavras com âncoras no meio da tempestade. Leonardo Coimbra (1883-1936) foi o fundador da Universidade Popular depois de ter sido anarquista e foi por duas vezes ministro da Instrução em 1917 e 1923. Criou a Faculdade de Letras do Porto e as Escolas Primárias Superiores e escreveu vários livros dos quais destacamos «A alegria, a dor e a graça». Segundo Sant´Anna Dionísio «uma das ideias nucleares do seu pensamento é a de que toda a existência é social». Vi morrer António José Saraiva na Associação Portuguesa de Escritores depois de se ter emocionado a falar de seu pai e de Leonardo Coimbra, visita de casa. José Hermano Saraiva confirmou-me na circunstância: «Falou no pai e em Leonardo Coimbra, foi isso, foi a comoção».

Do livro acima referido Leonardo Coimbra vale a pena citar um excerto: «O homem carece de palavras que, do Universo, respondam às fraquezas da sua vida, de amistosas mãos que o levantem e amparem, de alguém que do invisível centro da Vida, seja presente ao esforço do trabalho quotidiano. É-lhe preciso um amor claramente significado, uma transfusão de vida que dê à sua existência o apoio de outras existências. Atingiu a palavra e a sua solidão será maior que nunca, se essa palavra morre sem eco, de encontro à cerração dos outros seres. E como é difícil que a palavra substância, a palavra elemento cósmico, penetre e viva na intimidade hostil das outras criaturas! (…) Há tanta gente que, para conhecer a vida e entender os homens, compra um dicionário!»

Conclusão: vale a pena ler de novo Leonardo Coimbra, um homem que escreveu tão velozmente como morreu, numa curva sinuosa dos pinhais de Baltar.

11 thoughts on “Vinte Linhas 718”

  1. tanto ranço para te gabares das tuas intimidades com a família saraiva. nem percebo para que perdes tanto tempo com isso, o professor marcelo mostra só as capas e dá a entender que comeu a gaja no funeral do marido.

  2. (fechando um capítulo de Beckett, que acompanhou divinamente um Ermelinda Freitas, uma monocasta Syrah com lágrima robusta)

    Meu caro José do Carmo, não sendo de bom tom discordar do falecido, a verdade é que não posso deixar passar em claro essa fraca e distorcida ideia de homem regalado que perpassa das palavras que escreveu e que em meu entender, bem entendido, se aplicariam na perfeição à mulher. Compreenderá o meu caro que a mulher, essa sim, carece de palavras e, principalmente, de amistosas mãos que a amparem ou o tal amor claramente significado. Ao homem, meu caro José Francisco, basta-lhe menos, infinitamente menos, coloquem-lhe ao alcance um queijo de Azeitão, em sendo tempo dele, um pão alentejano e um cristal onde tenha sido vertido um néctar do Dão e está a coisa feita no que respeita à base da pirâmide de Maslow. Sofistiquemos e coloquemos diante do homem umas poucas palavras de Torga ou Eça e a possibilidade de fruir da companhia de moça roliça e tem o meu caro o homem entendido na sua plenitude.

    (pedindo conselho ao escanção sobre o que melhor acompanhará o naco de barrosã que tenho no meu horizonte próximo, embora intimamanente ambos saibamos que a escolha há-de ser um Esporão Private Selection Garrafeira 2003)

  3. Porra, Lendário Fábio!
    Ainda dizem que há crise em algumas das 3 gargantas!
    Quando ao vinho, porque não um Doiro, leve, jovem, aromático, redondo, d’aquem ou d’além rio ?
    Jnascimento
    PS: Marcelo, criatura anónima ? Marcelo é só laranjada, carrossel de feira, e comeu nada !
    Jn

  4. ó Ibanildo, atingiste a plenitude de um bencido da bida, seu sortudo. Descansa em paz e que o esporão nunca te falte.

  5. Meu Caro Joaquim – estranha maneira de pronunciar os «esses». Podia ser «possa»! Quanto ao lendário concorda comigo no essencial – leiamos, pois, grandes autores como Leonardo Coimbra.

  6. oh cimento! o teu amiguinho xico é tão corista com’ó marcelo, só que um factura e o outro rói-se de inveja, sim o loiro, leve, jovem, aromático e redondo de pensamento. por mim ias a enologo franciscano da adega aspirinas.

  7. Oh jcf, segundo entendi deste naco de frase: “um homem que escreveu tão velozmente como morreu, numa curva sinuosa dos pinhais de Baltar.” dá-me a ideia que o fulano teve um acidente.
    Depois digam lá se eu não sou mais esperto que o Álvaro.
    Ora bem, segundo as estatísticas, há em Portugal milhares de acidentes por ano e ninguém os vem revelar aqui.
    Se o jcf pode vir aqui divulgar que um sujeito que estima teve um acidente também eu posso vir contar o acidente que a minha prima sofreu.
    Pois vejam bem a coitadinha: passou-lhe um chauffeur de táxi por cima e ela ficou grávida. Tadinha!

  8. Leonardo Coimbra começou anarquista, foi republicano, passou gradualmente a monárquico e membro da Cruzada Nun’Álvares, acabando próximo do fascismo. Converteu-se ao catolicismo, mas Deus misericordioso matou-o uma semana depois.

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